Volume 3

Capítulo 5: Adeus ao passado

Um sonho lúcido... Tenho quase certeza de que é o tipo de sonho em que você tem consciência de que está sonhando. Naquele momento, eu estava tendo um sonho assim. Minha linha de visão parecia mais baixa do que o habitual, e meus antigos amigos estavam ao meu redor. Soube imediatamente que se tratava de um sonho sobre a minha época na escola primária. 

Meu corpo não se movia como eu queria. Para ser preciso, não se movia de acordo com as minhas intenções atuais, o que significava que minhas ações no sonho baseavam-se nas intenções do meu "eu" da escola primária. Enquanto estava com meus amigos, virei-me para falar com uma garota em particular. Como era um sonho, não conseguia ver o rosto dela com muita clareza, mas era uma garota que eu conhecia. 

Sorri para ela enquanto conversávamos. Ela retribuiu o sorriso, e então… Foi nesse momento que acordei. 

Sentei-me na cama, sozinho. Não havia mais ninguém em casa além de mim, então, mesmo que falasse sozinho, ninguém me ouviria. Por isso, murmurei em voz baixa, como se tentasse me tranquilizar. 

— Agora eu me lembro. 

Não pude deixar de me perguntar: por que agora? Era a pior maneira de acordar. Soltei um suspiro profundo, como se tentasse expulsar os sentimentos pesados e abatidos que se amontoavam dentro de mim. 

Não tinha certeza se era porque havia falado com o Baron-san na noite anterior ou porque a Nanami-san não tinha entrado em contato comigo, mas, em todo caso, eu me lembrei. Por que eu não era capaz de chamar a Nanami-san pelo nome. Por que escolhi ficar sozinho. Era disso que eu me lembrava, o que acabei tendo que recordar. 

— Agora que eu sei, é um motivo tão bobo — murmurei para mim mesmo. E era verdade. Pensando nisso agora, eu poderia jurar que era um motivo bobo, mas para o meu "eu" de outrora, tinha sido um choque. Mesmo que alguém fizesse o mesmo comigo agora, provavelmente ainda me chocaria. 

Senti uma mistura de emoções, perguntando-me por que me lembrava agora, de repente, e sentindo-me aliviado por finalmente conseguir recordar. As coisas estavam complicadas. 

Olhei para o celular e não vi nenhuma mensagem da Nanami-san. Ontem à noite, tentei ligar para ela, preocupado, mas ela não atendeu. Perguntei-me se algo teria acontecido com ela. Uma premonição terrível tomou conta da minha cabeça: de que talvez, por não tê-la chamado pelo nome, ela tivesse acabado me odiando. Eu até a tinha deixado triste. 

Enquanto estava sentado sozinho com meus pensamentos, apareceu uma mensagem no meu telefone. Quando a li, dei um pulo da cama. 

NANAMI: Estou indo para a escola. Até logo. 

Era só o que dizia a mensagem. Apenas ver aquela frase pareceu apagar todos os sentimentos positivos que eu tive nos últimos dias. No entanto, não parecia que ela estava brava ou que não gostasse de mim, já que ela prosseguiu com mensagens sobre o conteúdo do bento daquele dia. 

Pergunto-me se surgiu algo. Embora ontem ela não tenha me dito nada a respeito. Balancei a cabeça, tentando mudar o ritmo. 

Como não ia mais me encontrar com a Nanami-san, acabei tendo um pouco mais de tempo para mim mesmo para pensar. O problema agora, é claro, era como resolver a questão de chamar a Nanami-san pelo nome. Agora eu lembrava qual tinha sido a causa da minha aversão a chamar as pessoas apenas pelo nome. Também era o principal fator que me transformava em quem eu era hoje. Não tinha por que me arrepender disso, mas, é claro, eu não teria nenhum problema se simplesmente pudesse me livrar dessa hesitação. Afinal de contas, era um problema pessoal meu. Mas como resolvê-lo... Por mais voltas que eu desse, não encontrava nenhuma resposta. 

Para cortar a espiral negativa em que eu iria cair se ficasse sozinho, dei um tapa em ambas as bochechas para me encorajar. Um estalo forte ecoou pelo quarto. Agora eu me sentia completamente acordado, com o rosto dolorido pela pancada. 

Eu tinha que deixar de ser tão negativo a respeito disso. Apesar de tudo, eu tinha que ver a Nanami-san. Do contrário, nada mudaria. Tinha que me preparar para ir à escola. Não dei atenção às minhas bochechas doloridas enquanto me preparava para sair pela porta. Relembrando como era encontrar com a Nanami-san quando começamos a namorar, dirigi-me à escola para vê-la. 

 ♢♢♢ 

Parece um pouco pomposo da minha parte dizer isto, mas fazia muito tempo desde a última vez que caminhei sozinha até a escola. Mesmo quando aqueles boatos estranhos circulavam, a Nanami-san esteve me esperando na minha chegada. Bem, suponho que a Otofuke-san e a Kamoenai-san também estivessem lá, mas, ainda assim, a Nanami-san costumava estar ao meu lado. 

Até o mês passado, ir sozinha para a escola não tinha me causado nenhum problema, mas agora sentia uma sensação de solidão enquanto me dirigia à minha classe. Quando cheguei, no entanto, a Nanami-san também não estava lá. Sem saber onde ela estava, procurei por toda parte, mas não fui capaz de encontrá-la. Onde ela teria se metido? 

Supondo que ela acabaria voltando para a sala, sentei-me no meu lugar, um pouco sem fôlego. Estava sentada na aula sentindo-me um tanto deprimida quando, finalmente, as três chegaram. Nanami-san, Otofuke-san e Kamoenai-san, as três de sempre, estavam juntas como de costume. 

— Bom dia, Yoshin — disse Nanami-san ao me ver. 

— Eh, sim. Bom dia, Nanami-san. 

Retribui o cumprimento desajeitado da Nanami-san com uma saudação igualmente rebuscada. Tinha certeza de que não interagíamos assim desde a primeira conversa que tivemos. Era incômodo e me deixava nervoso. 

Otofuke-san e Kamoenai-san olhavam de um lado para o outro entre a Nanami-san e eu, preocupadas, o que me fez perguntar o quanto a Nanami-san tinha contado às duas. 

Outros garotos da nossa classe também nos olhavam fixamente. Seus olhares penetrantes me causaram uma sensação estranha. Eu já tinha me sentido bem quando as pessoas nos olhavam por causa dos boatos que corriam, mas estes olhares não eram necessariamente críticos. Era quase como se nossos colegas estivessem olhando para algo frágil e incerto. 

— Hum, o bento de hoje tem croquetes, como eu já te disse. Pode ficar ansioso — disse Nanami-san. 

— Sim. Croquetes parece bom — respondi. — Te vejo mais tarde, então. 

Após uma conversa muito mais breve do que o habitual, Nanami-san voltou para o seu assento. Olhei para a Otofuke-san e para a Kamoenai-san como quem busca ajuda, mas quando seus olhos se encontraram com os meus, elas apenas balançaram a cabeça em silêncio. 

Em momentos como este, lamentei o fato de não ter trocado informações de contato com nenhuma garota além da Nanami-san. Quer dizer, eu não deveria lamentar, mas não podia perguntar exatamente o que elas tinham ouvido, deixando de lado se realmente me contariam ou não. 

Aquele dia não consegui falar com a Nanami até depois da aula. Embora tenhamos almoçado juntos, ela se sentou um pouco longe de mim, em vez de ficarmos praticamente um em cima do outro como de costume. Mantivemos uma conversa normal, mas de algum modo senti uma distância entre nós. 

Entre as aulas também, enquanto normalmente era comum nós dois conversarmos, hoje ela só falou com Otofuke-san e Kamoenai-san. Nem sequer tentou falar comigo. Se eu olhasse para ela durante a aula, Nanami-san desviava o olhar toda vez que percebia que eu a observava. Também havia momentos opostos: quando eu me virava em sua direção porque sentia que ela olhava para mim, eu a pegava me encarando fixamente. No entanto, quando nossos olhares se cruzavam, ela voltava a desviar a vista. 

Embora tivéssemos desfrutado da companhia mútua durante nossa viagem até o dia anterior, tudo isso tinha desaparecido de repente. Senti um choque inegável ao ver Nanami-san se comportar como se nem me conhecesse, mas talvez tudo fosse culpa minha: afinal de contas, fui eu quem a entristeceu primeiro. Tinha que aceitar meu castigo. Embora entendesse isso na minha cabeça, a situação continuava me abalando. 

O que eu podia fazer? Estávamos brigando? Não, isso não parecia certo.

Vendo que ela tinha traçado uma linha clara entre ela e eu, começava a pensar que uma briga de verdade teria sido mais fácil. Além disso, se fosse uma briga, a única coisa que teríamos que fazer seria nos reconciliarmos. Como isso não era uma briga, poderíamos nos reconciliar algum dia? 

Senti que meu peito se oprimia ao me perguntar isso. Só de pensar, quase tive vontade de chorar. Eu seria capaz de viver se as coisas continuassem assim? Ei, espera. Tenho que parar de pensar nisso. Assim que comecei a ter pensamentos negativos, eles continuaram aparecendo, como uma reação em cadeia. Nossos colegas pareciam inquietos ao ver a Nanami-san e a mim daquele jeito. Sentia que estávamos causando todo tipo de problemas a eles. Já tínhamos chamado muita atenção desde aquela manhã. 

Esperava que não houvesse mais rumores estranhos sobre nós. No entanto, talvez por já termos suportado aquela onda anterior de boatos, tivemos a sorte de seguir nosso dia sem murmúrios. Aquele dia me pareceu o mais longo do mundo. Pareceu durar uma eternidade... Ok, isso é um pouco melodramático, mas pareceu durar o dobro do habitual. 

Apesar de tudo, finalmente era a hora de sair da aula, a hora que eu estive esperando. Tinha quase certeza de que poderia falar com a Nanami agora que todas as nossas aulas haviam terminado. Mesmo que não pudéssemos falar na classe, eu iria à casa dela depois, então poderíamos conversar lá. Não era momento de se deprimir. Tinha que falar com a Nanami a todo custo. 

Não devo ficar lembrando que as coisas foram estranhas na escola, embora eu tenha tido muitas oportunidades de falar com ela lá. Agora mesmo, tenho que me forçar a ser positivo. Enquanto me preparava, ouvi alguém me chamando. 

— Ei, Misumai, tem um minuto? 

Quando me virei, vi a Otofuke-san e a Kamoenai-san ali paradas. A Nanami-san... não estava. Ao ver minha expressão cabisbaixa, as duas garotas sorriram ironicamente. Pensando que eu tinha sido rude, desculpei-me com elas em voz baixa. 

— Otofuke-san, Kamoenai-san, sinto muito. Tenho que ir falar com a Nanami-san. 

— Já conseguimos a permissão da Nanami, então venha falar um pouco conosco. Ela disse que vai te esperar — respondeu Otofuke-san. 

Conseguiram a permissão da Nanami-san? Foi então que finalmente olhei para as duas. Otofuke-san parecia triste, enquanto Kamoenai-san exibia uma expressão séria, sem o seu habitual sorriso relaxado. Ao ver essas expressões tão raras em seus rostos, engoli em seco. 

— Sim, claro, com certeza. Pode ser que eu esteja mais abatido do que o normal, mas não se preocupem comigo — eu disse. 

As duas abandonaram momentaneamente as expressões sérias e mudaram para sorrisos irônicos, embora parecesse que iam cair no choro a qualquer momento. 

— Para começar, você nunca está tão deprimido — murmurou Otofuke-san. 

— Este aqui também está passando bem mal, hein? — Kamoenai-san acrescentou. Fosse o que fosse, decidi segui-las. 

O que queriam dizer com "este... também"? Sentia curiosidade, mas guardei as perguntas para mim enquanto continuava caminhando atrás delas em silêncio. Não estávamos em uma sala de aula, mas no patamar da escada que levava ao terraço. Não havia mais ninguém por perto, o que fazia o espaço parecer bastante solitário. No entanto, era o lugar perfeito para conversar sem que ninguém pudesse nos ouvir. 

Elas sempre conversam aqui em cima?, perguntei-me. Era um bom lugar para se esconder, um local secreto difícil de encontrar para os outros. 

No caminho até o patamar, todos mantivemos silêncio. Pareceu-me estranho que até Otofuke-san e Kamoenai-san parecessem tristes. Eu esperava que estivessem zangadas comigo por ter magoado a amiga delas, mas não parecia nem um pouco o caso. 

— Sinto muito por roubar seu tempo, mas a Nanami veio nos pedir ajuda — começou Otofuke-san. 

— O que ela disse? — perguntei hesitante. 

— Ela nos disse que tinha te machucado e que não se atrevia a te encarar como deveria. 

Que?  Ao ouvir algo tão inesperado, minha mente ficou completamente em branco. A Nanami-san me machucou? Do que elas estão falando? Não foi o contrário? 

Ao me ver nervoso, Otofuke-san e Kamoenai-san se olharam e voltaram a sorrir, sem saber o que fazer. 

— Parece que isso te atingiu como um raio caído do céu — disse Otofuke-san, dando de ombros levemente. 

— Misumai, você sabe o que está acontecendo? Por acaso a Nanami estava tirando conclusões precipitadas? — perguntou Kamoenai, que parecia muito mais séria do que eu julgara ser possível, considerando como ela se comportava normalmente. Assenti com a cabeça em resposta. 

— O quanto vocês ouviram? — perguntei. 

— Hum, ela só disse que, quando te pediu para chamá-la pelo nome, acabou te machucando. Ela também parecia meio confusa — disse Otofuke-san, estendendo as mãos de forma exagerada. Embora meus olhos tenham se fixado no movimento das mãos dela, escutei atentamente suas palavras, tentando pensar. 

Quando antes elas disseram "Esta aqui... também", queriam dizer que a Nanami também estava se sentindo mal, pensando que tinha me magoado de alguma forma? Como era possível? Senti como se tivesse ocorrido um terrível mal-entendido. 

Sendo assim, o comportamento dela fazia sentido. Ela não estava brava, apenas se sentia desconfortável comigo. Isso não era bom. Embora talvez pudesse resolver a situação conversando com as amigas dela, eu sabia que tinha que falar com a própria Nanami-san. 

— Ei, Misumai — disse Otofuke-san — eu realmente não entendo. Por que você não a chama como ela quer? Sei que isso é entre vocês dois, mas você parece o tipo de pessoa que faria isso sem problemas. Aconteceu alguma coisa? 

— Sim, você parece estranhamente firme a esse respeito — disse Kamoenai-san. — Eu achava que você faria isso facilmente. 

Embora não tenham conseguido dissipar o peso que havia no ambiente entre nós, as duas fizeram o possível para me perguntar alegremente o xis da questão. Mesmo assim, senti que elas estavam me dando crédito demais. 

— Parece mesmo que eu faria isso tão facilmente?, perguntei. 

— Sim. Normalmente você é tipo: "eu passaria pelo fogo e pela água pela Nanami!". 

— Parece que você estaria disposto a tudo. Por isso é tão estranho. 

Não sei se faziam de propósito, mas ambas pareciam estar fazendo um esforço conjunto para voltarem a ser como eram habitualmente. Em todo caso, senti-me incrivelmente grato pelo gesto. Tive que rir pelo fato de a avaliação delas sobre mim ser tão notavelmente alta quando se tratava de qualquer coisa relacionada à Nanami-san. Para ordenar todos os pensamentos na minha cabeça, decidi contar a elas o que havia descoberto sobre mim. 

Era um segredo que eu não tinha contado a ninguém, nem à Nanami, nem aos meus pais. Talvez não fosse de se estranhar, dado que eu acabara de lembrar naquela manhã. Hesitei se deveria contar à Otofuke e à Kamoenai antes de ter a oportunidade de falar com a Nanami, mas, dado que me custava dizer a ela, talvez fosse melhor dizer primeiro às duas. Eu tinha que praticar expor o que sentia, para poder articular melhor o que compartilharia com a Nanami-san. Isso era algo que eu podia fazer com as duas justamente porque nossa relação existia através da Nanami-san. 

— É uma forma um pouco indireta de explicar, mas começarei pelo princípio. A razão pela qual não consigo chamar a Nanami-san pelo nome não é porque sinto vergonha. É porque tenho medo. 

— Você tem medo? 

Enquanto as duas me olhavam com expressão de dúvida, comecei a explicar com calma, tentando ser o menos emotivo possível. Limitei-me a enumerar os fatos sem inserir nenhum tipo de sentimento. Fiz isso com a maior neutralidade possível, para que eu mesmo pudesse compreender a situação atual. 

— Começou com uma experiência bastante comum na infância. Quando eu estava no primário, havia uma garota de quem eu era bastante amigo. Brincávamos juntos e essas coisas e, quando me lembro, pode ser que eu até gostasse dela. 

Não posso contar esta parte para a Nanami-san. Para ser honesto, nem sabia se realmente gostava da garota, mas não precisava dizer que houve uma garota de quem gostei no passado, mesmo que fosse na escola primária. Não havia necessidade de a Nanami-san ficar sabendo disso, mesmo sendo uma garota cujo nome ou rosto eu sequer lembrava. 

— "Você teve uma quedinha, hein? Bem, foi na escola primária, então, mesmo que contasse para a Nanami, não acha que ela ficaria com ciúmes nem nada do tipo, certo?", perguntou Kamoenai-san. 

— Infelizmente, a história não vai por esse caminho — expliquei. — Bem, quando me tornei amigo dela, fiquei empolgado, talvez muito, e me achei demais. Chamei-a pelo nome, apenas pelo nome, como as outras crianças faziam. Senti que queria chamá-la da mesma forma que os outros meninos. 

Aí eu parei, lutando para continuar. Tinha sido capaz de dizer até ali, mas, a partir desse ponto, toda a minha boca pareceu pesada. Como se reagisse aos meus sentimentos, o ar ao meu redor começou a ficar pesado também. 

Ouvi as duas garotas engolirem em seco, esperando ouvir o que viria a seguir. 

— O que aconteceu depois? — perguntou Otofuke-san, quebrando o silêncio para me incentivar a continuar. 

Sorrindo, continuei com a minha história. Era a história da ferida profunda no meu coração, uma ferida boba, entediante e talvez comum demais. 

— Ela riu de mim. Disse para eu não me achar tanto só por chamá-la pelo nome. Zombou de mim na frente das outras crianças. Todos os outros a ouviram e riram. Estavam rindo de mim. Sei que não faziam por mal, mas estavam todos ao meu redor, rindo. 

Pode ser que tentar agir como se não me importasse me fizesse parecer mais patético. No entanto, quando terminei minha confissão, notei que as garotas respiraram fundo. 

— Isso não é... 

— uma coisa terrível de se fazer? 

Pensei que elas ririam de mim e diriam que era uma bobeira, mas não foi o que aconteceu. Ambas me escutaram do princípio ao fim com expressões de pena. 

O que eu tinha vivenciado era, provavelmente, a crueldade inocente das crianças pequenas, algo pelo qual qualquer um poderia passar. Tinha certeza de que não houve malícia. Ninguém poderia imaginar que eu me sentiria tão ferido quanto me senti. Era o resultado da minha própria fraqueza. Nem eu mesmo teria imaginado o impacto que algo tão pequeno poderia ter. 

Ao não querer lembrar, devo ter guardado isso no mais profundo do meu subconsciente, talvez de forma semelhante ao que a Nanami-san vivenciou. No entanto, comparado ao segredo dela, o meu foi mais um incidente frívolo. Não era o tipo de coisa para se comparar, em primeiro lugar. 

Enquanto as duas garotas continuavam me olhando com expressões de dor, forcei-me a sorrir e a continuar falando, para que soubessem que não era para tanto. 

— Depois disso, não voltei a deixar de usar honoríficos. Fosse o primeiro nome ou o sobrenome de alguém, desde que eu pudesse adicionar um honorífico, não havia problema. Isso não afetava minha vida diária. Na verdade, acho que as pessoas pensavam que eu era mais educado do que realmente era. 

— Mas a Nanami não é como eles — disse Otofuke-san. — Quero dizer, ela está te pedindo para parar com isso, então ela ficaria feliz. Ela nunca riria de você... Não, sinto muito. Isso não é algo que você deva ouvir de mim. 

— Embora seja verdade — continuou Kamoenai-san. — A Nanami vai ficar bem, mas eu compreendo que continue dando medo. 

Senti-me mal ao ouvir como as duas tentavam inventar coisas para dizer. Mas era verdade: a Nanami-san não era como as crianças de quem eu era amigo naquela época. 

— Desculpem por contar uma história tão estranha. Mas vocês têm razão. A Nanami-san ficaria feliz, tenho certeza. Eu sei disso na minha cabeça. Por isso é um problema meu. 

Ao ouvir minha resposta, Otofuke-san e Kamoenai-san guardaram silêncio. Otofuke-san, no entanto, considerou o que eu lhes tinha dito e inclinou a cabeça. 

— Mas, se você sabia de tudo isso, por que não disse à Nanami? Se ela soubesse, com certeza não teria te pressionado. 

Era uma pergunta perfeitamente razoável. Era verdade, e o fato de eu ter esquecido tinha complicado ainda mais as coisas. 

— Acontece que eu me lembrei disso hoje de manhã — respondi. 

— Esta manhã?! — gritaram as duas em uníssono. 

Sim, foi uma resposta bastante razoável, não foi? Admito, até eu me surpreendi com isso. Era uma lembrança boba e lamentável do meu passado. A única consolação era que as duas não estavam rindo de mim... Ou talvez fosse melhor se tivessem rido. 

— Por isso pensei que tinha sido eu quem tinha magoado a Nanami-san, mas suponho que ela pensou que foi ela quem me magoou, né? 

A Nanami-san tinha inclusive chorado naquele dia. Por isso pensei que a tinha ferido. Mas parecia que não era o caso. 

— Ela disse que, quando te pediu para chamá-la pelo nome, você parecia muito triste, então pensou que tinha te feito mal e se sentiu muito culpada. Disse que se sentia péssima pelo que tinha feito a você. Oh, mas não conte a ela que eu te disse isso! 

Kamoenai-san assentiu. — Sim, ela disse que nunca quis te deixar com aquela aparência. Vendo você agora, entendo o que ela tentava dizer. 

A julgar pela forma como falavam comigo, eu podia adivinhar o tipo de expressão que estava no meu rosto. Provavelmente eu estava com a mesma aparência da noite anterior. 

De repente, veio à mente o último comentário do Baron-san. A Nanami-san não tinha começado a chorar por minha culpa, mas por causa de mim. 

Quando levantei a vista, vi que as duas garotas faziam reverências para mim. 

— Desculpe, Misumai, por fazer você falar de algo doloroso — disse Otofuke-san. 

— Sim, sentimos muito. Sei que às vezes há coisas que não queremos compartilhar, e ainda por cima ouvimos isso antes da Nanami. 

Assustei-me e pedi que levantassem a cabeça, mas elas não cederam. Além disso, começaram a dizer que fariam todo o possível para ajudar, que fariam qualquer coisa para que a Nanami e eu voltássemos a ser como antes. 

Por que fariam tanto por nós?, perguntei-me. Enquanto eu estava ali parado, nervoso, as duas me explicaram o quanto amavam a Nanami-san e que fariam qualquer coisa por ela. Queriam ver a Nanami-san feliz comigo de novo. Levantaram ligeiramente a cabeça e riram, dizendo para eu não me preocupar, pois era pelo próprio bem delas também. 

Ao ver a determinação das duas amigas e testemunhar o amor delas pela Nanami-san, eu também me decidi. Agora estava decidido, sentindo que, naquele momento, poderia fazer qualquer coisa pela Nanami-san. 

— Você disse que ajudaria com qualquer coisa, certo? — perguntei. 

— Sim. Se for para evitar que a Nanami fique triste, estamos dispostas a fazer qualquer coisa — disse Otofuke-san. 

Ao ouvir essas palavras, fechei os olhos e respirei fundo. Para ser sincero, eu não era bom nessas coisas, mas em tempos desesperados era preciso tomar medidas desesperadas. Não importava o que fosse, eu tinha que fazer algo. 

Olhei diretamente para as duas e abri lentamente a boca. — Otofuke-san, você pode me bater? 

— Perdão?! — Otofuke-san gritou, como se não estivesse acompanhando o que eu dizia. Kamoenai-san ficou me encarando, completamente surpresa e de boca aberta. 

Como se não bastasse, ela ainda murmurou — Você é masoquista? 

Não, não era isso. Eu não tinha essa inclinação e, mesmo que tivesse, não pediria para a minha colega participar. 

Quando as duas se afastaram um passo de mim, limpei a garganta e tentei explicar minhas intenções. — Você faz artes marciais, não faz? — perguntei. — Talvez pudesse tentar me infundir algum espírito de luta, o suficiente para acabar com o meu passado. 

Claro, era uma abordagem antiquada. Se eu fosse forte, com certeza teria sido capaz de me recuperar da minha depressão sem pedir ajuda a ninguém e teria ido falar com a Nanami apesar de tudo. Mas eu não me sentia capaz de fazer isso. E, como esse era o caso, tive que aprender a confiar nos outros. Que alguém revitalizasse meu espírito fraco à força. 

— Você está falando sério? — Otofuke-san perguntou. 

Assenti lentamente como resposta. Depois ri, só um pouco. Não era um riso de resignação, nem fingido. Sorria, Yoshin, demonstre que você se decidiu a seguir em frente. 

— Quando você me diz que a Nanami-san está daquele jeito por minha causa, não posso ficar aqui abatido — eu disse. — Suponho que seja teimosia masculina, embora me surpreenda ter um pouco disso em mim. Sei que não está certo eu não conseguir superar isso sozinho, mas, mesmo que signifique conseguir que alguém me ajude, quero me despedir do meu passado. 

Otofuke-san e Kamoenai-san se olharam... e riram. Murmuraram brevemente — Quem disse que não é maneiro?  — e então riram com ainda mais vontade. 

— O que posso dizer? Acho que os garotos tendem a pensar igual, né? Misumai, você me lembra o meu irmão mais velho — disse Otofuke-san. 

— Seu irmão? — repeti. 

— Meu irmão também pratica artes marciais. Às vezes, antes de uma luta, ele fica com medo de enfrentar um rival difícil. Quando isso acontece, eu tento animá-lo. 

Em vez de fechar o punho, Otofuke-san estendeu a palma da mão e fez um gesto para mim. Depois, com a outra mão, apontou o dedo indicador e sinalizou para que eu me virasse de costas. 

Entendi. Acho que compreendo o que ela quer fazer. 

Assim que dei as costas, fechei os olhos e fiz um pedido simples: — Manda ver. 

— Muito bem! 

Uma voz tão cheia de autoconfiança que era inimaginável vindo de uma adolescente reverberou no ar. Sobrecarregado pela intensidade dela, cerrei os dentes. Ouvi o som de algo cortando o ar e, no instante seguinte, senti um choque percorrer meu corpo que não poderia ser descrito apenas como o impacto de um empurrão nas costas. Eu sabia que não era possível, mas quase me pareceu ouvir um estrondo logo após o impacto. 

— Agh! 

Voltei a cerrar os dentes e, por pouco, consegui não chorar, mas não pude evitar que um gemido escapasse. O lugar onde Otofuke-san tinha me batido parecia quente, como se estivesse pegando fogo. O formigamento e o entorpecimento pareciam se espalhar por todo o meu corpo. 

Muito bem! O espírito de luta entrou! 

— A Nanami está na sala. Provavelmente está te esperando, Misumai — disse Otofuke-san. 

— Boa sorte! — gritou Kamoenai-san. 

Ambas me acenaram com o polegar para cima e eu retribui o gesto. Comecei a correr como se alguém tivesse ateado fogo em mim. 

— Obrigado às duas! Estou indo! 

— Oh, espera um segundo... 

As duas garotas começaram a dizer algo, mas eu não as ouvi. Ter tanta gente me ajudando era definitivamente nada legal, mas naquele momento, mais do que tudo, eu tinha que chegar até a Nanami-san.

— Ei, Hatsumi, você acha que o Misumai percebeu que ainda tem outras pessoas na sala?  

— Deve ficar tudo bem.

Corri. Corri sem pensar nos olhares das pessoas ao meu redor. Fiquei sem fôlego imediatamente e senti um ardor na garganta. Ainda assim, continuei correndo. Doía até para respirar e meus pulmões imploravam por clemência.

Quando cheguei à porta da nossa classe, abri-a com toda a minha força. Ela deslizou suavemente e bateu contra a parede em alta velocidade, fazendo um baque surdo ecoar por toda a sala. 

Nanami-san, que estava sentada lá dentro, arregalou os olhos quando me viu. Vários fios de cabelo haviam caído sobre seu rosto. Talvez estivesse com a cabeça apoiada na mesa. Quando olhei de perto, percebi que uma de suas bochechas estava levemente vermelha. 

Senti que conseguia ver o rosto dela com clareza. A depressão que senti durante todo o dia havia desaparecido, enquanto a dor nas costas me fazia pensar com mais nitidez. 

Fui direto em direção à Nanami-san, tentando não perder o impulso que havia encontrado no meu caminho até aqui. 

— Yoshin? — Nanami-san levantou-se de seu assento. Embora a mesa tenha feito um barulho alto, notei que ela deu um passo para trás conforme eu me aproximava. — Yoshin, eu... Então, uh... 

Suas palavras vacilantes chegaram aos meus ouvidos, mas continuei avançando em sua direção sem respondê-las. Quando finalmente estive à frente dela, guardei silêncio. 

Nanami-san e eu tínhamos alturas bastante similares. Quando ambos estávamos de pé, ficávamos quase na altura dos olhos. Depois de olhá-la diretamente nos olhos, eu a abracei. 

— Eh? — exclamou ela. 

Não disse nada. Limitei-me a abraçá-la com força em silêncio, cuidando para não apertá-la o suficiente para machucá-la. 

A última vez que a tinha abraçado assim provavelmente havia sido naquela tarde, quando fui à casa dela pela primeira vez. Naquela ocasião, eu a abraçara e dissera palavras para consolá-la, mas hoje não lhe tinha dito nada. Eu já sabia o que queria dizer a ela primeiro. 

— Obrigado por esperar, Nanami. 

Sussurrei essas palavras de forma suave e terna em seu ouvido. Finalmente pude dizer a única coisa que não tinha conseguido dizer até agora. 

Como a tinha nos braços, não conseguia ver seu rosto, mas senti sua respiração. Senti como se a tivesse feito esperar por tanto tempo. É claro, eu sabia que não havia passado tanto tempo assim, mas era essa a sensação. 

Soltei os braços que a envolviam, olhei para ela e sorri. 

— Yoshin? — Nanami-san disse vacilante. 

Senti-me renovado, como se finalmente tivesse feito algum tipo de descoberta. Quem dera eu pudesse dizer que meu trauma não era para tanto, mas precisei da ajuda de muita gente para chegar até aqui. Sentia-me um pouco patético, mas não podia pensar nisso agora. 

Nanami-san olhou para mim com uma expressão inexpressiva e voltei a chamá-la pelo nome.  

— O que foi, Nanami? Tem algo no meu rosto? 

— Não, quero dizer... Hein? Você está bem? 

— Sinto muito, Nanami. Causei tantos mal-entendidos. 

Nesse exato momento, Nanami-san retribuiu o abraço, praticamente saltando em meus braços. Com uma voz suave e quase inaudível, pediu-me desculpas. Sua desculpa não pôde ser ouvida pelos outros na sala, porque... 

A sala de aula foi imediatamente preenchida pelos gritos de alegria dos colegas que haviam ficado para nos ver passar. 

Espera, o quê?! Por que ainda tem tanta gente aqui?! Droga, eu fiz isso na frente de todo esse pessoal?! 

Mesmo que eu entrasse em pânico, não poderia voltar atrás no que tinha feito. Nanami-san estava chorando em meus braços, então eu também não podia me separar dela. Deixei-me levar e retribui o abraço. Desta vez, as lágrimas dela não pareciam frias, mas sim lágrimas quentes de felicidade. 

As pessoas ao nosso redor olhavam para mim e para a Nanami-san e riam, mas seus rostos não se pareciam em nada com os rostos de riso que eu lembrava desta manhã. Pareciam, em vez disso, sorrir em sinal de felicitação. 

Ao ver as reações deles, murmurei: — Nossa. Eu não tinha percebido que fazer isso não seria tão ruim —. Mas até esse murmúrio foi abafado pelos gritos de alegria daqueles que nos cercavam. 

Acho que eu realmente estava pensando demais nas coisas. Senti que, naquele momento, o trauma que eu guardara dentro de mim desaparecia por completo. Fui salvo por tanta gente. 

Quando retribui o abraço de Nanami, ela envolveu minhas costas com seus braços e devolveu o abraço apertado. 

— Ai, Nanami! Será que você pode afrouxar um pouco o aperto? Minhas costas estão doendo. 

— Suas costas doem? Como assim dói? O que há de errado com você? 

— Oh, só me deram um pouco de energia à força, só isso. Honestamente, funcionou. Foi super efetivo. 

Na verdade, eu me pergunto se teria doído menos se a Otofuke-san tivesse me dado um soco. Nunca imaginei que levar um tapa com a palma aberta doesse tanto. 

De qualquer forma, graças à dor nas costas, eu me sentia como se tivesse alguém me empurrando e me encorajando por trás o tempo todo, e consegui chamar a Nanami-san pelo nome com tanta facilidade. 

— O que isso deveria significar? Me conte o que aconteceu mais tarde, está bem? 

— Vou te contar tudo: sobre as minhas costas e por que eu não conseguia te chamar pelo nome. Embora seja uma história patética. Você me escuta? 

— Sim, eu quero ouvir. Se é sobre você, então eu quero saber tudo. 

Nanami-san inclinou-se ligeiramente para o lado e sorriu para mim de forma linda. Mesmo sentindo o formigamento nas costas, sorri para ela naquela sala de aula cheia de vivas. Enquanto estávamos ali, olhando nos olhos um do outro... 

— Beija ela!  

— É isso que você ganha por nos preocupar! Faz logo!  

— Mantenham suas briguinhas de amor no mínimo! 

Começamos a receber todo tipo de comentário das pessoas ao redor. Parecia que tínhamos causado mais preocupação do que eu imaginava. Embora me sentisse mal, também agradecia por nossos colegas terem pensado na gente. No mínimo, eu teria que fazer um esforço de agora em diante para decorar seus nomes e rostos. 

Bem quando eu pensava nisso, Nanami-san deu um passo para trás e gritou, com o rosto vermelho: — Nós não faríamos isso! Quero que meu primeiro beijo seja em um lugar especial! 

— Eh?! Nanami, você ainda não deu seu primeiro beijo?! 

Uau. Ela mesma acabou se entregando. Cobri o rosto com uma mão, tentando esconder minhas bochechas quentes. Antes que Nanami-san pudesse sequer fazer o mesmo, ela gritou e saltou sobre nossas colegas, com as bochechas tão vermelhas quanto as minhas. 

Ao ver a Nanami-san se comportando assim, sorri aliviado, pensando que finalmente tínhamos voltado ao normal. Quando olhei para a porta da sala, vi que Otofuke-san e Kamoenai-san também haviam retornado. 

— Ei, senhor! Pode dar um jeito na sua esposa? Ela dá muito medo! — gritou alguém. 

— Ele ainda não é meu marido! — Nanami-san gritou de volta. 

— "Ainda" não, hein? — foi a resposta geral. 

Oh, céus. Nanami-san está impossível. Eu deveria ir ajudá-la. 

Fiz uma reverência para as duas amigas dela que estavam na porta e, em seguida, virei-me e fui em direção à Nanami-san, que parecia pronta para agarrar outro colega. 

Esta seria a última vez que eu deixaria meu passado me fazer hesitar na hora de agir. Talvez no futuro surja algo que me impeça de dar um passo à frente, mas, ainda assim, eu queria jurar que esta seria a última vez. 

Aquele dia, pela primeira vez, entrei no círculo dos meus colegas de classe. 

Como nota de rodapé, a foto minha e da Nanami-san tirada por um desses colegas acabou sendo o papel de parede do celular dela por um bom tempo.

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