Volume 3

Capítulo 4: Sinceridade e um pouco de ansiedade

Nunca me senti tão triste pelo fim de uma atividade na qual participava tanta gente. Pensar que alguém como eu , um introvertido que não via a hora de voltar para casa e voltar a jogar , se sentisse assim. Eu ainda não conseguia acreditar no quanto tinha mudado. Nem sequer lembrava quantas vezes tinha pensado nisso ultimamente. Não fazia ideia se essa mudança em mim era boa ou má, mas ia tomar a liberdade de supor que era a primeira opção. No mínimo, não podia ser algo ruim. 

A cena que se desenrolava diante de mim era, igualmente, uma experiência nova. Embora me sentisse um pouco nervoso, fazia todo o possível para vigiar o que acontecia. 

— Hm, o meu nome está bom o suficiente? — Nanami-san perguntou. — “Olá, meu nome é Shichimi. Prazer em conhecer". Yoshin, está tudo bem? 

— Sim, está ótimo. Veja, todo mundo está respondendo. — eu disse. 

— Oh, você tem razão! É a primeira vez que uso uma sala de chat como esta, mas não é tão diferente do aplicativo de mensagens que uso normalmente. Então esses são todos os seus amigos de jogos, hein? 

Nanami-san virou-se para mim, sorrindo. Eu estava feliz por ela parecer estar gostando de suas primeiras interações online. Era realmente estranho ver a Nanami-san jogando um jogo no meu quarto.

Sim, é isso mesmo, Nanami-san está no meu quarto... Nanami-san está no meu quarto! 

Pensei nisso algumas vezes, apenas para ter certeza de que não estava sonhando, mas esse simples pensamento me deixou incrivelmente nervoso. Meu coração batia sem parar já fazia um tempo. Era a primeira vez que a Nanami-san entrava no meu quarto. Da última vez que tinha visitado minha casa, ela foi embora sem nem sequer vê-lo.

O motivo?

É claro, eu não teria sido capaz de me conter se ela e eu estivéssemos a sós no meu quarto. Eu estava super nervoso inclusive agora, naquela época, não teria sido capaz de suportar. Bem, eu ainda não tinha certeza de que estava superando isso.

Como posso descrever?

Estava tudo bem quando estávamos sozinhos no quarto da Nanami-san, e inclusive estava tudo bem quando ficamos no quarto do hotel, mas o mero fato de estarmos no meu quarto estava me assustando. 

— Yoshin, todo mundo está ficando nervoso. O que eu devo fazer? — perguntou Nanami-san, preocupada. Com a súbita aparição dela, até mesmo aqueles que normalmente não participavam do chat pareciam estar lutando para dizer algo. Alguns pareciam incapazes de reprimir a empolgação diante da presença de uma garota do ensino médio. O que eles pensavam que estavam fazendo? 

Como nota à parte, Nanami-san estava usando óculos. Pelo visto, ela achou que usar óculos a deixaria em um clima mais apropriado. Parecia que o visual combinava com a nossa situação, e ela estava muito fofa com eles. No entanto, quando contei a todos no chat, eles ficaram ainda mais animados. Gostavam tanto assim de óculos? Suponho que eu também gostasse, mas... 

— Vamos deixá-los até que se acalmem um pouco — eu disse. 

— Tem certeza? Não são eles que te dão conselhos e essas coisas? — ela perguntou. 

É verdade, eu não tinha convidado a Nanami-san para o meu quarto com nada realmente gráfico em mente. Na verdade, eu tinha confessado que aqueles caras estiveram me ajudando com meus problemas de relacionamento. Nanami-san pareceu muito aliviada quando contei isso, o que foi bastante estranho. Era como se ela temesse que eu fosse dizer algo diferente. 

Mas ela não era a única preocupada. Eu estava aterrorizado com o que ela diria quando eu contasse. Quando ela respondeu aliviada, fui eu quem se surpreendeu. Perguntei se ela queria conversar com eles, já que estava no meu quarto, e Nanami-san aceitou de imediato. Ela me disse que queria agradecê-los por terem me ajudado todo esse tempo. Era típico dela ser tão atenciosa. 

Em todo caso, Nanami-san não ia jogar, ia apenas conversar com meus amigos online. Quando perguntei aos meus companheiros se estava tudo bem para eles... 

BARON: Sim, sem problemas. Iniciantes também são bem-vindos. Além disso, seria ótimo se ela se interessasse pelo jogo graças a isso. 

PEACH: Com certeza. Adoraria bater um papo com a sua namorada. Tem um monte de coisas que quero perguntar para ela. 

LAYTON: O motor da máquina de fazer açúcar vai se juntar a nós? Maneiro. 

Houve um monte de respostas, mas pelo menos todos pareciam felizes por ela se juntar a nós. Espere um momento. "O motor da máquina de fazer açúcar"? Quem disse isso? 

Quando toquei no assunto, alguns disseram que eu era o combustível. Espera, eu sou o combustível? Não deveria ser a Nanami-san o combustível neste caso? De qualquer forma, o melhor era deixar passar. Não parecia o tipo de coisa em que eu devesse me aprofundar muito, embora não possa dizer que a analogia tenha me convencido. 

É claro, em relação ao fato de que eu sabia sobre o desafio da Nanami-san, todos tinham jurado guardar segredo, dizendo que não lhes cabia interferir. Então ali estava eu, com o sinal verde da minha equipe, pensando que poderia passar um tempo com a Nanami-san sem problemas. Mas então... 

— Yoshin, querido, trouxe chá e aperitivos. 

— Ora, ora. Nunca pensei que veria uma garota sentada no quarto do meu filho. 

A cada poucos minutos, meus pais batiam à porta do meu quarto para fazer as honras da casa para a Nanami-san. Supunha-se que minha mãe e meu pai tivessem voltado para o trabalho assim que chegamos em casa, mas quando eu disse que ia convidar a Nanami-san para o meu quarto, eles começaram a adiar tudo o máximo possível. Genichiro-san também estava lá. 

Pelo menos eles batiam à porta e eu sabia que estavam fazendo o melhor para serem hospitaleiros, mas eles não sentiam que já tinham passado tempo suficiente com a Nanami durante a viagem? Todos os pais ficavam assim quando o filho trazia para casa a primeira namorada? 

Quero dizer, como eu e a Nanami-san não estávamos fazendo nada estranho, estava tudo bem, mas... 

— Mãe, pai, vocês já passaram bastante tempo com a Nanami-san enquanto estávamos viajando, certo? 

— Ter a namorada do meu filho em casa exige outro tipo de atitude, Yoshin. — respondeu a mãe. 

— Exatamente — acrescentou o pai. — Só o fato de você convidá-la para o seu quarto já nos deixa ansiosos. 

Estavam ansiosos? Não parecia.

Talvez suas visitas frequentes se devessem a essa ansiedade. Cada vez que apareciam na minha porta, Nanami-san sorria e os cumprimentava, embora, parando para pensar, eu supunha que ela não conseguia ser grosseira. Mesmo assim, a expressão agradável da Nanami-san parecia totalmente genuína. 

Suspirei e perguntei aos meus pais quanto tempo planejavam ficar. Sabia que amanhã tinham trabalho, então imaginei que não poderiam relaxar por muito tempo. Isso também significava que eu teria que deixar tudo pronto antes de eles partirem. 

— Sua mãe e eu pretendemos sair daqui a uma hora, mais ou menos, mas não se preocupe conosco. Vocês dois devem aproveitar ao máximo o tempo que passarem juntos — disse a mãe. 

— Oh, obrigada! — disse Nanami-san, ainda sorrindo. — Estou ansiosa para conversar de novo com vocês dois em breve. Shinobu-san, Akira-san, espero que tenham uma boa viagem. 

Ao ouvir o comentário carinhoso dela, meus pais tremeram de emoção. Tinha que admitir que sabia como se sentiam. Quando a Nanami-san te incentiva assim, você realmente sente no fundo da alma. 

— Bem, então divirtam-se vocês dois — disse minha mãe. — Yoshin, viremos nos despedir antes de ir. Enquanto estivermos fora, nem pense em fazer nada inapropriado com a Nanami-san, ok? 

Meu pai assentiu. 

— Visto que você não fez nada quando passaram a noite juntos, tenho certeza de que ficará bem, mas também te digo: mesmo que faça algo, que seja apropriado para estudantes do ensino médio. 

— Eu sei, eu sei. Vocês têm que se preparar, certo? Não se preocupem conosco e mexam-se — eu disse. 

Uma vez que mãe e pai abandonaram meu quarto a contragosto, Nanami-san e eu retomamos nossa conversa no jogo. Eu estava com o jogo aberto no meu computador enquanto utilizava meu telefone para teclar. Nanami-san havia se conectado ao chat pelo telefone dela. 

— É um pouco estranho estar conversando através de uma tela quando estamos um ao lado do outro, não acha? Mas também é divertido — disse Nanami. 

— Parece um pouco estranho. O fato de você estar batendo papo com os meus amigos do jogo já é bizarro o suficiente. 

Nunca imaginei que um dia assim chegaria. No chat, todo mundo postava suas saudações. 

BARON: Encantado em conhecê-la, Shichimi-san. Sou Baron, o líder da equipe. Já ouvi falar muito de você. 

PEACH: Olá, Shichimi-san. Sou Peach. Sou uma das amigas de jogo do Canyon-san. Encantada em conhecê-la. 

Depois de Baron-san e Peach-san, todos os outros seguiram com as apresentações. Nanami-san leu cada uma delas, respondendo gentilmente a cada um. Ela realmente era muito conscienciosa. Para deixar claro, "Shichimi" era o nome de usuário da Nanami. No começo, ela não tinha certeza do que usar, mas finalmente se decidiu por Shichimi, alterando a leitura do primeiro kanji do seu nome. 

— Seu nome aqui é Canyon, hein? Acho que eu deveria te chamar de Canyon-kun já que estamos aqui. — disse ela. 

— Eu estou te chamando de Shichimi-san, então acho que funciona. 

— Mas aí seria o mesmo de sempre. Que tal se fizermos o contrário no jogo e você me chamar apenas pelo meu nome, sem nenhum honorífico? 

— Você quer dizer que eu deveria tentar te chamar de "Shichimi"? Não vai parecer que estou me exibindo só porque tenho uma namorada? 

— Quem se importa? Vamos, tente! 

Ela juntou as mãos e implorou de forma adorável, mas, por alguma razão, não tive coragem de fazer. Embora eu nem fosse dizer em voz alta, sentia aversão à ideia. 

CANYON: Shichimi-san está sentada ao meu lado, nos vendo jogar, então espero que não se importem que hoje ela esteja apenas no chat. 

BARON: Espera. Não me diga que você a convidou para se juntar a nós e continua usando honoríficos. Não deveria deixar o "san" de lado? 

Em resposta à mensagem provocativa de Baron-san, Nanami-san e eu nos olhamos. Ele não podia ouvir nossa conversa, podia? Tinha sido oportuno demais. 

— O Baron-san é uma pessoa tão boa! Vamos, Yoshin! Me chame pelo meu nome! — exclamou Nanami-san. 

Aproveitando o comentário de Baron-san, Nanami-san se aproximou de mim alegremente. Se ela estava se divertindo, estava tudo bem, supus. Enquanto ela continuava se empolgando com o chat, abri o jogo no meu monitor. 

— Este é o jogo que você joga com todo mundo? É muito bonito. Também tem um monte de personagens fofos. Nunca tinha visto um jogo assim. Oh, é a garota do seu ícone! 

Nanami-san colocou a cabeça por trás de mim e aproximou o rosto do meu. Olhamos juntos para a tela e meu coração acelerou ao sentir o aroma doce que ela exalava. Naveguei pela interface com ela, mostrando as diferentes janelas e modos de batalha. Não havia nenhum evento em particular, então cada membro da equipe jogava como bem entendia. 

Cada vez que eu fazia algo, Nanami-san assentia com a cabeça em sinal de compreensão ou levantava a voz em admiração. Talvez tudo o que via fosse novo e intrigante para ela, já que nunca tinha jogado videogames antes. 

BARON: Embora o Canyon-kun tenha nos mantido informados, é difícil acreditar que as coisas entre vocês dois tenham progredido tão rápido. Estou surpreso com toda essa situação. 

Os outros concordaram rapidamente. 

SHICHIMI: Isso é porque todos deram conselhos muito úteis a ele. O Canyon-kun me contou o quanto vocês o apoiam. Agradeço muito a todos. 

BARON: Ah, não. Tudo isso se deve aos esforços que vocês dois fizeram. Nós estávamos apenas pegando carona na emoção de um romance de escola. Nós é que deveríamos agradecer, de verdade. 

Com todo mundo se abrindo para a Nanami-san, a conversa foi se animando. À medida que o chat se enchia de elogios, eu me tornava cada vez menos capaz de participar. Era como assistir a mim mesmo sendo "assado", exceto que todos diziam coisas bonitas em vez de serem maldosos. 

BARON: Hm? O Canyon-kun está um pouco mais quieto que o de costume. Aconteceu algo? 

SHICHIMI: Oh, ele está sentado ao meu lado, todo envergonhado. É realmente adorável. 

Por que você diz isso para eles?! Os membros do chat já não conseguiam conter a empolgação e digitavam coisas como "Pare de se envergonhar!" e "Nunca pensei que ouviria isso na vida real". 

SHICHIMI: Parando para pensar, eu soube que quando ele me disse pela primeira vez que gostava de mim de verdade, foi por causa de todo o incentivo que vocês deram. Fiquei muito feliz. 

BARON: Oh, na verdade não fomos nós como grupo, foi mais fruto do trabalho da Peach-chan. Ela disse a ele que ele tinha que tomar a iniciativa e te contar, embora eu tenha que admitir que ela me fez cair na real também. 

PEACH: Eu gostaria que você tivesse guardado isso para você, Baron-san... 

SHICHIMI: Isso é verdade?! Muito obrigada, Peach-san! Graças a você, criamos memórias incríveis juntos! 

PEACH: Não, quero dizer... Fico feliz se isso te fez feliz, eu acho. 

Depois disso, Nanami-san continuou expressando sua gratidão à Peach-san. As respostas da Peach-san pareciam um pouco forçadas, talvez ela estivesse se lembrando do quão desconfiada tinha sido com a Nanami-san no início do nosso relacionamento. Ao me lembrar disso, fui invadido por uma onda tardia de vergonha. Por isso, eu também decidi expressar meu agradecimento à Peach-san. 

CANYON: Peach-san, eu também deveria te agradecer. Graças a você, pude compreender a importância de dizer o que sinto. 

PEACH: Estou realmente feliz em ouvir isso, Canyon-san. Desejo a vocês dois toda a felicidade do mundo. 

SHICHIMI: Obrigada! Viveremos felizes para sempre! 

A partir desse momento, Nanami-san e Peach-san mergulharam de cabeça em um "papo de garotas". Ver que se davam tão bem alegrou meu coração, mas então vi um convite para outra sala de chat. Ali, chegaram mais mensagens... 

BARON: Uau, uma conversa entre duas garotas... Bonito. Tem algo de muito belo nisso, mesmo que seja apenas texto. Sou só eu ou isso está brilhando? 

FLORA: A Peach-san está no ensino fundamental, né? Sinto como se esta conversa estivesse injetando vida nova em mim. Que colírio para os olhos cansados. Me dê mais disso! 

ALPHA: Temos que guardar esse registro de chat para sempre. Eu também vou tirar um print da tela. Ainda bem que não estávamos em chat de voz. 

Era um chat de "espectadores" para acompanhar o papo entre a Nanami-san e a Peach-san. Curiosamente, eu sabia exatamente como eles se sentiam. 

Eu também queria apenas observá-las sem atrapalhar, dado o quão agradável era ver as duas conversando. Realmente era uma conversa doce, mas de alguma forma... 

Não sabia o que era, mas algo não batia. Sabia que me alegrava ver que se davam tão bem e, no entanto, algo sombrio se agitava dentro do meu peito. 

— Yoshin, a Peach-chan é super fofa! Ela é tão adorável! 

Antes de me dar conta, a Nanami já estava chamando a Peach-san de "Peach-chan" tanto no chat quanto na vida real. Eu ficava feliz em vê-la sorrir assim, mas não aguentava mais. A próxima coisa que percebi foi que eu estava beliscando a pontinha da manga dela. 

— Yoshin? — perguntou Nanami-san, inclinando a cabeça e colocando o dedo indicador na bochecha. Quando a ouvi dizer meu nome, voltei à realidade e a soltei rapidamente. Por que fiz isso? Não, eu nem preciso perguntar. Estou com ciúmes. 

Enquanto eu estava ali sentado, dizendo a mim mesmo o quão patético eu era, Nanami-san sorriu para mim e enviou uma mensagem para a Peach-san. 

SHICHIMI: Desculpe, Peach-chan. O Canyon-kun está emburrado porque não dei atenção suficiente a ele. Vou mimá-lo um pouco. Espero voltar a falar com todos em breve! 

PEACH: Oh céus, eu deveria ter estado mais atenta. Nesse caso, vou devolvê-lo a você, Shichimi-chan. 

— Nanami-san?! — gritei quando vi a mensagem dela, mas era tarde demais: o chat havia explodido de empolgação. Por outro lado, me surpreendeu ver que a Peach-san também chamava a Nanami-san com um "-chan". 

Nanami-san colocou o telefone sobre a minha mesa e sentou-se na minha cama. 

— É claro que você se sentiria sozinho se eu continuasse olhando para o meu telefone enquanto estivéssemos sozinhos no seu quarto. 

— Quero dizer, eu não diria que me sinto sozinho... 

— Então, quem exatamente puxou a minha roupa agora pouco, hm? 

O sorriso da Nanami transbordava afeto, mas eu não tinha dúvidas de que ela estava me provocando. Ao perceber meu próprio ciúme, não consegui retrucar. Levantei ambas as mãos em sinal de rendição e me sentei ao lado dela. 

— Ok, eu confesso. Foi ótimo ver vocês duas se dando bem, mas comecei a sentir um pouco de ciúme. 

— Então deveríamos comemorar hoje como o seu "Dia do Ciúme". É errado eu me sentir feliz por você ter ficado com ciúmes? 

— Suponho que eu também já te deixei com ciúmes antes, quando chamei a Otofuke-san e a Kamoenai-san pelos nomes e outra vez quando chamei sua irmã de "Saya-chan" pela primeira vez. Talvez estejamos quites. 

— Aha-ha, isso aconteceu, né? Faz umas três semanas desde então, então não faz tanto tempo assim. 

Três semanas... Quando eu parava para pensar, três semanas eram tanto longas quanto curtas. Em apenas mais uma semana, faria um mês, e nosso aniversário de um mês estaria chegando. Talvez Nanami-san estivesse pensando o mesmo, já que um silêncio se instalou entre nós. Nanami-san foi a primeira a quebrá-lo. 

— Ei, você pode me chamar pelo meu nome? 

Sua pergunta foi repentina, mas em vez de me surpreender com ela, apenas a olhei sem dizer nada. 

Chamá-la pelo nome, hein? Eu nunca tinha chamado ninguém pelo nome. Ninguém de quem eu pudesse me lembrar. Sempre colocava respeitosamente "-kun" para os garotos e "-san" para as garotas. Nem sequer lembrava da última vez que tinha chamado alguém pelo nome, mas ultimamente tinha a sensação de que Nanami-san me pressionava muito para que eu fizesse isso. Havia alguma razão? 

— Você parece realmente empenhada nisso. Não gosta que eu te chame de Nanami-san? 

— Não é que eu não goste. É só que... às vezes sinto que há um muro entre nós, e isso me faz sentir um pouco sozinha. 

Um muro entre nós, hein? Eu não tinha querido levantar um muro assim, mas talvez o estivesse fazendo sem querer. 

Por que eu tinha tanta aversão a chamá-la pelo nome? Me aproximei de Nanami-san e tentei dizer o nome dela, mas, bem, quando tentei, senti a temperatura do meu corpo baixar e as pontas dos meus dedos esfriarem. 

— Desculpe — murmurei. Foi tudo o que consegui dizer, e minha resposta pareceu surpreendê-la. Suas sobrancelhas se inclinaram para baixo e seus lábios se franziram com tristeza. Eu não queria ser quem a faria colocar aquela expressão no rosto, mas também não tinha coragem de dizer nada. 

O que houve? Por que não consigo fazer isso?  Senti uma raiva profunda de mim mesmo. 

— Não, está tudo bem — murmurou Nanami-san, com a voz trêmula. Eu não sabia o que podia fazer por ela enquanto permanecia ali sentada, tremendo. Estendi a mão para tocá-la, mas ela se retraiu. Parecia que aquilo aumentava ainda mais o choque que eu sentia. Uma lágrima escorreu por sua bochecha. 

Ao vê-la começar a chorar assim, eu mesmo entrei em pânico. O que estou fazendo, fazendo minha namorada chorar? Deveria ser fácil chamá-la assim, não é? Eu consigo, não consigo? Antes eu conseguia... Espera, “antes”? 

Nesse exato momento, senti que começava a me lembrar de algo. 

— Yoshin, o que você está fazendo? 

Assim que ouvi a voz da minha mãe, tudo o que estava tomando forma na minha mente dissipou-se em um instante. Minha mãe e meu pai, que estavam na porta, viram a Nanami-san chorando na minha cama e eu sentado ao lado dela, eles me encararam com olhares sérios. Minha mãe voltou a abrir a boca e falou comigo com uma voz inquietantemente calma. 

— Yoshin, o que exatamente você está fazendo na cama? Se estiver tentando obrigá-la a fazer algo... 

Ela parecia ligeiramente irritada enquanto me olhava com o cenho franzido, pensativa. Meu pai não disse nada, apenas mantinha um sorriso tenso no rosto. 

A porta do meu quarto era muito bem construída. Por isso, se não estivesse trancada por dentro, não fazia barulho nenhum ao abrir. Ela deslizava suavemente, sem o menor ruído. Isso significava que, a menos que batessem antes, ou se eu estivesse concentrado em algo, mesmo que batessem, eu não perceberia que a porta estava abrindo. Por isso, expressei um pedido clássico em vez de tentar explicar a situação. 

— mãe, pai, eu agradeceria muito se vocês ao menos batessem na porta antes de entrar no meu quarto — eu disse. 

Já podia imaginar a resposta deles, mas para mostrar com calma que eu não era culpado de nada inapropriado, agi com a maior confiança possível.

— Eu bati na porta. Você não respondeu, então me perguntei o que tinha acontecido e então vi a Nanami-san quase chorando. O que você fez? — perguntou mãe. 

— Shinobu-san, isso... não é nada

Nanami-san respondeu olhando de um lado para o outro entre minha mãe e eu. Parecia que ela finalmente começava a compreender a situação.

— Não é nada de mal. Só caiu um cisco no meu olho.

Nanami-san se afastou ligeiramente de mim enquanto dava sua explicação nada convincente. Sua voz soava muito triste, estava claro que algo tinha acontecido. 

— Entendo. Nesse caso, não insistirei mais. Mas, Yoshin, eu te disse antes que, se você fizesse a Nanami-san chorar, eu não te perdoaria — disse mamãe com uma calma deliberada.

Era verdade, ela tinha me dito.

Ela não ia se intrometer no que aconteceu, mas já sabia que eu tinha entristecido a Nanami-san. Meus pais me olhavam seriamente. Se iam me dar uma bronca, eu estava disposto a aceitar, embora fosse embaraçoso fazer isso na frente da Nanami-san. 

— Sim, eu me lembro — disse eu simplesmente, preparando-me para o que estava por vir. Ouvi a Nanami-san inspirar, mas ela não disse mais nada. Limitei-me a esperar que minha mãe falasse, mas o que saiu da boca dela não foi o que eu esperava. 

— Não fazer a Nanami-san chorar também significa que você não deve fazer nada para fazer a si mesmo chorar também. Quero que se lembre disso. Se você estiver triste, a Nanami-san também estará — disse ela, e com isso, minha mãe saiu do quarto. 

Eu tinha certeza de que levaria um sermão, então agora me sentia estranhamente frustrado. O que ela queria dizer com "se eu estiver triste"? Enquanto eu me perguntava isso, meu pai, que estivera observando minha mãe se afastar, voltou-se para mim e disse em voz baixa: 

— Yoshin, não sei se o que sua mãe disse se aplica a esta situação, mas se você está aí sentado com cara de quem está prestes a chorar, tenho certeza de que isso também entristeceria a Nanami-san. 

— O quê? 

Levei a mão à bochecha.

Eu parecia prestes a cair no choro? Eu teria pensado que parecia irritado, dado o quão bravo eu estava comigo mesmo. 

Olhei para a Nanami, que assentiu em silêncio. Pelo visto, ela também achou que eu parecia prestes a chorar. Enquanto eu continuava confuso, meu pai prosseguiu: 

— Provavelmente não cabe a mim dizer nada, mas vocês dois deveriam conversar. O mais importante depois de uma briga é fazer as pazes. Sua mãe e eu passamos por muitas, muitas brigas para chegar onde estamos hoje. 

— Você e a mãe brigaram? Eu nunca vi iss.o — eu disse. 

— Bem, sua mãe é muito mais apaixonada do que parece. Eu sou mais tranquilo, então costumávamos discutir muito. Uma vez, quando fomos à praia... 

Justo quando eu pensava que era raro meu pai falar de coisas assim, minha mãe apareceu atrás dele. Ela nem sequer tinha feito barulho. Quando meu pai sentiu de repente uma mão no ombro, soltou um grito silencioso. Nanami e eu também nos assustamos ao ver apenas uma mão "incorpórea" surgindo no ombro do papai. 

— Querido, o que exatamente você está dizendo ao nosso filho? Que tal termos uma conversinha entre marido e mulher? 

Como se tivesse saído de um filme de terror, minha mãe colocou lentamente a cabeça por trás do ombro do meu pai. Ela tinha um sorriso no rosto, mas era um sorriso assustador. Meu pai também conseguiu esboçar um sorriso. Ele nem se deu ao trabalho de se explicar, já tinha se dado por vencido. 

—  Espera, mãe, por que você voltou? 

— Vim buscar seu pai porque partiremos logo. Além disso, todos os outros estão indo embora, então vim buscar a Nanami-san — explicou minha mãe, lendo minha mente. 

— Ah, entendo. Vocês já vão, hein? Então não os verei até a semana que vem. Mas, mãe, não acha que deveria soltar o pai logo? — perguntei. 

— Certo... Bem, Yoshin, nos vemos na semana que vem. Tenho certeza de que agora que você tem a Nanami-san, não se sentirá mais sozinho. Em qualquer caso, sejam bons um com o outro, ok? 

Minha mãe agia como se apenas eu me sentisse sozinho, mas sim, suponho que fosse verdade. Eu admito. Embora nunca tivesse dito, era verdade que eu me sentia solitário porque meus pais viajavam com frequência. Mas ela realmente tinha que dizer isso na frente da Nanami-san? 

Nanami-san e eu ficamos conversando com meus pais por mais um tempo. Não falamos de nada em particular, mas eles me confiaram aos cuidados da Nanami-san até o retorno deles na semana seguinte. Depois desta noite, eu não os veria de novo até a próxima semana, bem na véspera do primeiro mês de namoro entre a Nanami-san e eu. Só de pensar nisso, eu já ficava nervoso. 

Talvez intuindo minha mudança de humor, papai se voltou para mim para dar um último conselho. 

— Yoshin, como pai, mas também como homem, vou te dizer isto: quero que se lembre de ser sempre atencioso com a Nanami-san. Quando algo acontece, quase sempre é a mulher quem acaba ferida. Sei que pode ser uma forma antiquada de pensar, mas enquanto você for estudante, quero que sempre pense em seus atos e nas consequências desses atos. 

Era a primeira vez que eu ouvia algo assim do meu pai. Na minha família, nunca tínhamos tido motivos para falar de coisas relacionadas a relacionamentos. Talvez só tenha ocorrido a ele me dizer isso porque agora eu tinha uma namorada, e ele e minha mãe tinham visto a Nanami-san chorar. 

— Eu prometo, mas vou me certificar de não nos colocar em uma situação em que tenhamos que nos preocupar com isso, de jeito nenhum. Quero dizer, você sabe o quão "frouxo" eu sou, né, papai? 

— Bem, eu sei que você é meu filho, mas também é filho da Shinobu-san. Não é que eu não confie em você, mas achei que valia a pena mencionar. Além disso, você se surpreenderia com a sua própria capacidade de agir quando chega o momento. 

Meu pai e eu rimos, e eu levantei o dedo mindinho para ele. No começo ele se surpreendeu, mas retribuiu o gesto e fizemos uma promessa de dedinho pela primeira vez desde que eu era criança. 

— É um pouco embaraçoso fazer isso sendo um estudante do ensino médio — eu disse. 

— O que você está dizendo? Para nós, você sempre será o nosso pequeno. 

Era assim, então? Meu pai e eu soltamos os dedos e caímos na risada. Nanami-san e minha mãe também conversavam e riam. Graças à minha mãe e ao meu pai, as emoções pesadas que eu tinha sentido antes haviam desaparecido por completo. 

Depois, Nanami-san se preparou para ir para casa com sua família, enquanto meus pais partiam para sua viagem de negócios. 

— Eu te ligo quando chegar em casa — disse-me Nanami-san ao se despedir. E finalmente, fiquei sozinho. 

— Bem, então... acho que vou voltar para o meu quarto. 

Dirigi-me sozinho para o meu quarto. No chat, meus companheiros estavam ocupados fofocando sobre o que Nanami-san e eu poderíamos estar tramando agora que tínhamos ficado em silêncio. Como uma delas era estudante do ensino fundamental, não estavam propondo nada descabido, estavam mais adivinhando as diversas formas como poderíamos estar flertando um com o outro. 

Enquanto todos conversavam, convidei Baron-san para um chat privado. Sem que os outros soubessem, ele aceitou e começamos nossa conversa. 

CANYON: Baron-san, posso te perguntar uma coisa?  

BARON: O que houve? De repente você parece muito sério. É algo sobre o qual não pode falar com os outros? 

Até então, eu sempre tinha falado sobre coisas relacionadas a relacionamentos no chat geral, onde todos podiam me ver, então possivelmente era a primeira vez que falava a sós com Baron-san. No entanto, ele não pareceu se importar, aceitou de bom grado o meu pedido. 

CANYON: De certa forma, eu acho que sim. Na verdade, é sobre aquele comentário anterior sobre chamar a Nanami-san apenas pelo nome. 

BARON: Apenas pelo nome? Eu estava brincando, então você não precisa se preocupar com isso.  

CANYON: Bem, na verdade, ela tem me pedido para fazer isso já faz um tempo.  

BARON: Sério? Que coincidência. Eu não tinha percebido. 

Deveria ter imaginado, mas realmente foi apenas uma coincidência, hein? Certamente teve um timing interessante. 

Contei ao Baron-san o essencial da história e também como me custava deixar o honorífico de lado. Sabia que era algo que eu devia resolver por mim mesmo, mas, pela primeira vez, não me sentia capaz de fazê-lo. Por isso queria conhecer a opinião do Baron, para ver se ele podia me dar alguma pista. Sei que soa um pouco patético, mas era tudo o que eu podia fazer. 

Assim que Baron-san leu minha explicação, parou de responder por um momento. Enquanto eu estava ali sentado, sentindo-me ansioso, vi-o retomar a digitação. 

BARON: Uma aversão a chamá-la pelo nome, hein? Lembro-me de ter sentido isso também. Dá medo, não é? Estou tentando lembrar quando foi a primeira vez que chamei minha esposa pelo nome.  

CANYON: Você também estava assustado, Baron-san?  

BARON: Com certeza. Na verdade, eu me preocupava bastante. E se eu a chamasse assim e ela não gostasse? E se ela achasse que eu estava sendo estranho ou invasivo? Continuo achando que não me sinto à vontade usando honoríficos com qualquer um. 

Era verdade que o Baron-san me chamava de "Canyon-kun", e chamava a Peach-san de "Peach-chan". Para ser sincero, fiquei bastante aliviado ao saber que não era o único a pensar assim. Não pude evitar me perguntar se o Baron-san chamava a esposa apenas pelo nome de batismo. A julgar pelo que ele disse, parecia que sim. 

BARON: Mas você não precisa chamá-la assim se não se sentir confortável com a ideia. Não acho que a Shichimi-san vá te odiar por isso. Além disso, o fato de você usar ou não honoríficos para se dirigir a alguém não afeta realmente o quanto você a ama, certo? 

Agradeci por ele ter dito isso, mas, ao lembrar da expressão desconsolada no rosto da Nanami-san, não pude concordar totalmente. Enquanto lia os conselhos do Baron-san, tentava pensar em uma maneira de superar isso. O próprio Baron-san me ouvia seriamente enquanto eu tentava encontrar uma solução. 

CANYON: Quando tento me dirigir a ela, as pontas dos meus dedos esfriam e não me atrevo a dizer nada. O que é isso?  

BARON: Não sou um especialista, então pode ser irresponsável da minha parte dizer isso, mas talvez haja algum trauma do passado envolvido aqui. Talvez algo da escola primária, algo de que você não se lembra.  

CANYON: Trauma do passado?  

Baron: Sim. Eu também já enfrentei algo assim. Embora pareça uma bobagem, algo pequeno pode estar tendo um efeito duradouro. 

A escola primária, hein? Na verdade, eu não me lembrava, mas tinha soado bastante frio quando a Nanami-san mencionou a escola primária. Perguntei-me se teria acontecido algo que ainda me afetava. Talvez lembrar aquele incidente me conduzisse de algum modo a uma solução. 

BARON: Canyon-kun, acho melhor você não se forçar a lembrar de nada. Talvez seja melhor você relaxar e ir com calma.  

CANYON: Obrigado, Baron-san, mas eu realmente quero resolver isso. Não posso ficar aqui sem fazer nada depois de tê-la entristecido.  

BARON: Entendo. Nesse caso, vou te enviar boas vibrações para que as coisas corram bem.  

CANYON: Muito obrigado. 

Por enquanto, eu tinha uma ideia mais clara do meu próximo passo. Quando eu me dispunha a fechar o chat, Baron-san me enviou uma última mensagem. Era muito curiosa. 

BARON: A razão pela qual sua namorada começou a chorar foi realmente que você não a chamou pelo nome? 

Essas últimas palavras dele se recusaram a sair da minha mente.

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