Volume 3
Capítulo 3: Os pensamentos de sua irmã
Quando acordei na manhã seguinte, Nanami-san estava deitada ao meu lado, com seu rosto adormecido como o de um anjo. O rosto dela estava literalmente a apenas alguns centímetros do meu.
Espera, o quê? Por quê?
Isso pode soar enganoso, mas quando dormimos juntos ontem, ela não estava tão perto de mim. Era de se esperar, já que eu nem tinha percebido que estávamos na mesma cama. Agora, no entanto, seu rosto, com os olhos fechados, estava muito próximo do meu. Ao olhá-la de tão perto, percebi o quão linda Nanami-san era.
É muito antiquado dizer que o rosto dela parecia o de uma boneca?
Seus cílios, longos e volumosos, emolduravam seus olhos de pálpebra dupla. Sua pele era linda e seus lábios também-
Espera, talvez seja rude da minha parte estudar o rosto de uma garota assim. Provavelmente eu deveria parar.
Quando desviei o olhar do rosto dela, vi que ela ainda vestia seu yukata. Estava deitada de frente para mim, com uma manta cobrindo-a levemente. O yukata dela tinha se movido e estava ligeiramente aberto na frente.
Droga.
Não estava completamente aberto, mas agora eu não sabia para onde olhar. Como não tinha como arrumar o yukata, cobri-a com a manta. Nanami-san teve experiências ruins com caras que olhavam para esse tipo de coisa. Tive que me conter.
O que eu devo fazer? Talvez é melhor pegar meu telefone... Nossa, quase não tem bateria!
Abri meu jogo e li o registro do chat, onde Baron-san e os outros faziam previsões sobre o que eu poderia estar fazendo.
Não, não consegui beijá-la enquanto aproveitava a vista noturna.
Deixei meu telefone de lado por enquanto.
Por que estou dormindo com a Nanami-san, afinal?
Ao me sentar, lembrei-me de tudo, porque vi todos os outros dormindo ao nosso redor. Minha mãe, Tomoko e Saya dormiam juntas na cama ao lado da nossa. No futon ao fundo do quarto, meu pai e Genichiro-san dormiam um ao lado do outro.
Ontem à noite, quando Nanami-san e eu estávamos conversando depois do banho, todos os outros vieram se juntar a nós. Depois, acabamos nos reunindo todos no nosso quarto, embora minha mãe e Tomoko-san já tivessem parado com o álcool mesmo assim, todos pareciam animados demais. Minha mãe até comentou o quão satisfeita estava por poder nos observar das sombras. Pelo que pareceu, eles tiraram um número ridículo de fotos.
Espera, isso foi estranho. A última coisa que eu lembrava era da Nanami-san e eu indo dormir em camas separadas. Como as coisas tinham acabado assim?
Quando voltei a olhar para o rosto adormecido da Nanami-san, percebi o quão tranquila ela parecia. Mesmo vendo-a ali ao meu lado, eu ainda não conseguia acreditar que ela era minha namorada, mas era. Essa garota com o rosto lindo dormindo era minha namorada.
— Ungh...
Quando Nanami-san se mexeu, a manta com que eu a tinha coberto deslizou. A abertura do seu yukata ficou exposta novamente e, naturalmente, meu olhar travou ali.
Sim, bem, não vou dar detalhes explícitos, mas como ela estava deitada, a forma deles tinha mudado um pouco ou talvez estivessem apenas mais acentuados.Ainda assim, isso era normal?
Não, espera, eu... não fique transmitindo isso "ao vivo" na sua cabeça. Você disse que ia se conter.
Envergonhado por estar acordado, mas não conseguir levantar, me deixei cair de novo na cama. O colchão deu um leve solavanco sob mim. No entanto, logo que dei as costas para a Nanami-san, ouvi uma voz suave atrás de mim.
— Hm... O quê? O que aconteceu?
Pelo visto, eu a tinha acordado. Me senti mal por isso, mas o que aconteceu em seguida jogou esse sentimento para escanteio.
Nanami, que ainda estava meio dormindo, deslizou os braços pelos vãos entre meus braços e meu corpo, agarrando-me por trás como se eu fosse um travesseiro gigante.
— Saya, se vai me acordar, faz direito, tá? Hm? Você... cresceu?
Quando a Nanami-san me abraçou, dois volumes macios se pressionaram contra as minhas costas com tanta vontade que o abraço bem poderia ter vindo acompanhado de um efeito sonoro de "esmagamento". A sensação me despertou de vez. Bem, eu já estava acordado, mas dessa vez meus olhos quase saltaram para fora.
Ela continuou se aninhando, esfregando o corpo contra o meu. Droga, logo quando eu senti que tinha me acalmado... Agora é que eu não vou conseguir levantar mesmo! Droga, droga!
Nanami-san ainda estava meio grogue. Eu precisava acordá-la.
— Nanami-san, não é a Saya-chan. Sou eu.
—Quem é “eu”? Você parece o Yoshin... Espera, hein? Yo-Yoshin?! Yoshin! O quê?!
Quando Nanami-san percebeu que era a mim que estava abraçando, deu um pulo e se afastou correndo. Ao mesmo tempo, a sensação nas minhas costas desapareceu. Após confirmar esse fato, virei-me para olhá-la.
— B-Bom dia, Nanami-san — eu disse.
— B-Bom dia, Yoshin. Acho que é a segunda vez que dormimos juntos, hein?
Logo de cara, Nanami-san disse algo tremendamente ambíguo. Ela se corrigiu imediatamente.
— Como isso aconteceu? — ela se perguntou, pasma.
Eu tinha suposto que, ainda meio dormindo, ela tinha entrado na mesma cama que eu, mas parecia que eu estava errado. Depois de nos cumprimentarmos, sorrimos um para o outro. Eu estava um pouco envergonhado, mas poder dizer "bom dia" assim era muito agradável. Senti isso ainda mais profundamente porque, ultimamente, eu sempre acordava em uma casa vazia.
Na primeira vez que acordei, estava em choque, mas agora minha cabeça estava um pouco mais clara. O torpor do sono tinha sumido completamente. Perguntei-me se isso também era um efeito de "dormir com a Nanami-san", embora, claro, eu estivesse pensando em "dormir" da forma mais inocente possível.
— Hmm, parece que os dois estão bem acordados. Bom dia.
Nanami-san e eu demos um pulo com o cumprimento repentino. Os olhos e a boca dela se abriram de par em par.
— Pai?! Por que você está aqui também? Espera, por que estão todos aqui?! — gritou ela.
Genichiro riu com vontade das perguntas da Nanami.
— Ontem à noite, depois de nos divertimos tanto juntos, decidimos que o lógico era que todos dormíssemos aqui, no mesmo quarto. Acho que nos deixamos levar. Até os adultos ficam assim às vezes.
Que tipo de adultos?
Aos poucos, minhas memórias da noite anterior foram ficando claras. Os adultos de ambas as casas, que já tinham bebido bastante, começaram a nos fazer todo tipo de perguntas e comentários inapropriados. Queriam saber até onde tínhamos chegado e disseram que devíamos ter nos beijado. O álcool os deixou desinibidos, nenhum dos pais hesitou em dizer o que pensava.
Genichiro-san parecia o tipo de pessoa que colocaria um freio nessas coisas, mas não foi nada disso. Na verdade, ele estava incentivando a mim e à Nanami-san. Supus que, pelo menos, isso era melhor do que ele não me aceitar como namorado da filha dele.
Mesmo assim, levantei-me da cama e fiz uma reverência profunda para Genichiro-san.
— Sinto muito, Genichiro-san. Eu não deveria ter me deitado assim com sua filha, ainda mais duas noites seguidas.
— Oh, levante a cabeça, Yoshin-kun. Realmente não há nada com que se preocupar.
Antes, Genichiro tinha me dito que não sabia o que faria comigo se a Nanami dormisse na minha casa. Lembrando da mistura de sede de sangue e raiva que parecia ferver sob aquele comentário, agradeci por desta vez ele ter se limitado a sorrir e me perdoar. Sério, eu estava me preparando para levar um soco na cara.
— Afinal de contas, fui eu quem colocou a Nanami ao seu lado — acrescentou ele.
Então eu realmente não tinha nada com que me preocupar. Exceto…
O que você está fazendo, Genichiro-san? Você não disse no início que não aprovaria algo assim? Por que você a colocou na minha cama?
Nanami-san ficou boquiaberta.
— Pai... mas o que diabos? — murmurou ela, com a cabeça entre as mãos.
Genichiro-san, no entanto, continuava rindo alegremente. Era impressão minha, ou o olhar dele era caloroso quando nos observava, como se estivesse realmente encantado com o que via?
— De qualquer forma, fiquei muito surpreso ao ver todo mundo aqui — eu disse e Nanami-san assentiu.
— Eu também me surpreendi. Papai sempre diz que, quando chega bêbado em casa, se comporta como um menino mimado e dorme grudado na minha mãe e essas coisas.
— Você poderia considerar fechar o bico, Nanami. Estamos todos aqui, sabe?
Eu gostaria de ter ouvido um pouco mais, mas Genichiro-san colocou um fim nisso rapidamente. Genichiro-san, eu não fazia ideia... Ao me ver olhando para ele, ele ficou vermelho de vergonha e se afastou de nós. Foi uma reação bem engraçada da parte dele.
— De todos os modos — disse ele — já que acordamos cedo, talvez possamos tomar um banho matinal. Pergunto-me se os outros vão querer nos acompanhar.
Obviamente, Genichiro-san tentou mudar de assunto e foi perguntando aos outros se queriam ir às termas. Como todos já pareciam completamente acordados, decidimos ir juntos. Nanami parecia um pouco insatisfeita ao ver que sua resposta inteligente acabou em fracasso, então tentei acalmá-la enquanto pegava tudo o que precisaria para o banho. Também decidimos ir direto do banho para o café da manhã do hotel.
Todos conversamos enquanto descíamos as escadas e nos separávamos nos banhos masculinos e femininos. Tomoko viu o banho familiar pelo caminho, sugerindo que talvez fosse uma opção ainda melhor, mas eu rejeitei a ideia educada, porém firmemente.
Parecia que o que ela queria dizer, na verdade, era que era "uma opção ainda melhor" para mim e para a Nanami-san, mas, mesmo assim, recusei com todas as minhas forças. Por um momento, Nanami-san me olhou com uma expressão triste que parecia perguntar "Você não quer tomar banho comigo?", mas não era que eu não quisesse e sim que todo o meu bom senso e razão gritavam que era cedo demais para estudantes do ensino médio tomarem banho juntos.
De qualquer forma, falar desse tipo de coisa na frente dos meus pais tão cedo de manhã simplesmente não vai rolar. Simplesmente não vai. Tomoko-san estava apenas zombando de mim.
Apesar dessas provocações, consegui aproveitar meu banho matinal. Quanto mais pensava nisso, mais me perguntava quantos anos haviam se passado desde a última vez que tomei banho com meu pai. Eu estive sozinho ontem e anteontem, quando chegamos ao hotel. Estar ali com ele era um pouco embaraçoso, mas não achei que estava imaginando coisas quando notei que meu pai parecia um pouco mais feliz do que o habitual.
Talvez a sensação de libertação que o banho me trouxe tenha me afetado, porque acabei tendo com ele uma conversa que normalmente não teríamos se estivéssemos em casa. Com calma, em voz baixa, falamos de temas mundanos, como nossas vidas ultimamente e como eu estava indo na escola. Com Genichiro-san também conosco, eu, pela primeira vez, me tornei parte do que parecia uma relação muito aberta e autêntica entre três homens. Embora eu costumasse pensar que esse tipo de relação era problemática, agora eu a apreciava de verdade.
— Você está feliz agora, Yoshin? — perguntou de repente meu pai.
Ele sorria e parecia profundamente emocionado. Genichiro-san esperou minha resposta sem dizer nada.
Eu estou feliz neste momento?
De algum modo, compreendi que ele não estava perguntando sobre o "agora" em que eu estava tomando banho com ele e Genichiro-san. Ele estava perguntando se eu estava aproveitando o "agora" de tudo o que havia passado desde que comecei a sair com a Nanami-san.
A resposta para a pergunta dele era óbvia, mas antes de formulá-la, contemplei a paisagem e refleti enquanto mergulhava nas águas termais. A cidade pela manhã estava envolta em uma leve névoa, inundada pela luz do dia, o que a fazia parecer completamente diferente da vista que contemplei na noite anterior. Podia ver claramente os carros passando e os barcos navegando. Vê-los me trouxe uma sensação de nostalgia. Era uma sensação que eu nunca tinha na minha casa.
Até pouco tempo atrás, o que constituía diversão para mim começava e terminava no meu quarto. Eu tinha certeza de que poderia encontrar vídeos na internet de uma vista assim se apenas os procurasse. Eles seriam bonitos, com certeza, e eu me daria por satisfeito com isso.
Mas, em apenas um breve período de tempo, meu mundo havia se tornado muito maior, e esse crescimento começou com um encontro inesperado. Era algo que eu tinha aprendido a sentir depois de passar meus dias com a Nanami-san. Por isso, sem dúvida, minha resposta foi...
— Eu estou.
Essas foram as únicas duas palavras que eu disse. Eu estou. Agora mesmo, eu era realmente feliz. Não era mentira. Meu pai e Genichiro-san assentiram à minha resposta, satisfeitos.
Compartilhar o que eu sentia me dava vergonha, especialmente com meu pai, mas hoje senti que podia dizer a ele o que sentia com um pouco mais de sinceridade do que de costume. Não sabia se era porque estávamos tomando banho ou porque estávamos viajando.
— É uma boa expressão essa que você tem aí. Fico feliz em ver meu filho crescer.
O comentário dele me alegrou e me cutucou por dentro. Senti meu rosto esquentar, e não era apenas por causa da água quente.
— Seu filho é um bom jovem — disse Genichiro-san.
— Realmente é. E tudo graças à Nanami-san — respondeu meu pai.
— Oh, de jeito nenhum. Tudo isso é mérito do Yoshin-kun.
Ouvir os elogios de ambos me fez sentir ainda mais envergonhado. Eles mantinham uma conversa tão tranquila que custava acreditar que, na noite anterior, tinham ficado bêbados e dormido juntos. Não toquei no assunto, pois não queria estragar o ambiente.
Eu também acreditava que tudo isso era graças à Nanami-san. Pode ser que o modo como tudo começou tenha sido irônico, mas eu nunca teria imaginado que seria capaz de mudar tanto desde então.
Conversamos um pouco mais e então decidimos sair das termas. Eu adoraria beber outra garrafa de leite, mas sabia que precisava tomar café da manhã.
Logo quando saíamos do vestiário masculino, vimos as mulheres saindo do delas. Nós três estávamos nos perguntando se teríamos que esperá-las, mas parecia que o tempo tinha batido certinho.
Quando olhei para a Nanami, me pareceu detectar uma mudança na forma como ela me olhava. Parecia tímida e, ao mesmo tempo, expectante, ela me olhava e logo desviava o rosto. Cada vez que nossos olhos se encontravam, ela baixava a guarda como se estivesse morrendo de vergonha. As outras mulheres sorriam felizes.
Sobre o que diabos elas estiveram conversando lá dentro?
Eu tinha certeza de que não me contariam, mesmo que eu perguntasse. Nanami também notou os sorrisos nos rostos delas. Ela deu tapinhas leves nas próprias bochechas, como se quisesse se encorajar para algo. Depois, sorriu como sempre, como se mudasse de um "modo" para outro. À primeira vista, parecia a mesma de sempre, mas eu não podia ter certeza.
— Aaah, já me refresquei e agora estou morrendo de fome! O café da manhã vai ser divertido, hein? — disse ela para mim.
— Sim. Com certeza.
— Hmm? Você não está com fome, Yoshin?
— Ah, sim. Estou com fome. Estou ansioso pelo buffet.
Nanami-san sorria enquanto caminhava ao meu lado. A que se devia aquele olhar de antes? Eu tinha um pouco de medo de perguntar, mas, se não fosse nada ruim, certamente ela me contaria em algum momento. A julgar pela expressão envergonhada de antes, eu só podia supor que os outros tinham enchido a cabeça dela com algum novo conselho inapropriado.
Quanto a isso, eu não estava em posição de falar nada. Eu andava recebendo todo tipo de conselhos do Baron-san e dos outros. Sei que os detalhes não eram exatamente os mesmos, mas eram de natureza semelhante.
Nanami-san e eu continuamos caminhando, mas dei passos menores para acabar ficando atrás do grupo. Nanami-san seguiu meu exemplo e terminou caminhando comigo. Juntos, ficamos para trás de todos os outros.
Observando os demais caminharem à nossa frente, toquei levemente a mão da Nanami-san. Ela pareceu se surpreender e arregalou os olhos. Após um momento, percebeu minhas intenções e retribuiu o toque com a mão dela. Minha mão se fechou ligeiramente ao redor da sua.
Era uma forma comum de darmos as mãos, sem os dedos entrelaçados, mas, mesmo assim, eu podia sentir meu coração bater mais depressa. E isso, provavelmente, não tinha nada a ver com o fato de eu ter acabado de sair do banho quente.
De mãos dadas furtivamente para que os outros não nos vissem, Nanami-san e eu continuamos nosso caminho lento em direção ao refeitório.
♢♢♢
Ouvi uma vez alguém dizer que as previsões são as nossas imaginações sobre o futuro. Não me lembro de quem disse isso, mas supõe-se que uma previsão verdadeira é aquela em que você faz uma conjectura sobre o que ocorrerá, baseando-se em experiências de vidas passadas.

Fazer uma previsão acertada é mais difícil do que eu pensava. Supostamente, é preciso ter um conjunto rico de experiências de vida para conseguir fazê-lo. E, supostamente, um evento imprevisível é assim precisamente porque ocorre algo que você nunca experimentou antes.
Sinto-me mal por dizer tanto "supostamente", mas lembro que me senti estranhamente convencido quando ouvi isso pela primeira vez. Era verdade, inclusive quando eu jogava, que o inesperado acontecia quando tais eventos não se encaixavam no padrão dos jogos anteriores.
Na realidade, porém, ocorreram muitos eventos imprevisíveis. Baseando-me nas sábias palavras de uma pessoa que nem sequer me lembro, o fato de que tantas coisas imprevisíveis ocorressem ao meu redor apenas atestava que eu não tinha um conjunto de experiências de vida terrivelmente rico. Eu só tinha conseguido construir minhas experiências nos jogos.
Talvez eu devesse ver desta forma: eu tinha muito espaço para crescer e viver novas experiências pensando no futuro. Ou seja, eu tinha muito potencial. Sei que isso pode ser um pouco exagerado, mas tenho permissão para ter uma visão otimista das coisas, não tenho?
Sei que parece que estou pensando em algo sério, mas tudo isso tem uma razão e, claro, apenas uma razão. E essa razão é que acabava de me ocorrer outra coisa imprevisível.
Eu realmente não vi isso chegando...
Naquele momento, eu estava sentado sob uma árvore cheia de flores de cerejeira, bebendo suco de laranja. Como nos esperava uma viagem de carro, até os adultos tomavam bebidas sem álcool, como chá oolong.
Para explicar por que estávamos onde estávamos, teríamos que retroceder no tempo até o café da manhã. Enquanto Nanami e eu tomávamos algo doce para terminar a refeição, Saya-chan e Tomoko-san se aproximaram para sentar ao nosso lado.
— Ei, vocês sabem quais são os nossos planos para hoje? — perguntou Saya-chan.
Nanami e eu nos entreolhamos.
Nossos planos para hoje? Não estávamos indo direto para casa?
Nós dois pensávamos a mesma coisa, mas Saya-chan soltou um suspiro antes de encarar Tomoko-san com um olhar fulminante. Tomoko riu, encantada.
— Mamãe, você realmente precisa avisar essas coisas para eles.
— Oh, sinto muito. Achei que tivesse avisado, mas parece que esqueci com toda a empolgação. — Tomoko-san sorriu, com a mão na bochecha, enquanto Saya-chan continuava a encará-la. Apesar do comentário, ela não parecia nem um pouco arrependida.
Saya-chan suspirou e murmurou algo sobre a mãe ter feito isso de propósito, mas Tomoko-san soltou uma risadinha suave.
— Pensamos que seria legal dar uma parada para ver as flores de cerejeira no caminho de casa — disse ela.
— Flores de cerejeira? — perguntamos Nanami e eu, surpresos com a sugestão. Parecia que nós dois éramos os únicos que ainda não sabiam. Saya-chan parecia levemente exasperada com a situação.
Perguntei aos meus pais, mas parecia que eles tinham assumido que eu já sabia. Disseram que perderam a oportunidade de me lembrar porque Nanami-san e eu estávamos sempre flertando um com o outro, o que me deixou completamente sem palavras. Ainda assim, pensei que, se íamos apenas fazer uma parada no caminho, não seria nada demais.
Com o plano feito, dirigimos por cerca de dez minutos. O parque para onde íamos ficava relativamente perto do hotel. Era um lugar lindo, repleto de cerejeiras e outras flores. Algumas cerejeiras já tinham parado de florescer e as pétalas estavam dando lugar às folhas verdes, mas, mesmo assim, ainda restavam muitas flores. O contraste entre o verde e o rosa era belíssimo.
As árvores cresciam ao longo de uma trilha que cercava um lago, junto com flores vermelhas e amarelas, embora eu não soubesse ao certo os nomes delas. Parecia que ali era possível desfrutar de uma grande variedade de cores. Passear por um lugar assim era, sem dúvida, uma experiência agradável.
— Se tivéssemos vindo um pouco mais cedo no ano, tudo estaria em plena floração, mas não é como se tivéssemos perdido todas as flores. Tenho certeza de que ainda poderemos aproveitar as cerejeiras— disse Genichiro-san. Pelo visto, não era a primeira vez dele ali. Ele explicou que costumavam visitar o parque quando Nanami-san e Saya-chan eram pequenas.
Enquanto a Nanami-san olhava ao redor com nostalgia, eu tentava conter minha própria empolgação por visitar um lugar onde nunca estive. Abrimos caminho pelo parque seguindo os adultos, que pareciam ter um ponto específico em mente.
Pelo caminho, a Nanami-san me contou várias memórias que tinha dali. — Uma vez, quando eu era pequena, quase caí naquele lago ali... ou será que caí de verdade?
— O quê?! Mas tem uma cerca em volta! Você acha que colocaram porque você caiu lá dentro? — perguntei.
— Não, tenho quase certeza de que eu pulei a cerca. Talvez tenha sido porque tive uma briga com meu pai. Crianças realmente fazem coisas malucas quando estão irritadas, né?
Enquanto ela falava como se fossem as memórias de outra pessoa, não pude deixar de me perguntar se ela tinha sido uma criança bem agressiva. Ou talvez ela simplesmente não se lembrasse bem. Olhando para o comportamento dela agora, era difícil imaginar a cena.
Não, espera...
Levando em conta o quão atrevida ela tem estado ultimamente, talvez eu conseguisse visualizar. Enquanto eu a encarava, Nanami-san coçou a bochecha, ligeiramente envergonhada. Contudo, deixando de lado esse atrevimento, eu não conseguia imaginar a Nanami-san brava.
Será que chegaria um dia em que eu também a faria perder a paciência? Seríamos capazes de nos reconciliar se isso acontecesse? Eu espero que sim.
— Você pulou a cerca, hein? Ainda bem que saiu inteira — murmurei.
— Isso é porque meu pai me ajudou. Além disso, não sou tão ruim assim nadando.
— Ainda é perigoso nadar com roupa. Espera, isso não significa que você definitivamente caiu?
Com isso, os olhos da Nanami-san se arregalaram. Ela mostrou a língua e piscou para mim, como se tentasse disfarçar o erro. Era a clássica expressão de "tee-hee".
Onde ela teria aprendido um truque desses? Isso não pode ser culpa minha, pode? Ou estou sendo convencido demais? Claro que não. Foi só coincidência. O gesto foi totalmente acidental.
— Oh? Você não gosta quando as pessoas reagem assim? — ela perguntou.
Ok, definitivamente foi culpa minha. Não, eu gosto, é fofo.
Como fiquei sem palavras, Nanami-san ia dizer algo mais quando a Saya-chan nos interrompeu.
— Ei, vocês dois, parem de flertar e nos ajudem a preparar tudo!
Nanami engoliu o que ia dizer e aproximou o rosto do meu ouvido.
— Mais tarde, tá?
Fiquei pensando no que ela queria dizer. Sem chegar a perguntar, eu a segui até o resto do grupo.
Todos já estavam se organizando sob a cerejeira. Já tinham montado todo o equipamento, embora eu não tivesse ideia de quando conseguiram fazer isso. A comida também estava pronta.
— Tenho quase certeza de que é a primeira vez que faço um churrasco ao ar livre — murmurei.
Meus pais estavam preparando as coisas um pouco afastados, deixando-me a sós com a família da Nanami-san. Na verdade, eu nunca tinha visto meus pais tão entusiasmados com uma tarefa.
— Seus pais disseram que se sentiam mal por não poderem te levar para acampar e essas coisas, porque sempre estiveram muito ocupados— comentou Genichiro-san. — Isso não é exatamente acampar, mas seria ótimo se você pudesse aproveitar um pouco.
Tomoko riu levemente.
— Meu marido adora acampar, mas as meninas não são muito fãs. Ele estava ansioso por hoje.
— Pode me culpar? — perguntou Saya-chan. — Dormir fora é muito difícil, e nem dá para tomar banho. Mas eu gosto de vir passear assim.
Ao ver o Genichiro-san tão animado quanto meus pais, não pude deixar de me sentir feliz. Tomoko-san e Saya-chan também pareciam estar se divertindo bastante.
Enquanto eu falava com todo mundo, comecei a me empolgar ao ver todo aquele equipamento desconhecido. Nunca tinha percebido que meus pais se sentiam assim sobre a forma como passávamos nosso tempo juntos. Ainda assim, desejava que não se preocupassem tanto. De qualquer forma, eu sempre fui uma pessoa "de interiores", então, mesmo que alguém tivesse me convidado para acampar antes, não haveria muitas chances de eu concordar e dizer "Sim, vamos!". Se meus pais tivessem me pedido, eu teria ficado perplexo ou teria recusado categoricamente, então me ver tão entusiasmado hoje me parecia estranho. Senti um pouco de vergonha por ter acabado tendo essa conversa com o Genichiro-san em vez de com meu próprio pai.
Mais cedo, enviei uma mensagem para o Baron-san e os outros avisando que tinha ido ver as flores de cerejeira e que me reuniria com eles mais tarde. Tanto o Baron-san quanto a Peach-san me desejaram o melhor antes de eu sair, mas eu nem sequer tinha tocado no meu telefone desde então. Se eu estivesse em uma situação assim um mês atrás, com certeza estaria me perguntando se poderia escapar para jogar um pouco.
Estendemos nossas toalhas de piquenique e até montamos uma mesa. Mamãe e papai sempre tiveram algo assim? eu me perguntava. Ou será que alugaram? Aparentemente, era de casa, mas eu não reconhecia. Mas o mais importante...
— Oh, Yoshin! Aqui!
Nanami-san, que estava ajudando meus pais a preparar tudo, acenou para mim enquanto dava saltinhos. O céu era azul claro, com apenas algumas nuvens flutuando, e a temperatura estava agradavelmente quente. Sem dúvida, era um dia perfeito.
Observei como as pétalas brancas e rosas das flores de cerejeira, assim como algumas folhas verdes , se moviam lentamente com a brisa e flutuavam ao redor da Nanami-san, que me saudava sob o céu azul. Ela sorriu para mim enquanto permanecia de pé diante de um cenário que parecia quase uma pintura.
Parei no seco. Não pude evitar admirá-la. Que linda, pensei, embora não fosse do meu feitio ser tão poético.
— Que bonito. Não acha, Yoshin-kun? — perguntou Genichiro-san ao meu lado.
— Sim, lindo. Realmente lindo.
Sem nem perguntar a que exatamente ele se referia, abri a boca e expressei minha concordância em voz baixa. Nanami-san inclinou a cabeça, perguntando-se por que eu não tinha dado nem mais um passo à frente. Até a confusão dela me parecia bela.
Embora eu quisesse tirar uma foto, meu corpo se recusou a cooperar. Mesmo que eu não tenha um registro físico disso, tudo bem, contanto que fique na minha memória, disse a mim mesmo, novamente agindo de forma pouco habitual.
No entanto, enquanto pensava nisso, percebi que Tomoko-san estava tirando uma foto da cena. Olhei para ela, tentando pedir com o olhar que me enviasse a imagem mais tarde. Ela assentiu em silêncio, mostrando que tinha entendido o recado.
—Já que a Nanami e seus pais estão esperando, vamos fazer uma pausa por agora e começar a festa, certo? Pode deixar os preparativos comigo — disse Genichiro-san.
— Tem certeza de que eu não deveria estar ajudando? — perguntei.
— Isso é para os adultos aproveitarem. Vocês, jovens, podem se sentar e relaxar um pouco — respondeu ele.
— É isso mesmo — disse meu pai, que também se juntou a nós. — Você deveria ir descansar com os outros, Yoshin.
Ele e Genichiro-san bateram os punhos, trocando algum sinal silencioso. Insisti que me sentia mal por não ajudar, mas eles se recusaram terminantemente. Após um tempo de insistência de ambos os lados, finalmente cedi.
— Nesse caso, ficarei de fora. Obrigado novamente — eu disse.
Meu pai e Genichiro-san assentiram felizes. Então, nós três nos dirigimos ao resto do grupo. Nanami-san sorriu para mim conforme eu me aproximava.
— Isso vai ser divertido, hein? — perguntou ela.
— Sim, vamos aproveitar ao máximo — respondi.
Embora não fosse um encontro a sós, sabíamos que o dia seria incrível.
Os adultos tinham disposto várias cadeiras de exterior ao redor das nossas mantas de piquenique. Saya-chan já estava descansando em uma delas, e Nanami e eu escolhemos um par de assentos ao seu lado. Acomodei meu peso na cadeira e inclinei o pescoço para olhar o céu.
— O sol está uma delícia, né, Yoshin? Está tão quentinho que me dá até um pouco de sono — murmurou Nanami-san.
— Sim... Mas está tudo bem relaxarmos assim?
Saya-chan nos olhou de soslaio. — Por que diabos não estaria? Vocês dois também deveriam descansar de vez em quando.
Nós três nos sentamos a contemplar as flores de cerejeira. As pétalas brancas tingidas de rosa pálido tinham um aspecto realmente encantador contra o céu azul límpido. Olhei para o meu pai e para o Genichiro-san, que se dispunham a acender a grelha com o carvão.
Eu nunca tinha ido acampar, então, logicamente, também nunca tinha feito um churrasco. Supunha que meu pai também não tivesse experiência, mas pelo visto eu estava enganado. Os dois pais prepararam a grelha e acenderam o carvão com uma sincronia impressionante. Embora eu tivesse me oferecido para ajudar, ambos pareciam decididos a fazer tudo sozinhos, então aceitei a vontade deles e continuei sentado, sentindo uma pontada de culpa.
Eles me disseram que, dado o tempo que havia passado desde a última vez que fizeram algo assim, queriam aproveitar a oportunidade para retomar a rotina. Ao que parece, costumavam fazer esse tipo de coisa com frequência quando eram mais jovens, então estavam empolgados.
Pessoalmente, eu queria que eles descansassem depois de terem planejado toda a viagem, mas quando percebi que estaria tirando a diversão deles, decidi deixar o fogo sob sua responsabilidade.
— Yoshin, Nanami-san, Saya-chan, o que vocês querem: chá ou suco? — perguntou minha mãe enquanto eu observava os pais.
Nanami-san e eu pedimos chá, enquanto Saya-chan escolheu suco. Enquanto bebíamos, suspirávamos e sentíamos-
O que é essa sensação?
Era como se o tempo passasse incrivelmente devagar. Nunca havia notado se o tempo sempre passava assim, tão lentamente, quando a gente se afastava da correria da vida cotidiana.De pé ao lado dos pais, as duas mães preparavam queijo e outros petiscos, arrumando-os em uma bandeja.
Quando será que tiveram tempo de comprar tudo isso?
Eu também me ofereci para ajudar, mas elas também recusaram, dizendo que queriam fazer tudo sozinhas. Na verdade, recusaram exatamente da mesma forma que os pais. Eu não tinha certeza, mas começava a pensar que era assim que os adultos se divertiam.
Quando terminamos nossas bebidas, Tomoko-san virou-se para nós.
— Vai levar um tempo até que a comida esteja pronta, então por que vocês três não vão dar um passeio? O tempo está ótimo, com certeza vai ser lindo.
Um passeio pelo parque, hein? Estava calor e o dia estava maravilhoso, o cenário perfeito para uma caminhada. Tomoko-san provavelmente estava tramando algo.
— Vamos, Nanami-san? — perguntei.
— Sim, parece ótimo. O que você diz, Saya?
— Acho que vou passar. Por que não vão sem mim? Com todas as atividades do clube me esgotando, vim na esperança de tirar ontem e hoje para descansar. Então, não vou fazer nada. Esta cadeira confortável não me deixa em paz. O Sr. Cadeira será meu namorado hoje.
Saya-chan sorriu calorosamente enquanto se recostava na cadeira. Tomou um gole de suco e pediu um pedaço de queijo para Tomoko, dando uma mordida, aparentemente contente. Ao ver Saya-chan tão relaxada, Nanami-san e eu sorrimos ironicamente e nos olhamos.
— Bem, então, vamos? — Nanami-san perguntou.
— Sim, vamos — eu disse, levantando-me e estendendo a mão para ela. Nanami-san sorriu suavemente e a aceitou com delicadeza.
Assim que estávamos ambos de pé, soltamos as mãos. Fizemos uma rápida reverência aos outros e saímos para dar uma volta pelo parque.
— Boa sorte — disse Saya-chan em voz baixa enquanto nos afastávamos.
Ao ouvi-la, virei-me e vi que ela nos sorria com carinho. Quando percebeu que eu a olhava, fez um sinal de "joinha" com o polegar. Retribuí o gesto, e ela me mostrou a língua.
Ela é uma menina tão boa.
— Aconteceu alguma coisa? — Nanami-san perguntou.
— Não, nada. Vamos dar uma olhada por aí?
Com isso, começamos a caminhar pelo parque. Ficamos com um pouco de vergonha de dar as mãos na frente dos outros, então mantivemos certa distância enquanto conversávamos.
— Talvez eles estejam fazendo demais por nós — eu disse, um pouco preocupado. Não eram apenas os nossos pais, até a Saya-chan parecia ter dado um passo atrás para nos deixar sozinhos. Estava tudo bem sermos tão mimados assim?
— Bem, eles planejaram tudo isso com antecedência e tenho certeza de que queriam cuidar de grande parte dos preparativos sozinhos. Para ser sincera, meu pai costuma ser assim — disse Nanami-san.
— Ah, é? Eu não tinha ideia de que meus pais gostavam desse tipo de coisa.
— Mas está tudo bem, não acha? Deveríamos aceitar a oferta e ser gratos. Além disso, assim podemos ficar sozinhos — Nanami-san entrelaçou o braço dela no meu. Ela parecia estar de muito bom humor hoje.
Naturalmente, não quis recusar. Aceitei o braço dela entre os meus. Como ela só tomou essa atitude quando já estávamos longe o suficiente para sairmos de vista, devia estar tão envergonhada quanto eu de fazer algo assim perto deles.
Faziam tempos desde a última vez que tínhamos andado de braços dados.
Continuamos caminhando pelo parque devagar, levando um tempo para nos acostumarmos. Além das cerejeiras, flores vermelhas e amarelas estavam em plena floração em ambos os lados da trilha. Uma brisa suave nos acompanhava, tornando nosso passeio incrivelmente agradável.
— Eu me pergunto como se chama aquela flor. É muito bonita — disse Nanami.
— Sim, você tem razão. Quer uma foto ao lado delas? — perguntei.
— Hum, ainda não. Podemos caminhar um pouco primeiro.
— Claro, pode ser.
Continuamos caminhando assim, nós dois sozinhos, pela trilha sob as cerejeiras, enquanto a grama refletia a luz do sol, sua cor viva a fazia parecer um tapete verde. As cerejeiras brancas e rosa-pálido que floresciam nos galhos das árvores sobre o gramado balançavam com o vento.
Eu me perguntava se essas árvores ficavam completamente cheias de flores no auge da estação. Se fosse o caso, deve ter sido um espetáculo impressionante. Ainda assim, esta vista de branco, rosa e verde misturados também era de tirar o fôlego.
Quando o vento soprava, os galhos ao nosso redor sussurravam, deixando cair uma chuva de pétalas à nossa volta. As pétalas rosas e brancas pareciam flocos de neve dançando com a brisa. O chão, coberto por elas, também era lindo, como se tivesse acumulado neve.
A brisa morna roçava suavemente nossas bochechas. Poder passear assim, tranquilamente, com a pessoa de quem você gosta, em um ambiente tão pacífico, era o paraíso.
— Isso é bonito, né? — Nanami-san perguntou, sorrindo suavemente. — Pode não ser um encontro típico de ensino médio, mas traz uma sensação suave e relaxante.
Parecia que ela sentia o mesmo que eu. Ela tinha razão em dizer que dar um passeio não parecia um encontro terrivelmente emocionante, mas um encontro assim não era nada mau de vez em quando. Afinal, estar agitado não era a única forma de ser um estudante do ensino médio.
Enquanto Nanami-san e eu continuávamos nossa conversa tranquila, chegamos a um caminho onde as cerejeiras de ambos os lados se estendiam sobre a trilha, criando um túnel. Estávamos cercados por flores de cerejeira, cujas pétalas caídas criavam desenhos brancos no chão.
— Uau, é incrível. Me pergunto se tudo aconteceu de forma natural — eu disse.
— Sim, é muito bonito. Vamos passar por ele? — Nanami-san sugeriu.
Atravessamos o túnel de flores de cerejeira. Sobre nós, havia um teto de branco e rosa-pálido. A queda das pétalas criava a ilusão de estarmos caminhando sobre neve quente. Diminuímos o passo para aproveitar melhor a vista.
— Quer que eu tire uma foto, Nanami-san?
— Sim, parece bom.
Ao ver uma paisagem tão bonita, fiquei com vontade de tirar uma foto dela. Por sorte, Nanami-san concordou, assentindo em silêncio à minha sugestão. Tiramos fotos um do outro e depois pedimos a uma família que passava por ali para tirar uma foto de nós dois juntos. Eles tiveram a gentileza de parar e nos atender e, em troca, eu também tirei uma foto deles. Depois de agradecer, seguimos nosso caminho.
Logo nos deparamos com um pequeno tanque cercado por uma grade. Ao redor do tanque cresciam ainda mais cerejeiras. As pétalas caídas cobriam a superfície da água como uma manta espessa. Um barco cruzava o tanque, as pétalas desapareciam à sua passagem, enquanto o barco deixava ondas na água. Assim que ele passava, as pétalas voltavam a cobrir a superfície.
— Uau, é um tanque bem grande. Me pergunto se há peixes nadando nele — disse Nanami.
— Hum, não sei.
Nanami-san soltou-se de mim e aproximou-se da grade. Então, inclinou-se sobre ela em direção ao tanque. Eu caminhava perto dela quando Nanami-san soltou um pequeno guincho.
Parecia que a grama sob seus pés estava molhada, porque Nanami-san escorregou e perdeu o equilíbrio. A grade que cercava o tanque era muito mais baixa que nós, o suficiente para que alguém pudesse cair por cima dela.
Ao perder o apoio, Nanami-san pendeu em direção à grade. Tomado pelo pânico, chamei-a pelo nome e puxei sua mão, trazendo-a para mim com toda a força possível. Puxei-a com tanta força que me preocupei em machucar seu braço, abraçando-a apertado contra o meu peito para que não caísse.
— Nanami-san, você está bem? É perigoso perto do tanque! Você tem que ter cuidado! — exclamei.
— Obrigada. Eu escorreguei e entrei em pânico, então...
Com sua pequena figura em meu abraço, pude sentir o calor do seu corpo contra o meu e notei que seus batimentos aceleravam. Os meus também estavam muito mais rápidos que antes, mas não era só porque eu tinha levado um susto. A resposta deveria ser óbvia, mas... eu alguma vez já a tinha abraçado assim?
Embora eu tivesse puxado Nanami-san no calor do momento, agora eu a abraçava apenas pelo calor do seu corpo. Sabendo que não poderia ficar assim para sempre, eu a soltei. O corpo dela se afastou do meu com naturalidade.
Logo percebi o que acontece quando duas pessoas se separam sem deixar de se abraçar completamente. Acabamos parados, ainda muito próximos um do outro, olhando-nos fixamente nos olhos.
Eu não sabia se era porque a tinha puxado de repente ou porque a estava encarando de tão perto. O que eu sabia era que meu coração batia ainda mais depressa do que momentos antes, tanto que chegava a doer.
Nanami-san corou. Seus olhos pareciam brilhar. Ficamos ali, hipnotizados pelo olhar um do outro, e...
— Mamãe, o que eles estão fazendo?
— Shh... Não os incomode. Vamos embora.
— O papai e a mamãe às vezes também ficam grudados assim. Você acha que eles também são papai e mamãe?
— Shh! Hora de encerrar o assunto, querido. Vamos.
Essas vozes nos devolveram a sanidade.
Sim, era de se esperar, não era? Estávamos em um parque cheio de famílias com crianças pequenas. Provavelmente deveríamos ter tido mais autocontrole. Depois que uma criança nos chamou de "papai e mamãe", Nanami-san e eu nos afastamos um pouco um do outro. Ficamos em silêncio, um pouco inquietos, mas não podíamos permanecer assim para sempre.
Lentamente, estendi a mão para ela, com o calor ainda queimando em minhas bochechas.
— Devemos voltar agora? — perguntei.
— S-Sim, vamos fazer isso. Provavelmente já estão todos prontos, né?
Após entrelaçarmos os braços, voltamos pelo caminho até o lugar onde os outros nos esperavam. No trajeto de volta, estivemos muito menos falantes do que antes.
— Ora, ora, olhem só para isso — disse Tomoko-san ao nos ver.
— Hmm, esse passeio curto a sós parece ter aproximado muito vocês. Bem pensado, Yoshin — disse minha mãe.
Raios, eu sabia que zombariam de nós, por isso planejava me soltar antes de voltar. Errei feio. As duas mães sorriram e nos deram dois polegares para cima.
— Bem-vindos de volta, pessoal — chamou Saya-chan. — Começamos sem vocês. Esta carne está divina! Vou comer tudo sozinha.
Ela estava devorando a carne que os pais tinham grelhado, enquanto mordiscava um bolinho de arroz. Minha mãe até estava dando carne na boca da Saya-chan. Essas duas ficaram muito amigas.
Sei que isso é óbvio, mas a Saya-chan era realmente a irmã caçula da Nanami-san. Ela, assim como a Nanami-san, era muito boa em se dar bem com as pessoas. Era o completo oposto de mim.
Genichiro-san e meu pai estavam assando carne para si mesmos e gritavam:
— Um brinde ao casal feliz!
Eles estavam bêbados? Não. Não tínhamos trazido bebidas alcoólicas, então deviam estar apenas muito empolgados. Acho que nunca vi meu pai agir assim.
— Sentem-se, vocês dois. Devem estar famintos. Vamos assar mais carne, então comam à vontade.
Da grelha subia um aroma delicioso de carne bovina, cordeiro e porco marinados, além de salsichas, acompanhado de um chiado que fazia salivar. As cebolas, cenouras e outros vegetais exibiam as marcas perfeitas da grelha. Na mesa, havia uma salada de tomate, muçarela e frango, além de petiscos como queijos e biscoitos salgados. Tinha até doces, como frutas e marshmallows.
Será que foram às compras ontem, quando saímos por conta própria?
— Oh, eu adoro esses.
Nanami-san, pegando um biscoito da mesa e comendo-o de uma vez. Depois, deu um para mim também.
— Toma, Yoshin. Experimenta.
Havia queijo e uma fatia de maçã sobre o biscoito, com xarope regado por cima. Quando levei à boca, o sabor salgado do queijo, a acidez da maçã e o adocicado do xarope se fundiram e se espalharam por toda a minha língua.
— Uau, isso está muito bom. Tem gosto de sobremesa. Pergunto-me se é um petisco para quando se bebe álcool.
— Sim, o papai adora comê-los quando toma algo em casa, mas realmente tem gosto de sobremesa, né?
— Aqui, vocês dois — chamou Tomoko-san. — A carne daqui está pronta. Também há bebidas, então peguem o que quiserem. Ah, mas não se preocupem, não há álcool, especialmente para a Nanami, dado o histórico dela.
— Mamãe! Não toca nesse assunto! E eu não beberia álcool, mesmo que tivesse!
— Obrigado, Tomoko-san. Parece delicioso — eu disse.
Peguei o prato de carne grelhada da Tomoko e comecei a dividi-lo com a Nanami. Talvez porque, ao assar, todo o excesso de gordura tivesse escorrido, ou por causa do aroma do carvão, a carne tinha um gosto diferente de quando é cozida normalmente em uma frigideira. Além disso, a salsicha era recheada com queijo, quase queimei a língua com o calor ao mordê-la.
Apesar da língua queimada, tudo estava delicioso. O fato de estarmos comendo sob um céu azul também deve ter ajudado a realçar os sabores.
— Está bom, não é? — perguntou Nanami-san. — Oh, qual bolinho de arroz você quer? Tem de atum, salmão ou kombu.
— O de kombu, então, por favor.
Quando mordi o bolinho de arroz que ela me deu, descobri que complementava perfeitamente a carne. Aproveitei a refeição mais do que o esperado, absorto nela, talvez por causa do passeio.
Comer juntos sob o céu aberto, conversar e nos divertir teria sido impensável para o eremita que eu era antes.
Com a barriga cheia, Nanami-san e eu nos deitamos um ao lado do outro na toalha de piquenique. Foi então que percebi que ela tinha pétalas de flores presas no cabelo e no rosto. Enquanto as tirava com cuidado, Nanami e eu nos olhamos e sorrimos. Estávamos em nosso próprio mundo, completamente em silêncio em meio à conversa dos outros.
Aproveitando o calor suave do sol, esquecemos a passagem do tempo e nos limitamos a apreciar as flores. Nanami-san e eu ficamos ali deitados, contemplando as cerejeiras enquanto suas pétalas caíam ao nosso redor, enquanto os demais também aproveitavam à sua maneira.
Os pais conversavam, e as mães também. Pareciam desfrutar da companhia mútua até mais do que das flores. As conversas de ambos eram papos de adultos e não podíamos participar, nem queríamos. Me perguntei se algum dia eu também teria uma conversa assim.
Enquanto eu pensava no futuro, ouvi a respiração suave da Nanami-san. Parecia que ela tinha pegado no sono sob o calor da luz do sol. Todas as atividades do dia deviam tê-la esgotado. Tirei minha jaqueta e a cobri antes de me sentar novamente.
Sei que meu telefone está com pouca bateria, mas talvez eu devesse atualizar o Baron-san.
Eu me sentiria mal acordando a Nanami-san. Ah, mas também quero tirar uma foto...
Justo quando estava pensando no que fazer, vi uma sombra se projetando sobre mim. Ela parou na minha frente enquanto minha câmera disparava, fazendo o ruído do obturador.
Essa sombra pertencia à Saya-chan.
Saya-chan olhou para a Nanami-san e depois, com seus olhos felinos idênticos aos dela, olhou para mim e sorriu.
— Ei, onii-chan, quer conversar um pouco? Sabe, porque nunca conversamos de verdade, só nós dois.
Fiquei um pouco desconcertado com a proposta repentina dela. Era verdade que eu e a Saya-chan nunca tínhamos tido a oportunidade de falar cara a cara, sozinhos, embora tecnicamente a Nanami-san estivesse dormindo ao nosso lado agora mesmo.
— Oh, não me olhe assim. Não pretendo te fazer perguntas estranhas nem nada do tipo. Só quero saber da minha irmã — disse ela.
— Quando ouço você me chamando de "onii-chan", acho estranho. Sou filho único, então meus parentes também nunca me chamaram assim — eu disse.
— Isso realmente te incomoda?
— Oh, não. Não é isso. Fui eu quem disse que você podia me chamar assim, embora eu me pergunte por que você quis me chamar assim, para começar.
— Hmm. Suponho que te chamo assim porque tenho quase certeza de que, algum dia, você vai se casar com a minha irmã.
Uau, que declaração. Casamento, hein? Genichiro-san e Tomoko-san mencionaram algo assim antes também. As pessoas desta família não estão correndo um pouco demais? Bem, talvez meus pais também. É como se os muros ao meu redor estivessem subindo na velocidade do raio, me impedindo de sair.
Senti que cavaria um buraco ainda mais fundo se continuasse com o assunto, então decidi deixar para lá. Essa era uma daquelas situações em que você acaba se enrolando não importa como tente abordar.
— O que você queria ouvir sobre a Nanami-san? — perguntei.
— Hmm. Bem, acho que tem muita coisa, mas para começar: o que você mais gosta nela?
Sem estar preparado para a pergunta, comecei a suar e meu coração deu um salto.
Embora a Nanami-san estivesse dormindo, não era uma pergunta fácil de responder com ela deitada bem ali ao nosso lado. Além disso, eu me sentia mais envergonhado com a ideia de ela ouvir minha resposta através de outra pessoa, embora admitir isso diretamente para ela também fosse ser bem embaraçoso.
— O que você vai fazer se eu te disser? — questionei.
— Bem, eu ouço muito da onee-chan sobre o que ela gosta em você, mas percebi que nunca ouvi nada vindo de você antes.
Sobre o que diabos você fala quando não estou por perto, Nanami-san?, me perguntei. Comecei a me sentir ainda mais envergonhado, mas Saya-chan continuava me encarando, com os olhos brilhando de expectativa.
O que eu gosto nela... O que eu gosto nela, hein? Agora que alguém tinha me feito a pergunta, percebi que nunca tinha parado para pensar profundamente sobre isso. Na verdade, sentia que havia tantas coisas que eu gostava nela que não conseguia escolher uma favorita.
— São os peitos grandes dela? — sugeriu Saya-chan, levantando os próprios seios com as duas mãos.
— Não — declarei. — Quero dizer, não é que eu não goste. Só acho que as garotas não deveriam sair dizendo coisas como "peitos" por aí.
— Céus, até você diz a mesma coisa que os meus amigos.
Se você diz isso fazendo um gesto desses, é claro que sim. Se ela também fizesse esse tipo de coisa na escola, os garotos estariam ferrados com todo tipo de momento embaraçoso. Enquanto a repreendia, tentei refletir sobre a pergunta dela.
O que eu gosto nela... O que eu gosto nela...
Eu gostava do quanto ela era carinhosa, fazia bento para mim e me dava aulas. Gostava do quanto ela era adorável, de como às vezes era direta comigo, mas depois ficava vermelha quando provava do próprio veneno. Gostava do quanto ela era generosa, o quão compreensiva era com as coisas que eu gostava e como tentava compartilhá-las comigo. Gostava do quanto ela era comprometida, que continuava gostando de mim apesar de todas essas coisas. Isso, claro, supondo que ela gostasse de mim. Mas, acima de tudo, eu gostava do quanto ela era atenciosa e gentil, sempre pensando em mim antes de qualquer outra pessoa.
Uma vez que comecei, não consegui parar. Mas se eu tivesse que escolher uma única coisa...
— Eu gosto do quão encantadora ela é — eu disse.
— Você se refere à aparência dela? — perguntou Saya-chan.
— Não, mais para a personalidade dela, como o fato de ser carinhosa e generosa, e como às vezes ela se autossabota e fica vermelha. Acho que todas essas coisas gentis nela a tornam a pessoa encantadora que ela é.
— É, ela é realmente gentil, não é? Nesse sentido, você é perfeito para ela. Nunca vi ninguém tão gentil quanto você — disse Saya-chan.
Eu não fazia ideia de que a Saya-chan pensava isso de mim. Embora me sentisse honrado, também fiquei um pouco envergonhado. Será que aquela era uma resposta boa o suficiente para satisfazê-la?
No entanto, meu alívio durou pouco. Saya-chan me olhou com um sorriso provocador que lembrava muito o da Nanami-san e perguntou:
— E? O que você mais gosta na aparência dela?
Oooh, a aparência, hein? Que pergunta difícil de responder. Sentia que qualquer resposta que eu desse acabaria incomodando alguém. Ela realmente queria saber?
— São os peitos dela? — sugeriu Saya-chan novamente.
— Por que você insiste tanto nos peitos dela? O que você quer que eu diga?
— Os garotos da escola sempre dizem "As garotas têm que ter peitos grandes". Eu me perguntava se todos os garotos gostavam. Os peitos da Onee-chan são mega gigantes- Quero dizer, super macios. São incríveis!
Certo…
Tendo experimentado um pouco disso eu mesmo, não sabia como responder.
Não, eu não os toquei…
Eles só tinham sido pressionados contra mim, isso era tudo. Tinham sido pressionados contra mim por acidente. Eu conseguia entender que os alunos do ensino fundamental não conseguissem evitar olhar ou pensar em seios.
Mas eu…
Quando Saya-chan me perguntou do que eu gostava na aparência da Nanami-san, a primeira coisa em que pensei não tinham sido os peitos dela.
— Eu diria... os olhos dela. Nanami-san tem olhos lindos.
— Os olhos dela? Nem os peitos, nem a bunda, mas os olhos? Onii-chan, com certeza você tem um fetiche estranho.
— Onde você aprendeu uma palavra como essa? Não, não é um "fetiche". É só que os olhos dela... Você não acha que são bonitos?
Quanto mais eu pensava nisso, mais percebia o quanto gostava que a Nanami-san me olhasse com seus grandes olhos como joias. Às vezes vacilavam pela ansiedade, mas quando me olhava com tanta doçura, sempre sentia meu coração se acender.
— Os olhos dela, hein? Entendo. É uma resposta inesperada — murmurou Saya-chan. Ela cruzou os braços, como se estivesse imersa em seus pensamentos.
Eu estava bastante certo de que não tinha dito nada estranho, mas, de algum modo, continuava me sentindo nervoso, como se estivesse sendo julgado. Saya-chan desviou o olhar de mim e olhou para a Nanami-san.
— Não é genial, onee-chan? O Onii-chan está totalmente apaixonado por você — disse Saya-chan para ela.
Com isso, Nanami-san, que eu acreditava estar dormindo, estremeceu ligeiramente.
Eh? Espera, ela estava acordada?
Com o rosto vermelho, Nanami-san sentou-se lentamente e fulminou Saya-chan com o olhar.
— Saaayaaa, o que foi tudo aquilo? Eu estava tão envergonhada que não conseguia me mexer.
Perguntando-me o quanto ela tinha ouvido, corei de vergonha, incapaz de olhar nos olhos da Nanami-san. Saya-chan sorria alegremente enquanto nos observava.
— Bem, sabe, eu me perguntava por que minha irmã, que era tão desajeitada com garotos, de alguma forma era capaz de namorar você, mas agora sinto que entendo. Acho que é porque é assim que você se sente confortável com ele.
— É isso mesmo, é por ser o Yoshin que estou bem. Não me faça dizer isso. É vergonhoso.
Saya-chan, com um sorriso idêntico ao de sua mãe, olhava satisfeita para a irmã mais velha. No entanto, a troca de palavras delas era realmente embaraçosa.
Saya-chan voltou-se para mim e, acomodando-se para sentar sobre os calcanhares, inclinou a cabeça.
— Por favor, cuide bem da minha irmã, Yoshin-san — disse ela.
Aquelas palavras simples pareciam transbordar os sentimentos de Saya-chan pela irmã. Estava claro que ela amava a Nanami-san, e devia ser por isso que aproveitou a oportunidade para me interrogar. Talvez, no fundo, ela estivesse atormentada pela preocupação e ansiedade.
— Sim. Com certeza farei isso — respondi, sentando-me também sobre os calcanhares e endireitando a postura para retribuir a reverência.
Talvez isso tivesse nos ajudado a resolver algumas coisas e a derrubar o muro que parecia existir entre nós. Quando ambos levantamos a cabeça ao mesmo tempo, Saya-chan esboçou um sorriso muito mais condizente com a sua idade e se aproximou de mim.
— Nesse caso, você pode me apresentar um garoto bonito da sua escola? Ver você e a Nanami juntos me faz querer um namorado, mas não tem ninguém da minha idade que pareça tão legal.
Uau, que rápido!
De repente, a aura séria da Saya-chan desapareceu, ela voltou a ser a inocente menina do ensino fundamental que era.
— Te apresentar alguém? Na verdade, eu não tenho amigos o suficiente para te apresentar a ninguém — eu disse.
— Sério? Você diz e faz tudo isso para a minha irmã e, mesmo assim, não tem tantos amigos? Nossa, você é mesmo um homem de extremos.
Tentei procurar algumas fotos no meu telefone, mas as únicas imagens que havia no meu álbum eram capturas de tela de jogos ou fotos que tirei depois de começar a namorar a Nanami-san. Ou, para ser mais específico, na verdade eu só tinha fotos da Nanami-san. A única foto de um garoto que eu tinha no celular era do Shibetsu-senpai.
Espera... Shibetsu-senpai, hein?
— Oh, uau! Ele é super bonito! E é super alto! Olha o quanto ele é mais alto que você.
Saya-chan, que tinha se aproximado sorrateiramente por trás de mim, olhava empolgada para a foto do Shibetsu-senpai.
Eu sabia que as garotas da nossa escola já pensavam isso, mas pelo visto até a Saya-chan pensa assim, hein?
Ouvi-la dizer isso reafirmou esse fato. Acho que, nas últimas semanas, minha impressão do senpai tinha mudado para a de um estudante muito divertido.
— Sim, ele é. O Shibetsu-senpai é bonito e tudo mais, mas...
— Oh, ele é o cara que minha irmã deu um fora porque ele não parava de olhar para os peitos dela? Ah, então ele é assim.
Saya-chan expressou minha preocupação antes mesmo que eu pudesse falar. Quando olhei para a Nanami-san, ela estava com a língua de fora e uma expressão preocupada. Imaginei que ela já tivesse falado dele para a irmã.
— Hmm, meus peitos não são tão grandes quanto os da onee-chan, então talvez não funcione. Mas, se ele se confessou para ela, talvez eu também tenha uma chance. Ei, onii-chan, na próxima vez que nos virmos, apresente-o para mim, ok?
— Quero dizer, se é isso que você quer, por mim tudo bem, mas...
Olhei novamente para a Nanami-san. Ela parecia tão perplexa quanto eu. Imaginei que a ideia de apresentar a própria irmã mais nova para um cara que já tinha se confessado para ela a deixasse um pouco confusa. Embora, tecnicamente, fosse eu quem teria que fazer as apresentações. Ainda assim, parecia uma tarefa difícil.
— Hum, eu já te disse antes, mas o senpai não conseguia tirar os olhos do meu peito. Tem certeza disso, Saya? Ele não é uma pessoa ruim, mas... Eu também percebo que o mal-interpretei no início, e que ele realmente é uma boa pessoa, mas...
— Oh, uau. Você está elogiando alguém que não é o onii-chan. Isso é raro. Ele deve ser uma pessoa muito boa mesmo. — disse Saya-chan
Como ela apontou, a avaliação que a Nanami-san fazia do senpai tinha melhorado ligeiramente.
Sim, ele era definitivamente uma boa pessoa, mas a questão era se seria apropriado apresentar uma irmã mais nova a alguém que a irmã mais velha já tinha rejeitado.
Isso não soa muito certo, não é?
Pelo menos, era o que eu e a Nanami-san pensávamos, mas parecia que a Saya-chan não via problema nenhum nisso. Ela parecia desconcertada diante das minhas dúvidas e das da Nanami-san.
— Do que vocês estão falando? Não importa a idade que tenham, os garotos sempre vão gostar de peitos. É perfeitamente normal que fiquem olhando para peitos grandes. Além disso, não é como se fôssemos começar a namorar imediatamente, você só vai me apresentar. Eu só quero saber como ele é, só isso.
Tanto a Nanami quanto eu ficamos atônitos.
Essa menina era mais madura do que a idade dela sugeria? Ela era uma estudante do ensino fundamental, não era? Será que os alunos de hoje em dia realmente pensavam assim?
Pensando bem, a Peach-san também era estudante e dizia muitas coisas maduras ou talvez a Saya-chan fosse apenas parecida com a Tomoko-san em termos de personalidade. Talvez essa fosse a melhor forma de encarar as coisas.
— Além disso, onee-chan, você esqueceu? Eu estou na equipe de dança. Uma dançarina não pode reclamar de ser olhada. Embora, talvez com o seu tamanho, fique um pouco difícil dançar.
— Isso foi assédio vindo da minha própria irmãzinha?! — Nanami-san deu um guincho.
Saya-chan prosseguiu agarrando os seios da Nanami-san e apalpando-os como se os estivesse examinando. Imediatamente desviei o olhar, achando melhor não ver aquilo, mas então...
— Ei! Saya, o que-Para!
Quando me virei ,ou talvez porque me virei, os gritos de protesto de Nanami-san tornaram-se mais fortes. Ouvi o roçar dos tecidos enquanto ela começava a gritar cada vez mais alto.
O que diabos vocês estão fazendo?!
Minha imaginação voava ainda mais longe porque eu não conseguia ver o que estava acontecendo e, mesmo assim, não podia me virar.
Você tem que aguentar, Yoshin. Ou melhor, pare, Yoshin!
A estranha interação entre as duas irmãs continuou por um breve momento, mas então um som surdo ecoou no ar.
— Aaaaai!
— A culpa é sua!
Quando finalmente me virei, vi uma Saya-chan com os olhos marejados segurando a cabeça, enquanto Nanami-san estava de pé com a mão em punho e uma expressão de raiva no rosto. Eu tinha certeza de que nunca tinha visto a Nanami brava assim, então guardei aquela imagem na memória. Ao mesmo tempo, eu estava assombrado ao ver as duas irmãs agindo daquela forma.
Quando Nanami-san percebeu meu olhar, escondeu rapidamente o punho atrás das costas e sorriu sem jeito, tentando ocultar sua vergonha. Na realidade, ela não precisava esconder nada de mim.
Parecia que eu tinha sido testemunha de uma faceta oculta dela ou talvez Nanami-san se sentisse mais à vontade por estar com a irmã. Não conseguia julgar com certeza, mas com certeza não pensava mal da Nanami por isso. Me perguntei se eu também agiria assim se tivesse irmãos.
— Heeeeey, a onee-chan me bateu! Eu só agarrei os peitos dela e dei uma apertadinha de leve!
Isso não foi "de leve", foi?
Eu sou totalmente contra a violência, mas ela tinha procurado por isso. Quando Saya-chan estendeu os braços em minha direção e se aproximou, Nanami-san mostrou o punho novamente e fez outra cara de brava. No entanto, justo quando as mãos estendidas da Saya-chan estavam prestes a me tocar, segurei-a pelos ombros e a detive. Subitamente parada, Saya-chan inclinou a cabeça. Nanami-san fez o mesmo.
— Saya-chan, o fato de você ser do mesmo sexo não significa que não seja assédio. Você precisa ter cuidado — eu disse.
— Wooow. Eu tinha quase certeza de que você não estaria do meu lado nessa, mas isso não era nem de longe o que eu esperava ouvir — Saya-chan suspirou, com um sorriso tenso enquanto me encarava. Nanami-san também sorria ironicamente. Eu apenas tinha repetido algo que aprendi com o Baron-san, e tinha certeza de que era verdade, embora provavelmente não fosse o foco de tudo aquilo.
— Booooo. Você está sempre do lado da onee-chan — reclamou Saya-chan.
— Bem, é claro. Afinal, eu sou o namorado dela. Na verdade, se eu estivesse do seu lado, teríamos um problema bem maior — respondi.
— A lógica também pode machucar as pessoas, sabia? Buááá! — murmurou Saya-chan, desabando e fingindo chorar enquanto soltava a frase como se estivesse lendo um roteiro. Ao ouvir o comentário dela, Nanami e eu nos olhamos e caímos na risada. Saya-chan nos olhou com estranheza, mas não conseguimos evitar. Era algo que só eu e a Nanami-san sabíamos: o que a Saya-chan disse era exatamente o que o Shibetsu-senpai tinha nos dito uma vez. Nós dois rimos da coincidência improvável. Embora Saya-chan tenha nos olhado com dúvida no início, ela também acabou rindo.
E o tempo maravilhoso que estávamos passando voou em um piscar de olhos. Quando nos demos conta, já era hora de voltar para casa. Foi uma pena, mas não havia o que fazer, pois tudo chega ao fim. Poderíamos até dizer que aproveitamos tanto justamente por sabermos que acabaria.
— Que tal irmos todos acampar na praia quando o verão chegar? — perguntou Genichiro-san no caminho de volta. — Vai ser divertido, e você poderá ver a Nanami de biquíni!
— Praia? Parece ótimo! Onii-chan, trate de me apresentar aquele senpai antes disso, ok? — acrescentou Saya-chan.
Você não disse que não gostava de acampar?
No entanto, meus pais não demoraram a aceitar a ideia. Na verdade, já estavam fazendo planos. Eles realmente agiam rápido.
A praia, hein?
Lancei um olhar furtivo para Nanami-san, que percebeu que eu a observava.
— Acampar vai ser divertido, né?
Ela me sorriu. No entanto, quando o fez, foi a minha vez de esboçar um sorriso tenso.
— O que foi? — perguntou ela.
— Oh, bem... na verdade, isso é meio embaraçoso, mas... eu não sei nadar — confessei.
— Ah, uau. Sério? Então eu te ensino. Sou muito boa nisso! — Nanami-san cerrou o punho com confiança.
Logo depois, porém, ela desviou o olhar, como se estivesse contemplando algo. Corou um pouco e perguntou em voz baixa, apenas para que eu ouvisse:
— De que tipo de biquíni você gosta, Yoshin? Gosta de biquínis cavados? Talvez você possa vir comigo comprar um novo.
Biquíni?!
Imediatamente a imaginei usando um e, ao mesmo tempo, fiquei muito preocupado com a força destrutiva de tal visão. Era totalmente absurdo.
— Nanami-san, não vá a lugar nenhum sem mim na praia, ok? Ah, e com certeza você terá que usar um moletom com capuz ou algo assim. Se for tirá-lo, só pode ser na minha frente, tá bom?
Diante da minha enxurrada de pedidos, Nanami-san pareceu um tanto confusa, mas logo me sorriu suavemente.
— Céus, meu namorado é tão ciumento. Não se preocupe, eu não vou a lugar nenhum sem você.
— É claro que vou me preocupar. Você é minha preciosa namorada.
Nós dois rimos e continuamos nosso caminho para casa enquanto conversávamos sobre as coisas que ainda estavam por vir.
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