Volume 2

Interlúdio 3: NA CASA DOS BARATOS…

Enquanto Yoshin e Nanami estavam no encontro, três mulheres se reuniram na casa dos Baratos. Havia um total de três mulheres presentes: a mãe de Nanami, Tomoko, e as duas amigas de Nanami, Hatsumi Otofuke e Ayumi Kamoenai.

As duas amigas estavam sentadas em frente à mãe. Em contraste com o sorriso no rosto de Tomoko, porém, os sorrisos de Hatsumi e Ayumi pareciam tensos e um pouco forçados. Suas expressões indicavam com clareza o quanto elas temiam a mulher à sua frente. 

— Agora, Hatsumi-chan, Ayumi-chan, vocês podem me explicar como essa aposta surgiu?

Embora Tomoko falasse com um sorriso elegante, suas palavras eram acompanhadas por um tipo de pressão que não deixava às duas meninas outra escolha a não ser falar.

Como um sorriso normal de uma dona de casa poderia inspirar tanto medo? 

As duas meninas mantiveram seus sorrisos forçados estampados nos rostos enquanto bebiam lentamente seu chá. Suas gargantas secas não permitiriam pronunciar nenhuma palavra. Apesar da pressão incompreensível, Hatsumi falou primeiro. Qualquer pessoa que a conhecesse ficaria surpresa com o quão tímida ela parecia.

— Bem, veja, Tomoko-san, nós… hm… tivemos nossos motivos, haha...

— Ah, não. Você está zangada com a gente, Tomoko-san? — perguntou Ayumi, com o tom mais leve que conseguiu. 

Mas, mesmo respondendo como se estivessem tentando avaliar a situação, as duas já sabiam que ela estava chateada. No momento em que começaram a falar, a atmosfera opressiva que ela exalava aumentou exponencialmente. Como praticante de artes marciais, Hatsumi sabia que aquele tipo de força não era a aura de uma dona de casa qualquer. Ela engoliu em seco enquanto o sangue drenava de seu rosto. 

Hatsumi conhecia a família Barato desde que começou a pré-escola. Ayumi as conhecia desde o ensino fundamental. Por causa disso, elas tinham construído um relacionamento suficiente com Tomoko para saber, apenas pelo seu sorriso, que ela estava zangada. 

Tomoko era a querida e doce mãe de sua amiga Nanami. Alguém que normalmente era tranquila, alguém com quem as meninas podiam conversar como uma amiga. Esse era o tipo de pessoa que Tomoko era, por isso Hatsumi e Ayumi trocaram seus contatos com ela.

Elas até conversavam com ela sobre coisas que não podiam conversar com seus próprios pais, no entanto, essa era a primeira vez que elas tinham sido convidadas para a casa dos Baratos sabendo que seriam repreendidas. 

Fugir não é uma opção. 

A raiva de Tomoko ainda estava em seu estágio inicial. Enquanto ela estivesse sorrindo, havia uma chance de elas saírem vivas dessa situação. Para isso, as duas meninas decidiram começar pedindo desculpas. 

Naquele momento, porém, a aura opressiva de Tomoko desapareceu como uma nuvem de fumaça, como se nunca tivesse existido. Liberadas da intimidação, as meninas viram apenas a Tomoko de sempre, sorrindo para elas como sempre fazia. 

— Desculpem, não queria assustá-las. Só achei que essa era a oportunidade perfeita para ouvir o lado da história de vocês. — disse ela. 

— Entendo… —  respondeu Hatsumi, enquanto as duas garotas suspiravam de alívio.

— Então, por que você fez Nanami... Quero dizer, por que você escolheu Yoshin-kun para ser o garoto a quem Nanami se declarou no desafio? — perguntou Tomoko. 

Perfuradas por seu olhar penetrante, as duas garotas congelaram com a pergunta. 

Tomoko realmente só queria perguntar uma coisa, que não tinha necessariamente a ver com o desafio. Ela só queria saber por que as duas escolheram Yoshin. Sua curiosidade a levou a enviar uma mensagem para as duas sem contar à filha. 

As duas garotas suspiraram em uníssono. Como elas foram convidadas para vir aqui enquanto Nanami estava no encontro, Tomoko já devia saber de tudo. Conhecendo-a há muito tempo, elas sabiam que ela era perspicaz, mas isso foi além das expectativas delas. 

Hatsumi e Ayumi se entreolharam e assentiram. Elas sabiam que precisavam explicar tudo para Tomoko. 

— Nós entendemos. — disse Hatsumi — Você provavelmente já descobriu tudo, mas nossa escolha por Misumai não foi coincidência.

Ayumi assentiu.

— É totalmente verdade. Achamos que, se o escolhêssemos, poderíamos deixar Nanami nas mãos dele. Nós meio que apostamos nisso.

Agora era a vez de Tomoko ficar surpresa. Embora a resposta delas fosse a que ela esperava, descobrir que estava certa a surpreendeu. 

— Você está dizendo que, muito antes de tudo isso, vocês já estavam procurando alguém para Nanami se declarar? — perguntou Tomoko.

— Bem, para ser mais precisa, Misumai foi apenas o primeiro dos candidatos em potencial, e esse primeiro acabou sendo uma ótima combinação para Nanami. — respondeu Hatsumi. 

As duas garotas pegaram seus celulares e abriram um aplicativo. Era um aplicativo simples de agenda de endereços, como em muitos telefones, exceto que essas duas garotas não estavam usando o aplicativo da maneira que garotas normais do ensino médio usariam. 

Quando as duas mostraram seus telefones para Tomoko, ela viu que os aplicativos exibiam vários nomes masculinos, cada um acompanhado de um perfil aproximado do indivíduo. 

— Nossa. Vocês duas estão agindo como duas pequenas detetives. — disse Tomoko.

Mesmo testemunhando o que as duas estavam fazendo, Tomoko não pareceu nem um pouco surpresa. Na verdade, ela parecia ter percebido tudo com antecedência. Ela suspirou como se estivesse resignada com a situação. 

As duas meninas, que esperavam poder surpreender Tomoko um pouco, viram sua reação e sorriram ironicamente. 

— Somos amigas da Nanami desde pequena, — explicou Hatsumi — mas depois disso, cada uma de nós tem seus próprios sonhos. Não poderemos ficar com ela depois que nos formarmos.

Ayumi parecia preocupada.

— É verdade. Estávamos muito preocupadas com o que aconteceria com a Nanami quando ela fosse para a universidade. Sei que estamos sendo um pouco superprotetoras, mas estávamos nervosas sobre se seríamos capazes de deixá-la ir sozinha.

Agora eram os lábios de Tomoko que se curvavam, em um sorriso irônico, a ideia delas serem mais superprotetoras do que a própria mãe deve tê-la divertido. Sem esperar por sua resposta, as duas garotas continuaram. 

— Por isso, recorremos à nossa rede de amigas para ver que tipo de rapazes havia por aí. — disse Hatsumi — Estávamos procurando alguém da nossa série, que pudesse proteger Nanami em nosso lugar.

Era por isso que Hatsumi e Ayumi se comportavam daquela maneira para chegarem ao topo do sistema de castas da escola. Elas fizeram muitos amigos para poderem estar no centro das atividades da turma, mas tiveram o cuidado de não se envolver em coisas como bullying. Mesmo enquanto descobriam podres sobre os garotos de outras turmas, elas faziam isso na forma de “conversa de garotas” para evitar parecer suspeitas. Elas começaram a realizar essas tarefas assim que entraram no ensino médio. 

Até mesmo a moda gyaru fazia parte do plano. Era bonita e elas se interessavam por ela, mas achavam que era uma ferramenta vital para ajudá-las a subir na popularidade. Por isso, fizeram até mesmo Nanami, que não era boa com garotos, se vestir como uma gyaru junto com elas. Não a teriam forçado se ela resistisse, mas, para a sorte delas, Nanami também gostava de se vestir assim. Além disso, ficava ótima com essas roupas. 

E, finalmente, depois de muita pesquisa e análise, elas decidiram que, entre os garotos da turma, o mais adequado para Nanami era Yoshin Misumai. Não era apenas que as pessoas o viam como desinteressado em garotas, ele parecia rejeitá-las completamente. As duas garotas achavam que isso o tornava a pessoa perfeita para ajudar Nanami a se acostumar mais com os garotos. 

Havia apenas uma coisa com a qual elas não tinham contado.

— Não esperávamos que Misumai fosse tão proativo ou do tipo que faria qualquer coisa por ela. — disse Hatsumi — Foi uma surpresa totalmente agradável e nós achávamos que tínhamos escolhido o cara mais quieto da turma.

— É, sério. — concordou Ayumi — Achamos que ele era quieto e que seria perfeito para Nanami, mas quem diria que ela se apaixonaria por ele? Nossa, não temos como agradecer o suficiente a Misumai.

De certa forma, as duas conseguiram realizar o que se propuseram a fazer, mas pesquisar todos os garotos da turma deve ter sido uma tarefa e tanto — uma tarefa que elas mencionaram como se não fosse grande coisa. Mas, no final, elas fizeram tudo isso pela Nanami.

— Eu entendo que vocês duas passaram por todo esse trabalho, mas por que fariam tanto por ela? — perguntou Tomoko.

Ela suspirou e sorriu para elas, perplexa e grata. A resposta delas, porém, foi simples. 

— É fácil… nós amamos Nanami! — respondeu Hatsumi. 

— Sim, sim. Além disso, é graças a Nanami que nós duas conseguimos namorar nossos atuais namorados. — disse Ayumi. 

Por causa da gratidão que sentiam por ela, tudo o que fizeram foi motivado pelo desejo de ver Nanami feliz. 

Uma das coisas com que elas não contavam quando começaram a usar a moda gyaru era o fato de que Nanami se tornaria tão popular no colégio. Os garotos ao redor delas frequentemente se declaravam para ela, mas nem mesmo Nanami sabia que suas amigas ficavam secretamente de prontidão durante todas essas declarações, prontas para intervir se algo estranho acontecesse. 

As duas amigas agora acreditavam que o papel de fazer Nanami feliz havia sido passado com sucesso para Yoshin, que o papel delas havia chegado ao fim com sucesso. É claro que elas ajudariam se o casal encontrasse algum problema, mas as meninas acreditavam que tudo ficaria bem daqui em diante que podiam confiar em seu colega de classe introvertido, mas muito proativo. 

— Entendo. Obrigada a vocês duas por se preocuparem tanto com nossa filha. — disse Tomoko. 

As meninas não perceberam que ela se aproximara delas, mas agora ela estava na distância certa para se inclinar e dar a ambas um abraço gentil. O abraço de Tomoko era suave e caloroso e, de alguma forma, tinha um cheiro reconfortante. As meninas ficaram aliviadas ao pensar que haviam sido perdoadas. 

No entanto, essa sensação de alívio durou apenas um momento.

— Mas vocês ainda precisam assumir a responsabilidade pelo que fizeram.

As palavras de Tomoko ecoaram em seus ouvidos. Mesmo sentindo o calor do abraço, um arrepio percorreu suas espinhas.

— Como vocês acham que eu soube do desafio? — perguntou Tomoko.

Enquanto as duas refletiam sobre a pergunta, Tomoko continuou.

— Nanami não me contou, mas estava agindo de forma estranha. Quando perguntei a ela sobre isso, descobri que meu palpite estava certo.

Ainda presas no abraço de Tomoko, as duas garotas tremeram. Olhando para ela sem conseguir nem virar a cabeça, elas se perguntaram sobre a intuição da mulher. Mas o que Tomoko disse a seguir as fez tremer ainda mais.

— Nanami decidiu contar a verdade para Yoshin-kun no aniversário de um mês deles.

Embora as duas garotas sentissem seus corações começarem a congelar, elas continuaram ouvindo em silêncio. Elas não conseguiam dizer nada. Mesmo que inúmeros pensamentos fossem e viessem de suas mentes, elas entenderam que não tinham mais o direito de impedir sua amiga. 

— Tudo ficará bem, já que estamos falando do Yoshin-kun, ele a aceitará de qualquer maneira. Mas, não importa como as coisas acabem, quero que vocês duas peçam desculpas ao Yoshin-kun.

As meninas simplesmente não podiam recusar aquelas palavras silenciosas e tão profundas quanto o oceano. Além disso, elas concordaram.

— Você está certa. — disse Hatsumi — Claro. Claro… Nunca poderemos agradecer o suficiente pelo que ele fez. Vamos pedir desculpas.

— Nós entendemos perfeitamente. — concordou Ayumi — Quero dizer, tenho certeza de que eles vão se amar não importa o que aconteça e Nanami é uma boa garota. Mas sim, temos que assumir a responsabilidade pelo que fizemos também.

Mesmo que o desafio tivesse sido pelo bem de Nanami, as meninas compreenderam a gravidade de sua ação e já se sentiam culpadas por isso há algum tempo. 

Ainda assim, sua prioridade era Nanami, e era exatamente por isso que estavam prontas para assumir toda a culpa, se a situação exigisse. Isso era verdade. Mas até mesmo sua determinação vacilou quando ouviram o que Tomoko disse a seguir. 

— E, claro, se as coisas não derem certo, vou contar aos seus namorados o que vocês duas fizeram.

As duas garotas engasgaram em uníssono. Cada uma imaginou a cena em que seus respectivos namorados descobririam o que elas haviam feito. Elas empalideceram de medo. Vendo-as assim, Tomoko assumiu uma expressão satisfeita e se afastou. 

— Ele vai ficar com raiva de mim... com certeza vai ficar com raiva. Ele vai ficar muito bravo. Ele vai me odiar? Não, não, não é o que você está pensando. Foi tudo por Nanami! Me desculpe. Desculpe...

— Não, não, não! Ele vai ficar tão bravo! Ele definitivamente vai dizer não a encontros, abraços e beijos! Sinto muito! Eu não quero isso! Eu sei que é minha culpa, mas ainda assim não quero isso! Sinto muito, onii-chan! Por favor, me perdoe!

Hatsumi e Ayumi estavam perturbadas. Se seus colegas de classe as vissem agora, provavelmente não acreditariam no que estavam vendo.

Hatsumi estava quieta, enquanto Ayumi gritava. Embora suas abordagens fossem opostas uma à outra, ambas temiam que seus namorados ficassem bravos com elas. E com isso, as duas acabaram no mesmo barco, seus destinos foram determinados pelo resultado da confissão de Nanami.

“Parece que temos outro exemplo de estar à mercê daquele que você ama”, pensou Tomoko, sorrindo enquanto observava as meninas.

Ela sabia, é claro, que elas tinham feito o que fizeram para ajudar sua filha, mas sentia-se satisfeita por saber que tinha conseguido ensinar-lhes uma pequena lição por enganarem Yoshin. Embora Tomoko não tivesse percebido na hora, o que ela disse a elas veio do fato de já ver Yoshin como seu futuro genro. Suas ações agora eram inteiramente baseadas em priorizar a felicidade de Nanami e Yoshin como casal. Se não fosse esse o caso, ela provavelmente não teria ameaçado as duas meninas, que conhecia há muito tempo, da maneira como fez. 

— Tudo bem, vocês duas. Se pensaram muito sobre o que fizeram, é hora de parar de serem tão duras com vocês mesmas. Agora só temos que cuidar deles, como sempre fizemos.

O som das palmas de Tomoko trouxe as duas garotas de volta à realidade. Ambas olharam para ela antes de baixarem a cabeça. Nunca vamos conseguir superar essa mulher, pensaram ao mesmo tempo. 

— Sim, senhora. Ah, e obrigada por dar os ingressos à ela. — disse Hatsumi.

— Sem problemas. Foi fácil. Mas por que vocês mesmas não deram a ela? — perguntou Tomoko. 

— Porque ela se sentiria mal em aceitá-los se fossem nossos. Por isso foi melhor você dar pra ela. Quer dizer, não é como se tivéssemos que pagar por eles.

“Elas deveriam ter deixado Nanami agradecer a elas”, pensou Tomoko, enquanto sorria com outro sorriso irônico.

Ao mesmo tempo, ela estava feliz que as duas garotas também estivessem torcendo pelo casal. 

— Ah! — disse Hatsumi de repente, como se tivesse se lembrado de algo — Estava pensando... você disse alguma coisa para Nanami quando deu os ingressos para ela? Ela estava agindo de forma estranha em relação a ir.

— Só disse para ela beijá-lo durante o encontro. — respondeu Tomoko, encolhendo os ombros. 

— Espere, sério?! Quero saber o que aconteceu! — exclamou Ayumi. 

— Nesse caso, vocês gostariam de ficar aqui pelo resto do dia? Vocês poderão perguntar a eles assim que chegarem em casa.

As duas garotas inclinaram a cabeça, intrigadas. Elas não entendiam o porquê da Nanami e Yoshin iriam para a casa dos Baratos.

— Ah, não estão sabendo? Yoshin-kun agora janta na nossa casa.

Surpresas com a notícia, Hatsumi e Ayumi se entreolharam. 

“O quê?! Eu não sabia! Cara, isso não significa que ele está nas garras dessa família agora?!”

“Grrr, estou com tanta inveja... Ele já foi aceito pela família dela!”

Os pensamentos de Hatsumi e Ayumi eram uma mistura de felicidade e solidão. Elas sentiam que sua amiga, que elas haviam protegido e guiado até agora, estava rapidamente ultrapassando-as quando se tratava de namoro. 

Não, é justo dizer que ela já as havia deixado para trás. Quem sabia quantos passos ela havia pulado?

As duas garotas sentiram uma pontada de inveja.

Apesar dos sentimentos complexos que se agitavam dentro delas, pelo menos sentiram alívio por seu desafio ter levado sua amiga à felicidade. Por enquanto, elas só podiam prometer que iriam bombardeá-la com perguntas sobre todos os detalhes quando ela voltasse para casa após o encontro.

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