Volume 2
Capítulo 4: A Incrível Viagem Até Kyoto
Ayumi Naomi-san. Uma garota comum.
Se alguém me pedisse para descrevê-la em uma única palavra, provavelmente seria essa. Ela não era exatamente popular — não do tipo que fazia a sala inteira virar o pescoço quando entrava. Mas também era difícil vê-la sozinha. Sempre estava cercada pelas mesmas amigas, um pequeno grupo que parecia inseparável, como se existisse um pacto silencioso entre elas de nunca deixar uma à outra para trás.
Elas riam juntas. Almoçavam juntas. Iam ao banheiro juntas. Voltavam para casa juntas.
Ayumi não liderava o grupo, mas também não ficava atrás. Era como se ocupasse o centro invisível daquela pequena constelação. Não brilhava intensamente como uma estrela solitária no céu, mas fazia parte de algo que reluzia em conjunto.
Talvez faltasse a ela o brilho necessário para se tornar "uma estrela da escola."
Ou talvez… ela simplesmente não se importasse com isso.
Ela era aluna de outra sala: 2-C. Segundo as informações coletadas pela presidente e por Natsuki-senpai, sua família administrava uma importante empresa local de roupas. Não era exatamente uma herdeira excêntrica de filme dramático, mas também não vivia uma vida simples.
Suas notas eram medianas. Nem brilhantes. Nem ruins.
Seu estilo de vida era o que se poderia chamar de “padrão” para alguém da nossa idade: sair para comprar roupas nos fins de semana, experimentar cafeterias novas, cantar músicas românticas no karaokê com as amigas.
Sendo bem sincero, não era nada fora do comum. Sequer extraordinário.
— O que você acha dela? — perguntou Natsuki-senpai, sentada ao meu lado no ônibus.
Inclinei levemente o corpo para observar Naomi-san que estava na fileira ao lado. Ela ria de algo que uma das amigas tinha dito, cobrindo a boca com a mão de maneira delicada.
— Bem… ela parece uma garota normal para mim.
— Normal em que sentido? — insistiu minha senpai. — Chata? Desinteressante?
— Hum… eu diria…
Minha resposta travou.
Eu não a conhecia de verdade. Tudo o que eu tinha eram impressões superficiais, fragmentos de observação, pedaços de informação coletados por terceiros. Não era justo julgá-la. Ainda assim…
Havia algo que me causava uma sensação estranha. Não era antipatia. Mas também não podia dizer que era simpatia.
Era como um leve desconforto que surgia sem alguma explicação.
— …feliz — completei.
— Hã? — Natsuki-senpai inclinou levemente a cabeça. — Você está me deixando confusa, Ryoichi-kun.
Yuji, sentado à frente, parecia completamente alheio à conversa. Observava o tráfego pela janela como se fosse um documentário interessante.
Eu suspirei.
— Nós realmente temos que fazer isso? — perguntei, arfando.
— Já aceitamos o serviço. Não temos mais como voltar atrás — respondeu minha senpai com sinceridade. — Além de que… meio que já é um tanto tarde pra isso — acrescentou ela em tom brincalhão, lembrando o fato óbvio de que já estávamos no ônibus, a caminho de Kyoto.
Era verdade e não havia alguma escapatória.
Nosso trabalho era preparar o terreno e criar uma situação ideal.
Tudo para que Ayumi Naomi tivesse a coragem — e a oportunidade — de se declarar durante essa viagem.
— Afinal… quem é o felizardo? — perguntei.
— Oh? Eu não te disse, Ryoichi-kun? Perdão pela minha má memória… — disse Natsuki com exagero teatral. — Se me lembro bem, o nome dele era…
Ela fez uma pausa.
— …Hayato Kamo-kun? — Disse, como se perguntando a sí mesma.
— Haya… to…?
O nome ecoou na minha mente.
Como um sino distante.
"Esse nome… não me é estranho…"
***
Eu diria que, desde que entrei no ensino médio, comecei a perceber algo curioso.
Existe uma semelhança assustadora entre como as salas se organizam… e como o mundo funciona lá fora.
A escola não é apenas um prédio com professores e matérias. É como um ensaio geral. Um protótipo de algo maior. Uma versão em miniatura da sociedade.
— Você também foi na praia? Como eu não te vi lá?
— Hahaha! Ainda bem que eu não te vi lá. Se não você iria querer que eu bancasse tudo pra você, de novo!
Risadas
Tapas nas costas
Convidar para jogar videogame
Combinar encontros
Criar laços
Enquanto escutava as conversas dos garotos na sala, sempre me perguntei:
Por que os mais populares estão sempre rodeados de pessoas?
Seria aparência?
Carisma?
Confiança?
Ou algo decidido pelos outros?
— Vamos lá jogar em casa hoje, Tadano?
— Cara, hoje não dá… tenho que sair com a Yui hoje.
— Oooohhh!
Brincadeiras e provocações.
A aprovação coletiva parecia funcionar como uma moeda invisível.
Quanto mais você tinha, mais pessoas queriam estar perto de você.
As pessoas caladas e tímidas.As que não conseguiam se expressar.
Normalmente eram empurradas para as margens.
O mesmo acontecia com quem tinha gostos considerados “estranhos”.
Mas afinal…
O que é ser estranho?
O que é ser diferente?
— Cara, que vontade de cagar!
— Hahahahaha! Você é um porco, cara!
Por que o comum é valorizado…
E o diferente é ridicularizado?
Por que agir igual gera risadas compartilhadas…
Mas agir diferente gera olhares atravessados?
— Ei, ei… o que você está murmurando aí, Ryoichi-kun? — provocou um dos garotos, inclinando-se sobre minha carteira. — Esqueceu de tomar seus remédios de novo?
— Deixa ele. Ele sempre faz isso.
— Que estranho. Ahahahaha!
As palavras doíam menos do que o tom.
Não era ódio. Também não era bullying explícito. Era algo que eu considerava ainda pior...
Era desinteresse misturado com desdém.
Para que vocês não me tratem mal… eu preciso gostar do mesmo que vocês?
Fazer o que vocês fazem?
Rir das mesmas coisas?
Gostar das mesmas músicas?
Falar da mesma forma?
Ser como vocês?
— Ah, vocês finalmente chegaram! Pensei que não viriam mais!
— Desculpe, desculpe… Ayumi-chan estava realmente falante hoje.
— Ehh?!!
A vida seguia.
As conversas continuavam.Os grupos se formavam.
E eu…
observava.
Eu também queria.
Queria ser chamado para sair. Queria ser convidado para jogar. Queria ser mencionado em conversas. Queria ser elogiado. Queria ser incluído.
— Eu…
As palavras escaparam naquele dia.
— …quero ser normal.
Foi no primeiro ano.
Numa tarde quente na antiga classe 1-C. O cheiro de giz ainda pairava no ambiente.
Acho que meus pensamentos foram altos demais naquele dia.
Altos o suficiente para serem ouvidos.
— […]
Silêncio.
O tipo de silêncio que dura apenas dois segundos, mas parece uma eternidade.
Ao pé da minha carteira, uma sombra se moveu.
Levantei o rosto lentamente. Havia um garoto alto...
Postura ereta. Olhos castanhos firmes. Confiança natural. Ele não precisava falar alto. Também não parecia precisar rir exageradamente.
Sua existência parecia fazer as pessoas orbitarem ao redor.
Acho que ele era um dos mais populares da classe.
Acredito que não por esforço. Mas por natureza.
Antes que os outros garotos pudessem rir de mim
Antes que a piada começasse
Ele falou.
Sem emoção ou crueldade exagerada
Apenas externou seu julgamento
— Que estranho…
O resto da sala riu.
Acho que seu sobrenome era Kamo.
***
Já passava das duas da madrugada. O ônibus estava estacionado em um dos pontos de descanso da rodovia, cercado por caminhões alinhados e luzes artificiais que deixavam o asfalto com um brilho opaco. Do lado de fora, o silêncio era quase absoluto, quebrado apenas pelo som distante de motores e pelo vento frio da madrugada. Dentro do ônibus, porém, reinava outro tipo de quietude. A maioria dos alunos já estava dormindo.
Alguns com a cabeça caída para frente, outros encostados nas janelas, deixando pequenas marcas de respiração no vidro. Havia quem dormisse abraçado à própria mochila. Quem usasse o casaco como cobertor improvisado. Quem murmurasse palavras desconexas no meio de sonhos aleatórios.
Os professores haviam ordenado, mais cedo, que todos guardassem os celulares.
“Descanso é importante”, disseram.
“Temos um dia cheio amanhã”, reforçaram.
Obviamente, nem todos obedeceram com tanto rigor.
Eu, por exemplo.
Não conseguia dormir.
Nunca fui do tipo que dorme facilmente em movimento. O leve balanço do ônibus, que para muitos parecia funcionar como um embalo natural, para mim era apenas um lembrete constante de que eu não estava em uma cama.
Meu pescoço doía.
Minhas pernas estavam inquietas.
E minha mente… ainda mais.
Com cuidado, tirei o celular do bolso e abaixei o brilho da tela ao mínimo possível. A luz azulada iluminou discretamente minhas mãos, criando um pequeno universo particular em meio à escuridão do ônibus.
Eu não estava fazendo nada importante. Apenas rolava a tela de um lado para o outro
Lendo qualquer coisa e abrindo aplicativos sem propósito. Apenas esperando o sono voltar.
— Ei… Ryoichi… kun…
A voz veio baixa. Arrastada. Quase dissolvida no ar.
Meu corpo reagiu antes da mente.
Guardei o celular rapidamente, sentindo um pequeno choque de adrenalina. Por um segundo, imaginei que fosse algum professor me repreendendo.
Mas, ao virar o rosto, encontrei apenas o idiota do Yuji.
Seus olhos estavam semicerrados. O cabelo bagunçado. A postura torta no banco.
— O que foi? — perguntei em voz baixa.
— Cara… qual é sua… relação com… Natsuki-senpai…?
Ele falava pausadamente, como se estivesse lutando contra o próprio sono. Olhei de relance para o meu lado. Natsuki-senpai dormia profundamente. E quando eu digo profundamente… quero dizer profundamente mesmo.
Ela roncava. Não era tão alto, mas era perceptível. E, se eu não estivesse enganado, havia um leve brilho no canto de sua boca. Babando...
Sendo bem sincero, era uma visão completamente diferente da dama requintada e delicada que ela aparentava ser no clube. Lá, sua postura era impecável. Seus gestos eram suaves. Seu sorriso era sempre composto.
Aqui…
Ela parecia apenas uma garota comum, exausta, largada no banco de um ônibus qualquer às duas da manhã.
— Nós apenas somos do mesmo clube — respondi.
— Só isso…? — murmurou Yuji.
— Só isso
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, como se estivesse processando algo muito complexo.
— O… que vamos… fazer…? — perguntou novamente. — Como iremos conseguir… fazer ela… se declarar?
Suspirei. A pergunta era válida.
— A senpai disse que vamos ter uma reunião com ela amanhã — respondi. — Nós vamos fazer com que Naomi e Kamo-san possam passar a viagem inteira juntos.
— Hum… entendi…
Mas o tom dele deixava claro que ele não tinha entendido absolutamente nada.
Yuji continuava murmurando como se estivéssemos em uma missão secreta de espionagem internacional. Olhava para os lados, abaixava a voz ainda mais, como se alguém pudesse estar nos escutando.
Eu, por outro lado, não conseguia deixar de pensar na incoerência de tudo aquilo.
Por que ela precisava da nossa ajuda? Por que alguém precisaria de um “clube” para se declarar?
É uma viagem de três dias e duas noites. Os garotos e as garotas dormem em quartos separados. E todos nós estamos divididos em grupos. Naomi-san está com as amigas. Kamo-san provavelmente está junto com o grupo dele.
Mesmo que a escola tenha organizado a estrutura principal — hospedagem, horários, pontos de encontro —, os grupos têm autonomia para escolher quais pontos turísticos visitar dentro de certos limites.
Ou seja… Cada grupo seguirá seu próprio roteiro e seu próprio ritmo.
Então como, exatamente, poderíamos fazer com que, de forma natural, Naomi e Kamo se encontrassem repetidamente? Como poderíamos manipular coincidências sem que parecessem forçadas? Como criar oportunidades sem levantar suspeitas?
E o mais importante:
Como fazer isso sem sequer saber o cronograma detalhado deles?
Eu apoiei a cabeça no banco e encarei o teto escuro do ônibus.
— Afinal… ela apenas não poderia se declarar por conta própria…? — murmurei.
A pergunta escapou mais como um pensamento do que como uma fala direcionada.
Para mim, aquilo parecia… simples. Se você gosta de alguém... você vai lá.. E fala. Certo?
Não é assim que funciona?
— […]
Yuji ficou em silêncio.
Por um momento, pensei que ele tivesse dormido de novo.
— Acho que… — começou ele, ainda com a voz lenta.
— Hã?
— …se ela chegou a esse ponto… significa que ela deve gostar muito dele…
As palavras dele ficaram suspensas no ar. Eram simples, porém pesadas. Eu tentei me manter quieto.
Ele continuou:
— Ninguém pede ajuda pra algo assim… se não for importante.
— […]
Olhei novamente pelos meus ombros. Na fileira ao lado, consegui distinguir a silhueta de Naomi. A cabeça encostada no ombro de uma amiga. O cabelo caindo sobre o rosto. A respiração tranquila. Ela parecia em paz. Talvez… Talvez existisse um tipo diferente de ansiedade escondida por trás daquele sorriso. Talvez aquilo não fosse banal. Para alguém como ela — sempre cercada de amigas, sempre inserida no grupo —, o medo não fosse ser rejeitada. Talvez o medo fosse mudar alguma coisa. Mudar a dinâmica. Mudar a estabilidade. Mudar a própria posição dentro daquele mundo cuidadosamente equilibrado.
— É… — murmurei por fim. — Talvez.
Yuji deu um pequeno “hum” satisfeito, como se tivesse contribuído com uma grande filosofia, e afundou novamente no banco.
Pouco depois, sua respiração ficou pesada. Ele dormiu.
Eu continuei acordado. O ônibus permanecia parado. As luzes externas criavam sombras suaves nos rostos adormecidos dos alunos.
Ao meu lado, Natsuki-senpai se mexeu levemente.
Por um instante, achei que ela fosse acordar. Mas não era isso. Ela apenas ajustou a cabeça, aproximando-se um pouco mais do meu ombro.
Meu corpo ficou rígido. O ronco suave continuava. Olhei para frente mais uma vez.
"Hayato Kamo"
O garoto que era o alvo da confissão de Naomi.
E eu…
eu estava no meio disso tudo.
Talvez essa missão não fosse apenas sobre ajudar alguém a se declarar.
Talvez fosse sobre algo que eu ainda não entendia.
Fechei os olhos.
O balanço do ônibus parecia menos incômodo agora.
E, pela primeira vez naquela noite, senti o sono se aproximando.
Notas do Autor: Todas as Ilustrações dessa novel são feitas por IA. Comentem e façam teorias, leio e respondo todos os comentários
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