Volume 2

Capítulo 3: A Primeira Missão do Clube de Amigos (3)

— Será que vai demorar muito? — perguntou um dos alunos impacientes, inclinando o corpo para o corredor do ônibus como se isso, de alguma forma, pudesse fazê-lo chegar mais rápido ao destino.

— Não. Pela manhã já estaremos lá — respondeu um professor ao fundo, num tom calmo, acostumado com aquele tipo de ansiedade coletiva.

— [...]

— Ahhhh!! Essa vai ser minha primeira viagem escolar! — exclamou uma novata, incapaz de conter a empolgação que parecia transbordar até pela forma como ela balançava as pernas no assento.

— Mal posso esperar para ir até o Kiyomizu-dera. Ele parece tão majestoso na TV — comentou outra estudante, juntando as mãos como se já estivesse diante do templo.

— [...]

Eu me encontrava em uma situação que realmente não esperava.

No meio de um ônibus escolar.

Cheio.

De estudantes.

E barulhento.

Já era noite, e lá fora as janelas refletiam apenas a escuridão da estrada, pontilhada ocasionalmente pelas luzes distantes de postes e carros que passavam no sentido contrário. Dentro do ônibus, no entanto, a atmosfera era o completo oposto: viva, inquieta, pulsante. As conversas paralelas entre os alunos pareciam não cessar nunca, como se cada grupo estivesse competindo silenciosamente para ver quem fazia mais barulho.

Risadas surgiam de um lado. Discussões animadas vinham de outro. O som de embalagens sendo abertas, garrafas sendo agitadas, mochilas sendo reviradas — tudo se misturava num ruído contínuo que fazia parecer impossível existir silêncio naquele lugar.

— Ai! Será que vou encontrar um namorado nessa viagem? — perguntou uma das garotas algumas fileiras atrás de mim, num tom sonhador.

— Nem se você nascesse de novo! — rebateu um garoto, arrancando gargalhadas de quem estava ao redor.

— Ora seu...!

A discussão começou, mas logo se dissolveu em risadas e provocações infantis.

Eu fechei os olhos por um instante.

"Como... como que eu vim parar aqui..."

— Viagem escolar? Até Kyoto? — repeti, ainda tentando processar a informação.

— Sim! — exclamou Natsuki-senpai, com uma animação que parecia contagiante por natureza. — Como você sabe, haverá uma viagem daqui a uma semana para Kyoto. Com os alunos de todos os anos.

— Sim, eu sei — respondi. — As garotas da minha sala não param de falar sobre isso.

Era impossível não saber. Desde que o anúncio fora feito, aquele assunto havia dominado completamente o ambiente da sala. Conversas sobre roteiros turísticos, lanches, roupas, fotos, lembranças e até possíveis encontros românticos ecoavam todos os dias, como um mantra coletivo.

— Oh! Não sabia que você era tão observador assim, Ryoichi-kun — comentou ela, inclinando levemente a cabeça.

— Isso é algum tipo de provocação?

— Haha! Claro que não.

O riso dela era leve. Natural. Despretensioso. Parecia o tipo de som que surgia sem esforço.

Natsuki-senpai conduzia a conversa com facilidade, como se estivesse acostumada a assumir a liderança em diálogos. Enquanto isso, a presidente permanecia em silêncio ao lado, séria, com o olhar fixo em mim — ou melhor, atravessando-me. Não era exatamente intimidador… mas também não era confortável.

— Ainda assim, não entendi o que isso tem a ver comigo — falei.

— Tem muita coisa a ver! Mas não só com você… comigo também.

— Como assim?

Ela cruzou as mãos atrás das costas, assumindo um ar quase didático.

— Bem, como você deve saber, isso aqui é um clube. Mesmo que sejamos “especiais” de alguma forma, ainda temos trabalho a fazer. Afinal, não faria sentido um clube existir sem qualquer propósito.

Sendo bem sincero, eu sempre imaginei que o propósito daquele clube fosse justamente acolher pessoas “especiais” — seja lá o que isso significasse na prática. Um lugar onde ninguém fosse julgado. Onde diferenças fossem aceitas. Onde estranhezas fossem normais.

Mas, ao que parecia, existia algo além disso.

Algo mais concreto.

— E que trabalho seria esse? — perguntei.

— Esse é o ponto — respondeu ela, sorrindo de um jeito misterioso. — Acredito que você já possa correlacionar.

Franzi a testa.

— O nosso trabalho tem alguma coisa a ver com a viagem pra Kyoto?

O sorriso dela se abriu imediatamente.

— Bingo! Isso mesmo, Ryoichi-kun! — exclamou. — Mas ainda assim, acredito que seja a hora de explicar como funciona o trabalho desse clube. Para isso… — ela virou levemente o corpo — passo a palavra para nossa querida e amada presidente.

— O-o quê? Isso é sério? — Haruka-senpai arregalou os olhos, claramente pega desprevenida pelo ataque sorrateiro.

Por um segundo, achei que ela fosse simplesmente ignorar. Ou recusar. Ou sair com sua cadeira de rodas.

Mas, talvez movida pelo orgulho, ela respirou fundo e falou:

— Af… resumindo: uma pessoa faz um pedido, nós decidimos se aceitamos o pedido e, por fim, realizamos esse pedido. É isso. Fim.

Silêncio.

CLAP CLAP

Natsuki-senpai aplaudiu suavemente, como se tivesse acabado de ouvir um discurso inspirador.

— Hã? Você poderia explicar de novo? — perguntei.

— O quê?! Você não ente—

— Em outras palavras — interrompeu Natsuki com suavidade —, nosso clube aceita pedidos de pessoas com algum tipo de problema. Seja ele qual for. Não somos obrigados a aceitar qualquer pedido, mas temos que levá-lo em consideração. Se esse pedido de ajuda for aceito, os membros do clube se comprometem a ajudar a pessoa no problema que foi externado… entendeu?

— Ah… sim. Agora eu entendi.

A explicação dela foi clara. Direta. Fácil de assimilar.

— Mas isso não deveria ser algo que todos os membros deveriam levar em consideração?

— Bem, sim — respondeu ela. — Normalmente todos os membros deveriam ser reunidos e, após um consenso geral, aí sim a proposta poderia ser aceita ou recusada. Mas como muitos membros entraram recentemente e… após um pedido exclusivo da professora-conselheira do nosso clube, Yoshiko-sensei… decidimos — Haruka-chan e eu — aceitarmos a proposta.

Ela falava com naturalidade, como se estivesse apenas relatando algo trivial. Mas eu não conseguia deixar de sentir que havia partes daquela história que estavam sendo cuidadosamente omitidas.

Afinal…

Qual era exatamente a relação entre o pedido… e a viagem?

E mais importante:

Será mesmo que os outros membros aceitariam bem abrir mão da própria viagem escolar para cumprir um trabalho?

— Você acha que os outros membros vão levar isso bem? — perguntei.

— Hã? Por que os outros precisam concordar? — respondeu ela, genuinamente confusa.

— E-eu que pergunto! Isso não é só seu problema, não é? Os outros membros também precisam concordar com isso… eu acho.

— Acredito que não precisam — disse ela tranquilamente. — Já que eles não terão que fazer nada especificamente dessa vez.

— O quê? Como assim?

Ela deu duas batidinhas leves no ar com o dedo indicador, como se estivesse marcando o ritmo de uma música silenciosa.

— Humhum. Mesmo que o clube tenha aceitado esse trabalho… dessa vez, os únicos membros que irão realizar o pedido… — ela apontou discretamente — são você e eu.

Bem.

Infelizmente, eu teria que estar nessa porcaria de viagem escolar de qualquer jeito.

Mesmo que não houvesse missão nenhuma.

Mesmo que não existisse pedido nenhum.

Mesmo que eu pudesse escolher.

Ainda assim, provavelmente não estaria com essa… companhia.

— Ei, ei! Ryoichi-kun! — disse uma voz animada ao meu lado. — Eu fiquei tão feliz quando você me chamou para te acompanhar nessa viagem. Eu sabia que nos tornaríamos grandes amigos!

— Haha… pois é, né…

Yuji-kun também estava ali. Foi a própria Natsuki-senpai quem disse que eu poderia chamar um amigo, se quisesse. E, considerando minhas opções sociais extremamente limitadas… bem, ele era o mais próximo disso.

— Então, eu sou tipo um membro provisório? Isso é tão emocionante! — continuou ele, com os olhos brilhando.

— Acredite. Você não vai querer ser um.

— Hã? Por quê?

— Deixa pra lá…

Eu odiava andar de ônibus.

Sempre odiei.

Mas, sendo justo, aquele era bem equipado. Os bancos eram macios. Havia espaço suficiente para as pernas. O ar-condicionado funcionava. Não havia cheiro estranho. Era, objetivamente, confortável.

Na nossa fileira havia quatro cadeiras.

Na minha frente estava Yuji-kun, espalhado como se fosse dono do lugar, com sua bagagem enorme largada na cadeira ao lado.

(Por que ele não colocou aquilo no bagageiro?)

Ao meu lado…

Surpreendentemente…

Estava sentada uma bela garota de cabelos longos e loiros.

Minha senpai.

Yumi Natsuki.

Ela parecia se divertir bastante com as palhaçadas de Yuji, rindo baixinho sempre que ele fazia algum comentário exagerado ou reação dramática.

— Mas e então?! — disse ele, virando-se de repente. — Você… e a senpai disseram que a gente tinha que fazer um trabalho, não é?

— Sim. Não me diga que você já esqueceu — respondi.

— Haha… é claro que não…

— É claro que sim. Mas não leve a sério. Eu também queria esquecer, pra ser sincero.

— Ei! Ryoichi-kun, eu estou levando a sério! — disse Natsuki, fazendo um pequeno beicinho.

— Eu sei, eu sei…

Suspirei.

Sabendo que não haveria mais escapatória, apenas aceitei meu destino. Eu teria mesmo que realizar aquele trabalho idiota.

— É aquela garota, não é? — perguntei. — Naomi-san.

— Sim — respondeu Natsuki. — Acho que ela está sentada ao nosso lado, não?

Inclinei levemente o corpo.

— Está. Eu consigo ver claramente.

— Isso foi algum tipo de provocação?

— Não foi…

Yuji parecia completamente perdido.

Seus olhos iam de mim para Natsuki e depois voltavam, como se estivesse assistindo uma conversa em um idioma estrangeiro.

— O-o que vamos fazer…?

Natsuki juntou as mãos no colo.

Seu sorriso voltou.

Calmo.

Confiante.

— Hum? É bem simples, pra ser sincera…

Ela fez uma pequena pausa.

Como se estivesse escolhendo o momento exato.

Como se quisesse que cada palavra tivesse peso.

— [...]

— Nós vamos ajudar Ayumi Naomi a se declarar nessa viagem.

E, naquele instante, tive a sensação nítida de que aquela viagem não seria nem de longe tranquila.

Notas do Autor: Todas as Ilustrações dessa novel são feitas por IA. Comentem e façam teorias, leio e respondo todos os comentários

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora