Volume 2

Capítulo 2: A Primeira Missão do Clube de Amigos (2)

— Não sabia que você também gostava de lendas como essa, Natsuki-senpai.

Minha própria voz soou um pouco mais baixa do que eu pretendia. Talvez porque, no fundo, eu ainda estivesse surpreso. Não era exatamente o tipo de assunto que eu imaginava associar a ela — ou melhor, talvez fosse, mas não daquela forma. Havia algo na naturalidade com que ela escutava a história que me fazia pensar que não era a primeira vez. Nem a segunda. Nem sequer a décima.

— Hihi... bem, podemos dizer que eu acabei escutando ela inúmeras vezes, devido a uma certa garota — disse Natsuki.

Ela inclinou levemente o rosto e piscou na direção da presidente, num gesto cheio de malícia brincalhona. O movimento foi sutil, quase imperceptível para alguém distraído, mas eu estava atento demais para deixar passar. A presidente, por sua vez, reagiu como se já esperasse aquilo. Virou o rosto com um pequeno suspiro silencioso, fingindo não perceber a provocação. Ainda assim, o leve rubor que surgiu em sua expressão denunciava que havia entendido perfeitamente.

Aquela pequena troca, quase íntima, prendeu minha atenção por alguns segundos. A história que havia sido contada até então — cheia de detalhes curiosos e um certo ar de mistério — simplesmente se dissolveu na minha mente, como névoa sendo levada pelo vento. No lugar dela, ficou apenas a presença da minha senpai.

Era estranho.

Não apenas porque ela estava ali, mas porque… ela não deveria estar ali.

A sala do clube tinha dias específicos para cada membro comparecer. Aquilo não era uma regra rígida a ponto de impedir visitas fora de horário, mas ainda assim havia um certo costume, uma rotina silenciosa que todos respeitavam sem questionar. E, naquele dia em particular, não era o dia dela.

Esse detalhe pequeno, quase insignificante, começou a crescer dentro da minha cabeça como uma dúvida insistente. Eu tentei ignorar. Sério, tentei mesmo. Disse a mim mesmo que não tinha importância, que não era da minha conta, que talvez houvesse um motivo simples e banal.

Mas quanto mais eu pensava nisso, mais difícil ficava fingir desinteresse.

A verdade era que a simples presença dela ali já bastava para me deixar inquieto.

Pensei em apenas continuar quieto, fingindo que não tinha notado nada. Eu era bom nisso — em ficar quieto, em observar, em não me meter. Era praticamente minha habilidade especial. Ainda assim, algo dentro de mim insistia em cutucar aquela curiosidade.

Antes que eu percebesse, as palavras já estavam saindo.

— Você esqueceu alguma coisa aqui?

Assim que terminei de falar, senti meu coração dar um pequeno salto. A pergunta não foi rude, mas também não foi exatamente natural. Pareceu… abrupta. Direta demais. Eu deveria ter formulado melhor. Talvez tivesse sido melhor ficar calado mesmo.

—...Hã? Não. Por quê?

A resposta dela veio quase instantaneamente. Rapida demais.

Aquilo me pegou de surpresa. Não só pela velocidade, mas pelo tom. Não era hostil, nem irritado — apenas direto. Ainda assim, fez um leve arrepio subir pela minha nuca.

De repente, fiquei consciente demais de mim mesmo. Da minha postura. Das minhas mãos. Da forma como eu estava respirando. Minha falta de habilidade social, algo que eu já conhecia muito bem, começou a se manifestar com toda força.

— B-bem... é que...

As palavras travaram. Minha mente, que segundos antes estava cheia de pensamentos, ficou completamente em branco. Era como se alguém tivesse apagado um quadro negro recém-escrito. Nenhuma frase parecia adequada. Nenhuma explicação parecia convincente. Eu já estava me preparando para gaguejar algo sem sentido quando—

Natsuki pareceu entender.

Foi como assistir uma mudança de clima em tempo real. O rosto dela, que antes demonstrava apenas dúvida, suavizou lentamente. Os cantos dos lábios se ergueram num sorriso pequeno, gentil, quase reconfortante. Sua expressão ficou mais leve, como se tivesse acabado de resolver um enigma simples.

— Ah! Entendi! Você está se perguntando do porquê de eu ter vindo aqui no clube mesmo não sendo o meu dia? — perguntou ela.

Apesar de ser uma pergunta, não soou como uma. O tom era cheio de certeza, como se ela tivesse lido meus pensamentos com facilidade.

— Sim! Era isso mesmo. — respondi rápido demais, aliviado.

Minha resposta saiu quase automática, impulsionada pela sensação de ter sido salvo de um possível desastre social. Eu provavelmente teria falado algo estranho se ela não tivesse me interrompido.

— Bem, não é uma surpresa pra ser sincera. Afinal, você acabou escutando toda essa informação sem muito contexto. Mas não é bem como parece... qualquer membro pode frequentar a sala do clube o dia que quiser. No entanto, é obrigatória que ele venha nos dias designados.

Ela explicou tudo com naturalidade, como se estivesse apenas comentando o clima. Nenhum traço de julgamento. Nenhuma impaciência. Apenas clareza.

— Hum, então é mais flexível do que parece...

— Não é?! — exclamou Natsuki-senpai, com um brilho animado no sorriso.

Era impressionante.

Sempre me surpreendia como ela parecia captar com facilidade o estado emocional das pessoas ao redor. Pequenos detalhes de voz, pausas, respiração — coisas que a maioria ignorava. Mesmo sendo cega, o tato social dela era algo que eu considerava quase invejável. Na verdade, talvez fosse justamente por isso que ela tivesse desenvolvido uma sensibilidade tão refinada.

Eu ainda estava pensando nisso quando—

— No entanto...

A voz fria de Haruka-senpai cortou o ar da sala.

Não foi alta. Nem agressiva. Mas tinha um peso que fez a atmosfera mudar instantaneamente. Era como se a temperatura tivesse caído alguns graus.

—...Acredito que você não veio aqui apenas pra nos visitar, Yumi-san.

Natsuki inclinou levemente a cabeça, e um sorriso diferente surgiu. Não era o mesmo sorriso caloroso de antes. Esse tinha um toque de provocação.

— Oh? Minha amiga me conhece tão bem... ♡

Mesmo sem olhar diretamente, eu senti que a presidente fez uma expressão complicada. Não precisei ver para saber. Era o tipo de reação que se percebia no silêncio.

—...Você está certa. Eu vim falar “daquele” assunto.

O modo como ela disse aquilo fez algo dentro de mim se mexer. “Daquele” assunto. A palavra não era específica, mas carregava peso. Era como se existisse uma história inteira escondida atrás dela.

— Ah. Já era hora. É daqui há uma semana, não é? — respondeu a presidente.

— Sim. Yoshiko-sensei já me deu a permissão, então eu pensei que seria sábio já começar desde já.

— Hum. Faz sentido... é melhor do que deixar pra ultima hora.

Foi estranho.

Não o conteúdo da conversa — afinal, eu nem sabia do que se tratava —, mas o tom. Era a primeira vez que eu via as duas falando daquela maneira. Formal. Direta. Quase profissional.

Até então, sempre que eu as via juntas, havia leveza. Provocações e pequenas brincadeiras. Mas naquele momento havia outra coisa ali. Algo mais sério. Mais profundo. Como se, por trás da amizade, existisse também uma parceria sólida, construída com confiança.

Elas estavam de frente para a janela. A chuva havia se despedido e a luz suave do fim da tarde desenhava contornos claros ao redor delas, transformando a cena em algo quase… cinematográfico. Por um instante, me peguei apenas observando.

Havia uma conexão ali.

Uma sintonia silenciosa que não precisava de explicações.

E, ao mesmo tempo que aquilo me fascinava, também me fazia sentir um tanto deslocado. Como se eu estivesse assistindo uma conversa que não era feita para mim. Não porque eu estivesse sendo excluído de propósito — não, não era isso. Era só que… eu ainda não pertencia àquele nível de intimidade.

Uma parte de mim queria continuar olhando

A outra parte queria desaparecer.

— Já que é assim, acho que podemos contar a ele, não é? — perguntou Natsuki-senpai

—...Se você quiser... — respondeu a presidente, após um pequeno silêncio.

Então aconteceu

As duas garotas, quase ao mesmo tempo, voltaram seus rostos na minha direção.

Meu corpo reagiu antes da mente.

— Eh... o que foi? — perguntei, sentindo a tensão subir pelos ombros.

Natsuki sorriu.

Mas não foi um sorriso qualquer.

Foi um sorriso gentil. Acalentador. Do tipo que parecia dizer silenciosamente: está tudo bem. Eu tive a impressão de que ela estava tentando me deixar mais a vontade. E talvez estivesse mesmo.

Embora… ironicamente, ela não poderia ver minha expressão. Ainda assim, de alguma forma, parecia saber exatamente como eu me sentia.

— Ryoichi-kun...

O modo como ela disse meu nome fez meu coração dar um pequeno salto.

Houve uma breve pausa.

O ar pareceu ficar mais denso

—...essa vai ser sua primeira missão no clube de amigos

 

Notas do Autor: Todas as Ilustrações dessa novel são feitas por IA. Comentem e façam teorias, leio e respondo todos os comentários

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