Volume 2
Capítulo 5: A Incrível Viagem Até Kyoto (2)
Nhg…
Um som estranho escapou da minha garganta quando senti a luz atravessar minhas pálpebras. Ainda estávamos na estrada.
O sol da manhã invadia as janelas do ônibus sem qualquer traço de piedade, atravessando as cortinas mal fechadas e iluminando meu rosto. A claridade era diferente da luz artificial da madrugada. Era tão quente, crua e definitiva.
Ao perceber que já era manhãzinha, tentei esfregar os olhos com as costas da minha mão, afastando os últimos resquícios que sobraram de sono que insistiam em me manter preso a um estado que não eram nem desperto, nem consciente
Meu pescoço doía. Não era uma dor que era insuportável, mas era constante e irritante. Eu havia adormecido em uma posição completamente não natural, com a cabeça inclinada demais para a esquerda e o queixo quase encostando no peito.
O pior de tudo...
É que eu não sentia minhas pernas.
Por alguns segundos, achei que tivesse acordado paraplégico, mas não. Bastou olhar para baixo para entender qual era o problema.
Yuji...
Em algum momento da madrugada, aquele idiota havia jogado as pernas por cima das minhas como se eu fosse algum tipo de colchão humano. O peso dele pressionava meus joelhos e coxas, impedindo qualquer circulação decente.
Tentei mover discretamente minhas pernas, forçando os músculos a reagirem de alguma forma
Mas não deu certo
Sobrando apenas aquela sensação horrível de formigamento.
Respirei fundo mais uma vez e empurrei de leve...
...Nada
Ele continuava dormindo profundamente, com a boca aberta e uma expressão completamente despreocupada, como se estivesse em sua própria cama.
“Esse desgraçado…”
Enquanto tentava mais uma vez recuperar o controle das minhas próprias pernas, foi então que senti.
Uma respiração.
No meu pescoço.
Hah…
Era tão quente... Suave... Rítmica.
Meu corpo inteiro enrijeceu no mesmo instante.
Meu coração começou a bater tão forte que tive medo de que alguém pudesse ouvir.
Foi então que me lembrei...
— Natsuki… senpai…?
Virei o rosto lentamente.
Em algum momento da madrugada, minha senpai havia escorregado completamente para o meu lado. Sua cabeça estava apoiada sobre meu ombro, quase encaixada na curva do meu pescoço.
Seus longos fios loiros se misturavam ao meu cabelo castanho, criando um contraste quase absurdo sob a luz da manhã.
Ela se mexeu levemente, esfregando o rosto contra meu ombro. E se acomodou ainda mais.
— …nham… nham…
— […]
Aquilo me fez parar de respirar por alguns segundos.
Ela estava falando dormindo? Ou sonhando com comida?
Yuji ainda estava desacordado.
A fileira ao lado parecia igualmente mergulhada no sono.
Por enquanto… ninguém estava olhando.
Tentei manter a compostura. O que não era nada fácil. Porque, sendo completamente honesto… Natsuki-senpai era realmente muito bonita.
No clube, ela sempre mantinha uma postura elegante. Um sorriso controlado. Uma aura quase que intocável.
Mas ali, dormindo, com uma aparência tão vulnerável…
Ela parecia... diferente.
Como ela dormia como uma pedra, resolvi mover lentamente meus ombros, tentando ajustar sua cabeça para que ficasse melhor apoiada. Se ela continuasse naquela posição, poderia acabar escorregando.
Com cuidado milimétrico, ergui um pouco o ombro e inclinei o corpo.
Ela murmurou algo ininteligível.
Meu coração que antes bombeava feito louco, de repente, quase parou.
Mas, em vez de acordar, ela apenas se acomodou melhor
Agora sua cabeça repousava com mais firmeza sobre meu ombro. Ainda seria bem problemático se alguém nos visse. Mas era bem menos comprometedor do que parecer que ela estava praticamente abraçada ao meu pescoço.
[…]
Os minutos então começaram a passar.
O ônibus seguia pela estrada com um leve balanço constante. Gradualmente, o som ambiente começou a mudar. Primeiro, um zíper sendo aberto. Depois, o barulho característico de uma mochila sendo revirada. Somado ao toque abafado de um celular vibrando.
— …zzz… ronc…
Alguém ainda roncava algumas fileiras atrás. Pequenos murmúrios começaram a surgir. Um aluno se espreguiçava. Outro reclamava das dores em suas costas.
A madrugada estava oficialmente chegando ao fim.
Mas ela…
Ela continuava dormindo. Eu podia ouvir sua respiração calma. Regular. Profunda. Havia até um leve sorriso em seu rosto. Penso que talvez estivesse tendo um sonho bom.
Talvez estivesse completamente alheia ao fato de que estava usando um pobre colega de clube como travesseiro oficial.
Com a luz da manhã iluminando parcialmente seu rosto, pude observá-la melhor. Sua pele parecia impecável. Sem qualquer falhas. Sem nenhuma marca. Seus cílios eram longos e escuros, contrastando com os fios dourados que caíam suavemente sobre sua testa.
Seu nariz era tão delicado, perfeitamente alinhado com o restante do rosto. Seus lábios rosados estavam entreabertos, e por um segundo minha mente traiçoeira decidiu imaginar qual seria a textura deles.

“Pare.”
Afastei o pensamento. Mas não minto que era difícil ignorar.
Seu cabelo exalava um cheiro doce, mas suave. Não era nenhum pouco enjoativo. Algo que lembrava shampoo caro, desses que aparecem em comerciais com modelos sorrindo sob cachoeiras artificiais.
Mesmo com o sol entrando diretamente pela janela e tocando seu rosto, ela não acordava. A luz criava um contorno suave ao redor dela, como se estivesse destacando cada detalhe de seu corpo
Por um instante…
O barulho do ônibus pareceu distante.
As conversas ainda tímidas ao redor desapareceram.
Ficou apenas aquele momento.
Ela, dormindo. Eu, paralisado. E uma sensação estranha no meu peito.
— […]
Engoli em seco.
Se alguém olhasse, certamente entenderia errado. Caso Yuji acordasse, provavelmente começaria a fazer comentários idiotas. Ou talvez se algum professor passasse pelo corredor…
Suspirei
“Acho que vou apenas deixá-la dormir mais alguns minutos…”
***
Depois de mais algumas poucas horas finalmente havíamos chegado em nosso destino
Os alunos de alta casta definitivamente não pareciam acostumados a enfrentar uma viagem de largas horas. Mesmo que fosse em um ônibus muito bem equipado e com ar-condicionado. Eles reclamavam um após um de enjoo e de como suas costas doíam por causa dos bancos
— Certo, certo... deixem de reclamar! — Exclamou um dos professores — Agora, peguem suas coisas e desçam em ordem. Primeiros os alunos que estão sentados na frente, depois os de trás.
Com os professores os orientando, os alunos foram saindo de dentro do ônibus — um por um. Mesmo com o cansaço da viagem muitos pareciam estar muito ansiosos por estarem em uma excursão pela primeira vez
Isso não era tão anormal assim. Afinal, muitos pais acabam não deixando os filhos irem para essas viagens. Mesmo que seja uma escola conhecida, ainda sim, muitos acabam não confiando na segurança e por isso preferem agir com precaução
— Ah! Estou tão ansioso! — Disse, Yuji com uma felicidade radiante — Você também não está Ryoichi-kun?
— Hã? Ah claro...
— Isso me pareceu um pouco falso... — Comentou, Natsuki-senpai.
Os alunos tiravam suas coisas do bagageiro vez após vez. Alguns pareciam ter certa dificuldade com isso, e necessitavam de ajuda de algum outro aluno
— Mas por que você está tão ansioso mesmo? Digo, você tem condições de vim até Kyoto quando bem entender não é verdade? — Indaguei, curioso sobre sua resposta
— O quê?! Que pergunta é essa, Ryoichi-kun? Isso é blasfêmia!
— Blâs- O-o que tem de errado com minha pergunta?!
— Hum-hum... não é sobre ser apenas uma viagem qualquer, meu amigo...
— Eu não sou seu-
— É sobre aproveitar sua juventude ao máximo com A VIAGEM escolar dos sonhos, sendo 3 Dias e 2 noites andando por aí, comendo besteira, espionando as garotas e fazendo guerra de travesseiros! Tudo isso com meu melhor amigo! Isso não é demais?!
— Você é o quê? Uma criança?! E o que você disse sobre espionar??!?
— Hihi... Vocês dois são realmente umas figuras — Natsuki-senpai ria timidamente. Mesmo que fisicamente ela parecesse um tanto fadigada com a viagem, ela pelo menos havia voltado ao seu eu natural de sempre
— Vocês aí! Vocês são os próximos — Disse, um dos professores
— Bem, pelo jeito é nossa vez — Natsuki-senpai comentou
Kyoto é uma cidade que traz uma sensação estranha de nostalgia. Mesmo que — de modo algum — tenha vivido algo parecido. Definitivamente uma mistura entre a fascinante de tradição milenar japonesa e a vida moderna cotidiana
De uma maneira especial, é como se tudo que eu tivesse aprendido nas aulas e nos livros de história, tivessem tomado vida de repente. É como se, em cada casa, cada árvore tivesse um grande tamanho histórico. Como se em um estalar de dedos uma conexão forte com nosso país e nossos antepassados borbulasse em nosso sangue
Estavamos no meio do bairro de Higashiyama-ku. Um bairro histórico e totalmente cênico no leste de Kyoto, conhecido por preservar a atmosfera do antigo Japão. Esse bairro é cheio de ruas estreitas, casas de madeira e templos icônicos como o de Kiyomizu-dera e Yasaka. A área é rica em templos e santuários, incluindo o local de origem da "Cultura Higashiyama" do século XV, que influenciou profundamente o teatro, a arquitetura e a cerimônia do chá
As ladeiras de Sannenzaka e Ninenzaka são ladeadas por edifícios de madeira, cafés e lojas tradicionais que operam há séculos, mantendo a atmosfera da antiga capital. E a zona sul de Higashiyama abriga Gion, o bairro de entretenimento mais famoso de Kyoto, onde é possível avistar maiko (aprendizes de gueixa) e geiko (gueixas). Durante a primavera, o distrito torna-se mágico com as sakura e as iluminações especiais à noite.
Passeios de riquexô são uma maneira popular e tradicional de explorar as ruas estreitas e íngremes da região. Podíamos ver alguns deles operando pelas ruas, levando alguns turistas que pareciam tão animados quanto meus colegas que os observavam
Resumindo, estavámos — literalmente — vivenciando o berço da cultura tradicional japonesa
Por mais que me sentisse impressionado, não estava tão animado quanto os meus outros colegas. Seus olhares estavam tão intrigados quanto os de uma criança quando descobre que misturando as cores se forma uma nova.
Desde de que sairam dos ônibus, suas expressões eram sempre exageradas. Normalmente acompanhadas com algum "Whoah" ou "Uau" como se estivessemos em um zoológico ou no aquário da cidade
Entretanto, eles não eram os únicos impressionados
— Uau! Essa visão privilegiada do passado na frente dos nossos olhos... isso não é incrível, Ryoichi-kun? — Yuji perguntou enquanto seus olhos brilhavam olhando para o lugar onde estaríamos hospedados pelos próximos dias
— Não sei por que você está tão ansioso. É só uma pousada comum como qualquer outra
Bem, não como se eu alguma vez tivesse estado em alguma pousada como essa. Na verdade, essa é a primeira vez que estaria dormindo em algum lugar longe de minha casa
Era um sentimento um tanto desconfortável, mas não necessariamente ruim
— Como você pode dizer isso vendo esse Ryokan exalando tradição por metro quadrado?!
— Eu não sabia que você tinha tanto interesse pela história de Kyoto, Yuji-kun. — Indagou, Natsuki-senpai
— Mas eu não tenho nenhum interesse!
— Ehh? (2X)
— Vocês não conseguem entender? Não é sobre ter interesse ou não... mas sim fingir que tem! Afinal, o momento exige que devemos ser estudantes cheios de vontade e anseio pelo patriotismo japonês! Se quisermos que nossa viag- Ei! Para onde vocês estão indo?!! Não me abandonem!
"Ainda me pergunto porque dou alguma atenção pra esse idiota..."
— Vamos, vocês terão muito tempo para turismo depois. Agora, sigão as instruções dos professores orientadores de cada classe — Disse, um dos professores responsáveis
Logo, os grupos de alunos que já estavam formados, foram se revezando para entrar na pousada. Cada classe tinha um professor orientador que era responsável por cada grupo da classe correspondente
Enquanto pensava na divisão dos alunos, me lembrei que Natsuki-senpai havia me dito que teríamos uma reunião naquele dia com a garota que fez o pedido. Enquanto refletia sobre isso, me perguntava como isso seria possível já que os alunos estavam divididos por grupos
Além disso, obviamente, a senpai não poderia estar comigo e com Yuji já que ela é uma garota
— Ei! Garoto idiota! Já faz algum tempo que não te vejo...
Mas ao escutar a voz daquela mulher de meia-idade irritante, meio que tudo se encaixou... eu tinha me esquecido...
Obviamente a professora responsável pela nossa classe seria ela
Yoshiko-sensei
Notas do Autor: Todas as Ilustrações dessa novel são feitas por IA. Comentem e façam teorias, leio e respondo todos os comentários
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