Volume 1
Capítulo VII: A cidade que não esquece suas feridas.
Poderia ser apenas mais uma cidade qualquer. Claro se ignorarmos o valor histórico. Enquanto a deusa caminhava pelas ruas quadricentenárias, uma coisa chamou sua atenção: era que em meio a prédios, casas, as lojas lotadas de pessoas, havia a existência de ruínas. Por algum motivo São Vicente convivia com cicatrizes de um grande desastre ocorrido há relativamente pouco tempo.
Dando um basta para o assédio, mudará seu semblante para parecer uma turista qualquer.
Estava tão curiosa e intrigada que sabe-se lá porquê, (será por causa de suas habilidades?) uma voz visitou sua mente lhe dizendo:
—Estranho não é? Uma cidade alegre com pessoas indo de um lado para outro cuidando tranquilamente de suas vidas preocupadas com suas rotinas e entre suas casas, lojas, escritórios, uma pilha ali e aqui de escombros.
Vou por isso lhe contar o motivo disto tudo existir, o que aconteceu e porque estas feridas continuam e como as pessoas conseguem seguir suas vidas mesmo com estas dolorosas lembranças.
—Eu achava que neste mundo só havia um Deus e vejo que sou visitado por outro, um deus tão desconhecido que não vi ninguém o adorar (ignorando o fato que estou há muito pouco tempo por aquelas bandas).
—Não sou um deus, sou uma criação de todo e tudo, sou a soma das energias das consciências, dos espíritos, dos corpos destas pessoas, pela energia e alma destes objetos que por sua vez foram formados graças ao esforço e tempo gasto para construí-los.
Cada ação feita com sacrifício, com suor imprime uma marca, em cada rua, em cada árvore ou pedra, em cada poste, até as correntes elétricas em tudo estou presente. A história e os sentimentos comuns se misturam a todo o esforço realizado e disso saiu o que sou que não tenho forma apenas consciência, mas não sou livre, pois sou o que cada um que aqui vive. Eu sou o espírito desta cidade e por você ser capaz de se conectar a mim eu lhe contarei tudo.
Kuria estava concentrada no que ouvia e de forma inconsciente caminhou até uma praça no bairro chamado Biquinha. Esse bairro um dos mais antigos e tradicionais da cidade recebeu este nome devido a uma bica de água, cuja água vinha do Morro dos Barbosas que junto com o Morro do Japuí protegem a entrada de um dos braços do estuário chamado Mar Pequeno.
Ali perto os jesuítas construíram um colégio e há relatos de ali terem ocorrido milagres atribuídos à intercessão de São José de Anchieta.
Continuava Kuria absorta sentada na praça, a sua frente um monumento à glória da cidade que quis Deus fosse poupado da guerra, atrás do monumento às praias e o mar com seu ar carregado de sal que muitos acreditam ter valor terapêutico.
A sua direita uma estátua de um monstro marinho representando a antiga lenda da Ipupiara que parecia fazer cara feia para um monte de metal retorcido que um dia foi um blindado e tamanho foi o estrago sofrido que ninguém conseguia saber por quem havia lutado, apenas deixaram como um dos inúmeros monumentos ao passado recente que Kuria por acaso mesmo que mentalmente explorava.
A sua esquerda e atrás uma coleção de mudas de várias plantas nativas simbolizava a renovação e a tradição ao mesmo tempo.
Enquanto contemplava a paisagem urbana o espírito, ou seja, lá o que era, começou a contar a sua história. Kuria recebeu repentinamente em sua mente uma sequência de imagens e sons que se sucediam de forma absurda, cada imagem, era um cenário, um frame em que parecia que ela estava presente permitindo olhar em todas as direções ver, ouvir e sentir tudo o que acontecia.
O que eram estas imagens? Seria impossível para um mortal compreender, mas se por algum milagre, alguma intercessão, se o que Kuria tivesse vendo fosse apresentado de forma extremamente lenta, o agraciado várias cenas que contaria a história de como um dia a população sendo enganada e um governante popular antes amado sendo traído por aqueles em que mais confiava e enfim derrubado.
Elementos obscuros que não deveriam ser chamados de humanos fazendo promessas vagas e falsas e assim ascendendo ao poder. Tirania; a mesma população desesperada pegando em armas mesmo as armas não sendo suficientes; mercenários vindos de muito longe a serviços desses mesmos tiranos; combates rua a rua e corpo a corpo; caos; prédios desabando; os governantes que tomaram o poder caem; a verdadeira ordem sendo restaurada, reconstrução.
Cenas confusas para quem nunca tinha visto antes, complicadas ou até mesmo perturbadoras para as almas fracas, mas que poderiam ser resumidas da seguinte forma: Destruição, vitória e superação.
Ela então acordou de seu transe e perguntou ao espírito:
—Só isso tem a me mostrar?
—Não, se desejar lhe conto um pouquinho mais de 500 anos de história
—(Risos), o que não seria nada afinal tenho muito mais que mil anos, tenho todo o tempo do mundo
—Já que está ajudando a iniciar uma nova história de exploradores se jogando no desconhecido lhe contarei a história dos exploradores que se jogando no desconhecido chegaram e aqui fundaram uma nova civilização.
—Venha, aqui tem um lugar interessante que deveria conhecer.
A deusa caminhou até o centro da cidade, lá do lado da igreja Matriz em honra a São Vicente Mártir o padroeiro da cidade, edifício barroco erguido 1757, havia uma vila muito similar às que os pioneiros portugueses construíram no início do Século XVI.
—Aqui que tudo começou?
—Não, não é só uma réplica uma maquete a vila original está agora sob as águas, parece que em 1541 uma “onda gigante” inundou parte da ilha que até hoje continua submersa.
—Mais algo a me mostrar?
—Irei te deixar em paz, aprecie, sinta a cidade. Graças a suas ações a história que aqui foi contada no seu mundo irá se repetir e você não será capaz por mais poderosa que seja frear o ímpeto desta gente, agora se tu se sentirá orgulhosa ou arrependida é muito cedo para saber, mas você será testemunha.
—Já me cansei de ouvir isso.
—Se tua carne é eterna então carregará para eternidade isso, por que acha que seus outros “irmãos” mesmo tendo poder semelhante nunca tentaram algo parecido com o que você fez? O fardo ou o privilégio é seu.
—Ei!!!!!!! Não estou aqui para..........foi embora?
“Sozinha” ela resolveu seguir caminhando pelas ruas de São Vicente, aproveitou e foi para Santos “mas onde uma cidade começa e a outra termina aqui é tudo igual” era ainda de manhã e ela queria conhecer o tal “porto”.
De fato Santos era uma cidade incrível que foi muito sábia em transformar sua trágica e recente história em uma espécie de atração. Patriotas de todos os cantos afluíam e observavam cada esquina, cada praça onde uma placa que dizia coisas como “aqui caiu um patriota” ou mesmo contemplavam as ruínas e como ritual, um ritual que se embrenhou estranhamente no cotidiano, se jogava flores nos marcos espalhados na ilha.
Uma cidade orgulhosa cuja história se confundia com a do império, que ocupava seu quinhão da ilha de São Vicente e como sua ilustre vizinha sofreu com a guerra e ainda mantendo firme seu orgulho tratou de reconstruir cada rua, quadra, edifício e para evitar o esquecimento ergueu aqui e ali seus novos monumentos que junto com outros contam tal como um gigantesco livro a sua longa história.
“O porto era a parte mais valiosa para aquela guerra, deveria ser defendido ou tomado a todo custo, mas também deveria ser cuidado e preservado a todo custo afinal navios com mercadorias ou suprimentos não podem ancorar em meio a ferros retorcidos, ambos os lados rivais sabiam disso e por isso mantiveram sua contenda longe do alvo valioso o tanto que fosse possível levando a guerra para longe da li para locais que de fato nada tinham a ver com o conflito e como crianças em uma escola seqüestrada se tornaram vítimas de um indiscriminado fogo cruzado.
Os fortes imponentes colocados há séculos em cada ponta da baía nada serviram, pois o inimigo viera de dentro, não vieram em grandes frotas invasoras com seus veículos anfíbios, o inimigo tal como uma enfermidade veio de dentro, ele veio de dentro e não vou, eu não posso esquecer disso.
Não vou esquecer das emboscadas constantes das guerras de guerrilha, do jogo de caça e caçador.”
Trecho de editorial publicado no dia seguinte à vitória das forças do Império pelo jornal A Tribuna de Santos.
Sim era história, história recente, mas história, também era um passado que até os mais novos presenciaram, era também mais um tijolo no edifício da formação da identidade do que era ser em meio à diversidade, o que era ser brasileiro.
O porto continua lá recebendo navios e cargas de tantos outros mares e outros tantos países, continentes, em breve mandará para esses destinos as riquezas do novo mundo e receberá outras riquezas que serão vendidas, consumidas, cobiçadas por colonos e nativos afoitos, curiosos.
Que sorte de produtos nunca vistos cruzarão estes cais? Comidas de sabores inimagináveis, objetos de materiais finos ou bem acabados só encontrados por ali, artes, animais novos e para nós exóticos, quiçá novos metais ou ligas metálicas, quanto conhecimento passará por aqui?
O porto sobreviveu à guerra, sobreviveu, se reconstruiu e se ampliou. Graças à pujança econômica tão sonhada pelos brasileiros há gerações, o porto ganhou novos guindastes, sua profundidade foi aumentada para o mesmo nível dos grandes portos mundiais em um esforço colossal que o novo governo realizou como um dos símbolos da “restauração da ordem e caminho para o progresso”.
Tamanha a quantidade de terra e areia retirada que foi possível construir uma espécie píer na ponta da praia antes da entrada do porto onde foram construídos atracadouros para pequenas embarcações e estabelecimentos comerciais.
Porém como no resto da ilha (e quiçá do país) o novo convive com o velho e com as ruínas da guerra. Isso assusta os estrangeiros incautos que tentam entender porque em alguns pontos do porto há um ou outro daqueles enormes guindastes tão grandes como um edifício de apartamentos com partes queimadas, metal retorcido ou mesmo ameaçando despencar, porque há uma belonave afundada com poucas partes tal como um animal buscando respirar sob a água.
Para os visitantes de mundo afora uma expressão em inglês que também caiu na boca dos brasileiros: Each ruin is a monument (cada ruína é um monumento) ou também este outro provérbio, War ruins, monuments of life (Ruínas da guerra, monumentos da vida). (NOTA DO AUTOR EU JURO QUE NÃO LEMBRO DE ONDE TIREI ISSO)
As ruínas transformadas em monumentos tal como uma relíquia incorrupta agora observam uma nova era em que as pessoas à custa de muito sacrifício se tornarem sábias o bastante para entender que os velhos valores são indispensáveis para um grande futuro.
Kuria ficou fascinada com tudo o que via, com o cais, com as complexas máquinas (vulgo brinquedo de homem grande) que ainda efetuavam as obras, várias obras de ampliação do cais, dragagem e ampliação do “píer”, ficou tão perdida que logo era por volta do meio dia, o caos do entra e sai, do vai e vem das pessoas indo e algumas até voltando do almoço, o trânsito nervoso, Kuria percebeu que era hora de ela ir comer.
Deuses comem? Refazendo a pergunta, deuses precisam comer? A resposta? Não, deuses não precisam comer, não precisam dormir, não necessitam de praticar relações sexuais, mas as realizam, pois é algo prazeroso e é absurdo só os mortais desfrutarem de algo tão bom.
Havia próximo ao atracadouro onde se ancora as escunas e os iates, vários restaurantes especializados em frutos do mar e Kuria escolheu um que lhe parecia mais elegante e ali comera os melhores pratos.
Seus planos agora era de encerrar sua viagem pelo Império aproveitando mais uma tarde quente, depois compraria algo para dar de presente ao Imperador (apesar de estar viajando às custas dele) e também para aquele soldado cuja alma foi lhe dada de bom grado.
Chegara à hora de voltar para Brasília para cumprir o que havia prometido e ao mesmo tempo recolher seu “pagamento”, a divindade então decidiu percorrer os pouco mais de mil kms que separava a duas cidades em um trem de passageiros que a pouco havia sido instalado e que iria de Santos diretamente para a capital do Império, cabine de luxo claro (apesar do “subsídio oferecido meio que a contragosto pela coroa, a verdade é que Kuria tinha vasta soma de riquezas e dizem as más línguas a deusa “penhorou” uma pequena parte do que possuía em troca de moeda brasileira)
Durante a viagem imaginou como a Mesogeia ficaria quando o Império e talvez outras nações trouxessem um pouco de suas técnicas deste mundo, enquanto isso alguém sem a menor ideia não imaginava o que o aguardava...
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