Epopeia do Fim Brasileira

Autor(a): Altair Vesta


Volume 3 – Arco 3

Capítulo 45: Nova Marcha das Sombras

Observadora do anoitecer, a mulher de sedosos fios loiros parecia ler as estrelas que surgiam na abóbada superior.

Seus lábios róseos delineavam um sorriso deleitoso, conforme o alaranjado era preenchido pelo azul-escuro. As luzes carmesins ganhavam vida através da cidade sob a colina.

De repente, a brisa fresca bateu em seu corpo, fazendo as ondulações que caíam à altura do quadril esvoaçarem no espaço. Era o anúncio definitivo do fim de mais um dia em Hélade.

Batuques ressoaram de longe, passados alguns minutos do assobio singular da lufada.

Pouco a pouco, o coração da beldade disparou, bombeando maior quantidade de sangue ao corpo que passava a efervescer.

No compasso da consonância, experimentou uma forte invasão de energia dos pés à cabeça.

Fechou e abriu os olhos através de piscadas lentas, até abaixar a cabeça na vertente do declive campado.

“Parece ser uma boa hora”, avançou o primeiro passo, para então deixar o corpo ser levado rumo à região de um grande templo detrás do bosque.

Encarou a estrutura iluminada por tochas escarlates nas laterais.

Levou algum tempo com os globos avermelhados naquela posição, até exalar um fraco suspiro.

Retomou o trajeto e desapareceu no ambiente, como num passe de mágica.

Só restou os cantos femininos, a rivalizarem contra o uivo do vento noturno.

E exaltação à deidade das quais seguiam com absoluta fidelidade.

Alguns minutos atrás, Atena e Daisy enfim deixavam a acrópole ateniense, rumo ao Monte Olimpo.

Chloe e Julie tinham partido para a nova missão, no Deserto da Perdição. Assim, permitiram à Deusa da Sabedoria conduzir sua irmãzinha de volta para casa.

De mãos dadas, caminhavam pelos túneis de luz multicoloridos que cruzavam toda Hélade, sobre o alcance dos mortais: as Passagens Espectrais.

Por entre as passadas inaudíveis, a púrpura exalava tanta graciosidade a ponto de mascarar, inclusive, os leves impactos dos acessórios de armadura sobre o torso e as pernas.

Em contrapartida, a menina paralela tinha a cabeça subindo e descendo com lentidão, consecutivas vezes.

Os olhinhos estavam prestes a se fechar e qualquer piscada parecia fadada a fazê-la manter a oclusão.

E apesar da forte sonolência demonstrada por tais gestos involuntários — dos quais lutava contra, com bastante esforço —, continua a mover as pequenas pernas adiante.

A superior sorria ao observar tamanha peculiaridade.

Em breve, ela poderia dormir de vez, mas não oferecia indícios de que iria interromper a caminhada, mesmo se deixasse de ser guiada por sua mão.

Esse era o seu modus operandi em prol de recuperar todo o vigor perdido nos treinamentos.

De repente, soergueu a cabeça no susto.

Poderia ter assustado a deusa, só que a respectiva sempre estava preparada para ocasiões semelhantes. Não deixava a guarda baixa sob quaisquer instâncias.

E isso a fez projetar um sorriso leve à orientação dela.

— Já... estamos... chegando... irmãzona?...

A voz sonolenta se arrastou da garganta aos lábios, a se movimentarem numa vagarosidade inerente.

— Quase lá — respondeu, atenta à sequência do trajeto que já as levava até a entrada de Olímpia.

Não muito longe, podia enxergar a grande montanha que cortava as nuvens naquela exata altura dos túneis espectrais.

O melhor dos pontos de referência, pensou.

Afinal, era possível de ser contemplado de qualquer reino helênico, independentemente do quão distante estivessem.

— Creio que em breves minutos cheguemos, e... — Se interrompeu ao ver que a pequena já tinha regressado à luta contra o sono.

Só que dessa vez, aparentava estar no limite da derrota.

Dito isso, só restava a elas o complemento definitivo da caminhada.

Levou pouco tempo, porém, até que a Deusa da Sabedoria tivesse a atenção conduzida a uma das transversais que cortava as passagens.

De repente parou de caminhar, fazendo a acompanhante receber um novo alento de lucidez. Subiu a faceta ensonada e fitou a mulher, dúbia na questão de tal atitude.

Naquele estado, não poderia usufruir da Empatia. Portanto, somente deu dois leves puxões na mão dela.

— Irmãzona...? — O chamado, no entanto, não foi atendido.

Desprovida da delineação sorridente de há pouco, a sábia divindade aguardou pela sensação recebida de passagem naquela divisória de caminhos.

A tensão aparente logo se esvaiu, trazendo de volta o relaxamento aos ombros.

Os fios loiros surgiram numa das vertentes, a específica da esquerda. Os lábios tornaram a se curvar para o alto.

Logo a beldade tomou forma completa à frente das viajantes, possuidora de um semblante de pura sensualidade.

A venusta posou com uma das mãos no quadril voluptuoso.

Os globos avermelhados relaxaram, triplicando a sedução natural disparada através do olhar.

— Lady Afrodite — mussitou a purpúrea, num timbre solene.

Quase chegou ao ponto de executar uma mesura, não fosse as mãos dadas com a menina ao lado.

— Uma ótima noite, não concorda, pequena Atena? — devolveu graciosa, logo delegando o foco à criança que a encarava por entre uma expressão modorrenta. — Está passeando com a filhinha de pequeno Zeus?

— Na realidade, estou levando-a de volta a seus aposentos, no Olimpo. — Fez um rápido aceno com a cabeça. — Estou a cargo de vosso treinamento, para que aos poucos obtenha a possibilidade de se tornar uma Apóstola de Classe Iniciante.

— Entendo. — Deu outra olhada na criança, que parecia sem palavras perante sua magnificência. — Quando crescer, serás uma belíssima mulher. Carrego grandes expectativas em acompanhar sua evolução.

Embora ciente do sentido da palavra imposta pela Deusa do Amor, Atena não deixou de levar para o outro lado da moeda.

Evolução se tratava do que mais lhe trazia expectativas no tocante à meia-irmã caçula. E ainda era privilegiada por ter a oportunidade para acompanhá-la crescer de tão perto, em todas as perspectivas.

Se vangloriava disso, afinal. Tratava-se do seu tesouro particular, uma gema especial escondida no meio de tantas outras.

No entanto a formosura em pessoa à sua frente também tinha em posse um tesouro de cunho quase extraordinário...

— Como está seu filho? — indagou sem pestanejar, ao que a amorosa também sequer reagiu surpresa.

— Qual deles? — E fez a retruca interrogativa, de modo sarcástico, sem obter resposta da sábia. — Entendo... ele está bem, só não se acostumou a se enturmar ainda. Uni-lo a uma dupla parece estar cada vez mais complicado.

— De fato... a última não foi uma ideia tão aprazível — sibilou ao desviar o olhar, então percebendo a irmãzinha ao lado. Agora estava completamente adormecida. — Quando ela dormiu?...

— Bom, não irei atrasar seu regresso. Foi boa a conversa, apesar de curta, pequena Atena. — Afrodite voltou a caminhar em frente, a ultrapassar o caminho da purpúrea.

Atena não prestou queixas.

Meramente assentiu com a cabeça e se despediu da veterana, que aos poucos desapareceu nos caminhos arco-íris.

Se perguntava sobre alguma razão superior no intuito de ter se encontrado com ela ali.

Talvez fosse fruto da mera coincidência. Sem se permitir a travar os pensamentos em algo tão pequeno, voltou a conduzir a adormecida criança ao restante do trajeto, rumo ao Olimpo.

Direção discordante da venusta, que prosseguiu até a caída completa da noite ao dar a volta num dos flancos da grande montanha.

Obteve rápido e fácil acesso a uma trilha deserta, distante da cidade olimpiana, onde predominavam arvoredos que se ajuntavam até o ponto de finalidade.

A grande floresta se embrenhava pelo restante da região e aparentava não ter um fim.

Os olhos flamejantes observaram cautelosamente a entrada extensiva, por onde a escuridão se esgueirava no bloqueio da luminosidade natural a cair do céu.

— Sim, nós iremos emboscá-los — entoou uma voz masculina, um pouco afastada da mulher; foi o suficiente para que ela virasse o rosto à vertente específica. — Se conseguirmos matar alguns dos lacaios deles, poderemos deixar um recado claro.

Afrodite caminhou a passos curtos, já adentrada na floresta, como se para encontrar o emissor das fortes palavras.

— Ainda assim, será uma exposição chamativa, no mínimo — rebateu outro indivíduo, dessa vez de timbre feminino. — Estão correndo o risco de subestimarem demais os descendentes divinos.

— Não precisa se preocupar. — O rapaz a interrompeu, sorridente. — A hora certa está posta para isso, afinal. O prazer será maior do que eventuais contratempos.

Sem delongas, a divindade obteve primeiro contato ocular com os respectivos. Logo reconheceu as serpentes a se movimentarem em intensidades diferentes para cada uma das três mulheres.

Na companhia delas, além de uma possível criança desconhecida, havia duas figuras cobertas por um manto negro.

Não podia ver seus rostos, estavam encapuzados; o ângulo de trás também não era dos melhores.

Ainda assim, identificou a natureza irradiada inconscientemente por eles...

— Isto é muito interessante — mussitou consigo ao, num piscar, construir o aparente contexto daquela reunião.

E nesse mesmo piscar, os trajados nas sombras se corrupiaram o mais rápido que podiam, logo na orientação de onde estava.

Da perspectiva deles, não viram nada além das habituais árvores quase aglutinadas na extensão do ambiente.

As três mulheres à frente sequer compreenderam a razão daquilo e nem mesmo puderam os questionar, já que ambos dispararam em saltos alucinados.

Chegaram ao ponto onde supostamente teriam experimentado a irradiação da presença estranha. Mas, de novo, não encontraram qualquer vestígio.

Um deles, o rapaz da fala anterior, ainda insistiu e perseguiu os rastros invisíveis por entre alguns metros.

Não desistiu até encontrar a luz no fim do túnel, responsável por fazê-lo chegar à saída principal da mata. Nada havia ali além da trilha aberta que conectava aquele lugar com a Cidade de Olímpia.

Tomou cuidado em prol de manter-se ao alcance dos arvoredos. Seria imprudente seguir aquele caminho por uma sensação nada definitiva.

 Irritadiço, executou a única opção viável àquele instante; dar meia-volta e abandonar o furor provocado pela ocasião repentina.

Tão logo tornou a desaparecer no meio do breu, observado de longe pela sorridente bem-sucedida em despistá-lo.

— Um recado claro, hein? — Riu baixinho, protegida pela invulnerabilidade física e vital criada pelas Passagens Espectrais. — Bom... dito isso, creio que será um prazer estragar seus planos.

Com o esbanjo formoso de sempre, girou no próprio eixo e optou por retornar ao caminho sem pressa.

Já tinha definido em mente qual seria sua jogada de mestre naquele novo desafio, ainda desconhecido por todos os seus semelhantes.

Agradecimentos:

Gostaria de agradecer imensamente ao jovem Mortal:

Taldo Excamosh

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