Epopeia do Fim Brasileira

Autor(a): Altair Vesta


Volume 1 – Arco 1

Capítulo 9: Sinestesia

— O progresso dos três, até então, revela-se tentador. — Atena fez uma pausa após o comentário.

Tomou um tempo para organizar os pensamentos, à medida que acompanhava os passos de Silver e Lilith pela trilha florestal da Ilha Methana.

“Damon e Lilith constituem um par adequado. Estão juntos há mais de quatro anos. Agora, ele...”, fixou a atenção no jovem de cabelo prateado.

Ele caminhava com serenidade, ao longo da estrada de terra rodeada pelos densos arvoredos.

Àquela altura, o primeiro a ser citado por seus devaneios já tinha avançado sozinho. Portanto, a Deusa da Sabedoria achou interessante observar como a dupla inesperada se sairia.

O fato de ser a primeira missão onde os juntava, além da diferença gritante de personalidades, tornava o acompanhamento ainda mais instigante.

Pensou o quanto o Rei dos Deuses deveria estar motivado a observá-los, o que a fez dar uma olhadela rápida por cima do ombro.

O respectivo mantinha a posição, repousado no trono acima dos degraus. E tampouco demonstrava emoções que pudessem ser lidas pela ótima observadora.

Naquele momento, percebeu os olhos do superior remexerem. Então, voltou a encarar a Piscina da Vidência um tanto surpreendida.

Os eventos transmitidos pelo tapete aquático provaram-se tão inesperados quanto.

De um momento a outro, Lilith tinha adormecido na passagem e Silver enfrentava uma das Sirenas.

Atena logo reconheceu a criatura como sendo Ligeia, a mulher-ave do Canto entorpecente, a Doce Sonoridade. Isto posto, compreendeu o motivo do repentino desmaio da apóstola.

Logo em seguida, as asas coloridas se abriram.

Autoridade Cinética do Som”, semicerrou as vistas assim que a habilidade passou a ser entoada. “Um determinante contraponto à audição potente que Silver possui... Não será simples.”

O jovem carregou a desmaiada companheira durante os duelos iniciais, então decidiu escondê-la em prol de avançar por conta.

Quando puxou sua arma, iniciou a nova fase do conflito.

“A Lâmina dos Mares, forjada por meu irmão Hefesto. Combina bastante com ele”, esboçou um sorriso satisfeito quando o confronto se equiparou.

Silver começou a tomar controle do ambiente de maneira gradativa. Ligeia, por sua vez, experimentava uma posição nada confortável.

A euforia da sábia divindade crescia diante do desenvolvimento de uma boa batalha.

Fazia tempo que não assistia algo tão interessante.

Fascinada com o aspecto de leveza e tranquilidade dominadas pelo rapaz, remeteu à época na qual pôde acompanhar seu tio, o Deus dos Mares, lidando com monstros encarregados por assolarem seu reino.

Tais lembranças, porém, duraram pouco. Foram desfeitas no momento do primeiro grande resultado entre a contenda.

— Olhe que prazeroso, meu pai.

Virou-se de novo, mas encontrou o homem de vistas fechadas.

Suspirou com fraqueza em retorno. Aquilo, de certo, provinha do casamento perfeito entre a falta de interesse no conflito e a habilidade da sirena.

De todo modo, a deusa pegou-se espantada com a nova descoberta quanto ao poder da mulher.

Desde que pudesse ser escutada, mesmo em outro lugar, aparentava não possuir limites ou fraquezas.

A divagação lhe fez arquear os lábios em um novo sorriso.

O desenrolar do evento foi contemplado somente por seus olhos vidrados.

No fim, durante a reviravolta imposta pela mulher-ave, o apóstolo logrou de utilizar suas verdadeiras habilidades para, enfim, superá-la.

Apesar das dificuldades, o desfecho favoreceu o originário do Panteão Olímpico, que partiu a adversário em dois.

— É inacreditável. Silver evoluiu muito desde a entrada na corporação. — Assentiu com a cabeça ao notar o despertar do homem. — Perdeu uma ótima peleja, meu pai.

— Os filhos de meus irmãos não são de meu interesse, criança — ele respondeu, através de um tom furioso. A deusa se voltou para a piscina. — Se não conseguissem cumprir essa simples tarefa, eu ficaria decepcionado.

— Contudo, este momento que o senhor optou por ignorar demonstrou que eles são muito competentes. Ainda não vimos Lilith e Damon em ação, contudo creio que seus níveis atuais possam ser equiparados, caso me permita dizer.

— Ainda bem que pediu a permissão só ao final de sua frase, pois eu iria negar.

Zeus sustentou o timbre áspero na retruca.

No fim, a querida descendente apenas deixou escapar uma risada de canto ao completar:

— Não se preocupe, meu pai. A vez dele já está chegando. E tenho certeza que “decepção” não será a palavra-chave deste capítulo.

Confiante, a Deusa da Sabedoria já podia visualizar o desfecho daquela missão.

Damon abriu caminho pelo território florestal, guiado pelo aroma sangrento.

Avançou o suficiente para alcançar uma parte de poucas árvores nos arredores. Era o local perfeito a fim de observar o grandioso vulcão, ainda a alguns quilômetros de distância.

Com o olfato aguçado, pôde experimentar um miasma diferente pairar nas proximidades.

Notou que vinha do trajeto ultrapassado há pouco, o que o fez aguardar por alguns segundos acima de um galho.

— Será que aqueles dois mataram algum animal? E que voz irritante — resmungou com uma das mãos sobre a orelha.

Encarou a passagem na retaguarda.

O fedor extravagante entrava em conflito com o aroma responsável por levá-lo até aquele ponto.

Não só isso, como também atrapalharia a continuação. Para finalizar as conjunturas, a melodia, apesar de não muito chamativa, incomodava seus ouvidos.

Tendo a paciência torrada aos poucos no meio da indefinida confusão, resolveu focar no que tinha pela frente.

Via que, acima do vulcão, nuvens carregadas traziam uma grande tempestade. Mas isso pouco importava.

Subiu o restante do arvoredo, um dos maiores encontrados até então. De pé sobre a coroa de folhas grossas, pôde enxergar diversas colinas nas adjacências do monte rochoso.

Também verificou pequenas grutas, espalhadas por localidades específicas da estrutura geológica que tomava um pedaço considerável da terra.

Por fim, destacou outras passagens abertas que pareciam levar aos outros litorais da ilha.

As sirenas poderiam ser encontradas em qualquer um desses lugares. Isso já complicava a definição do garoto quanto à melhor medida de prosseguimento.

Gastou um singelo período com divagações acerca das possibilidades ao alcance das vistas.

Então, de súbito, um poderoso calafrio escalou sua nuca. Não demorou a notar que se tratava do mesmo sofrido em alto-mar

As sobrancelhas ergueram-se ao limite. O corpo moveu-se um passo à esquerda no puro reflexo, capaz de se desvencilhar da investida inesperada.

As garras cortaram o ar rente ao rosto e atingiram a árvore abaixo, que sofreu o impacto devastador e terminou por sucumbir ao solo.

Uma intensa onda de choque atingiu outras nas proximidades, fazendo algumas de suas folhas serem arrancadas no processo.

Galhos se partiram e esvoaçaram juntos da corrente violenta. Bastante terra subiu na colisão.

Tal onda lançou o garoto para trás durante o salto. Com habilidade, girou em pleno ar e aterrissou acima de outro arvoredo.

Encontrou dificuldades a fim de manter-se erguido sobre o corpo estremecido, portanto resolveu regressar ao solo terroso.

A sequência rápida precedeu a revelação da responsável pelo alvoroço, já conhecida pelo ataque surpresa...

— Está gostando da estadia em nossa ilha, pirralho!?

No momento que a voz grotesca ecoou pelo espaço, o rapaz direcionou o rosto às asas escuras que pairavam em volta de um sorriso grotesco.

Abertas com majestade, possuíam envergadura suficiente para cobrir boa parte da linha de visão do filho de Zeus.

Na atual ocasião ele podia enxergar a bel prazer, sem o impedimento da densa neblina. Ainda assim, não ficou surpreso ante seu íntegro aspecto.

 O olhar assustador se destacou na sequência, a exemplo das unhas que usava para rasgar o que vinha pela frente, como foi com a árvore derrubada.

— Já ‘tava pensando que não seria recepcionado pelas anfitriãs. Aliás, por que demorou tanto? Ainda ‘tava se recuperando do sufoco que levou no mar?

Thelxiepia semicerrou os olhos ao resmungar, em protesto ao sarcasmo deliberado pelo inimigo mortal.

A ferida em seu torso — ainda em cicatrização —, originada pelo próprio garoto, parecia gritar para que ela o afligisse a qualquer custo.

No entanto buscou manter a paciência naquele instante inicial.

O embate frontal sem o mínimo de previdência já havia se provado um risco desnecessário.

Esperou tanto pelo momento no qual o trio fosse separado, mas não cogitava obter tamanha recompensa ao encontrar o adolescente solitário.

Os dentes caninos foram revelados no sorriso sinuoso.

A tão desejada batalha vingança pessoal poderia ocorrer.

Deveria se despreocupar com possíveis intervenções e, em plano ilimitado, conter as forças tampouco seria necessário.

— Seria rude de minha parte, ou de minhas irmãs, atrapalharem sua acomodação.

— Se você diz...

O apóstolo ajeitou a postura. Passeou com a mão dominante até envolver a empunhadura da arma embainhada nas costas.

“Continue se achando... Assim mesmo, pirralho”, o aspecto sorridente da mulher-ave alargou-se de maneira grotesca.

— Eu vou destruir seu corpo...

— Isso eu não vou aceitar.

Ele puxou a espada durante a resposta.

O simples deslocamento criou pressão no ar, a ponto de originar uma ventania gelada em torno de seu corpo.

Repousou a lâmina, apontada na vertente do plano.

As folhas das árvores farfalharam com ímpeto, deliberando um pressentimento ameaçador à criatura que planava no espaço.

Notou que estava tão intenso comparado ao encontro no Egeu.

Não era só ela que tinha inibido as verdadeiras capacidades, pensou. Afinal, dilacerá-lo naquele estado seria um divertimento ainda maior, tomou como consideração.

Empurrou o ar com as asas. Mergulho no ar em alta velocidade, em busca do oponente próximo.

Preparou as garras das mãos, mirou o pescoço através dos olhos esbugalhados e executou o ataque.

O garoto aceitou a investida e bloqueou com a espada posicionada em diagonal, estabilizada com firmeza pela outra palma sobre a chapa metálica.

No entanto a criatura depositou força além do esperado, lhe obrigando a mover-se para baixo.

Tal reação fez as unhas rasgarem o ar, rente a sua face. No fim, somente atingiu o tronco da árvore que estava na retaguarda.

Arrastaram-se na madeira resistente, além de levar alguns fios do cabelo bagunçado do apóstolo.

Ele reagiu impressionado ao contemplar a cena. Imaginou a respectiva fatalidade, caso não optasse por deixar-se ser atraído ao solo.

“‘Tá mais forte”, comparou os golpes naturais utilizados por ela no aquecimento em alto-mar.

Careciam de maior atenção, com certeza.

Caso a subestimasse dessa vez, poderia seriamente ser superado.

Deixou-se levar e acompanhou a queda da árvore lacerada. Apoiou a mão livre na terra gelada, em prol de empurrar-se a um giro para acertar as pernas da mulher-pássaro com a panturrilha.

Thelxiepia desviou facilmente através de um salto ligeiro, mas o oponente aproveitou a poeira levantada pela queda do arvoredo e pulou num rodopio mortal.

Ao recuperar a postura, arqueou a espada, arriscando um corte contra a monstruosidade.

Ela usou os braços para se defender.

Ao ter os antebraços cortados, experimentou uma ardência efêmera. Carne e pele foram feridas superficialmente, mas foi o bastante a fim de arrancar uma queixa dela.

Em silêncio, ele abominou a oportunidade perdida através do contragolpe.

Pôde depositar bastante ímpeto no intuito de lançar a sirena para trás, fazendo seus ossos estremecerem graças ao impacto da arma.

Ela bateu as asas com violência, bem-sucedida em evitar a colisão contra outra árvore. Amaldiçoou o quanto aquele cenário a atrapalhava.

O filete de sangue escuro escorreu do novo ferimento, porém a criatura não reagiu da mesma maneira.

Revelou a comprida língua e lambeu o líquido rubro.

Os membros plumosos bateram outra vez, direcionando-a a uma nova investida.

O olimpiano desviou nessa oportunidade ao pular até outra árvore em paralelo.

Posicionou-se sobre o primeiro galho avistado.

A mulher freou o impulso ao sacudir as asas na direção contrária, responsável por jogá-la de volta à direção onde o alvo se encontrava.

Ou deveria se encontrar.

Após uma piscada apressada, a monstruosidade foi pega de surpresa pela locomoção de Damon que, na velocidade do pensamento, surgiu acima de seu corpo.

Repleto de fagulhas cerúleas ao redor das pernas, deixou a mulher incerta.

Porém o sentimento logo foi sobreposto pelo horror.

O garoto desceu a lâmina brilhante, em alta velocidade, com destino à cabeça dela. Num impulso aterrorizado, jogou as asas em sentido contrário e empurrou-se a metros de distância.

O abalo agressivo chacoalhou seus ossos, lhe deliberando uma torrente de agonia.

Apesar do sucesso em evitar o golpe, a ação evasiva não a fez perceber o nascimento de outro corte sobre os membros de voo.

Sentir o novo ferimento, na região superior do par membranoso, fez a monstruosidade rugir:

— Desgraçado!!!

Tentou contra-atacar no lançamento de penas afiadas como facas na direção dele.

Mais uma vez, Damon rasgou o espaço com a espada, defletindo as estruturas epidérmicas numa camada de vento à frente da guarda.

Em seguida, foi puxado de volta à terra pela gravidade.

A sirena também se permitiu a regressar. Reduziu a queda ao fincar a extremidade das asas na terra. Constatou a nova ranhura na destra, antes de retornar o foco ao problemático.

O apóstolo devolveu a afronta, expressando tanta frieza quanto.

Em resposta a isso, ela desceu lentamente, voltando a tocar a sola das patas na terra fria.

Aquela era uma batalha ainda mais equilibrada em comparação à travada em alto-mar. O semblante circunspecto do enviado divino estava a ponto de arrancar a mulher-ave de suas estribeiras.

Obrigava-se a comedir o emocional o quanto podia, em prol de não o atacar a esmo.

— Então, poderia responder uma perguntinha? — Ele fixou a encarada no rosto contorcido dela.

— O quê? — Em questionamento, ela alçou uma das sobrancelhas.

— De quem é esse cheiro de sangue?

Thelxiepia não apresentou alguma resposta, apenas ergueu a outra sobrancelha.

Segundos após notar a própria feição perplexa, franziu-as a fim de esconder o abalo.

“Como ele está sentindo isso?”, cerrou os punhos com força, tentando manter a compostura ameaçadora em essência

O Apóstolo Prodígio prosseguiu:

— Quantas pessoas ‘cês já mataram aqui?

— Por que eu deveria lhe dizer!?

— Porque eu vou poder devolver a morte de vocês em nome dessas almas.

Ela ficou sem palavras por um instante.

Sentiu-se afetada por aquela declaração.

— E eu vou fazer você se arrepender de estar caçoando de mim, moleque! — Impôs sua pressão no local ao abrir as asas. — Isso me lembra... Onde estão aqueles dois que estavam no barco e só ficaram observando nossa luta!?

— Eles devem estar dentro da floresta agora. Eu vim na frente. — Pensou na demora que ela teve para perguntar sobre eles.

Ao ouvir aquela resposta, o sorriso regressou à sua face.

— Entendo... Então Ligeia tirou a sorte grande.

— Ligeia? Quem é essa?

— Por isso eu escutei o Canto dela. Por um momento achei que tinha me enganado ao te ver aqui. Seus amigos provavelmente já estão mortos no meio dessa floresta!

Damon demonstrou dubiedade perante as lamúrias irritantes da criatura.

Pelo menos compreendia a razão de ter escutado a tal voz irritante, há pouco.

— Eu queria dar conta dos três, mas não vou reclamar. Ao menos dessa vez a nossa grande irmã ficará sem a parte divertida. — Voltou a preparar os membros perigosos. — Portanto, irei terminar meu dever antes que ela perceba e...

Thelxiepia não completou a frase, que perdeu o tom deleitoso aos poucos.

O instante quase imperceptível a fez congelar onde estava. Só depois de segundos arrastados percebeu que tinha feito isso não por conta da feição desinteressada do garoto.

Mas sim graças a uma aura lancinante que surgiu de sua retaguarda.

Todas as penas arrepiaram, sem exceções.

Se virou o mais rápido que pôde, já posicionada com os braços defensivos à frente do corpo. Sequer compreendia o motivo de tal conduta, porém viu que era pior.

Mesmo que nenhum ataque tivesse ocorrido em sua direção, também posicionou ambas as asas adiante, para formar uma segunda barreira protetora.

Fitou com cautela por cima das epidermes, ao abaixá-las alguns centímetros.

Os olhos estremecidos enxergaram os dois outros jovens, aqueles que havia acabado de dizer que tinham sido mortos por sua irmã.

— ‘Cês demoraram — Damon mussitou, nada abalado.

A garota de cabelo ruivo, amarrado em caudas gêmeas, era a responsável por irradiar a pesada influência.

Alguns passos à frente do companheiro prateado, ela podia esmagar a confiança da sirena numa singela troca de olhares.

E não havia nada que a criatura, aprisionada num abalo eletrizante, pudesse fazer. Senão tremer por todo o corpo...



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