Volume 2
Capítulo 37: Trabalho é Trabalho
Alguns dias antes do ritual
Tavin odiava Nepau.
Não pelo cheiro — embora o cheiro fosse ruim. Não pela lama que grudava nas botas ou pelas putas que cobravam o dobro por metade do serviço. Odiava porque Nepau era espelho. Mostrava exatamente o que o mundo era quando ninguém estava olhando.
E Tavin já tinha visto demais para precisar de lembretes.
Ajustou a sacola no ombro. Três. Tinha conseguido três hoje. Duas meninas e um menino, nenhum acima de dez anos. O menino ainda choramingava lá dentro, abafado pelo tecido grosso. As meninas tinham desistido há horas.
"Cala a boca", ele pensou, mas não disse. Não adiantava. Crianças não entendiam que silêncio era sobrevivência. Aprendiam depois — os que sobreviviam.
Entregou a sacola no ponto de coleta. Um galpão nos fundos do distrito dos curtumes, onde o fedor de couro podre mascarava qualquer outro cheiro. Rolf estava lá, gordo e suado como sempre, contando moedas com dedos que pareciam salsichas.
— Três? — Rolf franziu a testa. — A cota é cinco.
— Tá difícil. Mães estão escondendo.
— Mães sempre escondem. Você tá ficando mole, Tavin.
Tavin não respondeu. Pegou o pagamento — menos do que deveria, como sempre — e saiu. Não valia a pena discutir. Rolf era gordo, mas tinha quatro homens armados atrás do balcão. Tavin era bom, mas não era burro.
Conhecia seus limites. Era o que o mantinha vivo.
Caminhou pelas vielas até encontrar uma taverna que não parecesse prestes a desabar. O Último Porto. Nome pretensioso para um buraco, mas tinha luz nas janelas e som de gente lá dentro. Servia.
Foi quando viu as crianças.
Estavam amontoadas na porta da taverna, rostos pressionados contra o vidro sujo. Seis, talvez sete. Pequenas. Sujas. O tipo que ele caçava todo dia.
Mas não estavam fugindo. Não estavam escondidas.
Estavam sorrindo.
Tavin parou. Observou. Uma menina de cabelo embaraçado apontava para dentro, dizendo algo que ele não conseguia ouvir. Outra ria — som estranho em Nepau, riso de criança. Um menino menor se esticava na ponta dos pés, tentando ver melhor.
"Não é mãe escondendo", ele percebeu. "É isso. Elas vêm aqui. Fogem de casa pra vir aqui."
Por quê?
Empurrou a porta. Calor, suor, cerveja derramada. Cheiro de humanidade comprimida. E música. A música já estava tocando.
Tavin não prestou atenção no início. Tavernas sempre tinham algum idiota com instrumento, tentando ganhar moedas com baladas sobre amores perdidos. Mas então a primeira nota realmente chegou — não aos ouvidos, mais fundo — e ele parou com a mão ainda na porta.
O som era... errado. Não desafinado. Errado de um jeito que fazia sentido. Como se a música conhecesse algo que Tavin tinha esquecido. Ou enterrado.
Olhou para o palco improvisado no canto.
Um garoto. Magro, pálido, curvado sobre um violão como se fosse a única coisa real no mundo. Dedos movendo rápido demais para acompanhar. E o rosto — Tavin não conseguia ver direito daquela distância, mas havia algo no rosto. Concentração que beirava dor.
A melodia mudou. Ficou mais lenta. Mais pesada.
E Tavin viu a irmã.
Não literalmente — ela estava morta há quinze anos, febre que levou três dias para matar. Mas viu o rosto dela flutuando na memória como se estivesse ali, sólido, real. Os olhos fechando. A mão pequena na dele, apertando, depois soltando.
"Que merda."
Piscou. A visão sumiu. Mas o peso ficou — pressão no peito que não estava lá antes. Olhou ao redor. Outros sentiam também. Um homem no balcão enxugava os olhos. Uma mulher no canto abraçava a si mesma, balançando devagar.
Pediu cerveja. Achou um canto. Bebeu. A cerveja era aguada, mas fria. Pequenas vitórias.
A música continuava. E algo nele continuava respondendo.
"Quem diabos é esse garoto?"
Tavin se levantou. Não planejou — o corpo decidiu sozinho. Caminhou entre as mesas, cerveja ainda na mão, aproximando-se do palco. A música ficava mais forte a cada passo. Mais presente.
Parou ao lado de um velho bêbado que assistia com a boca aberta.
— Quem é o garoto? — perguntou.
O velho demorou para processar. Piscou, como acordando.
— Ikki. Toca aqui toda noite. — Pausa. — Dizem que é amaldiçoado. Eu digo que é abençoado. Mesma coisa, no fim.
Ikki. Nome de ninguém. Nome de quem está escondendo algo.
Tavin deu mais dois passos. Agora estava perto o suficiente para ver.
O garoto ergueu a cabeça no momento exato. Olhos encontraram olhos.
Verde. Verde profundo, como floresta antiga. E cabelo negro caindo sobre a testa, emoldurando um rosto pálido demais, anguloso demais.
O copo escapou dos dedos de Tavin. Estilhaçou no chão. Ele não ouviu.
Conhecia aquele rosto.
Não pessoalmente — nunca tinha pisado em Nocturna, nunca chegaria perto do palácio imperial. Mas a Guilda circulava informações. Retratos. Nomes que valiam fortunas. E havia um rosto que todo coletor de nível médio para cima conhecia de cor, porque encontrá-lo significava aposentadoria instantânea ou morte instantânea, dependendo de como jogasse.
Olhos verdes. Cabelo negro. Traços finos.
Karlai.
"Não. Não pode ser."
Mas era. Os detalhes batiam. A idade batia. E mais — o relatório que circulara há semanas. Filho bastardo de Hécate. Híbrido. Fugitivo. Procurado pelo Tribunal da Noite. Recompensa grande o suficiente para comprar uma cidade pequena.
Icarus Karlai.
Tocando violão numa taverna podre de Nepau.
A música parou. O silêncio que veio depois foi quase físico — como se o ar tivesse engrossado. O garoto ainda olhava para Tavin. Havia algo nos olhos dele agora. Não medo. Avaliação. O mesmo olhar que Tavin tinha visto em predadores.
"Ele sabe. Sabe que eu sei."
Movimento atrás dele. Tavin não precisou virar para saber — sentiu a presença, o deslocamento de ar, o peso de alguém treinado se aproximando. Quando finalmente olhou, viu um homem grande, ombros largos, mão descansando na bainha de uma espada curta.
Os olhos do homem diziam tudo: Dá um motivo. Só um.
Tavin ergueu as mãos devagar. Gesto universal. Recuou um passo. Dois.
— Só apreciando a música — disse, forçando a voz a sair casual. — Boa música.
O homem não respondeu. Não tirou a mão da bainha.
Tavin caminhou de volta para sua mesa. Cada passo cuidadoso. Cada músculo querendo correr. Sentou. Não tinha mais copo, mas fingiu que tinha. Precisava pensar.
Icarus Karlai. Aqui. Aqui.
A recompensa passava pela cabeça dele em números dourados. Suficiente para nunca mais pegar crianças em sacolas. Suficiente para esquecer o rosto da irmã, o peso do menino choramingando, todas as coisas que empurrava para baixo todo dia.
Mas.
As crianças na porta. Os sorrisos. O riso que não combinava com Nepau.
Elas vinham por causa dele. Fugiam de casa não por medo — por esperança. Para ouvir algo bonito num lugar onde bonito não existia.
"Quantas dessas crianças eu peguei? Quantas eu ainda vou pegar?"
Tavin levantou. Caminhou até a porta. Não olhou para trás. Sentiu os olhos do garoto — e do homem grande — queimando nas costas até sair para a noite.
O ar frio bateu no rosto. As crianças ainda estavam lá, esperando a próxima música.
Tavin passou por elas. Não conseguiu olhar.
Caminhou na direção do galpão de Rolf. Precisava contar. Precisava dividir o peso dessa informação antes que ela o esmagasse. Era o procedimento. Era o que sempre fazia.
O galpão apareceu à frente. Luz fraca vazando pelas frestas. Vozes lá dentro — Rolf e seus homens, contando a mercadoria do dia. Crianças que acordariam amanhã em lugares que não reconheceriam, com donos que não conheciam.
Tavin parou na porta.
A mão não subiu para bater.
Ficou ali, parado, vendo as crianças de novo. Os rostos pressionados no vidro. Os sorrisos. O riso.
A música ainda tocava na memória. E junto com ela, o rosto da irmã. A mão pequena soltando.
Tavin enfiou a mão no bolso. Tirou o distintivo da Guilda — bronze barato, símbolo de ossos cruzados, a única prova de que ele pertencia a alguma coisa.
Olhou para ele por um longo momento.
Depois jogou no chão.
"Eu não quero mais essa merda."
O distintivo ficou ali, na lama de Nepau, brilhando fraco sob a luz da lua.
Tavin ergueu os olhos para o céu. Estrelas fracas, quase invisíveis através da névoa da cidade. Em algum lugar acima, diziam que deuses observavam. Tavin nunca tinha acreditado. Mas agora...
"Será que existe redenção? Nessa vida ou na outra?"
Não veio resposta. Nunca vinha.
Tavin enfiou as mãos nos bolsos vazios e caminhou para dentro de Nepau.
Não sabia para onde ia.
Mas pela primeira vez em quinze anos, isso não parecia um problema.
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