Volume 2

Capítulo 38: Vinho Entre Ruínas

O Imperador de Noctus estava morrendo, e o único que sabia era o velho sentado à sua frente com uma garrafa de vinho roubada da adega imperial.

— Você sabe que isso é crime, não sabe? — Cassius disse, aceitando a taça. — Roubar propriedade da coroa.

— Eu roubava vinho dessa adega quando seu pai ainda usava fraldas. — Genji serviu a própria taça com a solenidade de um ritual. — Considere tradição familiar. Alguém precisa manter os velhos costumes.

Cassius quase sorriu. Genji tinha esse efeito — Velho e ainda conseguia fazer o Imperador de Noctus se sentir como o garoto de dez anos que corria pelos corredores do palácio.

— À sua saúde — Genji ergueu a taça. — O que resta dela.

— Os médicos disseram para não beber.

— Os médicos disseram a mesma coisa pro seu pai. Não lembro a idade que tinha quando morreu mas estava bêbado e feliz, com uma mulher que aparenteva ser bem mais nova ao lado. — Genji bebeu. — Médicos são covardes. Dizem para não fazer tudo que vale a pena fazer.

Cassius riu. Som estranho, arranhado, quase esquecido. Quanto tempo fazia desde a última vez que tinha rido?

Beberam. O vinho era bom — sessenta anos envelhecendo no escuro, esperando um momento que merecesse. Talvez fosse esse. Talvez não houvesse outro.

Os aposentos privados do Imperador eram menores do que as pessoas imaginavam. Cassius sempre preferira assim. Grandeza era para salões de audiência, para impressionar embaixadores e aterrorizar traidores. Aqui, entre paredes de pedra nua e uma lareira que cuspia mais fumaça que calor, ele podia fingir que era apenas um homem.

Genji conhecia esse quarto. Tinha visto três imperadores sentarem nessa mesma cadeira, olhando para esse mesmo fogo, carregando pesos parecidos. O pai de Cassius. O avô. E agora o próprio.

— Você está horrível — Genji disse.

— Obrigado.

— Não é insulto. É observação. Seu pai ficava com a mesma cara quando deixava os problemas comerem ele por dentro. — Genji inclinou a cabeça. — Quanto tempo faz que não dorme uma noite inteira?

Cassius pensou. A resposta era deprimente demais para dizer em voz alta.

— Os relatórios não param de chegar — disse, em vez de responder. — Outro conselheiro morreu ontem. "Acidente". Caiu da própria varanda.

— Hmm. — Genji girou o vinho na taça. — Varanda alta?

— Não sei dizer, não tinha sinal de impacto e estava sem a cabeça.

— Que azar.

— Zalameu.

Genji não reagiu ao nome. Apenas bebeu, olhou para o fogo, bebeu de novo.

— Eu conheci Zalameu antes de você nascer — disse, finalmente. — Conheci quando ele ainda era apenas o filho mais novo dos Karlai, tentando provar que merecia o nome. Vi o que ele se tornou. Vi o que ele fez para se tornar.

— E?

— E você sabia o que estava trazendo quando mandou buscá-lo. O Império está caindo. Traidores em cada canto. Vaikeanos atravessando fronteiras que deveriam ser intransponíveis. Você precisava de uma solução. — Genji deu de ombros. — Zalameu é uma solução.

— Mas?

— Mas soluções têm preço. — Os olhos de Genji, velhos e cansados mas ainda afiados, encontraram os de Cassius. — Quantos conselheiros já caíram de varandas desde que ele voltou?

Cassius não respondeu. A resposta estava no silêncio.

— E o garoto? — Genji perguntou. — O filho de Hécate.

Cassius fechou os olhos. Ali estava. A ferida que não cicatrizava.

— Fugiu. Está em algum lugar no norte, pelo que sabemos. Com um grupo com fortes indícios de ser da Ordem.

— Ordem hum... E Zalameu?

— Quer que Smael o abandone. Publicamente. Permanentemente. Diz que é o preço para se tornar Primeiro Messor.

Genji assobiou baixo.

— E você? O que você quer?

A pergunta era simples. A resposta, impossível.

— Eu quero... — Cassius parou. Tossiu. O gosto de ferro subiu pela garganta, familiar agora. Engoliu antes que Genji visse. — Eu quero que Hécate não tivesse morrido. Quero que o garoto não existisse. Quero que meu Império não estivesse apodrecendo por dentro enquanto eu apodreço por fora.

— Belos desejos. Impossíveis, mas belos.

— Você veio aqui para me torturar?

— Vim aqui para beber seu vinho e ver o filho do meu amigo. — Genji encheu as duas taças de novo. — A tortura é bônus.

Cassius quase sorriu. Quase.

— Você lembra do Torneio de Lâminas? — Genji disse, mudando de tom. — Quando você tinha, o quê, dezesseis anos?

— Quinze.

— Isso. Você entrou escondido. Seu pai tinha proibido, disse que era perigoso demais para o herdeiro. Eu estava na arquibancada, vi tudo.

— E eu perdi na segunda rodada. Para um ferreiro que pesava o dobro de mim.

— Perdeu feio. — Genji riu, som seco de folhas velhas. — Quebrou duas costelas e teve que esconder de todo mundo por uma semana. Lembro de você andando pelos corredores fingindo que estava tudo bem, branco feito papel.

— Você me deu chá de ervas. Escondido do meu pai.

— Seu pai teria feito a mesma coisa na sua idade. Fez, na verdade. — Genji sorriu com a memória. — Entrou num torneio aos dezessete, apanhou de um açougueiro com braços do tamanho das suas pernas. Eu dei chá pra ele também.

— Nunca me contou isso.

— Pais nunca contam as partes em que foram idiotas. Mas o ponto não é esse. — Genji inclinou-se para frente. — O ponto é que você entrou. Sabia que ia perder, sabia que seu pai ia descobrir, sabia que ia ter consequências. E entrou mesmo assim. Porque era o que você queria fazer. Porque era quem você era.

— Eu era jovem e idiota.

— Você era jovem e vivo. — Os olhos de Genji eram duros agora. — Quando foi que você parou de fazer coisas porque eram certas e começou a fazer só o que era seguro?

O silêncio que seguiu foi longo. O fogo estalou. Lá fora, Noctus continuava sua existência eterna sob o céu sem sol.

— O garoto — Cassius disse, finalmente. — Icarus. Ele não pediu para nascer híbrido. Não pediu para ser filho de Hécate. Não pediu nada disso.

— Ninguém pede. — Genji deu de ombros. — Você não pediu para nascer herdeiro de um império podre. Seu pai não pediu para herdar as guerras do pai dele. A vida não pergunta. Só joga as cartas e vê o que você faz com elas.

— E o que eu faço com as minhas?

Genji olhou para ele. Olhou de verdade — não como súdito para imperador. Como um velho que viu um garoto crescer e virar homem, e agora via esse homem começar a morrer.

— Você vai morrer, Cassius.

As palavras ficaram no ar. Cassius não negou. Não havia ponto.

— Eu sei.

— Então a pergunta não é o que você quer. A pergunta é: quando acabar, o que vai ter restado? — Genji terminou o vinho. — Vi seu avô morrer. Vi seu pai morrer. Impérios caem. Todos caem, eventualmente. Leis mudam. Fronteiras mudam. Tudo que você construiu vai virar pó um dia. Mas as escolhas... — ele pausou — as escolhas ecoam.

— Filosofia de bêbado.

— A melhor filosofia é de bêbado. Sóbrios mentem demais. — Genji se levantou, devagar, ossos protestando. — Hécate era seu amigo?

— Era.

— Então você sabe o que ele queria para o filho. Não precisa de carta, não precisa de testamento. Você conhecia ele.

Cassius fechou os olhos. Sim. Conhecia. Hécate nunca tinha dito em voz alta, mas não precisava. O jeito que olhava para o garoto nas raras vezes que Cassius os vira juntos. A proteção feroz escondida sob a frieza. O medo — não de inimigos, mas do próprio Império que servia.

Hécate queria que Icarus vivesse. Só isso. Apenas isso.

— Zalameu não vai parar — Cassius disse. — Mesmo se eu ordenar.

— Provavelmente não.

— Então o que eu faço?

Genji caminhou até a porta. Parou com a mão na maçaneta. Olhou por cima do ombro, e por um momento Cassius viu o homem que tinha dado chá de ervas para dois garotos idiotas que entraram em torneios que não podiam vencer.

— Você é o Imperador de Noctus, garoto. Pare de agir como se fosse refém do próprio trono. — Ele abriu a porta. — E da próxima vez, compre um vinho melhor. Esse tinha gosto de bosta.

A porta fechou.

Cassius ficou sozinho com o fogo morrendo e uma taça vazia nas mãos.

"Garoto." Genji ainda o chamava de garoto. Cassius ainda era o menino que corria pelos corredores, que entrava escondido em torneios, que precisava de chá de ervas e conselhos que doíam de tão verdadeiros.

"Pare de agir como se fosse refém do próprio trono."

Cassius tossiu. Dessa vez, não escondeu o sangue. Olhou para a mancha vermelha no lenço e pensou: "Quanto tempo ainda?"

Semanas. Talvez meses, se os médicos estivessem certos. Não anos. Definitivamente não anos.

Ele olhou para a janela. Noctus se estendia abaixo, torres e sombras, um império construído sobre sangue e noite eterna. Seu império. Sua responsabilidade. Sua prisão.

Em algum lugar lá fora, Zalameu caçava. Smael agonizava. E um garoto com olhos verdes e sangue amaldiçoado tentava sobreviver.

Cassius se levantou. Caminhou até a escrivaninha. Pegou papel e pena.

Pensou em Hécate. Pensou em Smael. Pensou no ferreiro que tinha quebrado suas costelas há décadas, e no velho que tinha cuidado dele depois.

A pena tocou o papel.

Não sabia ainda o que ia escrever. Não sabia se ia mudar alguma coisa. Não sabia se havia tempo suficiente para consertar o que tinha deixado quebrar.

Mas pela primeira vez em meses, a mão não tremia.

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