Volume 2
Capítulo 36: Tradição
A chuva fina de Noctus não caía; pairava, um véu úmido e incessante que transformava a cidade em uma gravura embaçada. No pátio de treino dos Messores, uma única figura se movia contra a escuridão molhada. Smael Karlai dançava com seu próprio tormento, e Frey, sua espada, era o único parceiro que não fazia perguntas.
Corte horizontal, parada brusca, giro sobre o calcanhar. Estocada, defesa baixa, golpe descendente. Cada movimento era um versículo em uma oração secular para um deus que não ouvia. A repetição era a única coisa que silenciava os ecos no salão do Tribunal – o rosto pálido de Icarus, a palavra "híbrido" saindo da boca de Seraphine como um veneno, a sensação de ter falhado como irmão, como Messor, como Karlai.
Golpe em diagonal, bloqueio imaginário, recuo. Seus músculos queimavam com uma fadiga bem-vinda. Era uma dor limpa, simples, diferente da ferida suja e supurante em sua alma.
Foi então que o ar mudou.
Não foi um som. Foi uma mudança de estado, como se a física do lugar tivesse decidido se reorganizar. A chuva pareceu parar por um microssegundo. O silêncio, antes quebrado apenas por seu próprio esforço, tornou-se absoluto, pesado. Smael congelou no meio de um movimento, Frey parada no ar, cada fibra do seu corpo alerta como a de um animal farejando um predador ancestral.
Ele se virou lentamente, os sentidos ampliados ao extremo.
Zalameu Karlai estava lá, sob o arco de entrada. A chuva não o tocava; parecia desviar de uma bolha invisível ao seu redor, criando um halo seco em meio ao aguaceiro. Ele vestia um manto de viagem simples, escuro, encharcado nas bordas, mas sua presença tornava o pátio vasto em algo pequeno, íntimo, perigoso.
Smael sentiu o sangue recuar de seu rosto, uma friagem primal percorrendo sua espinha. Ele. A lenda. O pesadelo. O avô que era mais um fantasma do que uma memória.
Zalameu deu um passo adiante. Seus passos não faziam ruído contra a pedra molhada. Era como se ele deslizasse sobre a realidade, não através dela.
— Treinar sozinho sob a chuva — sua voz era um baixo profundo que vibrava nos ossos, não nos ouvidos — é o hábito de homens que carregam segredos grandes demais para suas costas. Eles suam, esperando que a água lave o que as palavras não podem.
Smael baixou Frey, mas não a embainhou. Seu coração batia forte demais, um tambor de guerra no silêncio aterrorizante que Zalameu trouxera consigo.
— Avô — a palavra saiu como um suspiro, um reconhecimento de algo tão fundamental quanto a noite ao seu redor.
Zalameu parou a alguns metros, seus olhos vermelhos – não apenas vermelhos, mas antigos, como se tivessem testemunhado o nascimento da própria cor – escavando Smael.
— O Conselho — ele disse, a voz tão plana quanto a lâmina de uma espada — não foi informado. Informações são como moedas; eu decido quando e onde gastá-las.
Ele olhou para Frey, para as mãos de Smael, para a leve tremor de exaustão que o jovem Messor tentava esconder.
Zalameu Karlai não se moveu, mas sua presença pareceu expandir, ocupando cada centímetro do pátio úmido.
— Você luta com raiva — ele repetiu, como se provasse o sabor da palavra. — Mas raiva por quê? Pela traição do Império? Pela fraqueza do pai? Pela sua própria impotência?
Cada pergunta era um golpe preciso, atingindo as dúvidas que Smael alimentava em segredo.
— Eu luto pelo dever — Smael contra-atacou, erguendo o queixo com um orgulho que soava frágil até para seus próprios ouvidos.
Zalameu riu. Foi um som seco, áspero, como pedras se quebrando.
— Dever. — Ele cuspiu a palavra como se fosse um caroço de fruta podre. — Dever é a desculpa que homens fracos usam para justificar sua obediência. Hécate escondeu-se atrás do 'dever' para servir um império que cuspiria nele se soubesse da sua humana. Você esconde-se atrás do 'dever' para não admitir que quer arrancar a garganta de cada membro do Conselho que ousou chamar seu irmão de aberração.
Smael sentiu Frey pesar. Não pela fadiga — mas pela certeza de que cada segundo de hesitação era uma traição a alguém que amava.
— O que você sabe? — Smael sussurrou, a raiva dando lugar a uma curiosidade perigosa.
— Sei que o Império está caindo — Zalameu deu um passo à frente, a chuva parecendo se curvar ao seu redor. — Sei que Vaikeanos não simplesmente 'entraram'. Foram convidados.
— Como... — ele começou, mas a voz falhou.
— Acorde!— Zalameu cortou, impiedoso. — Como todas as coisas frágeis neste mundo. Mas sua sombra ainda assombra esta família. Sua fraeuza foi passada para o Icarus. E Icarus agora é a faca que os inimigos do Império usarão para rasgar tudo o que os Karlai construíram por séculos.
— Icarus é inocente!
— Inocente? — Zalameu avançou, fechando a distância entre eles. Sua presença era agora esmagadora. — Eles não precisam destruir Icarus. Precisam ameaçá-lo. E você, idiota leal, vai abrir a garganta do Império para defendê-lo.
A verdade das palavras atingiu Smael como um soco no estômago. Ele recuou um passo, a respiração presa. Era exatamente o que havia acontecido no Tribunal. Exatamente o que estava acontecendo agora, com sua lealdade dividida.
— O que você está sugerindo? — Smael perguntou, a voz um fio.
Zalameu parou, seus olhos faiscando com uma luz fria.
— Estou sugerindo que você pare de ser um peão no jogo de outros homens e se torne o jogador. — Ele estendeu a mão, não em gesto de paz, mas como um general oferecendo uma arma. — Eu vou purgar esta corte de cobras. Vou caçar os traidores que soltaram os Vaikeanos dentro de nossos muros. E vou restaurar a honra dos Karlai no único idioma que este Império entende: poder absoluto.
Smael olhou para a mão estendida, depois para o rosto de Zalameu, esculpido em granito e determinação.
— E o preço? — ele sussurrou, já sabendo a resposta.
Zalameu sorriu, um gesto thin e mortal.
— O preço é Icarus.
— Não...
— É necessário — Zalameu interrompeu, a voz implacável. — Para se tornar o Primeiro Messor, para ser a rocha que este Império precisa, você deve cortar o último elo com a fraqueza de Hécate. Deve abandonar o menino. Publicamente. Permanentemente.
— Ele é meu irmão!
A voz de Zalameu não subiu. Desceu. Tão baixa que Smael precisou se esforçar para ouvir cada sílaba gelada: — O sanfue de seu irmão sangue está envenenado. E esse veneno está matando nossa família.
A escolha pairou no ar, mais pesada que a própria chuva. Smael olhou para as paredes do palácio, imaginando o Imperador observando. Ele olhou para suas próprias mãos, que tremiam não de medo, mas da terrível compreensão de que Zalameu, em sua crueldade absoluta, talvez estivesse certo.
— E se eu me recusar? — Smael perguntou, já sabendo a resposta.
Zalameu recuou, sua fúria dissipando-se tão rápido quanto surgira, substituída por uma frieza ainda mais aterrorizante.
— Então você morrerá como Hécate: um idealista cujo maior legado será o caos que deixou para trás. — Ele se virou, seu manto escuro fundindo-se com as sombras. — O Império ou o menino, Smael. Você não pode salvar os dois.
— E se Icarus for mais forte do que você pensa?
— Então ele sobreviverá sem você.
E então, ele desapareceu na chuva, deixando Smael sozinho no pátio, a água da chuva misturando-se às lágrimas silenciosas de uma decisão impossível.
No alto, atrás de uma janela de vidro escuro, Cassius Adrian observava, seus olhos fundos marcados pela doença e pela culpa.
— Ele o está quebrando, Plastissax — o Imperador murmurou, os dedos brancos ao se apoiar na janela.
Plastissax emergiu das sombras mais profundas do aposento, o som seco de sua bengada ecoando no silêncio.
— Zalameu não quebra, Majestade. Ele... reforma. Através de fogo e martelo.
— E se o que sobrar não for mais Smael? E for apenas... outra versão do Ceifador?
Plastissax inclinou a cabeça, seus próprios olhos vermelhos refletindo a cena abaixo.
— Talvez, Majestade, um Ceifador seja exatamente o que o Império precisa agora. Os tempos de poetas e ideais morreram com Hécate.
Cassius fechou os olhos, uma dor que não era física cruzando seu rosto.
— Que os deuses nos perdoem, então. Porque eu duvido que Smael o fará.
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