Volume 2

Capítulo 35: Memórias

Pocktus não caiu. Desmoronou.

A diferença importava. Cair era perder equilíbrio. Desmoronar era quando o corpo esquecia como ser sólido. Os joelhos cederam primeiro, depois os quadris, depois os ombros — cada articulação desistindo em sequência, como dominós de carne.

Gabi foi até ele por instinto. Não bondade. Hábito. Checou pulso. Rápido demais, fraco demais.

— Vivo — ela disse.

Ninguém respondeu.

Liam tinha a espada na mão, mas não olhava para Pocktus. Olhava para Lucan.

O capitão estava sentado contra a parede. Olhos abertos. Respirando. Piscou. Olhou ao redor como quem acorda em quarto de hospedaria e precisa de dois segundos para lembrar onde está.

— Lucan?

— A ferida — disse, voz rouca — não dói mais.

Gabi largou Pocktus. Cruzou o quarto. Arrancou a bandagem.

A carne estava limpa. Não curada — ainda vermelha, ainda aberta — mas a infecção tinha sumido. As veias negras, o cheiro de podre, o amarelo nas bordas. Tudo.

— Funcionou — Liam disse.

Icarus não conseguiu responder. O eco do ritual ainda vibrava atrás dos olhos. Algo tinha passado através dele. Algo vasto. Algo que olhou de volta.

Gabi ajudou Lucan a levantar. Ele aceitou a mão, ficou de pé. Testou as pernas. Funcionavam.

— Como você está? — ela perguntou.

Lucan franziu a testa. Pensou.

— Estranho.

— Estranho como?

Ele tocou a própria têmpora. Pressionou.

— Como se alguém tivesse entrado na minha cabeça e… bagunçado as gavetas. Está tudo lá. Mas nos lugares errados. — Olhou para Gabi. — Você é Gabi. Liam ali. Icarus. O profano no chão. Lembro de tudo. Mas parece que estou olhando através de vidro sujo.

Liam relaxou a espada. Não guardou, mas relaxou.

— Então você está bem?

— Não sei. — Lucan olhou para as próprias mãos. Abriu. Fechou. — Sinto que perdi algo. Algo importante. Mas não consigo lembrar o quê.

Silêncio.

— Tipo sonho que você esquece ao acordar — ele continuou, mais para si que para os outros. — Você sabe que sonhou. Sabe que era importante. Mas a coisa em si… sumiu.

Pocktus tossiu no chão. Conseguiu sentar. Os símbolos na pele dele tinham apagado — antes brilhavam, agora pareciam cicatrizes velhas.

— É assim que funciona — disse, voz arranhada. — Salomã não apaga limpo. Arranca. Deixa bordas rasgadas.

Gabi virou para ele.

— O que exatamente ele levou?

— Não sei. Nunca sei. — Pocktus limpou sangue do canto da boca. — Uma memória. A que o deus quis.

Icarus olhou para Lucan. O capitão ainda pressionava a têmpora, como quem tenta localizar dor de cabeça.

— Vai voltar? — Icarus perguntou.

— Não. O que vai pra um deus não volta.

— Então ele fica assim? Com esse… buraco?

Pocktus se apoiou na parede. Levantou devagar.

— O buraco fecha. Humanos se adaptam. Em algumas semanas, ele nem vai lembrar que esqueceu algo. — Pausa. — Só vai sentir, às vezes, que falta uma peça. Sem saber qual.

Lucan soltou a têmpora. Respirou fundo.

— Consigo funcionar?

— Consegue.

— Consigo lutar?

— Consegue.

— Então serve. — Ele olhou para Gabi. — Quanto tempo fiquei apagado?

— Minutos.

— Pocktus — Icarus disse. — Você consegue andar?

O profano testou as pernas. Cambaleou. Segurou na parede.

— O ritual chamou atenção demais, em Nepau sentem esse tipo de perturbação.

— Que tipo de coisas?

Pocktus olhou para a janela. Para a escuridão além.

— O tipo que faz profano parecer inofensivo.

Enquanto a crise se desenrolava em Nepau, a meio continente de distância, Zalameu Karlai caminhava pelas mesmas ruas de Noctus que havia evitado por décadas. Sua presença era como a de um tremor de terra prestes a acontecer — silencioso, inevitável.

Ele não se dirigiu ao palácio ou a distritos obscuros. Em vez disso, entrou em uma taverna relativamente comum, “Lua Eterna”, onde a clientela misturava mercadores menores com funcionários públicos de baixo escalão.

Zalameu ignorou as mesas e foi diretamente ao balcão onde um homem corpulento limpava um copo com ar entediado.

— Onde está aquele palhaço maluco? — Zalameu perguntou, sua voz tão plana quanto uma lâmina.

O homem do balcão não precisou perguntar a quem se referia. Seus olhos se arregalaram levemente antes de piscarem na direção de um canto escuro.

— Lá. Bebendo como se o vinho fosse acabar amanhã. Como sempre.

No canto mais sombrio do estabelecimento, Jon Saltador estava inclinado sobre uma garrafa de vinho tinto, seus dedos longos traçando padrões invisíveis na madeira da mesa. Ele não parecia bêbado — seus movimentos eram muito precisos para isso — mas havia uma intensidade em seus olhos que sugeria que ele estava bebendo por razões que iam além do prazer.

Zalameu atravessou a sala. Os poucos clientes no local instintivamente afastaram-se de seu caminho, embora não soubessem conscientemente o porquê.

— Jon — Zalameu disse, puxando a cadeira oposta sem pedir permissão.

Jon ergueu os olhos. Seu sorriso de palco estava ausente, substituído por uma expressão cansada que parecia mais genuína.

— Zalameu Karlai — Jon inclinou a garrafa na direção do vampiro. — O Ceifador retorna. Devo me sentir honrado ou aterrorizado?

— Deve se sentir útil — Zalameu respondeu, suas mãos entrelaçadas sobre a mesa. — Preciso de informações. E você é o único homem em Noctus que sabe coisas que não deveria saber.

Jon riu baixinho. — Elogios? De você? O mundo deve estar mesmo acabando.

— Meu filho desapareceu. Vaikeanos estão dentro dos muros. O que você sabe?

Jon encheu dois copos, empurrando um para Zalameu. — Direto ao ponto. Sempre apreciei isso em você. — Ele bebeu um gole. — Morthem Valtoir. Está movendo peças no tabuleiro há meses. Contratou os Cães de Guerra de Vardek, subornou guardas da fronteira leste. Contatou algumas pessoas importantes da nobreza.

— E os Vaikeanos?

— O portão leste foi aberto na noite do desaparecimento de Hécate — Jon disse, seus olhos fixos em Zalameu. — Por ordem de um oficial que deve lealdade a Morthem. Mas… — Jon fez uma pausa, escolhendo as palavras com cuidado. — Morthem é um político, não um lunático. Liberar Vaikeanos dentro do próprio império é como soltar tigres em seu jardim. Alguém deve tê-lo convencido de que valia a pena. Alguém está por trás dele.

Zalameu estudou o rosto de Jon. — Quem?

— Isso — Jon sorriu — é uma informação que nem eu tenho. Mas é alguém com poder suficiente para fazer um senador arriscar tudo.

Zalameu permaneceu em silêncio por um momento, absorvendo a informação. Então, sua voz cortou o ar como uma lâmina: — Você vai proteger Smael.

Jon quase cuspiu o vinho. — Proteger Smael? — Ele riu, um som seco e incrédulo. — O Messor Smael Karlai, você quer dizer? O garoto-prodígio que supostamente pode partir um homem ao meio com a espada antes que o pobre coitado perceba que está sendo atacado? Por que diabos ele precisaria da proteção de um bêbado como eu?

— Porque a lâmina mais afiada é inútil contra um veneno na taça ou uma adaga nas costas — Zalameu respondeu, impassível. — E porque os inimigos dele não jogam limpo. Eles jogam para vencer.

— Ainda assim — Jon encostou-se na cadeira, estudando Zalameu com novos olhos — você sempre disse que detestava seus netos. E agora me pede para ser a sombra de um? Por quê? Só porque ele carrega seu sangue?

Zalameu inclinou-se para frente, e pela primeira vez, Jon viu uma faísca de algo além de gelo naqueles olhos: possessividade primitiva. — Exatamente. E ninguém toca no que é meu. Mas não é só isso. Eles pensam que Smael é apenas um soldado leal, um Messor obediente. Subestimam-no. E subestimar um Karlai é um erro fatal. Eu apenas… estou garantindo que alguém esteja lá para testemunhar o erro deles.

Jon soltou um suspiro dramático, mas seus próprios olhos não brilhavam com a diversão habitual. Havia um cansaço antigo neles, o cansaço de um homem que já havia carregado pesos que outros nem conseguiam imaginar. — Você sabe, Zalameu — ele disse, sua voz baixa, perdendo o tom teatral — as pessoas olham para os Messores e veem os tubarões do Império. Os predadores de topo. — Ele fez uma pausa, girando o copo. — Elas esquecem que o oceano é vasto e profundo. E que coisas mais antigas e muito, muito mais escuras nadam nas profundezas, onde a luz do trono não alcança. A Guilda dos Assassinos de Sérith… os Alquimistas Proibidos do Leste… o próprio Conclave que você mesmo ajudou a enterrar nos porões da história. — Jon olhou diretamente para Zalameu, e por um breve instante, a máscara do bardo caiu completamente, revelando uma presença tão densa e perigosa quanto a do Ceifador. — Proteger seu neto não é apenas mantê-lo vivo contra os idiotas óbvios como Morthem. É mantê-lo longe das coisas que não se importam com títulos ou linhagens. Coisas para as quais um Messor é apenas… mais uma peça no tabuleiro.

Zalameu não recuou. Em vez disso, um quase imperceptível aceno de cabeça — o mais próximo que ele chegaria de um sinal de respeito — foi sua resposta. — Exatamente. E é por isso que estou pedindo a você. Não a um soldado. Eles não conseguem ver as correntes nas profundezas. Você consegue.

A admissão pairou no ar entre eles. Jon olhou para o vinho, então para Zalameu, a máscara do bardo retornando aos poucos. — Muito bem — ele cedeu, o tom leve retornando à sua voz, mas a seriedade permanecendo em seus olhos. — Protejo o garoto. Mas não por você. Pela memória de Hécate. Ele era… decente. E porque a ideia de que esses nobres presunçosos acham que são os únicos tubarões no mar é… insultuosa para um profissional.

Zalameu assentiu, erguendo-se para sair. — Não me importo com suas razões. Apenas com resultados.

— Zalameu… — Jon chamou, fazendo-o parar na porta. — Se eu fizer isso, estamos quites? Nenhuma dívida sangrenta entre nós?

Zalameu parou, sem virar. — Sim — ele disse, a palavra final como o fechar de um caixão. — Estaremos quites.

Quando a porta se fechou, Jon Saltador pegou a garrafa de vinho. Não bebeu. Apenas a observou, sua expressão pensativa. — Para Hécate, então — ele murmurou para a sala vazia. — O único vampiro que valia a pena. E para o pobre filho da puta do Messor que não faz ideia de que o oceano está prestes a ferver.

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora