Volume 2

Capítulo 34: Fronteiras

Icarus acordou com gosto de cobre na boca. Não sangue fresco, aquele tinha doçura viciante. Isso era ferrugem, próprio sangue mordido da língua enquanto tentava dormir e não conseguia. O colchão fedia a mofo e suor de quantos esquecidos haviam dormido ali antes.

E embaixo de tudo, aquele pulso. Fraco. Errático. Lucan estava morrendo, e todo mundo fingia que não.

Desceu. O Último Porto cheirava a vômito seco. Cárbara limpava copos, movimento circular que parecia mais reza que trabalho. Ela indicou com a cabeça a porta do quarto de Lucan.

Icarus atravessou o salão. Parou na porta. Respirou fundo — erro. Podia sentir tudo. Suor azedo. Urina mal escondida. E embaixo, aquele cheiro doce e podre que só existia quando corpo começava a desistir. Bateu três vezes.

— Entra. — Voz de Lucan saiu áspera, como lixa em madeira velha.

Lucan estava sentado na cama, costas contra a parede. A bandagem no ombro tinha amarelo esverdeado nas bordas, preto no centro. Infecção que comia mais rápido que corpo conseguia regenerar.

— Parece uma merda — Icarus disse.

Lucan riu. Erro. A risada virou tosse. A tosse virou sangue. Ele cuspiu na bacia ao lado da cama.

— Sempre soube que tinha futuro brilhante como médico. Consultório no distrito nobre.

— Quanto tempo você tem?

— Dois dias. Talvez três se eu ficar deitado e pensar pensamentos felizes. — Lucan limpou sangue dos lábios. — Spoiler: não funcionou pros outros trinta caras que tentaram antes de mim.

— Gabi sabe?

— Gabi sempre sabe. Ela só finge que não. — Lucan olhou pela janela minúscula. — É tipo ritual entre nós. Eu morro aos poucos, ela ignora aos poucos.

Silêncio caiu entre eles.

— Por que você fez isso? — Icarus perguntou. A pergunta queimava desde o Cais-Leste. — Por que voltou pra me segurar quando podia ter corrido?

Lucan fechou os olhos. Demorou tanto que Icarus quase pensou que tinha desmaiado.

— Entrei pra Ordem com catorze anos. Catorze, ensopado de chuva, sangrando numa sarjeta. Minha mãe tinha acabado de se enforcar. Deixou bilhete dizendo que eu devia fazer o mesmo.

Icarus não disse nada.

— Aí apareceu Yara. Capitã da Ordem. — Um sorriso amargo. — Sabe o que ela disse? Que eu tinha duas escolhas: apodrecer ali ou sangrar lutando. Que se eu desistisse, todo covarde que achava que criança nascia pra apanhar ganhava.  — E eu pensei: "puta merda, que escolha é essa?" Mas me levantei.

Ele olhou para Icarus. Dor nua naqueles olhos. Ferida aberta que nunca fechara direito.

— Passei dez anos matando vampiros porque vampiros matavam gente como minha mãe. Gente fraca. Gente sem escolha. — As palavras saíram simples. — Mas você não é monstro. Você é garoto que não pediu pra ser o que é. Que parou próprio irmão quando podia ter corrido. — Lucan se inclinou para frente. — Quando eu te vi, tentando me ajudar... vi eu mesmo naquela sarjeta.

O peito de Icarus apertou.

— E você acha que valeu a pena?

Lucan deu aquele sorriso torto.

— Pergunte de novo quando eu estiver morto. Se eu conseguir responder, provavelmente valeu. — Ele tossiu. — Cárbara me contou sobre o curandeiro. Contou o preço também.

Icarus ficou parado.

— E você ainda quer?

Lucan olhou para a janela. Para a luz suja de Nepau.

— Quando eu era garoto, depois do bilhete da minha mãe... eu decorei cada palavra. Letra por letra. Como se fosse importante. Passei vinte anos tentando esquecer. Nunca consegui. — Ele fechou os olhos. — Se o preço for essa memória... talvez o profano esteja me fazendo favor.

A porta se abriu sem bater. Gabi entrou segurando bandeja com água e algo marrom que fingia ser sopa. Olhou para os dois. Avaliou em segundo.

— Conversa de coração aberto terminada?

— Preciso que ele faça algo — Lucan disse.

Gabi parou. Colocou a bandeja com força na mesa.

— Se for o que estou pensando, a resposta é não.

— Conversei com Cárbara. Ela mencionou alguém. Alguém que pode ajudar. — Lucan tossiu. — Três ruas ao norte. Casa com cobra e cálice na porta.

Icarus entendeu imediatamente. Pocktus.

— Curandeiro misterioso? — Gabi perguntou. — Em Nepau? Ninguém cura nada de graça aqui.

— Por isso pedi pro garoto ir. Ele já saiu ontem. Conhece as ruas melhor.

Icarus hesitou. Pensou em contar que já conhecia o homem. Mas instinto o fez calar.

— Vou — disse.

— Espera. — Gabi deu um passo à frente. — Não vamos mandar o garoto sozinho. Liam vai com você.

— Liam está com braço quebrado — Lucan apontou.

— Liam ainda tem boca. E talento pra intimidar gente. — Gabi não se moveu. — Se esse curandeiro quiser pagamento que não temos, melhor ter alguém que saiba negociar.

Lucan suspirou. O suspiro virou tosse.

— Tudo bem. Mas rápido. Não tenho dois dias. Tenho horas.

Liam não fez perguntas. Apenas pegou a espada com a mão boa e seguiu Icarus.

A rua cheirava diferente ao meio-dia. Luz revelava sangue seco entre paralelepípedos. Dentes na sarjeta. Cabelo humano emaranhado em grade de esgoto.

— Você sabe quem é esse curandeiro? — Liam perguntou.

— Não. — Mentira. — Cárbara só deu o endereço.

— Mentiroso. — Liam olhou para ele de lado. — Você ficou tenso quando Lucan falou. Pequeno, mas ficou. Já conhece ele.

Icarus não respondeu.

— Ótimo. — Liam ajustou a tala. — Então estamos indo encontrar alguém que você não quer que a gente saiba que conhece. Sempre termina bem, esse tipo de situação.

No fim da terceira rua, a casa parecia comum. Dois andares, madeira que já fora branca. Só o símbolo entalhado na porta a diferenciava. Serpente enrolada em cálice.

— Essa? — Liam perguntou.

Icarus bateu. A porta abriu antes do segundo toque.

Pocktus estava ali. Baixo, mas com presença — seus olhos mudavam quando luz batia diferente. Olhos jovens demais para rosto que carregava séculos. Olhou para Icarus. Depois para Liam. Diversão fria atravessou aqueles olhos.

— O híbrido. E trouxe um guardião. — A voz tinha aqueles harmônicos estranhos, como se três pessoas falassem ao mesmo tempo em tons diferentes.

Liam ficou tenso. Icarus viu o momento exato em que ele entendeu. A voz. Os olhos.

— Profano — Liam disse. Não pergunta. Acusação.

— Astuto. — Pocktus não pareceu ofendido. — E você é o guerreiro que carrega ódio como muleta. Braço quebrado, mas ainda late. Admirável, se fosse verdadeiro.

— É o mesmo da taverna? — Liam cerrou os dentes. — Ia trazer um profano pra Lucan sem avisar?

— Se eu avisasse, Gabi não deixaria.

— Com razão! Profanos cobram preços que—

— Sei. — Icarus o interrompeu. — E sei que Lucan está morrendo. E sei que essa é a única chance.

— Chance? — Liam riu sem humor. — Profanos não dão chances. Fazem trocas.

— Discussão interessante. — Pocktus pegou bolsa de couro. — Mas enquanto debatem moralidade, seu líder apodrece. Cada minuto, infecção come mais. Vou ou não? Porque cobro por tempo perdido também.

Liam olhou para Pocktus. Depois para Icarus.

— Se ele morrer por causa disso, eu te mato.

Não ficou claro se falava com Icarus ou com Pocktus.

— Ameaça vazia. — Pocktus começou a caminhar. — Mas compreensível. Medo disfarçado de raiva sempre foi ferramenta humana favorita.

O caminho de volta foi tenso. Liam caminhava ao lado de Icarus agora, não atrás. Postura protetora, preparada.

— Você percebeu que ele não negou? — Liam disse baixo. — Quando eu falei de preço alto. Ele não negou.

— Percebi.

— E você vai deixar Lucan fazer isso mesmo assim?

— Não sou eu que vai deixar. — Icarus olhou para frente. — É escolha dele.

— Escolha informada ou escolha desesperada? — Liam apertou o punho. — Porque homem morrendo não escolhe. Aceita.

Pocktus falou sem virar.

— Perspicaz. Mas errado. Desespero não anula vontade. Apenas revela verdade sob verniz social. Seu amigo quer viver? Então quer de verdade. Sem fingimento de nobreza ou sacrifício bonito.

— E você acha isso admirável? — Liam cuspiu.

— Acho honesto. — Pocktus parou, virou. — Vocês humanos mentem sobre querer viver. Dizem "só se for digno", "só se valer a pena", "só se não custar muito". Mentira. Querem viver. Ponto. O resto é teatro pra não parecerem animais assustados com morte.

Liam abriu a boca. Fechou. Não tinha resposta.

Quando chegaram ao Último Porto, Cárbara olhou para Pocktus. Reconhecimento atravessou o rosto dela. Memórias antigas.

— Pocktus.

— Cárbara. Ainda respirando.

— Teimosa demais pra parar. — Ela indicou as escadas. — Ele está mal.

— Geralmente estão quando me chamam. — Ele subiu.

A porta estava entreaberta. Gabi estava dentro, trocando bandagens. Pocktus entrou sem bater.

Gabi girou, mão indo para o punhal. Parou quando viu. Por três segundos ninguém se moveu.

— PROFANO? — Ela virou para Liam. — Você trouxe um profano?

— Não foi escolha—

— Você sabia. — Gabi cortou, olhando Icarus. — Sabia e não falou.

— Sabia.

— Filho da puta. — Gabi sacou o punhal. Não apontou. Apenas segurou. — Você sabe o que eles cobram?

— Sei.

— Gabi. — Lucan disse da cama, voz fraca. — Deixa ele entrar.

— Você não sabe o que está pedindo.

— Sei que estou morrendo. — Lucan tossiu. Mais sangue. — Sei que profano pode me salvar ou me matar. E sei que ficar aqui não é escolha. É rendição.

— Lucan...

— Por favor. — Ele olhou para ela. Sem máscara. — Deixa eu escolher.

Gabi ficou parada. Respirando pesado. Então baixou a lâmina.

— Se ele transformar você em sombra do que era, eu mesma te mato.

— Justo.

Pocktus se aproximou da cama.

— Lucan. O guerreiro que transforma culpa em cruzada. O homem que mata monstros porque mãe se enforcou.

Lucan abriu os olhos.

— Como você—

— O desespero conta muita coisa, meu amigo. Você aos catorze, decidindo se bilhete estava certo. — Ele estudou a infecção. — Três dias. Talvez quatro.

— Pode curar?

— Posso. Mas Salomã quer pagamento. Um pedaço do que te define.

— O que ele quer?

— Memória. Habilidade. Propósito. — Pocktus segurou frasco vazio. — Não escolho. Deus escolhe. E deuses não têm piedade. Apenas apetite.

— Não. — Gabi disse. Ordem.

Lucan olhou para ela.

— Minha escolha.

— Não é. — Gabi caminhou até ficar entre Pocktus e a cama. — Não quando afeta todos. Se você esquece Lyria, eu procuro sozinha. Se você esquece por que lutava, eu perco meu capitão. Se você esquece quem eu sou... — Voz ficou mais baixa. — Eu perco a única pessoa que me entende.

— Sei que pode doer. — Lucan disse. — Mas ainda escolho. Porque Yara me ensinou que apodrecer é deixar covarde ganhar. E eu não deixo covarde ganhar.

Gabi olhou por três batidas de coração. Depois suspirou.

— Você é idiota.

— Sim.

— Se você esquecer meu nome eu te esfaqueio.

— Justo.

Pocktus assentiu.

— Você escolhe perda consciente. Raro. — Ele tirou ervas da bolsa. — Água fervente. Silêncio absoluto. Se alguém interromper, ele morre pior.

Liam foi buscar água sem falar.

Pocktus se ajoelhou. Tirou giz negro da bolsa e desenhou círculo ao redor da cama. Os traços deveriam ser opacos — eram giz em madeira velha — mas algo neles absorvia luz de forma errada.

Icarus piscou. Esfregou os olhos. Quando abriu de novo, viu.

Não com clareza. Como olhar para algo no canto da visão que desaparece quando você vira a cabeça. Mas estava lá. Poeira. Não — partículas. Menores que poeira. Subindo dos traços de giz quando deveriam estar descendo. Movendo-se em espirais que pareciam ter direções demais. E a cor. Icarus não conseguia nomear. Não era roxa. Não era dourada. Era algo entre os dois que seus olhos recusavam processar, como tentar lembrar um sonho cinco segundos depois de acordar.

"Já vi isso antes."

A memória veio de forma abrupta. Tinha quatro anos. Acordara no meio da noite com um barulho — algo caindo no andar de baixo. Descera as escadas devagar, pés descalços no mármore frio, seguindo o som até o escritório de Hécate.

A porta estava entreaberta. Luz escapava pela fresta.

Icarus empurrara a porta. Devagar. Silencioso como só criança consegue ser quando sabe que não deveria estar ali.

Hécate estava de pé no centro da sala. Olhos fechados. E ao redor dele — fraco, quase invisível — aquela mesma poeira impossível. Aquela mesma cor sem nome. Mas não ao redor de todo o corpo. Concentrada no peito. Na região do coração. Como se algo ali dentro pulsasse em frequência diferente do resto.

Hécate abriu os olhos. Viu Icarus na porta.

Por um segundo — um único segundo — o pai não se moveu. Depois, num gesto fluido demais para ser casual, foi até a porta e se ajoelhou na frente do filho. Ficou na altura dos olhos de Icarus. As partículas ao redor do coração já tinham sumido, ou Icarus já não conseguia mais vê-las.

— O que você está fazendo aqui?

— Ouvi um barulho.

— Deixei cair um livro. — A voz de Hécate era calma. Sempre calma. — Vem. Vou te levar de volta pra cama.

Hécate o pegou no colo. Levou de volta para o quarto. Ficou sentado na beira da cama até Icarus dormir. Nunca mais falaram sobre aquela noite. Icarus às vezes achava que tinha sonhado, afinal, um pai presente era algo raro.

Agora, olhando Pocktus moer ervas que cheiravam a coisas mortas há muito tempo, sabia que não.

Gabi olhava Lucan. Liam olhava Pocktus. Nenhum deles desviava os olhos para as partículas. Nenhum deles esfregava a têmpora como se algo pressionasse por trás dos olhos. Só Icarus.

“Por que eu?”

Liam voltou com água fervente. Pocktus a despejou no frasco em movimento circular, nunca quebrando o fluxo. A mistura começou a brilhar — isso todos viram, o dourado doente que pulsava como coração arrancado. Mas sob o brilho, as partículas se multiplicaram. Enxamearam. Começaram a girar ao redor de Pocktus como planetas em órbita de sol que não deveria existir.

A pressão atrás dos olhos de Icarus aumentou. Não dor. Algo pior. A sensação de que seus olhos estavam tentando ver em uma direção que a anatomia não permitia.

— Pronto. — Pocktus segurou o frasco. O líquido dentro se movia sozinho, como se estivesse vivo. — Agora dói.

Ele se aproximou da cama. Colocou a mão sobre a ferida de Lucan. Seus olhos começaram a brilhar. Dourado. Todos viram isso.

Mas Icarus viu mais.

As partículas convergiram. Milhares delas, afunilando para um ponto entre a mão de Pocktus e a carne de Lucan. E onde se acumulavam, o ar ficava denso. Pesado. Como se realidade estivesse sendo comprimida em espaço pequeno demais.

Lucan arqueou as costas. A ferida começou a queimar.

"O que está entrando nele?"

Icarus quis perguntar. Quis gritar. Mas a pressão nos olhos tinha migrado para a garganta, e as palavras morreram antes de nascer.

Dez segundos. Vinte. Trinta. As partículas pulsaram. Irregular. Como se algo do outro lado estivesse empurrando.

— Merda. — Pocktus sussurrou.

— O que foi? — Gabi deu um passo.

— Infecção está funda demais. Preciso ir mais fundo. Pedir mais poder.

"Pedir para quem?"

Icarus viu a resposta antes de Pocktus falar. As partículas mudaram de direção. Não mais convergindo — sendo puxadas. Como se algo além delas, além da sala, além de Nepau, estivesse sugando.

— Quanto vai custar? — Lucan perguntou.

— Uma memória. Algo que te moldou. 

— Faça.

— Lucan, não—

— FAÇA!

O brilho dourado explodiu.

Icarus fechou os olhos por instinto. Erro. Ver pelo lado de dentro era pior. As partículas estavam lá também, gravadas nas pálpebras, formando padrões que pareciam palavras em língua que ninguém deveria ler. Mas era lindo...

Abriu os olhos. Forçou-se a olhar.

Pocktus tinha ambas as mãos na ferida agora. Os símbolos em sua pele não estavam mais brilhando — estavam sangrando luz. E as partículas... as partículas tinham parado de girar. Estavam esperando.

A voz que saiu de Pocktus não era mais dele. Era múltipla. Dezenas. Como se uma biblioteca inteira falasse através de uma única garganta.

— SALOMÃ ACEITA. SALOMÃ COBRA. SALOMÃ LEVA O QUE QUER.

Icarus viu, por um único instante, algo além das partículas. Algo que as partículas orbitavam. Algo vasto e faminto e terrivelmente paciente. Algo que olhava de volta.

A pressão explodiu atrás dos olhos. Icarus cambaleou, segurou-se na parede. A sala girou uma vez, duas, depois estabilizou. Suas mãos tremiam. Sua mente parecia ter sido esticada em direções que não deveria conhecer, e agora tentava voltar à forma original sem conseguir completamente.

Gabi olhou para ele. Franziu a testa.

— Você está bem?

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora