Volume 1
Capítulo 9: Fôlego em Meio ao Caos (Parte 2)
Após um longo dia tentando trazer organização e um pouco de normalidade para os moradores de Port Strong, Himiko convocou uma reunião para discutir os próximos passos com os emissários. O sol já se punha, tingindo o céu de tons alaranjados, quando Himiko, Margery, Blecor, Lia, Luther e Jasmim se reuniram na sala da mansão que agora pertencia à família Kami. Era a primeira vez que estavam todos juntos desde o incidente, e o desconforto no ar era palpável. Apesar disso, Himiko parecia imperturbável, pronta para liderar a conversa.
— Quero começar explicando a ausência da nova comandante da polícia — disse Himiko, quebrando o silêncio. — Como medida emergencial, decidimos enviar os policiais que não estão gravemente feridos para vigiar as fronteiras da cidade, junto com alguns voluntários. Ela está ocupada organizando tudo, por isso não pode estar aqui.
— Reparamos na movimentação dos policiais. Foi uma atitude prudente. Um ataque dos caçadores é iminente, e eles certamente notarão o que aconteceu — comentou Lia, refletindo sobre as possibilidades. — Há chances de que percebam a presença dos policiais nas fronteiras quando vierem atacar os usuários de magia.
Jasmim, discretamente, observava Blecor, que estava sentado ao lado de Margery.
“É quase ridículo pensar que ele estava do lado de Himiko o tempo todo. Mas isso me faz pensar em algo importante que precisa ser feito o quanto antes”, pensou Jasmim.
— Não acho que devemos ficar sentados esperando o próximo ataque dos caçadores. No mínimo, deveríamos tentar descobrir sua localização. Alguém precisa interrogar os Damaris e a assistente para obter informações sobre onde está o acampamento deles. Afinal, a assistente foi até eles para negociar — sugeriu Jasmim.
— Vou mandar… — começou Himiko, mas foi interrompida por Blecor.
— Eu poderia ir! Desculpe, senhora Kami — disse ele, levantando a mão.
— Não acho prudente que você vá. Ele não vai querer falar com um traidor. A conversa não chegará a lugar nenhum se for com você. Tudo o que você vai ouvir são ofensas — respondeu Himiko, secamente.
— Muito pelo contrário, senhora Kami! Como trabalhei para eles por anos, os conheço bem o suficiente para dizer que, mesmo que não falem, suas reações podem me dar pistas. Afinal, um mordomo precisa ser bom em ler seu chefe para prestar um bom serviço — argumentou Blecor, com confiança.
Himiko olhou para Margery, que, com uma expressão discreta, deixou claro que concordava com Blecor.
— Desculpe, mas como podemos confiar em um traidor? Ou talvez aqui seja comum agir de forma nebulosa? — disse Luther, com desdém, encarando Himiko. — Temos pouco tempo a perder. Seria melhor mandar alguém de confiança.
“Não confunda o fato de estarmos cooperando pelo bem da cidade com aceitação pelo que você fez ontem. Posso entender em parte suas ações, mas não gosto de ser manipulado com meias-verdades”, pensou Luther.
Fingindo não entender a insinuação de Luther, Margery interveio:
— Como assim?! Ele se arriscou para revelar ao povo o plano do antigo governador! Além disso, como você mesmo disse, não temos tempo a perder. Essa é uma chance válida. Mandamos ele, e, se o resultado não for satisfatório, mandamos outra pessoa!
— Contanto que nos chamem quando ele reportar o que foi dito, não vejo problemas. Assim, poupamos tempo — respondeu Luther, contendo sua irritação.
“Eu sei que deveria me esforçar para manter a calma, mas ela nem sequer ficou para ajudar os feridos. Pensei que tivesse visto algo semelhante nela, mas não somos nada parecidos. Não me agrada nem um pouco como ela está agindo, sem mostrar preocupação com as repercussões de suas ações”, pensou Luther.
Sentada ao lado de Luther, Jasmim colocou gentilmente a mão em seu braço, tentando acalmá-lo. Ela o conhecia bem o suficiente para saber o que se passava em sua mente.
“Agora não é o momento, Luther”, pensou Jasmim.
— Eu sei que deveria ter perguntado isso antes, mas vocês se lembram do local onde foram atacados? Isso poderia nos dar uma ideia de onde o acampamento dos caçadores está e por qual direção eles podem vir — disse Himiko, mantendo o foco no assunto.
— Não acho que isso ajudaria. Eles devem ter mudado de localização, assim como fizemos naquela noite. Caçadores de Elite são formidáveis. Os experientes não deixariam um ataque tão óbvio ser feito. Temos que nos preparar para uma ação bem arquitetada — respondeu Lia.
— Então faremos o seguinte: Blecor, você vai com alguns guardas até as celas na delegacia. Tente obter algo útil de Dariss. Se as informações não forem satisfatórias, os emissários terão permissão para prosseguir como acharem melhor — disse Himiko, fitando Luther. — Vamos nos concentrar em preparar uma boa defesa nas fronteiras da cidade. No mínimo, quando eles chegarem, não passarão despercebidos.
— Mas, senhorita Kami, e os… — começou Margery, mas foi interrompida por um olhar firme de Himiko. A assistente baixou a cabeça, arrependida.
A desconfiança dos Emissários de Vento foi alimentada, e Jasmim interveio:
— Por favor, deixe-a terminar o que ia dizer. Não está preparando outra surpresa, está?
O semblante calmo de Jasmim mudou para um olhar intimidador, que fez todos na sala se arrepiarem. Himiko, repreendendo Margery com um olhar, respondeu:
— Ela queria falar sobre alguns policiais que estavam aliados a Dariss e desapareceram durante o incidente. Foram poucos, por isso não queria dar atenção a esse detalhe.
— Se a polícia estiver toda ocupada, podemos ajudar na busca — sugeriu Jasmim.
— Não acho necessário. Eles podem estar descontentes, mas não vão agir com um ataque iminente, não quando isso pode colocar suas famílias em risco. Além disso, a cidade não é grande o suficiente para conseguirem se esconder por muito tempo. Vamos focar no urgente. O resto terá que esperar — respondeu Himiko, com firmeza.
Jasmim suspirou, sabendo que Himiko estava certa. No entanto, a ideia de ter mais inimigos à solta na cidade a deixava inquieta. A sensação de estarem encurralados era compartilhada por todos os emissários.
— Melhor eu ir para a delegacia. Uma informação relevante sobre os caçadores pode ser a salvação para nossa cidade — disse Blecor, levantando-se.
— Vou chamar dois policiais para acompanhá-lo até a cela — disse Margery, seguindo Blecor para fora da sala.
— Emissários, vou chamá-los novamente assim que Blecor retornar. Descansem, pois vocês são o único recurso que temos para assegurar a sobrevivência desta cidade quando a batalha contra os caçadores começar. Será essencial que estejam no seu máximo — disse Himiko, com um tom de autoridade.
— Quando a hora chegar, estaremos prontos — respondeu Jasmim, com determinação.
Jasmim e Lia se levantaram para sair, mas Luther permaneceu sentado, claramente querendo esclarecer as coisas com Himiko. No entanto, Lia o puxou pelo braço, e, para evitar uma cena constrangedora, ele a acompanhou sem resistência.
Assim que chegaram ao hall de entrada da mansão, Luther disse:
— Lia, não havia necessidade de fazer isso. Eu só queria conversar com ela!
— Agora não, Luther. Você está irritado e cansado. Isso não ia dar certo! — respondeu Lia, enfatizando a última parte.
— Talvez, mas não acho que devemos ficar quietos depois que ela nos usou para aquela maldita rebelião! — disse Luther, elevando involuntariamente a voz.
Ao perceber que havia sido grosseiro com Lia, Luther calou-se, constrangido.
— Vou procurar os outros para informá-los do que foi discutido aqui. Vou deixar o resto com você, Jasmim — disse Lia, virando as costas e saindo da mansão.
Sem perder tempo, Jasmim seguiu o pedido de Lia e puxou Luther pelo braço, levando-o para os fundos da mansão, onde um jardim tranquilo os aguardava. Sentaram-se em um dos bancos, e Jasmim colocou a mão sobre a cabeça de Luther, fazendo com que ele soltasse uma risada.
— Desculpe, eu sei que deveria ser um líder firme no meio disso tudo. Um soldado não pode se deixar levar. O problema é que tiramos um tempo do clã para descansar, mas no fim acabei arrastando vocês para isso: carregar corpos de civis e se envolver na bagunça de nobres — disse Luther, com um tom de frustração.
— Não havia como saber que a situação escalaria dessa forma, Luther. Ninguém te culpa por isso. O foco é salvar essas pessoas, e só isso. Como você disse, somos soldados. Nos afastar do clã não muda quem somos. Podemos não estar seguindo as missões deles, mas continuamos sendo quem somos — respondeu Jasmim, com um tom tranquilizador.
— Eu queria que tivéssemos algumas aventuras comuns durante esse ano, como as que meu pai me contava quando eu era pequeno. Apenas explorar o país, conhecer alguns lugares e fazer um pouco de dinheiro — disse Luther, com um tom nostálgico.
Olhando para o lado oposto de Jasmim, Luther imaginou seu pai, com o sorriso aconchegante que ele tanto lembrava.
— Eu queria ter isso. Queria ser mais parecido com meu pai e deixá-lo orgulhoso — confessou Luther.
Jasmim suspirou, aborrecida, e virou o rosto de Luther, fazendo com que os dois ficassem cara a cara. Ela segurou seu rosto com as duas mãos, encarando-o olho a olho, e disse:
— Pare com isso! Se ele estivesse aqui, estaria orgulhoso de você! Há várias pessoas ao seu redor que se importam muito com você. Então, pare de se menosprezar. Você é ótimo, Luther!
— Eu sei que vocês se importam comigo, Jas. É só que… — começou Luther, mas foi interrompido por Jasmim.
— Não! — disse ela, apertando seu rosto e rindo. — Que fofo, você parece um peixe!
— Eu estou tentando falar sério aqui! — protestou Luther, tentando não rir.
— Não com essa voz, hahahaha! — brincou Jasmim, rindo ainda mais.
Luther se soltou, segurando a risada, enquanto Jasmim encostou a cabeça em seu ombro, dizendo em tom nostálgico:
— Esse ano fizemos muitas coisas divertidas, Luther! Lembra das fontes termais nas montanhas de Harnora? Tivemos que arrastar Jinn e Kira para podermos ir embora. Eles não queriam ir de jeito nenhum! Ficamos lá mais tempo do que o planejado, depois que o dono da hospedagem nos deixou ficar por quanto tempo fosse necessário, por termos matado aqueles golens.
— Sim, sem falar no dinheiro que ele nos deu! Pensei que tínhamos matado alguma besta colossal! Tentei devolver metade, mas ele recusou! Ele era tão gentil quanto teimoso, hahahaha — disse Luther, rindo.
— Viu? Nos divertimos também. Acho que as aventuras que tivemos durante esse ano podem não ter sido todas boas, mas foram longe de ser algo ruim. Orgulhe-se disso, Luther! O problema é que, mesmo em paz, o mundo em que vivemos nem sempre é tão belo quanto gostaríamos. Isso é algo que temos que entender. Não é exclusivo para soldados — disse Jasmim, com um tom de sabedoria.
Luther refletiu sobre o último ano, repleto de altos e baixos, assim como seu tempo no Clã do Vento. Ele sabia que Jasmim entendia muito bem o quão difícil a realidade poderia ser, assim como Jinn. Ainda assim, ele não conseguia afastar o pensamento de que seu pai teria lidado melhor com tudo.
“Será que algum dia vou conseguir me tornar um grande aventureiro como ele, ou tudo o que sou é um bom soldado?”, pensou Luther.
Mesmo com essa dúvida pairando em sua mente, ele se sentia melhor após a conversa com Jasmim.
— Obrigado, Jasmim — disse Luther, com um sorriso.
Com um belo sorriso que fez Luther sorrir mais ainda, Jasmim respondeu:
— Não precisa me agradecer. Somos uma família. Eu sempre estarei aqui para você!
— Mesmo assim, obrigado. Fico feliz que você esteja aqui — disse Luther.
Luther olhou para o céu noturno, sentindo o ambiente leve do jardim. Ele relaxou, aproveitando o breve momento de paz ao lado de Jasmim. Um momento que ele percebeu precisar mais do que qualquer debate com Himiko. A impressão que ambos tiveram naquele instante foi de que o tempo parou, permitindo que respirassem fundo.
Repetindo o que já havia feito diversas vezes, Luther colocou a mão sobre a cabeça de Jasmim, assegurando que ela soubesse que ele estava melhor. Enquanto isso, imaginou seu pai sorrindo para ele e dizendo:
— Não desista, Luther. Você ainda vai se tornar um grande homem! Filho meu é forte e teimoso demais para desanimar!
“Obrigado, pai!”, pensou Luther, mantendo-se em silêncio, aproveitando aquele momento ao lado de Jasmim enquanto ambos observavam o céu.
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