Volume 1
Capítulo 8: Fôlego em Meio ao Caos (Parte 1)
Jasmim observava o céu, os olhos fixos no pássaro mensageiro que desaparecia no horizonte, levando consigo a mensagem para sua amiga Sira. Na carta, ela havia resumido os eventos desde sua chegada a Port Strong, mas omitira qualquer menção a Castiel. Ele era um assunto delicado, e a kitsune precisava de mais tempo para decidir como abordar o tema com Sira. Por enquanto, preferia esperar até que a amiga chegasse à cidade.
O cansaço pesava sobre Jasmim como uma manta úmida. A noite inteira fora dedicada a cuidar dos feridos, e o breve cochilo que conseguira não fora suficiente para recuperar suas energias. Kira se esforçava ao máximo para ajudar, mas era Lia quem detinha o maior conhecimento em cuidados médicos. A jovem havia cedido grande parte de suas ervas medicinais para tratar os feridos mais graves, e nem ela, nem o médico da cidade haviam dormido.
Apesar do esforço exaustivo, os resultados eram positivos. Já era metade da manhã, e a maioria dos feridos havia sido atendida. Os que restavam eram poucos, e muitos cidadãos já haviam retornado às suas casas ou até mesmo aos seus trabalhos, tentando retomar uma aparência de normalidade.
Em um dos bancos da praça, Castiel descansava após ajudar a transportar os corpos dos que haviam perecido durante a rebelião. Os cadáveres estavam alinhados, prontos para serem enterrados. O homem sentia-se desconfortável, não tanto pela tristeza, mas pela falta dela. Ele não conseguia tirar da mente o quão fácil fora atacar as pessoas na noite anterior, e até mesmo a diversão que sentira durante o combate.
“Isso não é bom… Que tipo de pessoa eu sou? Que vida eu levava para nada disso ser verdadeiramente significativo para mim? O pior é que eu queria que a luta tivesse durado mais… isso não pode ser bom”, pensou Castiel, mergulhado em seus devaneios.
Ele não percebeu a aproximação de Jasmim, que se sentou ao seu lado e quebrou o silêncio:
— Kira me contou sobre seu desempenho ontem. Segundo ela, você é “perigosamente genial” com suas espadas.
Castiel voltou à realidade ao ouvir a voz da emissária. Ele olhou para Jasmim e respondeu, com um tom de desconforto:
— Não foi nada demais. Os outros estavam muito melhores. Eu nem consigo usar minha magia.
Jasmim notou o desconforto em sua voz. Ela estava preocupada com o que aconteceria quando seu clã e os outros clãs elementais descobrissem sobre Castiel. As habilidades que ele demonstrava com as espadas, somadas ao poder mágico que ela testemunhara durante a luta contra Dimitri, mostravam um potencial assustador. Jasmim sabia que sua descoberta poderia abalar as estruturas do mundo.
“Se a runa de Castiel fosse realmente de fogo, ele não teria problemas. Mas não há dúvidas de que esse não é o caso. Ninguém vai querer acreditar que ele é humano, nem eu mesma acredito. O medo do que ele pode representar será maior que qualquer coisa. As pessoas sempre temem o que não entendem. Precisamos protegê-lo. Vou fazer o que puder para que ele seja capaz de se defender sozinho”, pensou Jasmim.
— Castiel, durante a luta, você conseguiu se lembrar de algo sobre suas habilidades? — perguntou Jasmim.
— Não, eu apenas peguei minhas espadas e… tudo fluiu naturalmente. Não sei explicar as técnicas que usei, apenas agi — respondeu Castiel, ainda confuso.
Jasmim levantou-se e, com um gesto suave dos dedos, fez com que algumas folhas flutuassem ao redor de Castiel.
— Embora nem todos sejam usuários de magia, a magia está em tudo que existe. Nós, antes de qualquer título, somos usuários de magia e, com isso, podemos manipular a energia ao nosso redor. O que estou fazendo agora não é magia de vento, mas telecinese, um dos dons que um usuário de magia pode manifestar, se tiver sorte.
Castiel ouvia atentamente enquanto Jasmim continuava:
— A magia faz parte de quem somos. Com treinamento, seu uso se torna tão natural quanto respirar. Que tal tentar segurar as folhas para mim? Não sou tão boa com telecinese, então não acho que consigo manter isso por muito tempo. Vamos testar se você tem esse dom.
Seguindo a sugestão de Jasmim, Castiel estendeu as mãos, tentando controlar o fluxo das folhas. Embora não conseguisse movê-las com estabilidade, ele as manteve no ar por alguns instantes. Um sorriso escapou de seus lábios, e ele riu, divertido.
— Hahaha, eu consegui! — exclamou, mas a animação fez com que as folhas se dispersassem no ar. — Droga! Desculpe, Jasmim…
— Não se preocupe, você foi muito bem! — disse Jasmim, sorrindo. — O que quero dizer é que, se precisar usar suas habilidades, não tenha medo, apenas seja cauteloso. O elemento que manipulamos, graças às nossas runas, é parte de quem somos. Você não tem medo da sua perna, certo?
Castiel riu e negou com a cabeça.
— Vamos ajudá-lo a se lembrar das coisas e a usar suas habilidades com segurança. Mas, se algo acontecer, não tenha medo de usar o que tem dentro de você. Apenas não force sua mente, está bem?
“Parece que ela sabia exatamente como eu estava me sentindo”, pensou Castiel, enquanto uma sensação de alívio temporário tomava conta de seus pensamentos.
— Obrigado, Jasmim — disse ele, com um sorriso genuíno.
— Não fiz nada demais, Castiel. Assim que isso tudo acabar, vou tentar ajudá-lo a recuperar suas habilidades. Dentro do possível, é claro.
— Estou ansioso por isso — respondeu Castiel, olhando para as folhas que agora repousavam no chão.
…
Na antiga mansão dos Damaris, Himiko estava sentada na sala, lendo uma lista das pessoas que haviam perecido durante a rebelião. As fotos da família Damaris já haviam sido retiradas das paredes, e as empregadas se esforçavam para limpar as manchas de sangue do chão.
Margery entrou na sala e percebeu que Himiko ainda não havia tocado no café da manhã que preparara.
— Senhorita Kami, por favor, coma algo — disse Margery, com um tom de preocupação.
— Não tenho tempo para isso, Margery. Todos estão se esforçando muito, e eu não posso ficar para trás — respondeu Himiko, fazendo anotações em uma folha de papel. — Chame a subcomandante Carla. Precisamos enviar os policiais para guardar as fronteiras da cidade. Não podemos perder tempo com a possibilidade de um ataque dos caçadores.
— Himiko…
A nobre parou o que estava fazendo e olhou para Margery, surpresa. Fazia muito tempo desde que sua assistente a chamara pelo nome.
— A senhora não vai ver a Nádia? — perguntou Margery, cuidadosamente.
— Não, agora não é o momento para isso — respondeu Himiko, secamente.
— Está arrependida de ter feito a rebelião?
Himiko deixou a caneta cair e praguejou baixinho. Margery, pensando que não receberia uma resposta, foi até a bandeja com o café da manhã para levá-la de volta à cozinha. Mas Himiko a segurou pelo braço e pegou um pedaço de pão.
— Eu não me arrependo do que fiz. Teria feito tudo de novo. Remover a família Damaris do poder era inevitável, e não havia outra forma de fazê-lo sem conflito. Agradeço sua preocupação, mas a cidade precisa de uma líder forte agora, ou não sobreviveremos aos caçadores. Eu só queria que Lauren estivesse aqui para me ver vencer — disse Himiko, com um tom de amargura.
— Senhorita Kami… — murmurou Margery.
— Não se preocupe comigo. Não vou chorar nem fraquejar. Vou continuar seguindo em frente. Afinal, agora sou a governadora de Port Strong. A família Kami voltou ao poder, e não posso decepcionar meus ancestrais. Eles estão me observando, Margery.
Margery baixou a cabeça, envergonhada por trazer assuntos delicados em um momento tão inoportuno.
“Onde estava com a cabeça? Falar sobre essas coisas agora só vai atrapalhar a senhorita Kami. Meu trabalho é ajudá-la a se manter forte, não o contrário”, pensou a assistente.
— Desculpe, senhorita Kami, eu não devia ter dito nada! — disse Margery, rapidamente.
— Tsk, pare de ser boba. Você continua agindo como uma empregada quando é minha assistente. Levante a cabeça e não se envergonhe por me questionar. É por isso que a mantenho por perto — disse Himiko, sem qualquer sinal de incômodo. — Vou ver Nádia quando tudo isso terminar. Agora, preciso me concentrar no inimigo que está diante de nós. Por favor, chame a Carla. Temos muito o que fazer. Descansaremos quando tudo acabar.
Margery saiu da sala com um sorriso discreto no rosto.
“Ela é tão focada. Ela é a líder que esta cidade precisava, especialmente neste momento de crise. Tio e tia Kami, sua filha se tornou uma mulher extraordinária! Tenho certeza de que vamos sobreviver a isso”, pensou Margery.
…
De volta ao bar onde estava hospedado, Jinn refletia sobre o esforço conjunto das pessoas da cidade para se ajudarem mutuamente. O porto estava movimentado, com pescadores trabalhando para manter a cidade funcionando. Ele abriu a porta dupla do bar, sentindo o cheiro de comida fresca que emanava da cozinha. No interior, apenas Bogna, a garçonete, estava presente, já que Nádia havia assumido o papel de gerente, embora ainda não oficialmente.
A mulher ofereceu um sorriso triste a Jinn, tentando recebê-lo bem, mas a morte de Lauren ainda pesava sobre todos.
— Como estão as coisas lá fora, senhor? — perguntou Bogna.
— Pode me chamar de Jinn. Estão melhorando. Todos estão se esforçando para trazer algum senso de normalidade — respondeu Jinn, escolhendo suas palavras com cuidado.
— Normalidade? Acho que isso vai levar um tempo… — disse Bogna, refletindo. — Você também veio para comer?
— Também?
— Sim, um de seus companheiros esteve aqui. Ele estava mal-humorado, mas me tratou bem.
Jinn lembrou-se de Luther, furioso após a rebelião. Ele chegou a pensar que o homem iria atrás de Himiko para tirar satisfações, mas, a pedido de Jasmim, Luther se conteve.
“Preciso falar com ele depois”, pensou Jinn.
— Vou querer comer também. Onde está Nádia? — perguntou Jinn.
Bogna parou bruscamente antes de entrar na cozinha e, sem olhar para Jinn, respondeu:
— Ela foi tirar um tempo para si. Não acho que você a verá aqui hoje.
— Você poderia me dizer para onde ela foi? — insistiu Jinn.
— Por que quer saber?
— Não acho que fará bem para ela ficar sozinha agora. Só isso.
Bogna considerou as palavras de Jinn por alguns segundos antes de entrar na cozinha. Pouco depois, ela retornou com uma cesta de comida suficiente para duas pessoas e informou Jinn onde poderia encontrar Nádia, embora duvidasse que sua presença faria muita diferença.
Jinn seguiu a trilha, lembrando-se do rosto de Nádia quando ela encontrara o corpo de sua mãe. Levara quase a madrugada inteira para que Nádia permitisse que o corpo de Lauren fosse levado para o preparo do enterro. Himiko prometera um funeral para todos os falecidos assim que a ameaça dos caçadores fosse eliminada, mas os corpos seriam enterrados antes disso.
Ao chegar ao final da trilha, Jinn avistou Nádia, com roupas leves e os pés descalços dentro do riacho. O som da água quase abafava o choro da elfa, mas Jinn conseguiu ouvi-lo. Ele se aproximou com cuidado, anunciando sua presença para não assustá-la.
— Essa é realmente uma bela trilha, Nádia! Você tinha razão! — disse Jinn, com um tom leve.
Nádia enxugou as lágrimas rapidamente, mas seu rosto vermelho denunciava seu estado.
— Como você me…?! Foi Bogna? — perguntou Nádia, surpresa.
— Sim — respondeu Jinn, sentando-se ao seu lado e mostrando a cesta de comida. — Ela estava preocupada com você. Disse que você ainda não comeu nada. Sendo sincero, é melhor se apressar, porque se deixar, eu vou acabar com tudo sozinho. Estou faminto.
Nádia pegou uma fruta da cesta e começou a comer, percebendo o quanto estava faminta. Ela olhou para Jinn, que comia casualmente, como se estivessem em um piquenique.
Após um momento de hesitação, Nádia perguntou:
— Por que você está aqui?
— Quando eu era mais jovem, perdi alguém muito importante para mim. Minha avó era a única família que eu tinha. Ela morreu em uma missão, e todos falavam sobre o quão incrível foi sua vida e seus momentos finais. Cansado disso, me isolei. Passei semanas trancado em casa, sem sair da cama ou comer — contou Jinn, olhando para o céu.
— Eu não vou fazer…
— Em algum momento, Luther apareceu. Eu nem tinha forças para reclamar. Ele arrumou a casa, reclamando do cheiro, e trouxe comida. Não falamos nada naquele dia, e ele foi embora depois de algumas horas. Ele repetiu isso por uma semana, até que os outros começaram a aparecer também. Foi então que entendi o que ele queria me dizer. Porque eles insistiam tanto em me ver, mesmo que eu não dissesse uma palavra. Acredito que foi nesse momento que nos tornamos amigos de verdade, ou pelo menos para mim.
Jinn voltou seu olhar para Nádia e continuou:
— Não precisa dizer nada se não quiser. Podemos ficar em silêncio por quanto tempo for necessário. Afinal, não nos conhecemos há muito tempo, mas eu vou ficar aqui, está bem?
Nádia deixou a fruta cair de sua mão, e as lágrimas voltaram a escorrer por seu rosto.
— Eu queria que minha mãe estivesse aqui! — gritou Nádia, abraçando Jinn com força. — Não é justo, não é justo, não é justo!
Jinn abraçou-a de volta, apertando-a com firmeza, e permitiu que Nádia chorasse em seu ombro, sem pressa, sem julgamentos.
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