Emissários da Magia Brasileira

Autor(a): Gabriel Gonçalves


Volume 1

Capítulo 5: Uma Proposta Duvidosa

Com o plano inicial dos emissários ficando distante de se tornar realidade, a atmosfera começou a mudar com o rumo que as coisas estavam tomando. Mesmo que eles pudessem agir sem a cooperação do governador, essa era uma opção que gostariam de evitar.

Pensando nisso, Jasmim decidiu fazer uma última tentativa, mesmo que as chances de convencer o governador e sua esposa fossem baixas.

— Os senhores estão cientes de que entre os caçadores está Dimitri Poltergeist?! Após ver aquele homem pessoalmente, não acredito que ele simplesmente vai parar com o que está fazendo só porque os senhores pediram com educação — disse Jasmim, com um tom firme.

— Como meu marido disse, já estamos negociando com os caçadores. Portanto, temos plena ciência de quem está liderando esse grupo. Além disso, embora Ena pareça uma simples empregada, ela é nossa assistente. Estamos apenas terminando de ensiná-la como as coisas funcionam em nossa cidade. Ela é uma ótima funcionária, e confiamos plenamente em suas capacidades — falou a senhora Damaris, com um sorriso sereno.

— Suas palavras são muito gentis. Eu estou apenas servindo como uma ponte para que as negociações sejam bem-sucedidas e para que não haja derramamento de sangue — disse Ena, com um tom humilde.

Jasmim olhou para Ena, forçando um sorriso, e a elfa retribuiu com gentileza. No entanto, a esposa do governador notou que a emissária estava julgando sua assistente.

— Não se preocupe, criança… perdão! Senhora Takahashi. As aparências enganam — disse a senhora Damaris, com um olhar penetrante.

— Imagino que sim, senhora Damaris. Eu imagino que sim… — respondeu Jasmim, mantendo a compostura.

Luther, percebendo que não havia mais motivo para continuar aquela conversa, reverenciou os nobres para poder partir com seus companheiros.

— De qualquer forma, agradecemos por nos receberem. Que os deuses lhes abençoem! — disse Luther, que em seguida se virou para seus companheiros. — Vamos embora! Ainda precisamos encontrar um lugar para descansar da longa viagem que tivemos.

— Vocês pretendem partir quando?! — perguntou o governador, com um tom que deixou claro que não era uma pergunta, mas uma ordem.

Ajeitando a saia de seu vestido, Himiko se levantou do banco rindo e disse:

— A sutileza do senhor sempre é algo fascinante de se ver. Não se preocupe com a estadia deles. Ainda tenho assuntos que gostaria de tratar com os emissários e também vou ajudá-los a encontrar um bom lugar para ficar e descansar devidamente.

— Himiko! — falou a senhora Damaris, com um tom de advertência.

— Por favor, mantenha a calma, senhora! Não queremos que os visitantes saiam daqui pensando que a nobreza de Port Strong não tem classe alguma, não é mesmo?

— Senhorita Kami, você continua agindo como quer, não é mesmo? Será que algum dia você irá finalmente reconhecer o seu lugar?! — falou o governador, com um tom de desaprovação.

— Fico agradecida pela sua preocupação, mas, nesse caso, eu temo em ter que lhe dizer que ela não é necessária — respondeu Himiko, com um sorriso afiado.

— Eu realmente espero que não seja.

— Blecor, você retornou finalmente com alguns petiscos! Não é mais necessário, estou levando os visitantes comigo.

Himiko passou por Blecor, que suspirou descontente por perder tempo fazendo os petiscos de lula e mariscos. Ele então guiou o grupo, ao receber o consentimento do governador, para suas bagagens e, em seguida, para a saída da mansão.

Ao contrário de antes, a praça se encontrava com movimentação moderada dos moradores, embora ainda pudesse ser visto alguns policiais de vigia, além dos dois que ficaram esperando por Himiko do lado de fora.

Depois que o mordomo se afastou do portão e ficou a uma distância segura, Luther se aproximou de Himiko e disse:

— Então foi isso que você quis dizer com “as cartas foram lançadas”?

— Sim, achei até que você iria insistir um pouco mais antes de se dar conta — disse Himiko, com um sorriso malicioso.

— Poderia apenas ter nos dito que ele já estava negociando com os caçadores!

— Se eu tivesse feito isso, você poderia ter dúvidas se isso era verdade ou não. Ao contrário de agora, que você tem certeza. Porém, acho melhor conversarmos em um lugar mais calmo e com privacidade. Tenho uma proposta interessante para vocês.

Luther, sem conseguir interpretar bem as intenções de Himiko, decidiu segui-la, já que não havia motivo para não ao menos escutá-la. O restante do grupo os acompanhou, curioso sobre qual seria a proposta da nobre.

Himiko levou o grupo até um bar no porto da cidade. O estabelecimento estava vazio naquele momento, contando apenas com a presença da gerente do bar, que limpava as mesas.

A gerente era uma elfa com porte forte de uma guerreira, o que ajudava muito a intimidar clientes problemáticos que tinham mais medo dela do que o próprio guarda que trabalhava no local. No entanto, isso não a impedia de ser uma pessoa muito querida pelos cidadãos de Port Strong, principalmente os clientes fervorosos do bar.

— Senhora Kami! O que faz aqui tão cedo?!

— Bom dia, Lauren. Eu precisava de um lugar vazio para conversar, e eles precisavam de um lugar para se hospedar.

— Ótimo, já faz um tempo que não temos hóspedes! Vou arrumar os quartos imediatamente!

— Na verdade, você poderia preparar algo para eles comerem primeiro? Aliás, onde está a sua filha e a Bogna? Elas não deveriam estar aqui te ajudando?

— Botei aquelas duas para fazerem algumas compras para mim, mas não se preocupe, eu farei algo incrível para os seus convidados!

A elfa foi animada para a cozinha, e Himiko dispensou os dois policiais que continuavam os acompanhando. Ela se sentou na maior mesa que havia no bar, junto de seus convidados.

O bar era bem arejado, possuía três andares e vista para o mar. O ambiente contava com vários itens que faziam com que o espaço se parecesse com um elegante navio.

Castiel ficou admirando o local, imaginando como deveria ser durante a noite: cheio de pessoas conversando depois de um longo dia e ouvindo boa música. Ele sorriu, sentindo uma leve nostalgia e ouvindo risadas distantes de suas memórias. Segurando suas mãos, ele tentou se lembrar quem eram os donos daquelas risadas, porém nada veio a ele.

“Talvez se eu tentar mais tarde, eu consiga me lembrar de algo”, pensou Castiel.

— Este estabelecimento é muito bonito — falou Castiel, pensativo.

— Fico feliz que tenha gostado! Foi meu avô que construiu esse lugar, assim como grande parte do porto. Embora eu tenha feito algumas reformas para deixar o lugar melhor para receber os clientes, tentei manter a essência viva. Afinal, essa é uma herança da família, e temos que zelar pelas memórias de nossos entes queridos, não é mesmo? — falou Himiko, com um sorriso nostálgico.

— É… eu suponho que sim.

Reparando que a conversa poderia ir para um caminho desconfortável para Castiel, Lia interveio:

— Senhora Kami, qual é a proposta que gostaria de fazer?

— Já querem falar de negócios?! Pensei que iriam optar por falar sobre isso apenas depois da refeição! — disse Himiko, com um tom brincalhão.

— Ainda deve levar um tempo até a refeição ficar pronta, então não tem problema — disse Jasmim.

— Bom, já que é este o caso, vamos à minha proposta: O que vocês acham de ter a ajuda da polícia para lidar com os caçadores? Pelo menos parte dela.

— Seria interessante, mas acredito que só de permanecermos nesta cidade já estamos irritando o suficiente o governador — disse Luther.

— Não há necessidade de fingir, emissário. Eu sei que você é o tipo de pessoa que não se preocupa tanto assim com os nobres. Nenhum de vocês, na verdade — disse Himiko, com um sorriso afiado.

“Hahaha, gostei dela!”, pensou Luther, sorrindo com o comentário da nobre. “Você também não se parece nem um pouco com o tipo de pessoa que se preocupa com seus colegas nobres, mesmo sendo superiores em hierarquia”.

— De qualquer forma, eu tenho forte influência sobre a cidade, já que sou dona da zona portuária. Então, pedir assistência da polícia não seria nenhum problema para mim — falou Himiko.

— E você faria isso pela bondade do seu coração? — falou Jinn, em tom de sarcasmo.

A nobre apenas riu, como se tivesse ouvido uma boa piada.

— Algo parecido com isso. É do meu interesse acabar com os caçadores que estão matando as pessoas da minha cidade! Com as negociações do governador, mobilizar a polícia toda seria complicado. Por isso, uma ajuda seria muito bem-vinda. E já que vocês estão dispostos a lidar com os caçadores, uma parceria seria algo natural de fazermos, não acham? — falou Himiko.

— De fato! Por quanto tempo isso já está acontecendo por aqui? — perguntou Jasmim.

— Por volta de um mês. No início, os moradores começaram a desaparecer, e os poucos visitantes que tínhamos também. Depois, alguns corpos começaram a ser encontrados com marcas de luta, algumas casas destruídas e relatos de gritos e barulhos estranhos sendo ouvidos durante a madrugada. Todos os mortos e desaparecidos tinham algo em comum…

— … eram usuários de magia — completou Luther.

— Exatamente! A polícia até chegou a fazer algumas buscas na floresta, mas só encontraram os corpos deixados para trás. Tentei ajudar algumas pessoas que queriam deixar a cidade, mas não faço ideia se sobreviveram ou não. Pelo menos não os que partiram pela floresta. Mas o governador vem controlando muito bem a narrativa, dizendo que não passa de alguns bandidos e que tudo logo será resolvido com os nossos determinados policiais.

— Seria maravilhoso se fossem apenas bandidos. Teríamos matado eles ontem mesmo — disse Kira.

— Dependendo do tipo de bandido — acrescentou Lia.

“Estão agindo com muito cuidado. Parece que fomos os únicos que sobreviveram a um encontro com eles, pelo menos os únicos com magia”, pensou Jasmim, considerando com cuidado tudo o que estava ouvindo. Mas ainda havia algo que a incomodava.

 

— Sinto sinceridade nas suas palavras, mas teria alguma outra coisa a motivando? — perguntou Jasmim.

— Esse é o meu lar, e eu quero protegê-lo. Isso é tudo que há. Minha família construiu essa cidade, então é o meu dever proteger esse lugar, independentemente do risco. Minha posição precisa ser usada para representar as pessoas que vivem aqui e honrar a minha família.

— A senhora Kami sempre sabe o que falar! Fiquei inspirada só de ouvi-la — disse Lauren, que retornou da cozinha com o semblante de mãe orgulhosa e segurando duas bandejas com comida e bebida para todos.

— Ela me lembra muito a mãe dela! — disse Lauren.

— Pare com isso, Lauren. Eu nunca conseguiria ser como ela! — disse Himiko, ficando vermelha.

— Você é bem mais parecida com ela do que imagina! Ela também parecia uma boneca, embora a personalidade forte dela espantasse todos os pretendentes que surgiam, hahahaha! Desculpe, essa velha está falando mais do que deveria. Espero que gostem dos caranguejos e da cerveja. Improvisei no molho, mas acredito que vão gostar!

Assim que Lauren colocou a bandeja de comida e os pratos na mesa, Jinn e Castiel atacaram a comida sem qualquer misericórdia. Quando notaram o olhar de reprovação de Kira, riram um do outro, brindando com as cervejas.

”Eu acho melhor não deixar esses dois ficarem muito próximos", pensou Kira.

Lauren não se incomodou nem um pouco com a falta de etiqueta dos dois. Pelo contrário, se divertiu com a cena. Ver os dois agindo daquela forma fez com que ela se lembrasse de sua terra natal. Por conta das raízes bárbaras da cultura élfica, era comum que muitos se alimentassem sem talheres e até mesmo quebrassem suas canecas quando queriam pedir por mais comida e bebida e enaltecer o estabelecimento.

— Pelo visto, aqueles dois gostaram do meu pequeno improviso! — disse Lauren.

— Lauren, você é humilde demais. Sua comida está sempre maravilhosa! E, por favor, não se chame de velha — disse Himiko.

— Envelhecemos devagar em aparência, minha querida, mas acredito que aos cento e vinte anos já posso começar a me chamar de velha, hahahaha!

— Você não tem jeito mesmo, Lauren! Que tal vocês pensarem sobre a minha proposta enquanto comemos, emissários?

— Sem problemas, penso melhor de barriga cheia! — falou Jinn, de boca cheia.

— Pelos deuses, que vergonha! — disse Kira.

— Só faça como eu e finja que não está vendo — disse Lia, com desgosto.

Os demais comeram suas refeições com calma, ao contrário de Castiel e Jinn, que, ao terminarem seus pratos rapidamente, pediram para repetir. Kira tentou contê-los, mas Lauren não se importou de trazer mais comida para os dois, e Himiko a tranquilizou, afirmando ser cortesia dela e que não precisavam se preocupar com nada.

Enquanto comiam, Lia, Luther e Jasmim trocaram alguns olhares, ainda pensando na proposta de Himiko. Para os três, não parecia haver grandes problemas em fazer um acordo com a elfa. Luther, em especial, sabia a importância de querer honrar a lembrança de sua família, mas Jasmim ainda sentia haver outro motivo por trás das intenções da nobre.

Quando todos terminaram de comer, Luther falou:

— Se o seu objetivo é apenas nos ajudar a acabar com os caçadores, temos um acordo!

— Fico feliz em ouvir isso, Luther! Não se preocupe, meu objetivo é apenas ajudar a cidade. Como uma demonstração de boa-fé, não precisam se preocupar em pagar pela estadia de vocês! — falou Himiko.

— É muita generosidade da sua parte, mas eu não julgo que… — começou Jasmim.

— Não se preocupe! Vocês estarão arriscando a vida de vocês pela cidade. Na verdade, já estão. Então, esse é o mínimo que posso fazer!

Jasmim, que estava ao lado de Luther, casualmente se aproximou ainda mais dele e falou em voz baixa:

— Luther, cuidado! Eu sei o que ela está te fazendo lembrar. Porém, ela ainda é uma estranha.

— Eu sei, mas a verdade é que, se não tivermos ajuda de alguém influente, nossa estadia será difícil. Esse é o lado ruim de cidades pequenas — falou Luther.

— Que seja! Só espero não me arrepender disto.

Mesmo com uma nova união se formando para impedir os caçadores e o ambiente aconchegante do estabelecimento, a dúvida ainda pairava sobre os emissários.

Todos ali estavam fazendo uma aposta e torcendo para que o resultado, no final de tudo, compensasse os riscos daquela união.

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