Emissários da Magia Brasileira

Autor(a): Gabriel Gonçalves


Volume 1

Capítulo 29: Sob Vigia

Os emissários permaneceram em Port Strong por mais uma semana, dedicando-se a vigiar a cidade e auxiliar os moradores nos reparos. Apesar de não haver sinais dos caçadores nas redondezas, uma atmosfera de inquietação ainda pairava sobre a população, especialmente entre os usuários de magia, que continuavam apreensivos. A cidade, embora em reconstrução, respirava um ar de tensão, como se todos aguardassem o próximo golpe.

Um longo debate surgiu sobre a custódia de Ash e dos demais caçadores capturados. Eles se mantinham em silêncio, recusando-se a fornecer qualquer informação. 

Sira, determinada a compensar por ter permitido a fuga de Dimitri Poltergeist, insistia em levar todos os prisioneiros para o Clã do Vento. No entanto, após intensas negociações, chegou a um acordo com Himiko: metade dos capturados permaneceria em Port Strong, enquanto a outra metade seria levada para o clã.

Relatórios detalhados foram enviados ao Clã do Vento e à Ordem dos Templários, explicando os eventos ocorridos na cidade. Sem mais como adiar, a princesa revelou a existência de Castiel às autoridades, dando-lhes tempo para assimilar a situação e demonstrando que tudo estava sob controle. 

Apesar de Sira manter suas suspeitas sobre o draconiano, ao longo da semana ela pôde observar que ele realmente parecia ter perdido as memórias. Seu comportamento não apresentava indícios de traição ou incoerência com as informações fornecidas por seus companheiros.

Inicialmente, Alastar não deu a Castiel um momento de privacidade, acompanhando-o a todos os lugares com a imagem do draconiano descontrolado ainda viva em sua mente. Foi apenas por insistência de Jasmim que o guarda concedeu algum espaço a Castiel, embora ainda relutasse em deixá-lo sozinho por muito tempo.

Luther, Jasmim, Lia, Kira e Jinn esforçaram-se ao máximo para esconder de Castiel suas preocupações sobre o que aconteceria ao chegarem ao Clã do Vento. Eles o trataram como se sempre tivesse feito parte do grupo, mas Castiel, astuto, percebia que as coisas não seriam tão simples. 

Ele decidiu guardar para si o encontro com a misteriosa mulher de cabelos vermelhos, mantendo tudo em segredo enquanto aguardava por mais orientações. 

Desde o incidente, ela não voltara a aparecer, e sua ausência deixava Castiel frustrado e ansioso por respostas. Ele não conseguia entender por que aquela mulher parecia tão familiar, como se fosse parte de algo que ele havia perdido, mas que ainda ecoava em seu coração. Apesar de não se lembrar de quem ela era, algo dentro dele insistia em confiar nela, como se houvesse uma conexão profunda e antiga que nem mesmo a perda de memória poderia apagar.

Um pressentimento insistente o acompanhava, como um sussurro silencioso que lhe dizia que ela voltaria — não quando ele quisesse, mas no momento exato em que ele mais precisasse. Até lá, ele seguiria em frente, carregando o segredo como uma chama que não podia se apagar, mesmo sem saber ao certo por quê.

Consumido pela culpa por ter perdido o controle, Castiel dedicou a maior parte de seu tempo ajudando a reconstruir a praça que ele mesmo havia destruído. Cada pedra recolocada, cada muro erguido, era uma tentativa de reparar não apenas a cidade, mas também sua própria consciência.

Quando o final da semana finalmente chegou, grande parte da população reuniu-se no cemitério, agora adornado com flores, retratos e objetos pessoais. Himiko pedira que todos que haviam perdido entes queridos trouxessem algo que pertencera a eles, colocando-os sobre as lápides. Era um gesto simbólico, uma forma de honrar as vidas perdidas e realizar um funeral digno para aqueles que partiram.

Diante da multidão, Himiko sentiu o peso esmagador das expectativas recaindo sobre seus ombros. Seu olhar percorreu os rostos marcados pelo luto: os filhos de Dariss e Zaleria, agora sob os cuidados de Koloman; Margery e Nádia, ao lado de Jinn; Luther e seus amigos, todos carregando as cicatrizes da batalha. A responsabilidade de liderar e confortar aquelas pessoas era avassaladora, mas ela sabia que não poderia recuar. Precisava encontrar as palavras certas.

O silêncio que antecedia seu discurso era denso, carregado de dor, mas também de uma esperança frágil. Himiko fechou os olhos por um instante, reunindo sua coragem. Então, com uma voz firme, mas carregada de emoção, ela falou:

— Há muito que eu gostaria de dizer a todos vocês. Nossa cidade sofreu… e erros foram cometidos, erros que tornaram esse sofrimento ainda maior. Aprendi, nesses tempos difíceis, que até mesmo as melhores intenções podem carregar um preço alto. Mas o que mais me assombra é que nenhum discurso, nenhuma justificativa, trará de volta aqueles que perdemos.

Ela respirou fundo, sua voz embargando por um momento antes de continuar:

— Poderia dizer que eles partiram por um propósito maior, que suas mortes não foram em vão. Mas isso… isso seria cuspir na dor de cada um de vocês.

Himiko se curvou profundamente diante da multidão, sua postura transbordando respeito e arrependimento.

— Muitos morreram por causa das “boas intenções” alheias. E por isso, eu lhes peço perdão. Eu falhei com vocês. Falhei com esta cidade. E não me sinto digna de estar diante de vocês como líder! — sua voz vacilou por um momento, mas ela a sustentou. — Mães, pais, filhos e filhas foram arrancados de nós. E eu conheço essa dor. Sei como é perder aqueles que amamos… o vazio que isso deixa em nós. E parte de mim se pergunta se, em minhas decisões, realmente honrei a memória dos meus entes queridos.

A multidão a observava em silêncio. Alguns, como Margery, olhavam-na com confusão. Entre os nobres menores, sussurros discretos se espalhavam. Para eles, aquilo era uma oportunidade de ouro. Se Himiko realmente duvidava de sua própria posição, então a liderança da cidade poderia ser contestada.

"O que ela está fazendo?!" pensou Luther, cerrando os punhos.

"A senhora Kami não desistiria assim… Isso não faz sentido!" Margery refletia, alarmada.

Mas então, Himiko ergueu o rosto. E não havia vergonha em sua expressão. Havia fogo.

— Mas não acredito que aqueles que se foram gostariam de me ver lamentando o passado! — sua voz ressoou firme, cortando os murmúrios. — Carregamos conosco suas lembranças, suas histórias, seus sonhos. E é nosso dever seguir em frente, não apesar deles, mas por eles! Devemos carregar essa tocha e continuar caminhando, até o dia em que os reencontrarmos nos reinos divinos.

A emoção na voz de Himiko era palpável, e suas palavras encontraram eco nos corações daquelas pessoas.

— Então, não os recordem apenas com tristeza! Lembrem-se de seus nomes, celebrem suas vidas. Que a memória daqueles que amamos não seja uma ferida, mas a nossa força. Nossa inspiração!

O silêncio que se seguiu não foi de choque, mas de reverência. Muitos começaram a chorar, tomados pelo peso das palavras de Himiko. E então, como mandava a tradição, a multidão permaneceu em silêncio por um minuto antes de entoar uma antiga canção élfica—um hino que, no passado, guerreiros cantavam por seus companheiros perdidos em batalha. Com o tempo, tornou-se um cântico comum nos funerais élficos, uma despedida honrosa para os que partiram.

Enquanto as vozes se erguiam na melodia carregada de emoção, Margery lançou um olhar discreto para os nobres menores. Suas expressões deixavam claro o descontentamento. O que antes parecia uma oportunidade para contestar Himiko agora se tornava algo muito diferente: ela não estava renunciando à liderança. Ela estava reivindicando-a.

“Vou precisar conversar com senhora Kami sobre eles, depois de tudo que passamos esses abutres já estão pensando na hierarquia”, pensou Margery.

Ao final do funeral muitos foram agradecer Himiko por seu discurso e Nádia assim que pode abraçou a nobre dizendo:

— Nunca escute esse lado bobo dizendo que você não está honrando eles! Tenho certeza que sua família e minha mãe estão orgulhosos da pessoa que você é!

— Obrigada, Nádia! — falou Himiko abraçando Nádia de volta.

— Foi um excelente discurso, você é boa demais com as palavras.

Himiko levantou seu rosto para ver quem falou com ela e notou a princesa Sira acompanhada de seus amigos.

— Fico lisonjeada por ser elogiada pela senhora, mas confesso que tive ajuda de uma certa pessoa com isso — falou Himiko.

Luther deu um sorriso de canto se lembrando da conversa que os dois tiveram depois da emboscada na prisão e a nobre sorriu também.

— Vocês vão mesmo embora amanhã? Gostaria de fazer algo para agradecer por tudo que fizeram por essa cidade — falou Himiko.

— Você não precisa fazer nada, Himiko — falou Luther.

— A senhora já foi gentil o suficiente em nos deixar ficar na sua mansão e comer de graça durante essa semana — falou Jasmim.

— Gostaria de assegurar a senhora que Port Strong não será esquecida, depois de tudo que aconteceu, não só o Clã Aerius como a Aliança vão ficar de olho nessa cidade. Então se eles retornarem, terão pessoas esperando por eles aqui, mas seja cuidadosa com os abutres ao seu redor — falou Sira.

Margery ficou impressionada com a princesa, mas ao ver que os outros emissários também notaram, ela concluiu que os nobres estavam fazendo um péssimo trabalho em esconder suas intenções de olhos mais atentos como os deles.

“Ela é bem perceptiva, não deveria esperar nada menos de uma Princesa Elemental”, pensou Himiko.

— Obrigada pelo conselho, minha assistente disse o mesmo. Vou dar um jeito de resolver isso quanto antes — disse Himiko.

— Gostei da confiança, espero que as coisas fiquem tranquilas por aqui quando formos embora amanhã! — disse Luther.

— Sendo sincera, não acho que Port Strong vai voltar a ser uma cidade tranquila, pelo menos não se eu puder impedir.



 

Na mansão de Castiel andava pelos corredores com uma bandeja de comida e com Alastar o seguindo. Quando o emissário entendeu para onde o draconiano estava indo, ele disse:

— Você vai lá de novo? Uma hora o Sho vai acabar perdendo a paciência com você e lembre-se que ela é uma prisioneira e não é um dos nossos.

Castiel parou no meio do caminho e encarou Alastar.

— Um dos nossos? — falou Castiel.

— Esses caçadores são assassinos, eles não nos veem como pessoas, para eles somos todos monstros que precisam ser exterminados. Você devia se lembrar bem disso, não consigo nem acreditar que você conseguiu convencer os outros a mantê-la em um quarto separado — falou Alastar.

Embora os olhos azuis de Alastar quase sempre mantivessem uma calma imperturbável, por um breve instante, o draconiano captou algo diferente: uma fagulha de ódio no olhar do Emissário de Vento.

Sem intenção de prolongar um debate inútil, Castiel apenas soltou um suspiro e seguiu em direção ao quarto onde Ash estava detida. Sho o aguardava ao lado de dois policiais e, ao vê-lo, ergueu uma sobrancelha, impaciente.

— Eu realmente não consigo entender você — disse Sho, cruzando os braços. — O que é isso? Você se apaixonou pela prisioneira ou algo assim? Vem aqui todo dia…

Os dois policiais riram discretamente, mas Castiel permaneceu impassível. Sho, por sua vez, suspirou e balançou a cabeça.

— Seja breve. Temos uma longa viagem pela frente e é bom que você esteja descansado.

— Obrigado pela compreensão — respondeu Castiel, sem emoção na voz.

Ao entrar, encontrou Ash sentada na cama, o olhar perdido. Seu tornozelo direito estava preso à estrutura, impedindo que se movesse livremente, mas, ao longo da semana, ela não demonstrara qualquer intenção de fuga.

Colocando a bandeja ao lado dela, Castiel esperou. Somente então a elfa virou os olhos para ele.

— De novo? Já não deixei claro que não vou falar nada? — disse Ash, irritada. — Esse seu truque de bancar o policial bonzinho não vai funcionar comigo. Fui treinada melhor do que isso. E, se quer saber, nem adianta tentar me usar como isca. O senhor Poltergeist não vai colocar o pescoço em risco pelo meu erro.

Castiel bufou, cansado daquela mesma conversa.

— Todo mundo continua me perguntando isso, está ficando irritante. Eu já disse que não estou aqui para te arrancar informações. Na verdade, seu destino não está nas minhas mãos… e talvez nem o meu esteja.

Como de costume, ele se sentou no chão, cruzando os braços. Ash, dessa vez, não hesitou em comer, menos resistente do que nas primeiras visitas. O draconiano não pôde deixar de notar como muitos elfos que conheceu em Port Strong eram brutos, mais práticos, sem a etiqueta refinada dos que viviam em castelos e cortes.

Pensou em provocá-la, como fazia nos outros dias, mas seu humor estava pior do que o normal. Ash percebeu a diferença e, sem o encarar, comentou com indiferença:

— Inacreditável. Você está aí, todo relaxado, no mesmo ambiente que sua inimiga. Não pense que está seguro só porque me trata bem. E nem finja preocupação como se estivéssemos no mesmo barco.

Castiel ergueu os olhos para ela, um leve brilho divertido passando por seu olhar.

— Podemos ser inimigos, se é assim que você prefere ver as coisas. Mas quer saber por que eu venho aqui todo dia?

Ash bufou.

— Não precisa dizer. “Policial bom”, não é?

— Não. Eu venho porque você não é uma pessoa ruim.

A elfa travou.

— Você sabia que, mesmo se dizendo minha inimiga, se preocupou comigo? — continuou Castiel, a voz leve, quase provocadora. — No começo achei que fosse só coisa da minha cabeça. Mas então a Jasmim me contou que você disse que… eu só perdi o controle por causa da Emissária de Sangue.

Ash desviou o olhar, incomodada. Naquele instante, pensou em seu irmão. Depois, a imagem do olhar assustado de Castiel durante a batalha contra Ena lhe veio à mente.

“Vocês são parecidos até mesmo quando estão com medo… eu odeio isso.”

— Eu só fiz isso porque você me protegeu. Não queria ficar devendo nada ao meu inimigo — rebateu ela.

Castiel sorriu, balançando a cabeça.

— Ainda assim, obrigado… por não me ver mais como um monstro.

Os olhos de Ash se arregalaram levemente.

“Ele ainda está pensando nisso? Sério?”

Ela permaneceu em silêncio, sem saber o que responder. Castiel, então, suspirou, olhando para o teto.

— Você disse que não estamos no mesmo barco. E, olhando por fora, faz sentido: você está presa e eu estou andando livre. Mas… eu não sei por quanto tempo isso vai durar.

Ash o encarou de canto.

— A Princesa do Vento, os guardas e até a senhora Kami… todos olham para mim com desconfiança. Eles não me veem como um assassino ou um monstro, mas como uma ameaça. Afinal, para eles, eu nem deveria existir.

Ash refletiu por um instante antes de murmurar:

— Não é surpreendente. Se as histórias são verdadeiras, os draconianos foram os primeiros a usar runas mágicas nesse mundo. Seu poder é imenso, e você demonstrou isso.

— Kira me disse algo parecido, mas… eu não lembro de nada disso. E, sinceramente, não sinto nada especial. Tudo que eu quero é descobrir quem eu sou. Mas, agora, meu destino será decidido por outros.

Ash não soube o que dizer.

Castiel riu, desconfortável.

— Você está tão preocupada com o que vai acontecer a seguir quanto eu, não é?

Ela permaneceu em silêncio. Castiel tomou isso como resposta. Levantou-se, pegou a bandeja e disse antes de sair:

— Nossa situação não é tão diferente quanto você pensa, Ash.

Ao deixar o quarto, Sho o encarou.

— Você não contou nada sobre os outros prisioneiros, certo?

— Por que você não pergunta logo o que quer? — retrucou Castiel, impaciente.

— Calma, Castiel — interveio Alastar.

— Quer que eu fique calmo? Então peça para ele parar de repetir as mesmas perguntas idiotas. Se eu tivesse más intenções, já teria agido.

— Então quer dizer que você pensou nisso? — provocou Sho.

Castiel estreitou os olhos, sua paciência finalmente se esgotando.

— Vá se ferrar. Eu não vou trair meus amigos. E só para constar: fui eu quem ajudou a defender a cidade!

Os policiais e guardas se enrijeceram ao notar os olhos de Castiel brilhando em um tom avermelhado, mas, em segundos, a intensidade sumiu e ele seguiu pelo corredor, com Alastar ao seu lado.

Dentro do quarto, Ash pôde ouvir Castiel falando com Sho. Suspirou e murmurou para si mesma:

— Eu não consigo te entender… mas você está errado. Não estamos no mesmo barco…

Seus dedos apertaram os lençóis.

“Desculpe, senhor Poltergeist. Eu falhei em cumprir minha promessa. Eu… não consigo ver usuários de magia como monstros. Quero impedir que outras pessoas passem pelo que passei, e diante da escória, não terei misericórdia. Mas não posso mais matar inocentes só porque um dia eles podem se tornar algo perigoso.”

Ela se lembrou do olhar de Castiel durante a batalha.

“Sempre soube que eles sofrem como qualquer um… apenas ignorei.”

Seus olhos ficaram distantes novamente, refletindo sobre sua trajetória e temendo o que estava por vir.

— Você não é um monstro, Castiel… você é uma boa pessoa.

Ash fechou os olhos, se perguntando se um dia poderia dizer o mesmo sobre si mesma.

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