Emissários da Magia Brasileira

Autor(a): Gabriel Gonçalves


Volume 1

Capítulo 30: Um Até Logo

— Jinn, sai logo do quarto, você vai nos atrasar! — disse Kira, já pela terceira vez, batendo o pé no chão com impaciência.

— Calma, eu já vou sair daqui! — respondeu Jinn, sua voz abafada pelo ambiente fechado.

Kira virou-se para Castiel, claramente irritada. Ele, por outro lado, permanecia calmo, mas não conseguia evitar a curiosidade sobre o que estava prendendo Jinn por tanto tempo.

— Vocês homens não deveriam ser mais rápidos em se arrumar? — reclamou Kira, cruzando os braços.

— Nem olhe para mim! — respondeu Castiel, levantando as mãos em sinal de rendição. — Minhas memórias ainda não voltaram para poder confirmar ou negar essa informação.

Com a chegada de um novo dia, os emissários estavam desocupando a mansão da governadora para dar início à viagem de volta ao Clã do Vento. No entanto, dentro do quarto, Jinn ainda estava debaixo dos lençóis, de mãos dadas com Nádia. Os dois aproveitavam os últimos momentos juntos antes que ele partisse, trocando olhares e sorrisos que diziam mais do que palavras.

— Ainda dá tempo de você vir comigo — disse Jinn, seu tom suave, quase um sussurro.

— Eu gostaria de ir — respondeu Nádia, seus olhos brilhando ao falar — Mas preciso cuidar das coisas que minha mãe deixou para mim. E a Himiko ainda vai precisar de apoio. Isso é culpa da minha mãe por ser uma pessoa importante.

Jinn sorriu, apertando sua mão com carinho. 

— Nesse caso, assim que eu terminar de ajudar meus amigos com alguns problemas, eu vou voltar. E, com as nossas coisas organizadas, vamos poder conversar sobre o futuro. Isso é uma promessa!

— Jinn Wu, eu vou esperar ansiosamente pelo seu retorno — disse Nádia, seu olhar cheio de afeto. — Espero que passe tão rápido quanto um piscar de olhos.

Jinn piscou repetidamente, exagerando o gesto, fazendo Nádia gargalhar. Ele então se inclinou e a beijou, um gesto doce e cheio de significado.

— Agora eu tenho que ir antes que a…

Antes que Jinn pudesse terminar a frase, a porta do quarto se abriu com um estrondo. Kira estava do lado de fora, com as mãos nos quadris e uma expressão de irritação estampada no rosto.

— Então esse era o motivo da demora… — comentou Castiel, com um sorriso discreto.

— Pelos deuses, me desculpem! — disse Kira, cobrindo os olhos com uma mão. — Eu não sabia que ela também tinha passado a noite aqui. Vamos embora, Castiel! Encontramos você lá fora! E tente não demorar!

Enquanto Kira empurrava Castiel para fora do quarto, ele não pôde evitar notar a vermelhidão no rosto dela.

— Kira, você está vermelha… — disse ele, com um tom de brincadeira.

— Cala a boca, Castiel! — ela respondeu, ainda constrangida. — Eu ainda estou em processo de recuperação, mas posso muito bem te matar!

Assim que os dois saíram, Nádia e Jinn caíram na gargalhada. Jinn até fez algumas imitações exageradas de Kira constrangida, o que só fez Nádia rir ainda mais.

Quando finalmente terminaram de se arrumar, Jinn abraçou Nádia com força, como se quisesse guardar aquele momento para sempre. Ela não poderia acompanhá-lo até a saída, pois ainda tinha assuntos pendentes para resolver.

— Teria sido legal ver você como uma Emissária de Vento Aprendiz — disse Jinn, com um sorriso brincalhão.

— Sendo sincera, eu acho que seria mais legal ser uma Emissária do Relâmpago — respondeu Nádia, provocando-o.

— Ai, essa doeu! — ele exclamou, colocando a mão no peito como se tivesse sido atingido. — Eles são superestimados! Nós, do Vento, somos muito mais legais.

Nádia riu, seu olhar suave e cheio de carinho. 

— Hahaha, eu vou sentir saudades do seu bom humor.

Jinn sorriu, segurando suas mãos por um último momento.

— Eu volto logo. E, quando voltar, vamos planejar o futuro juntos.

Nádia acenou com a cabeça, seus olhos brilhando de promessas não ditas. 

— Eu vou estar esperando.

Com um último olhar, Jinn saiu do quarto, deixando Nádia com um sorriso no rosto e o coração cheio de esperança.

 

 

Na entrada da mansão, Luther, Lia, Jasmim e Sira observavam enquanto policiais e guardas da princesa carregavam os três caçadores e Ash para uma das carruagens que Sira havia solicitado. Os veículos os levariam até a estação de trem mais próxima, onde continuariam sua jornada de volta ao Clã do Vento. O ar estava pesado, carregado de preocupações e expectativas.

— Meu pai não parecia nervoso na carta que recebi mais cedo — comentou Sira, quebrando o silêncio. — Então não acho que Castiel será maltratado quando chegarmos. Mas tenham em mente que, assim que chegarmos, ele será interrogado perante o conselho. Com a reunião entre os Grão-Mestres Elementais se aproximando, eles vão querer extrair qualquer informação útil sobre os draconianos. Meu pai precisará estar preparado para lidar com os outros líderes e com a Aliança.

Luther cruzou os braços, seu rosto marcado por uma preocupação que não conseguia disfarçar. 

— Havia me esquecido dessa reunião. Tem certeza de que vão receber bem o Castiel?

— Você não confia no meu pai? — perguntou Sira, erguendo uma sobrancelha. — Você o conhece, sabe que ele não é um mentiroso.

— O problema não é o seu pai — interveio Lia, seu tom cauteloso. — É o conselho do nosso clã.

O Senhor do Vento era conhecido por sua bondade e razoabilidade, mas o conselho atual era notoriamente conservador e inflexível, especialmente quando se tratava de questões relacionadas à segurança do clã. Luther temia que o conselho pudesse tomar decisões precipitadas antes mesmo de Castiel ter a chance de se explicar.

— Como eu disse antes, o conselho não será nosso maior problema, pelo menos não no início — continuou Sira, tentando acalmar os ânimos. — O verdadeiro desafio são os templários ocupando nosso território enquanto procuram por membros da Insurgência.

— Ouvi dizer que a Insurgência cresceu bastante no último ano — comentou Jasmim, seu olhar distante, como se estivesse revivendo memórias recentes. — Quem imaginaria que, no meio de uma suposta paz, uma facção de bruxos se tornaria tão poderosa?

— Vocês sabem bem que a paz que temos ainda não está tão sólida quanto parece — disse Luther, sua voz carregada de frustração. — Se estivesse, um incidente como o que tivemos aqui não teria acontecido.

Um silêncio pesado pairou no ar. As mulheres trocaram olhares, sabendo que o descontentamento de Luther ia além do incidente em Port Strong. Havia algo mais, algo que ele carregava há tempos, e elas podiam sentir o rancor em sua voz.

— Existem formas melhores de mostrar descontentamento com a segurança do que começar uma facção terrorista para derrubar a organização que promove a paz, Luther — disse Sira, seu tom firme, mas não sem uma ponta de compreensão.

— É verdade — respondeu Luther, erguendo as mãos em um gesto de rendição. — Não estou dizendo que esses criminosos estão certos. Só estou dizendo que esses usuários de magia e emissários não estão se rebelando sem motivo.

— Seja com ou sem motivo, eles são perigosos, e você sabe disso — disse Lia, seu olhar sério. — Sira, os templários acreditam que possam haver traidores no nosso clã?

— Sim — respondeu Sira, seu tom agora mais grave. — Mas não somos o único clã sob vigilância dos templários. O problema é que, com eles tão agitados, vamos precisar ficar de olho neles para garantir que as coisas não saiam do controle com a chegada de Castiel.

Luther suspirou, olhando para o horizonte. Ele sabia que o caminho à frente seria complicado, mas também sabia que não podiam recuar. Castiel era parte disso agora, e eles precisavam protegê-lo  não apenas dele mesmo, mas de todos aqueles que poderiam vê-lo como uma ameaça.

— Então vamos nos preparar para o pior — disse Luther, finalmente. — E torcer para que o melhor aconteça.

Sira olhou para ele, seu rosto suavizando por um momento. 

— Sempre foi o seu jeito, Luther. Esperar pelo melhor, mas se preparar para o pior.

Ele sorriu. Um gesto breve, mas carregado de um significado que nem o tempo nem as circunstâncias pareciam apagar.

— É isso que nos mantém vivos, não é?

Enquanto as carruagens eram preparadas para partir, o grupo permaneceu unido. Cada um carregava suas próprias preocupações, mas todos compartilhavam um objetivo comum: proteger Castiel.

Kira saiu da mansão emburrada, o rosto ainda tingido de constrangimento. Castiel a acompanhava, segurando um sorriso divertido. Quando se aproximaram dos demais, mudaram de assunto, mas Luther, atento como sempre, se inclinou levemente para Castiel e perguntou em voz baixa:

— O que aconteceu?

— Fomos visitar o Jinn no quarto dele — respondeu Castiel.

Luther arqueou uma sobrancelha.

— Só isso?

— Ele não estava sozinho.

Luther reprimiu uma risada.

— Hahahaha, queria ter visto a cara de vocês.

Castiel deu de ombros.

— A dela foi muito melhor que a minha, disso eu tenho certeza.

Poucos minutos depois, Jinn saiu acompanhado de Margery. Eles esperaram do lado de fora, aguardando a chegada de Himiko, mas ela não apareceu.

— Onde está a senhora Kami? — perguntou Sira.

Margery respondeu com naturalidade:

— Ela vai encontrar vocês no caminho, senhora Aerius.

Luther assentiu.

— Nesse caso, melhor seguirmos viagem. Temos um longo caminho pela frente.

Sira lançou um olhar curioso para Jasmim, que apenas sorriu de canto. Ela já havia explicado que, após um começo turbulento, ela e Luther pareciam ter se entendido com a nobre. Na verdade, a relação entre Luther e Himiko avançara tanto que a própria governadora pedira a ajuda do emissário em algumas questões ao longo da semana.

Embora nenhuma das duas tivessem conversado sobre, elas também havia notado que Himiko, quando ia se encontrar com Luther, estava sempre muito bem arrumada, mesmo para uma nobre.

Guiando as carruagens, os emissários seguiram para a entrada da cidade, após se despedirem de Margery. Felizes por ver que a cidade estava com um clima agradável, embora ainda houvesse alguns reparos a serem feitos, a única coisa que estranharam era que as ruas estavam menos movimentadas comparado aos outros dias.

Foi apenas quando chegaram à entrada principal da cidade que eles entenderam o motivo ao se depararem com vários dos moradores segurando cestos com comida e flores.

Jasmim desceu da carruagem acompanhada dos demais. O sorriso da kitsune ao ver algumas crianças lhe entregando flores chegou a tirar o fôlego de alguns moradores, e a comandante Carla foi até Jasmim dizendo:

— Fico feliz que tenham gostado da nossa pequena surpresa. Com tantas perdas, não achei que fosse sensato dar uma festa, mas queríamos ao menos mostrar nossa gratidão por tudo que fizeram.

— Vocês não precisavam, foi um esforço em conjunto, mas nós também agradecemos a vocês por tudo — disse Jasmim.

O médico da cidade entregou um cesto de alimentos para Lia, enquanto sua filha, envergonhada, entregou uma flor para Sira, dizendo:

— Muito… muito obrigada, princesa bonita.

— Eu que agradeço — disse Sira, corando.

"Que fofinha, ela me acha bonita", pensou a princesa.

— Ora, ora… parece que alguém está ficando vermelha — cantarolou Luther.

— Luther, você precisa tomar jeito e falar com respeito com a realeza — disse Sira.

A princesa tentou forçar uma postura séria ao falar, mas não convenceu Luther, que se aproximou dela rindo de sua má atuação e disse:

— Intimidade é um caminho sem volta, princesa bonita. Espera, por que está ficando mais vermelha?

— Nada de mais! — disse Sira.

Alastar e Sho fizeram menção de rir, mas ao notarem o olhar de repreensão de Sira, os dois mudaram de ideia e se voluntariaram a guardar os cestos. Luther olhou confuso para Jasmim, que apertou a bochecha dele e disse:

— Eu não vou te ajudar com tudo, Levisay!

— Poxa, Jasmim! — disse Luther.

— Você realmente não tem jeito!

— Se até a Jasmim está dizendo isso, então é o seu fim, Luther — disse Kira.

— Do que vocês estão falando?! Alguém me explica. Por que o Jinn está rindo tanto?! — disse Luther.

— Nada, não, Levisay — disse Jinn.

"Vou ficar aqui quieto fingindo que estou entendendo tudo", pensou Castiel.

Após mais alguns agradecimentos, os moradores abriram caminho para que os emissários pudessem partir. Todos, com exceção de Luther, voltaram para as carruagens.

Quando ele estava prestes a desistir de esperar por Himiko, escutou o som de cavalos se aproximando e viu Himiko chegando com Koloman, Ian, sua esposa e as crianças do antigo governador.

— Eu estava pensando que você não viria — disse Luther.

— Pare de bobeira, como a governadora de Port Strong não deixaria de vir agraciar com a minha presença os heróis da cidade! — disse Himiko, fingindo soberba.

"Ela é boa nisso", pensou Luther, admirando sua habilidade de alternar entre a formalidade e a leveza.

Koloman interrompeu o momento, dizendo:

— A senhorita Kami quase que engana a gente, né? Espero que não se importem com mais companhia, estou aqui para acompanhá-los.

Luther olhou para ele, confuso.

— Por que ele está aqui? — perguntou, direcionando a pergunta a Himiko.

— Nossa, para que todo esse desprezo? Somos todos amigos agora! — respondeu Koloman, rindo.

— Koloman, você poderia nos dar licença? Você vai acabar atrapalhando — disse Himiko, com um tom firme.

— Claro, até daqui a pouco, colega de viagem! — ele respondeu, afastando-se.

Luther olhou para Himiko, perplexo.

— Você poderia me explicar isso, governadora Kami? — perguntou, cruzando os braços.

Himiko suspirou, cobrindo o rosto com a mão por um momento antes de explicar:

— As crianças precisam de uma chance de recomeçar. Se ficarem aqui, podem sofrer retaliações por causa do antigo governador. Koloman e sua esposa já estavam planejando partir, então achei que seria uma boa ideia que eles cuidassem das crianças. Vou monitorar de longe e garantir que recebam seus bens quando atingirem a maioridade.

— Você tem certeza disso? Eles não vão sentir falta do lar deles? — questionou Luther, preocupado.

— Eu não tenho o direito de decidir por eles, Luther. Mas essas crianças precisam de uma família e de um lugar onde possam reconstruir suas vidas sem lembretes do passado. Confie em mim.

Luther olhou para as crianças, vendo o irmão mais novo animado com a "aventura", enquanto a irmã mais velha permanecia reservada. Ele sentiu um peso no peito, mas também uma pontada de esperança.

— Está bem. É melhor viajarmos juntos por segurança, o Koloman não é tão ruim assim — concordou ele, finalmente.

Himiko sorriu, aliviada.

— Obrigada pela compreensão. E, Luther… você é um herói para essa cidade. Não se esqueça disso.

— Não fale como se fosse um adeus — ele respondeu, olhando-a nos olhos. — Essa não é a última vez que nos veremos, você sabe disso, não é?

Himiko riu, surpresa.

— Você não é tão denso quanto parece, hein?

Luther deu de ombros, e ela riu novamente.

— Boa sorte com o seu amigo. Espero que o Castiel fique bem. E, Luther... confie mais em você. Você lida melhor com situações difíceis do que pensa.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Depois me fala quem foi que te contou essa mentira! Vou atrás desse maluco agora mesmo!

Ela riu de novo. Então, sem avisar, abraçou Luther rapidamente e, antes que ele pudesse reagir, o beijou no rosto. O calor subiu instantaneamente para seu rosto, deixando-o vermelho como um tomate.

Himiko inclinou a cabeça levemente, os olhos brilhando de diversão.

— Você tem jeito com as palavras. Tenho certeza de que daria um ótimo nobre.

Luther soltou uma risada, tentando disfarçar o embaraço.

— Ha! Já pensou que desastre isso seria?

— Luther Levisay, vamos logo! — chamou Sira, impaciente, da carruagem.

Luther olhou para trás e riu.

— Ela vai me matar se eu não entrar na carruagem.

— Imagino que sim… — disse Himiko, observando-o partir.

"Parte de mim gostaria que ele ficasse."

— Essa não é a última vez que a gente se vê, você sabe disso, né? — disse Luther, olhando para ela.

Himiko hesitou, mas sorriu.

— Você não é tão denso quanto parece, afinal.

Luther apenas deu de ombros, e aquele riso compartilhado trouxe uma leveza reconfortante ao momento.

Enquanto os emissários se perdiam no horizonte, Himiko respirou fundo antes de subir em seu cavalo.

"Com certeza, essa não será a última vez que a gente vai se ver."

Ela lançou um último olhar para a estrada: a cidade se reconstruía, as crianças brincavam nas ruas e os moradores, aliviados, respiravam a esperança de um novo começo. Mesmo sabendo que o futuro guardava desafios, naquele instante, ela sentia que estavam no caminho certo.

Com o pôr do sol tingindo o céu de cores quentes, Himiko cavalgou de volta para a cidade, ciente de que aquele adeus não era um fim, mas o prelúdio de muitas novas jornadas que os aguardavam.

Agradecimentos

 

Obrigado Gabriel e tia Fátima, por mergulharem de cabeça nos primeiros caóticos manuscritos dos Emissários e a minha mãe e minha irmã Raquel por pacientemente ouvirem todas as minhas ideias doidas para essa obra e me apoiarem.

Também um obrigado a Mariana e ao meu irmão Hantony, talvez não saibam, mas Emissários da Magia jamais teria existido sem vocês.

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