Emissários da Magia Brasileira

Autor(a): Gabriel Gonçalves


Volume 1

Capítulo 19: Os dois lobos

No instante em que Nádia foi atingida por Freirr, a mente de Bogna foi inundada por lembranças dos últimos dez anos que as duas passaram juntas. Cada risada, cada discussão, cada momento aleatório passava em sua mente como um filme acelerado, enquanto ela via sua amiga cair. O tempo parecia se arrastar, e Bogna, angustiada, gritou:

— Não, não, não! Desculpa, desculpa… — Ela correu até o corpo caído de Nádia, que sangrava profusamente.

— Filha, por favor, se acalme… — começou Freirr, mas Bogna a interrompeu.

— Não, eu não vou me acalmar! Você a matou sem nem ao menos explicar o porquê! A mãe dela acabou de morrer, e nós a matamos! Vamos deixar o corpo dela largado aqui como se não fosse nada?! — Bogna tremia de raiva e desespero.

Freirr se abaixou, aproximando-se de sua filha, que chorava incontrolavelmente. Ela olhou para Nádia, ainda sangrando, e suspirou, liberando a tensão que sentia para manter o foco no objetivo.

— Bogna, cheque o pulso dela… — disse Freirr, com uma calma que contrastava com a situação.

— Não! Eu não quero! — respondeu Bogna, recusando-se a tocar em Nádia.

— Apenas faça o que eu mandei! — ordenou Freirr, com uma voz firme que não admitia discussão.

Relutante, Bogna seguiu o pedido da mãe e, para sua surpresa, descobriu que Nádia ainda estava viva. Ela olhou para Freirr, arrependida por ter presumido o pior, enquanto a mãe acariciava o rosto de Nádia.

— Eu nunca mataria a Nádia — disse Freirr, com um tom de tristeza. — Não cuspiria na memória de Lauren dessa forma. Ela foi minha única amiga de verdade neste lugar, mesmo sem saber a verdade sobre o que somos.

— Eu não devia ter presumido tal coisa da senhora — admitiu Bogna, envergonhada.

— Filha, depois de todos esses anos, você deveria saber que eu não me irritaria com isso. Fui eu quem te ensinou a sempre esperar pelo pior. Mas lembre-se: nossos instintos são superiores aos de qualquer um neste mundo. O mínimo que espero de você é que cheque as informações antes de agir. Se não tivesse se deixado levar por suas emoções, nem precisaria checar o pulso dela. Você foi muito bem treinada para distinguir o som de batimentos cardíacos.

Bogna, agora mais calma, concentrou-se e conseguiu ouvir os batimentos cardíacos de Nádia. Ela se focou a ponto dos batimentos de Nádia serem o único som em meio ao silêncio pesado que pairava no ar. O chão estava coberto de sangue, assim como o arpão que Bogna havia deixado cair quando Nádia foi atingida.

— Levanta, filha. Temos que ir antes que os caçadores cheguem — disse Freirr, estendendo a mão para Bogna.

— Eu sei que agora é tarde demais, mas eu gostaria que pudéssemos ficar. Não acreditava nos Emissários de Vento, mas, por alguma razão, agora acho que eles podem impedir os caçadores — confessou Bogna, com um tom de esperança.

— É possível, mas você e eu estaremos bem longe daqui quando isso acontecer. Não deixe seu tempo aqui te fazer esquecer o que somos. Agora levanta! Preciso pensar em uma desculpa para os respingos de sangue em nossas roupas…

— Adeus, Nádia. Sinto muito que as coisas tenham que ser assim — sussurrou Bogna, olhando para a amiga caída.

Os olhos vermelhos de Freirr voltaram à tonalidade cinzenta de antes, e as duas entraram na delegacia. Por não haver pessoas suficientes, elas cruzaram o corredor dos fundos sem se encontrarem com ninguém. Foi apenas ao chegarem ao escritório da delegacia que chamaram a atenção das pessoas que estavam de vigia, que se assustaram ao vê-las sujas de sangue.

Um dos homens se aproximou, sinalizando para que outro pegasse o kit de primeiros socorros, e perguntou:

— Senhora Brozová, a senhora e sua filha estão bem? Aconteceu alguma coisa lá fora?

Ouvindo a pergunta, os outros no local ficaram tensos, segurando suas armas e se preparando para o pior. Freirr, no entanto, soltou uma risada calmante e respondeu:

— Não se preocupe, Libor. Esse sangue não é nosso. Eu e Bogna fomos à entrada principal da cidade para ver como tudo estava e acabamos ajudando com alguns feridos antes de vir para cá. Foi por isso que nos atrasamos. Acho que essas roupas não têm mais salvação.

— Como está lá? Eles estão conseguindo conter o avanço dos caçadores? — perguntou Libor, ainda preocupado.

— Por enquanto estão. Os Emissários de Vento estão se mostrando bem melhores do que eu pensava que seriam.

Ao ouvirem aquilo, todos sorriram, aliviados de que a batalha estava indo bem. A verdade era que a maioria das pessoas ali pedia aos deuses que o inimigo nunca chegasse até eles, mesmo sabendo que outros estavam se sacrificando. O medo de perder suas próprias vidas era palpável.

— Teria algum problema se eu fosse com Bogna até o porão para falar com um dos policiais lá embaixo? Tenho uma mensagem do irmão dele. Não quero demorar muito tempo aqui, precisamos voltar para o nosso posto — disse Freirr, inclinando-se de forma sugestiva para que o elfo notasse seu decote.

Freirr, além de carismática, era uma elfa de beleza impressionante, com uma estrutura física forte que a fazia parecer uma lady das grandes casas élficas. O elfo, Libor, fingiu ponderar por alguns segundos, mas Freirr sabia muito bem qual seria o resultado de seu pedido.

— Suponho que não haja problema, mas não demorem muito lá embaixo, tudo bem? — disse Libor, tentando manter a compostura.

— Não se preocupe, meu coração. Não vou levar muito tempo — respondeu Freirr, com um sorriso sedutor.

“Eca, odeio quando ela faz isso na minha frente”, pensou Bogna, revirando os olhos mentalmente.

Os outros homens no local olharam com inveja para Libor, que estava feliz demais por ter sido chamado de “coração” para notar.

Chegando à porta do porão, o policial que estava de guarda perguntou o que as duas estavam fazendo ali. Após a explicação de Freirr, ele se ofereceu para guiá-las, e as duas aceitaram, embora Bogna estivesse mentalmente revirando os olhos por causa dos olhares maliciosos que o policial dirigia a elas.

Na cela da família Damariss, Zaleria chorava nos braços de Dariss, preocupada com o destino deles ao serem informados de que Port Strong já estava sendo atacada pelos caçadores. Dariss, enquanto consolava sua esposa, notou que Ena, sentada distante dos dois, olhava para o teto da cela, com seus pensamentos distantes daquele lugar.

— Ena — chamou Dariss.

Ao contrário do que ele esperava, a elfa olhou para ele imediatamente, esperando pelo que o nobre tinha a dizer.

— Gostaria de me desculpar por tudo que você tem passado, Ena. Mesmo não trabalhando há anos para nós, você é a que está aqui conosco, presa. Sei que não pode significar muito para você, agora que estamos nesta situação, mas a família Damaris não vai esquecer da sua lealdade  — disse Dariss, com um tom de gratidão.

— Meu marido tem razão! Sinto muito que você esteja me vendo neste estado deplorável, mas eu não vou esquecer tudo que você fez por esta família. Tenho certeza de que as crianças também estão muito preocupadas com você — disse Zaleria, contendo suas lágrimas.

— Fico muito agradecida pelas palavras dos senhores. Eu só fiz o meu trabalho. É uma pena que estamos aqui, mas não me arrependo de nada. Só peço aos deuses que as crianças estejam em segurança — respondeu Ena, com um tom sereno.

— Como eu disse para minha esposa, e você deve ter ouvido, a Himiko não vai permitir que aconteça nada com a “vantagem” que ela tem sobre nós dois. Meus filhos estão seguros, disso eu tenho certeza — afirmou Dariss, tentando acalmar a si mesmo e a Zaleria.

— Eu só… — Zaleria se interrompeu ao ouvir os detentos do lado de fora se agitando.

Eles não conseguiam escutar claramente o que acontecia no corredor, mas ouviram dois policiais próximos à porta de sua cela conversando:

— O que a Senhora Brozová está fazendo aqui?

— Por que a roupa dela e da Bogna estão manchadas de sangue? Será que aconteceu alguma coisa lá fora?

Zaleria olhou para o marido, com a respiração acelerada, pensando na possibilidade de Poltergeist ter enviado alguém para dar um fim a eles.

— Amor, será que eles já chegaram aqui? — perguntou Zaleria, tremendo.

— Vai ficar tudo bem. Vamos tentar escutar o que está acontecendo — disse Dariss, segurando firme a mão da esposa.

No corredor, o policial que desceu com as duas mulheres foi parado por um dos guardas, que perguntou:

— Alan, o que está acontecendo? Os caçadores conseguiram chegar aqui?

— Nada disso, Rían. Elas só deram assistência a alguns feridos, e acabaram sujando as roupas. Trouxe-as porque tinham uma mensagem para um dos policiais — explicou Alan.

Ouvindo a explicação, os detentos, que também estavam nervosos com a chegada dos caçadores, se acalmaram um pouco.

— Filha, por favor, espere aqui — disse Freirr.

Alan se virou para falar com Freirr, mas ela continuou andando em direção ao final do corredor sem dizer uma palavra. Bogna ficou parada atrás de Alan e Rían, esperando.

— Acho que ela já encontrou com quem queria falar. A senhora Brozová disse que queria entregar uma mensagem para alguém aqui — disse Alan.

— Mensagem? Do que diabos você está falando?! — perguntou Rían, confuso.

Freirr parou em frente aos dois policiais que guardavam a porta que dava para a sala onde estava a cela da família Dariss. Com um sorriso gentil, ela disse:

— Preciso falar com uma pessoa que está dentro da sala. Vocês se importariam de abrir para mim?

— Espera, senhora Brozová! A senhora não tinha me dito que queria dar uma mensagem para um dos policiais aqui? — questionou Alan, confuso.

— Não precisam me chamar de senhora. Podem me chamar pelo meu primeiro nome. Fiquem tranquilos, eu só preciso de um minuto dentro dessa sala — respondeu Freirr, com um sorriso que não chegava aos olhos.

Um dos policiais que guardava a porta olhou para o outro, em busca de uma resposta. Freirr colocou a mão na maçaneta, mas um dos policiais segurou seu braço.

A mulher encarou o policial, que ficou paralisado ao ver que o semblante calmo dela havia mudado para algo muito mais sombrio. Ela se soltou do policial, e todos no corredor deram um passo para trás, sentindo uma aura pesada e ameaçadora emanando dela.

— Obrigada — disse Freirr, com uma entonação mais forte que antes.

“Ela parece uma pessoa completamente diferente… é por isso que estou sentindo medo dela?”, pensou Alan, perplexo.

Assim que Freirr entrou na sala, Dariss, confuso com o que estava acontecendo, se levantou e foi até a grade de sua cela, perguntando:

— Freirr, o que você está fazendo aqui? Aconteceu alguma coisa lá fora?

— Eu não vim falar com você, Dariss — respondeu Freirr, com um tom frio.

— Você está atrasada. Ele já está aqui — disse Ena, levantando-se do chão.

— Ena?! — exclamou Zaleria, chocada.

— Só permaneçam quietos se querem ver seus filhos novamente — disse Ena, com uma voz que não admitia desobediência, seus olhos ficando vermelhos.

— S-senhora Brozová, me desculpe, mas preciso retirá-la daqui. Seu minuto já acabou — disse um dos policiais, tentando manter a compostura.

Freirr, cansada do policial, investiu contra ele com um soco rápido e preciso, quebrando-lhe o pescoço em seguida. O corpo do policial caiu no chão com um baque surdo e os olhos de Freirr voltaram a ficar vermelhos.

No corredor, Bogna, Alan e Rían ouviram gritos vindo do andar de cima. A presença pesada que Bogna sentia a fez entender imediatamente quem estava lá. Ena havia avisado que ele já estava ali. Os detentos voltaram a ficar agitados ao ouvirem os gritos, que ecoavam mesmo do subsolo.

— Todo esse esforço para sairmos daqui sem deixar uma trilha não serviu para nada — disse Ena, com um tom de frustração e olhando para o corpo do policial morto com desdem.

— Não! Não! Não! Isso não pode estar acontecendo comigo! — gritou Zaleria, desesperada.

Ouvindo os gritos da nobre, o outro policial que estava perto da porta entrou para averiguar o que estava acontecendo. Ele também não sobreviveu ao encontro com Freirr, que o derrubou com facilidade.

Na outra ponta do corredor, Alan, Bogna e Rían estavam focados demais nos gritos vindo do térreo para prestar atenção nos sons abafados que vinham do final do corredor. Bogna, no entanto, conseguia ouvir tudo com clareza, graças aos seus sentidos apurados. 

Ela ouvia os gritos dos policiais, o som de lâminas cortando carne e ossos sendo quebrados e para seu desespero, tudo ficou em silêncio de repente. Nem sequer a respiração do agressor ela conseguia ouvir.

Alan, sabendo que era seu dever cuidar da porta, segurou firmemente o rifle que carregava e disse:

— E-eu vou subir para ver se são os caçadores. Por favor, esperem aqui.

Enquanto Alan subia as escadas, Bogna ouvia seus batimentos cardíacos acelerados. Ela acreditava fortemente que ele estava a segundos de ter um ataque do coração.

— Mãe! — gritou Bogna, cerrando os punhos ao ouvir passos se aproximando da porta.

Dentro da sala, Dariss levou sua esposa até o fundo da cela, tentando se afastar das duas mulheres de olhos vermelhos.

— Eu sei o que vocês são! Eram para estarem extintos, suas aberrações! Não acredito que permiti que você se aproximasse das minhas crianças! Pelos deuses! Até mesmo você conseguiu me enganar durante todos esses anos, Freirr! — disse Dariss, chorando e com um olhar cheio de ódio.

— Mesmo após os insultos, vou tentar ser razoável e te dar uma oportunidade de reconsiderar suas palavras. Pense bem nos seus filhos, Dariss. Pense na sua esposa — disse Ena, com um tom ameaçador.

— Não! Não! Não! — gritou Zaleria, em choque.

As mãos de Dariss tremiam enquanto ele segurava sua esposa. A razão dizia que ele deveria se manter em silêncio, mas suas emoções tinham uma opinião muito diferente.

— Não me peça para reconsiderar, filho do demônio! Vocês são Emissários do Sangue, mestiços imundos de Hemall! Deviam ter caído com seu maldito império! — disse Dariss, cuspindo no chão. — Espero que você, Freirr e Bogna morram! Tenho certeza que ela tem o sangue imundo da sua mãe!

— Hahahahahahaha, você é um tolo, Dariss! Eu realmente não sei o que faço com você agora! — disse Ena, rindo de forma macabra enquanto se aproximava dos nobres.

— Mãe, ele está aqui! — gritou Bogna do lado de fora.

Desta vez, o grito foi tão alto que nem as vozes desesperadas dos detentos conseguiram abafá-lo. Freirr e Ena trocaram olhares, preparando-se para o pior.

E o responsável por toda aquela preocupação já estava descendo as escadas em direção a Bogna, que tinha os olhos vermelhos, tentando se mover para enfrentar o que estava por vir.

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