Volume 1
Capítulo 17: O Pedido Nunca Feito
O céu ainda estava tingido de tons escuros, com apenas um leve brilho no horizonte anunciando a aproximação do sol. Os caçadores se movimentavam em silêncio, preparando-se para o ataque a Port Strong. A tensão no ar era palpável, mas Ash parecia alheia a isso. Sentada no chão, ela observava o kon mender adormecido, verificando se a criatura mágica ainda estava sob controle.
A caçadora que havia enfaixado seu braço, Lusse, se aproximou com um copo de chá fumegante nas mãos. Sem cerimônia, colocou-o perto do rosto de Ash, que acordou ao sentir o aroma quente e reconfortante.
— Obrigado, Lusse — murmurou Ash, esfregando os olhos. — Acabei dormindo demais, não foi? Espero que tenha ajudado a curar o ferimento.
Lusse sentou-se ao lado dela, sem pedir permissão, e começou a apertar as bandagens com firmeza. — Não precisa agradecer. Só estou fazendo meu trabalho de manter a garota prodígio no topo.
— Ai! — protestou Ash, segurando o copo com cuidado para não derrubá-lo. — Desse jeito você vai acabar piorando a minha ferida!
Lusse riu, um som alto e despreocupado que ecoou pelo acampamento. — Hahaha! Você é bem resmungona, garota prodígio! Não devia falar assim com a sua única amiga aqui!
— Eu não reclamaria se você não tivesse me dado um motivo! — retrucou Ash, fazendo uma careta. — Será que ser irritante é uma característica humana?
— Uau! Você está ficando boa nas provocações. Talvez fosse melhor se eu tivesse apertado mais as suas bandagens.
Alguns caçadores lançaram olhares irritados na direção das duas, sem entender como podiam estar tão descontraídas em um momento como aquele. Dídac, no entanto, observava Ash com atenção. Ele conhecia bem a garota prodígio e sabia que, por trás daquela fachada tranquila, sua mente estava a mil por hora, preparando-se para a batalha que se aproximava.
Enquanto isso, do outro lado do acampamento, um dos caçadores que havia ficado de vigia durante a noite se aproximou de Poltergeist. Após receber um aceno de permissão, ele entregou seu relatório:
— Aconteceu como o senhor previu. Eles passaram a noite em claro, vigiando as fronteiras. Houve trocas de turno, mas a força de defesa deles se manteve concentrada nas fronteiras da cidade, descansando por ali mesmo.
Poltergeist sorriu, satisfeito. — Ótimo! Era previsível que isso acabaria acontecendo. Eles sabem que não lutamos como guerreiros comuns. Somos traiçoeiros e faremos o necessário para alcançar nosso objetivo. Por isso, não podem baixar a guarda um minuto sequer. — Ele fez uma pausa, olhando para os caçadores que se reuniam ao seu redor. — Eles devem estar nervosos por ainda não termos atacado e cansados física e mentalmente. Hora de juntar os nossos homens para o ataque. O momento chegou!
Em poucos minutos, Poltergeist reuniu todos os caçadores e começou a dar as instruções finais. A maioria segurava suas armas com firmeza, tentando conter a ansiedade que fervilhava dentro deles. Poltergeist, com Isami e Ash ao seu lado, ergueu a voz:
— Há alguns dias, falhamos em eliminar os Emissários de Vento que se opuseram a nós. Muitos de vocês estão ansiosos para se vingar daqueles que escaparam, mas lembrem-se: somos Caçadores de Elite! Não nos apressamos, não nos deixamos levar pelas emoções. Caçamos nossa presa com inteligência, não apenas com força bruta!
Dídac observava Poltergeist com admiração. Mesmo tendo ouvido outros discursos do líder em ocasiões semelhantes, as palavras ainda tinham o mesmo impacto da primeira vez. Parecia que todos ao seu redor compartilhavam da mesma sensação.
— Nossa missão ainda é ir atrás dos vermes que se esconderam naquela cidade. Matar os usuários de magia foi apenas um bônus. Mas, para fazer nossa presa sair da toca, precisamos agir com ainda mais inteligência. — Poltergeist fez uma pausa dramática, deixando as palavras ecoarem. — Um grupo será liderado por mim e atacará a cidade pela entrada principal, no leste. Seremos o maior grupo e nossa missão será distrair as forças de defesa da cidade e os Emissários de Vento.
Ele sabia que os inimigos esperavam um ataque direto à cidade, e não ao seu verdadeiro objetivo: matar os monstros que se escondiam em Port Strong e capturar Castiel. Era uma vantagem que ele pretendia explorar ao máximo.
— O outro grupo será liderado por Edgar e atacará a cidade pelo ponto oposto. Será um grupo menor, com a missão de dispersar ainda mais as defesas da cidade. Dessa forma, Isami e Ash poderão entrar no território inimigo sem dificuldade para executar nossa missão principal.
Poltergeist olhou para todos, seus olhos brilhando com determinação e continuou:
— Deem seu melhor na batalha, mas lembrem-se: nosso objetivo é apenas distrair nossos inimigos. Não quero vocês morrendo de forma desnecessária. Ainda temos muito trabalho pela frente. Assim que a missão for concluída, recuaremos. Todos entenderam?
— Sim, senhor! Pelas caçadas que virão! — responderam os caçadores em uníssono.
— Pelas caçadas que virão! — repetiu Poltergeist, erguendo uma de suas espadas ao céu em um gesto que remetia aos seus dias na Ordem dos Templários.
Ash, pronta para partir, se aproximou do kon mender. A criatura mágica a olhava com ressentimento, mas Ash não se intimidou. — Espero que você não me dê trabalho hoje. Ambos nos ferimos lutando ontem, e você já sabe que eu ganho. Então, coopere, e eu te recompensarei.
O kon mender abriu suas asas, que já estavam recuperadas da batalha anterior, mas Ash manteve o olhar fixo nos olhos da criatura, sem vacilar. “Cresci em uma vila de filhos da floresta. Sei muito bem lidar com criaturas mágicas. Você não me assusta”, pensou ela, cruzando os braços.
Poltergeist se aproximou, observando a cena. — Acho que ele desistiu por enquanto. Tem certeza de que vai usá-lo na missão? Ele ainda resiste em te reconhecer como mestre.
— Vai dar tudo certo. Além disso, se eu sobrevoar a cidade, conseguirei capturar o alvo mais rápido e sair sem chamar atenção — respondeu Ash, confiante.
— Lembre-se de vê-lo como um alvo. Se algo der errado, o que sempre é uma possibilidade, você tem minha permissão para recuar.
— Eu não vou precisar recuar. Falhar não é uma opção.
Poltergeist afastou-se sem dizer mais nada, dirigindo-se a Isami com um sorriso nos lábios. — Quero que, assim que terminar sua missão, vá atrás de Ash para verificar se ela precisa de ajuda.
— Não confia nela, senhor? — perguntou Isami.
— Confio, mas ela ainda está em formação. Não espero perfeição dela. Também não pretendo perder um recurso valioso em nossa missão. Ela tem muito potencial. Ainda temos muito o que fazer, por isso quero que ela retorne viva.
— Assim que eu me livrar dos alvos, vou atrás dela. Farei o possível para que ela volte com vida.
— Ótimo. Agora, vamos liderar o caminho. Os outros não são os únicos que estão ansiosos pelo reencontro com os Emissários. Matar aqueles dois seria um excelente bônus para nossa missão.
Poltergeist sentia uma animação crescente. Depois de tantos anos servindo aos Templários, ele sabia que falhas poderiam acontecer. Mas agora, como caçador, ele tinha um desejo ardente de completar sua caçada. Luther e Jasmim estavam marcados para morrer em sua mente, mesmo que parte dele sentisse pena da ignorância dos dois jovens sobre o que realmente estava acontecendo.
O sol começava a surgir no horizonte, iluminando o caminho dos caçadores e anunciando o início da batalha que ambos os lados aguardavam há tanto tempo.
…
— Ha! Você sabe como eu os derrotei, Luther! Já te contei essa história várias vezes! — disse Michael, sentado na beirada da cama do filho.
— Eu quero ouvir de novo, papai! — insistiu Luther, fazendo uma cara emburrada.
Era tarde da noite, e o quarto do garoto de oito anos era iluminado por uma única vela na mesa de cabeceira. Michael suspirou, olhando para o filho. Ele sabia que Luther não desistiria até que a história fosse contada novamente.
— Tudo bem. A missão com a guilda estava quase completa. As pessoas da cidade observavam pelas janelas, curiosas com nossa batalha contra o grupo de bandidos. O líder era um wukong, meio humano e meio macaco, ágil e forte. Ele usava três espadas, e para derrotá-lo, até eu, sendo um grande espadachim, precisei da ajuda de Dália e Tobias.
Michael encenou alguns movimentos de espada, enquanto Luther observava boquiaberto e continuou:
— A defesa dele parecia impenetrável, mas todo mundo tem uma fraqueza. A dele foi o campo de visão. Ele não conseguia acompanhar os movimentos de três pessoas ao mesmo tempo. E, é claro, foi seu pai quem deu o golpe final. As pessoas do vilarejo ficaram tão felizes que deram uma festa em nossa homenagem!
— Uau! Papai, o senhor é tão legal! Eu prometo que vou ser um grande aventureiro também quando crescer. As pessoas vão me chamar de herói!
Michael riu enquanto Luther brandia sua espada de madeira, imaginando-se resgatando um casal de uma cobra gigante, vestindo um sobretudo preto e empunhando uma espada longa como a do pai.
— Filho, vamos deitar — disse Michael, fazendo Luther voltar para a cama. — Eu não sou nenhum herói. Quando você crescer, vai ser algo muito melhor do que um aventureiro, Luther.
— Eu não quero ser outra coisa! Vou crescer e ser que nem o papai! Vou me esforçar muito, muito, muito!
Michael riu e deu um beijo na testa de Luther antes de se levantar. — Tudo bem, mas até alguém esforçado precisa saber a hora de descansar. Amanhã tenho uma missão importante com meu grupo. Eles vêm me buscar assim que o sol nascer.
Luther olhou triste para o pai, que percebeu a reação do filho. — Não fique assim. Vou tentar trazer algo legal dessa viagem para recompensar você pela espera! Então sorria e se lembre de ser bonzinho com a vizinha. Se der trabalho para ela, não vai ter presentes.
Antes que Michael pudesse abrir a porta para sair, Luther segurou o sobretudo do pai com força. Uma brisa gelada entrou no quarto, apagando a vela. Luther, com dificuldade, falou:
— Por favor, não vá! Papai, se você for, você não vai voltar!
— Luther, do que você… — Michael parou ao ver o filho chorando.
— Eu ainda quero aprender tanta coisa com o senhor. Estou tentando ajudar as pessoas como o senhor fazia, mas não sei se estou fazendo do jeito certo. Acabei me tornando um soldado, não um aventureiro como prometi. Pai, por favor, fique. Eu quero mais tempo, quero aprender mais com o senhor. Eu ainda não sei se estou fazendo as coisas direito.
— Você devia confiar mais em si mesmo. Sua mentora não te disse isso tantas vezes? Confie também que seus amigos vão te ajudar, assim como eu fazia. Nem todo inimigo você consegue enfrentar sozinho.
Luther abraçou o pai com força, enquanto vozes ecoavam do lado de fora do quarto:
— Será que o senhor Levisay realmente morreu?
— É comum abandonarem o filho, principalmente homens. E o Michael também era um…
— Quem vai cuidar do garoto agora? Ele está ficando mais velho. A vizinha é um doce por estar de olho nele, mas talvez seja demais para ela.
— Tenho tanta pena dele. Já faz dois anos, e ele ainda acha que o pai vai voltar.
Agora adulto, Luther se viu sozinho no quarto escuro, segurando uma bússola dourada. Sentindo uma mão em seu ombro, ele se virou assustado, despertando por completo de seu sonho e dando de cara com Jasmim.
— Luther, eles chegaram — disse Jasmim, sua voz séria.
Luther não demorou para se levantar. Os policiais e voluntários já se preparavam para a batalha. Usando entulhos, uma barreira havia sido erguida, com atiradores posicionados atrás dela. Do lado de fora da cidade, o restante das forças de defesa aguardava os caçadores que apareciam no horizonte.
Luther e Jasmim se juntaram a Lia e à comandante da polícia na linha de frente. Luther sorriu para Jasmim, tentando aliviar a preocupação que via em seus olhos.
— Droga, esses caçadores são realmente um problema. Nem me deixaram tirar um cochilo decente — brincou Luther, sacando sua espada.
— Hahaha, você é um idiota — riu Jasmim.
— Concordo — disse Lia, com um sorriso irônico.
O sol começava a surgir no horizonte, iluminando o campo de batalha. Luther se preparava para enfrentar os caçadores de Dimitri Poltergeist, determinado a dar um fim àquela ameaça.
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