Emissários da Magia Brasileira

Autor(a): Gabriel Gonçalves


Volume 1

Capítulo 13: Acerto de Contas

— Você tem uma forma engraçada de começar uma “simples conversa” — disse Himiko com um claro tom sarcasmo.

— Tempos desesperados, pedem por medidas desesperadas. Não acha? — disse Dariss.

“Mesmo se eu usar o passos de vento não vou conseguir ser tão rápido como a Jasmim a ponto de me salvar e salvar os dois e qualquer outra conjuração ofensiva pode acabar fazendo com que o teto desmorone sobre nós. Isso seria péssimo, principalmente por estarmos no subsolo. Preciso ser paciente e esperar por uma abertura”, pensou Luther. 

Os olhos do Emissário de vento percorriam pelo ambiente ainda calculando algumas possibilidades do que poderia ser feito e Koloman que tinha seu braço em volta do pescoço de Blecor pressionou ainda mais forte percebendo o que se passava na mente de Luther. 

— Arghhh! — grunhiu Blecor ao ficar difícil para que respirasse.

Himiko e Luther voltaram sua atenção para Koloman que satisfeito com o resultado alertou Luther:

— Não tente nenhuma gracinha ou vou matar esse aqui!

— N… po… f…v…. — Blecor tentava falar enquanto se debatia tentando respirar.

— Fica quieto! Eu já não te avisei que se você me irritar eu te mataria — disse Koloman pressionando o cano da pistola contra a cabeça de Blecor.

— Eu não vou tentar nada! Deixa ele respirar — disse Luther. 

Entretanto, o emissário não baixou a guarda, ele olhou para Himiko que pediu com o olhar para que ele se acalmasse. 

“Preciso arrumar um jeito de tirar esses dois daqui”, pensou Himiko e Luther. 

Koloman afrouxou seu braço, permitindo que Blecor voltasse a respirar, seu rosto estava vermelho, seus olhos lacrimejando e caso não fosse pelo ex-comandante o estar segurando ele teria caído no chão enquanto recuperava o fôlego.

Batendo com a ponta da sua pistola na grade de sua cela, Dariss trouxe de volta a atenção de todos para ele e disse:

— Sabe Kami, eu tenho que elogiar você por todo o empenho que teve em fazer a rebelião. Eu tenho certeza que ganhar o favor da população mesmo usando a Lauren, não teria funcionado tão bem a não ser que estivesse trabalhando nisso há um bom tempo. Esperando pelo momento certo para agir.

Himiko se manteve em silêncio, confirmando as suspeitas do ex-governador e ele continuou:

— Escutei do traidor que vocês acreditam que estão ajudando a cidade, hahahaha. Vocês estão se vendo como a porra de salvadores, você conseguiu colocar essa merda na cabeça de todos eles. Novamente preciso te elogiar por isso. Mas é engraçado…

— O que é engraçado? — disse Himiko com frieza.

— Que você caiu em um truque idiota como esse! Eu pensei que a grande mente por trás dessa rebelião teria sido mais cuidadosa, ainda mais considerando que os policiais, que estão ao seu lado, estão ocupados demais protegendo as fronteiras para que aqui tenha uma segurança decente.

Enquanto Dariss falava com Himiko, Ian sentia o impulso de puxar o gatilho para matar Luther aumentar a cada segundo que se passava, “Hora de dar o troco nesse desgraçado por ontem!”.

— Ian, se acalme. Nós não podemos nos deixar levar pelo calor do momento — disse Koloman enfatizando cada palavra.

— Desculpe, pai… quer dizer... Desculpe, senhor! — disse Ian, suprimindo o seu desejo o máximo que podia.

“Quando conseguir uma abertura vou ter que me livrar dele primeiro, já estive em batalhas o suficiente para reconhecer quando alguém está com sede de sangue. Vamos lá Himiko, eu só preciso de uma distração”, pensou Luther.

— … — Himiko continuou sem responder Dariss.

— Ainda não vai dizer nada?! Quanta arrogância a sua acreditar ser alguma espécie de salvadora dessa cidade, essas pessoas não precisavam da sua ajuda! A única coisa que você e esses malditos emissários fizeram foi trazer para esta cidade uma batalha que eu havia evitado! Todas as pessoas que morreram ontem, que morreram aqui e que vão morrer quando os caçadores atacarem, porque é óbvio que eles vão, vai ser por culpa sua!

Himiko sem esboçar reação alguma olhou para os rostos dos policiais presentes no pequeno espaço que se encontrava e disse:

— Jasper, Ian, Gunnar e Kirk vocês deveriam ter ficado escondidos até que a poeira abaixasse, não esperava vê-los aqui.

— Ei! — disse Dariss perdendo a sua paciência e atirando na perna de Blecor.

Gritando de dor, Blecor tentou se abaixar, mas Koloman o forçou a ficar de pé agradecido pela mira de Dariss ser boa. Luther e os policiais se agitaram olhando um para o outro em um impasse se lutariam ou não quem seria o primeiro a agir.

Na cela a esposa do governador e Ena cobriram seus rostos gritando assustadas com o barulho do tiro ecoando pelas paredes e do lado de fora os detentos pareciam estar prestes a derrubar as grades de suas celas, embora tal coisa não fosse possível para o que estavam presos no momento.

— Eu estou falando com você, Himiko! Você está confundindo a situação aqui para estar tranquila dessa forma? Está se sentindo no controle?! — disse Dariss voltando a apontar sua arma para a elfa — Está na hora de você pagar pelo que fez, por ter manipulado essa cidade. Antes que eu saia desse lugar você vai morrer!

— Por favor, me solta, minha perna está doendo muito, por favor… — disse Blecor implorando enquanto sentia uma dor aguda e o sangue escorria de sua coxa direita.

— Cala a boca seu rato! — disse Dariss.

“Ele está ficando fora de controle, eu vou ter que me arriscar ou nenhum dos dois vai sair vivo daqui”, pensou Luther.

— Dylia está preocupada com você Koloman, devia ter pensando mais na sua esposa antes de agir assim. A Rina está tentando ser uma boa irmã mais velha e ser forte, mas Alwin não para de chorar querendo seu pai e afirmando que ele não fez nada de errado. Crianças são assim mesmo, sempre fiéis ao seus pais, não concorda Zaleria? 

A esposa do governador correu para perto da grade tão nervosa que não conseguia dizer uma palavra sequer. Ian ficou com sua mão trêmula, Koloman, por outro lado, manteve a compostura mesmo com toda preocupação que sentiu em seu peito. 

“Espera, era por isso que ela não demonstrou preocupação alguma com os policiais que fugitivos?”, pensava Luther assustado com a atitude de Himiko.

— Eu tenho uma pergunta melhor para você, Dariss — A elfa encostou sua testa no cano da pistola de Dariss com uma expressão intimidadora em seu rosto ao mesmo tempo que parecia estar se divertindo com a situação — Você ainda se sente no controle?! Me diga, estou ansiosa pela resposta!

A mão de Dariss ficou trêmula e sem conseguir falar, tomado pela preocupação com seus filhos, ele apenas se manteve boquiaberto. Zaleria desesperada pelos seus filhos e sentido o peso do olhar de Himiko disse:

— Por favor, deixe eles fora disso, eles são apenas crianças! Nós só queremos sair da cidade antes que o Poltergeist venha nos matar, eu tenho certeza que ele virá atrás de nós por falharmos em cumprir com o nosso lado do acordo. Não acredito que o dinheiro que mandamos para ele vai fazer ele ignorar tamanha falha.

— Eu coloquei as famílias de vocês em um local separado das demais para ficarem a salvo quando o ataque chegar e não sofrerem represália de algum cidadão ressentido pelo que houve ontem, mas se alguma coisa acontecer comigo, eles morrem. Você quer que eu deixe eles fora disso? Então que tal todos baixarem suas armas e conversamos pacificamente.

Os policiais olharam para o nobre esperando pelo que ele faria, Luther esperava eles baixarem suas armas para fazer o mesmo e Himiko notando isso falou:

— Baixem suas armas agora! 

Daquela vez os policiais obedeceram ao pedido da nobre e não só baixaram sua arma como as soltaram no chão, receosos que suas famílias pagassem o preço. Luther colocou sua espada de volta na bainha, embora ainda estivesse pronto para usar o passos de vento para tirar a arma de Dariss que ainda hesitava em obedecer Himiko.

— Nossa cidade pode ser atacada por caçadores a qualquer momento e a única coisa que vocês estão conseguindo fazer aqui é me fazer perder tempo em uma hora crucial! Se querem a segurança de suas famílias, se unam a mim no esforço contra os caçadores, eu prometo que nenhum mal acontecerá a eles se vocês me escutarem — disse Himiko.

De início receoso, Koloman olhou para seu filho, vendo a preocupação dele com a sua mãe se deu conta do que deveria fazer.

“Não posso deixar meu orgulho fazer com que meu filho fique sem a mãe e eu não perderia minha esposa por nada nesse mundo”, pensou Koloman.

— Eu irei cooperar com senhora, mas gostaria de ver a minha esposa antes com o meu filho — falou Koloman.

— Nada mais justo, todos vocês poderão ver suas famílias, mas elas continuarão sob minha custódia — falou a elfa enquanto a arma da mão de Dariss, ela olhou para Blecor que estava ficando pálido pela perda de sangue — Levem imediatamente para cima e cuidem da ferida dele.

— Sim, senhora — falou os policiais em uníssono.

Kirk arrancou um pedaço da roupa de um dos cadáveres e estancou a ferida de Blecor, os outros levantaram o homem e o levaram para o andar de cima.

Encarando Ena como se estivesse prestes a atirar nela sem qualquer misericórdia, Himiko falou:

— Você falou com caçadores por eles, não foi?! Me diga onde é o acampamento deles! 

— Eu não sei, por favor não me machuque, eu não sei de nada! — disse Ena se encolhendo no fundo da cela.

— Não se faça de idiota!

— Eu estou falando a verdade, eu esperava por eles no começo da entrada principal e eles me levavam para o acampamento com a cabeça coberta, eu não sei onde é e nem escutei nada que pudesse indicar a localização, eu juro pela minha vida!

“Droga, essa era a nossa melhor chance de evitar um ataque à cidade, eu não posso mandar ninguém na floresta. É suicídio. Vou ter que esperar eles fazerem o primeiro movimento”, pensou Himiko virando seu rosto e se direcionando a saída.

Descontente com as atitudes de Himiko, Luther a observava tentando se conter para não questioná-la, todavia sabendo que ali não era o lugar para isso se manteve em silêncio. 

— Vamos Luther, não temos mais nada para fazer aqui — disse Himiko antes de sair.

O emissário suspirou se vendo sem escolha a não ser a acompanhar já que também queria sair daquele ambiente, assim como ele. Emissários de vento normalmente não gostavam de ambientes subterrâneos onde suas ações eram limitadas, principalmente quando eram pequenos como o ambiente em que se encontrava.

Porém, antes que ele saísse da sala sentiu novamente alguém o encarando e como da última vez ele viu que Ena o fitava com um olhar assustado.

— Luther! Por favor, venha logo! — disse Himiko do fim do corredor prestes a subir as escadas.

— Tsk, nobres…

Ele então se retirou da sala, enquanto Ena o acompanhava o olhar e Zaleira chorava frustrada nos braços de Dariss, após outra derrota contra Himiko. Sem saber quando voltaria a ver seus filhos.



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