Edward The Guide Brasileira

Autor(a): Gusty


Volume 3

Capítulo 33: Thur, o hotel assombrado

Avançando pela rodovia — que, graças à saída antecipada, estava livre dos grandes engarrafamentos —, Edward e Scarlet já avistavam no horizonte o chamativo letreiro de Overhill. Sob o céu nublado, os LEDs vermelhos e verdes da placa larga e alta ganhavam um brilho extra. Nela, o nome da cidade surgia estilizado: o “r” dava lugar ao contorno de uma montanha, enquanto o “i” era representado por um dos pinheiros típicos da região.

— Esse letreiro é meio brega, não é, Ed? — Scarlet comentou com um riso leve, em uma pergunta puramente retórica.

Apenas duas subidas separavam a dupla da agitação urbana, mas o destino final já se revelava antes mesmo da entrada da cidade. À beira da estrada, a poucos quilômetros, o Hotel Thur impunha sua presença. Sua grandiosidade era tamanha que conseguia roubar a atenção das luzes do letreiro e de todos os outdoors publicitários ao redor.

Ao notarem a imponência do prédio, a empolgação tomou conta de ambos. Sem precisar de palavras, Edward pisou fundo no acelerador, sentindo o motor responder com um vigor que parecia espelhar a ansiedade dos passageiros.

Venceram as duas últimas elevações e, ao alcançarem os limites de Overhill, desviaram prontamente para o acesso principal do hotel. O Thur os recepcionou com a elegância silenciosa de uma extensa cerca viva; as camélias avermelhadas, podadas com precisão cirúrgica, pareciam preparadas para resistir ao rigor do inverno que se aproximava. O cercado baixo, embora visualmente decorativo, guiava o fluxo de forma autoritária até a guarita, onde catracas modernas e o olhar atento da vigilância marcavam a fronteira do exclusivo refúgio.

Agora, a poucos metros da entrada, a magnitude do local se revelava por completo. Os cinco pavimentos do hotel erguiam-se em uma estrutura de nogueira escura e refinada, exalando uma sobriedade antiga. As janelas distribuíam-se com uma simetria gélida, repetindo-se de forma rítmica por toda a extensão da fachada.

Todo o peso dessa arquitetura era sustentado por robustos pilares de mármore branco, que criavam um contraste nítido com a madeira e combinavam com o tom pálido dos lucarnes no topo. Sacadas circulares de madeira bruta pontuavam as paredes com proporção matemática, destacando-se a imensa varanda central no último andar — uma estrutura com o dobro do tamanho das demais, que parecia observar o vale como um trono solitário no topo da montanha.

A primeira, pequena, impressão já fora o suficiente para afastar qualquer tensão sentida outrora pelos amigos no início da viagem. Os olhos dos dois brilhavam, nunca haviam chegado tão próximos de um local tão luxuoso. 

Cautelosamente, Edward levou o carro até ao lado da guarita, abaixou o vidro e confuso buscou alguma forma de se comunicar com o vigilante — os vidros escurecidos impediam que qualquer um dos dois avistassem alguma pessoa dentro da guarita.

Ansioso, considerou dizer em voz alta a procura de alguém para abrir sua passagem, contudo logo uma voz grossa saiu do interfone bem ao centro da janela do posto de vigilância — Ed se assustou e ao mesmo tempo sentiu-se envergonhado por ter deixado escapar um detalhe tão evidente.

— Bom dia senhor, me desculpe para qual serviço você foi chamado? Imagino que saiba que o hotel está interditado até o início da próxima semana. Pode me responder normalmente que sua voz é captada pelo interfone. 

— Bom  dia, me chamo Edward e fui chamado para tratar alguns assuntos com o senhor Giovanni — anunciou-se, mantendo uma postura firme.

— Edward de que? — a voz grave questionou de imediato.

— Edward Griffin… — respondeu ,  após uma pausa, notou ser importante trazer mais informações — Ele marcou comigo agora às onze horas, cheguei um pouco mais cedo por precaução. 

— Certo… só um instante. — Concluiu o vigilante desligando momentaneamente sua comunicação com o visitante.

Um leve embrulho começou a surgir no estômago do jovem: será que outra vez uma situação sairia do planejado? Será que de fato estava tudo acordado entre Matthew e seu tio?

A multidão de pensamentos começava a reverberar por toda sua mente, o que rapidamente o fez fechar os olhos e respirar fundo — uma tentativa serena de afastar seu lado pessimista.

Manteve a concentração por longos segundos; negava-se a aceitar qualquer sinal de uma nova recaída.

O retorno da fala do guarda o trouxe de volta, forçando-o a abrir os olhos novamente.

— Tudo certo, Edward. Pode seguir — disse o guarda, retomando o tom profissional. — Você verá uma praça logo à frente. À direita dela, há um desvio de mão dupla com uma placa de "Acesso Restrito a Funcionários". Siga por esse caminho até o estacionamento interno. O chefe pediu especificamente que você parasse lá; ele já está à sua espera.

Aliviado — pois tudo parecia fluir com uma organização que superava suas expectativas — Edward aprovou. Reajustou as mãos sobre o couro do volante, sentindo o peso do carro sob seu comando, e respondeu:

— Entendi. Parece bem intuitivo — limitou-se a dizer, escondendo a chama de empolgação que insistia em brilhar sob seu semblante forçadamente calmo.

— É tranquilo. Em dias normais, há outra catraca que controla aquele setor, mas como estamos sem visitantes, o acesso já está liberado para você. Tenha um ótimo dia, garoto! — Apesar da voz grave, havia uma gentileza genuína na despedida.

— Obrigado, um excelente dia de trabalho para o senhor! — o jovem agradeceu.

Ao observar o braço da catraca se erguer, ele pressionou levemente o acelerador. O motor respondeu com um murmúrio discreto enquanto o carro ganhava velocidade, trocando as marchas de forma automática e suave conforme avançavam para o estacionamento.

— Obrigada você também, voz misteriosa! — Scarlet exclamou em voz alta.

O espírito manteve-se imperceptível para humanos comuns, a partir disso lançou um beijo debochado em direção à cabine de segurança — um gesto que se perdeu no ar frio antes que o veículo fizesse a curva.

Superada a formalidade da entrada, a grandeza do local revelava-se em novos e impressionantes detalhes. A praça mencionada pelo segurança era esplêndida, distanciando-se completamente de uma rotatória comum. Embora de proporções contidas, o centro da praça abrigava uma estrutura monumental que remetia a um globo de neve gigante.

Sob a cúpula cristalina, encontrava-se uma réplica minuciosa de Overhill, dotada de engrenagens e peças automatizadas. Uma maquete viva: pequenos carros moviam-se pelas ruas de brinquedo e luzes piscavam nos prédios, servindo como um guia extravagante e hipnotizante para os visitantes. Poucos lugares ousariam tamanha criatividade; de fato, Giovanni possuía um talento nato para chamar a atenção e valorizar seu império.

— Impressionante! Sempre quis conhecer este hotel, mas nunca tive a oportunidade... — Scarlet exclamou, movida por uma alegria genuína enquanto inclinava o corpo para a frente, tentando absorver cada detalhe da praça e do globo de neve.

Edward compartilhava do mesmo fascínio, no entanto o peso da responsabilidade falava mais alto — estava prestes a iniciar um trabalho sério. Embora permitisse que seus olhos brilhassem diante da riqueza do local, manteve o foco na condução.

Girou o volante à direita e deixou o concreto liso para trás, ingressando em uma estrada de pedras rústicas.

Dois pinheiros, demarcavam o início do trajeto. A irregularidade do solo transmitia uma leve oscilação ao volante e, embora a escolha daquele material parecesse inusitada para um hotel tão moderno, a completa ausência de desgaste nas pedras revelava sua durabilidade.

O caminho estendia-se por uma descida de pouco mais de meio quilômetro, ladeado por arbustos densos que isolavam completamente a área do restante do complexo. A catraca de acesso de fato estava desativada, o que permitia uma passagem livre. 

À frente, abria-se um amplo pátio retangular com capacidade para mais de sessenta veículos, embora apenas dez vagas estivessem ocupadas neste momento. Diante deles, erguia-se um casarão de tijolos aparentes — uma construção puramente funcional e desprovida dos adornos do prédio principal — que parecia abrigar o maquinário do hotel. À esquerda, em meio à cerca de arbustos, uma pequena escadaria de pedra conduzia a uma discreta portinhola de madeira.

Ao pé da escadaria, duas figuras aguardavam a chegada do veículo. O primeiro homem era baixo, com cerca de 1,65 metros, e trazia nos dedos anéis dourados que cintilavam contra sua pele retinta. Vestia uma camisa social branca sob uma robusta jaqueta de couro marrom; a calça de corte fino harmonizava-se com os sapatos loafer, que repetiam o tom terroso da jaqueta. O cabelo curto, recém-aparado, fundia-se com perfeição à barba preta e volumosa.

O segundo homem oferecia um contraste quase cômico devido à sua estatura, beirava dois metros de altura. De pele morena clara e cabeça sem nenhum fio de cabelo, ele trajava o uniforme oficial do hotel: calças esportivas beges, uma camiseta branca com o logotipo do Thur e uma parka em um tom mais sóbrio. Nos pés, calçava botas pesadas, já preparadas para o avanço iminente da neve.

Ao notar que o aguardavam, Edward agiu de forma afiada. Manobrou o carro com eficiência para aproximá-lo da dupla e, enquanto girava o volante com precisão para alinhar o veículo à vaga, dirigiu novas palavras à amiga ao seu lado.

— Então estamos combinados, certo? — indagou, o amigo concentrado.

— Caso algum espírito seja uma criança e o desejo dela esbarre na tentativa de uma conversa com alguém vivo… nós encontraremos outra forma de persuadi-la ou negaremos a ajuda. É isso que você quer ouvir? — Scarlet respondeu serenamente.

Ela devolveu a pergunta com o mesmo peso reflexivo que Edward usara, enquanto guardava os óculos no bolso interno do sobretudo com um movimento lento e calculado.

— Sim, foi o meio termo que encontramos — falou Ed de forma rígida, terminando sua manobra e desligando o motor agitado do carro.

— Foi o melhor que conseguimos… Acredito que depois você mudará de ideia. Outra coisa — elevou a voz encarando o rosto de Edward — lembra do restante de nosso acordo? 

— Entregar toda minha energia para fazer valer meu dom… — Fitou o olhar feroz da amiga entregando uma resposta firme mas conformada.

— Está no rumo, mas faltou força em suas palavras…. Enfim — falou, erguendo seu corpo intangível e atravessando a carcaça de ferro do veículo — promessas são dívidas, né parceiro? — perguntou.

As palavras de Scarlet, mais abafadas, instigaram o compromisso de Edward. Deveria absorver as conversas profundas que tivera com a amiga durante toda a viagem. Fantasmas ainda iriam o assombrar, todavia era sua obrigação seguir em frente.

Respirou fundo. Guardou a chave no bolso, apanhou o celular no compartimento junto à marcha e abriu a porta com uma força bruta — como se tivesse o desejo e a capacidade de arrancá-la das dobradiças. Ao saltar, sentiu o impacto firme de seus pés contra o piso de pedras rústicas.

Sem delongas, bateu a porta com energia e caminhou em direção aos homens que aguardavam. Scarlet, contrariando qualquer expectativa de pressa, esperava por ele escorada na lataria do carro; só então, desencostou-se para manter uma caminhada ritmada ao lado do parceiro.

Depois de pouco mais de quinze passos, Edward e sua invisível acompanhante alcançaram os dois anfitriões. O rapaz pretendia tomar a iniciativa da conversa, mas, antes que pudesse articular a primeira palavra, o homem mais baixo proclamou:

— Ora se não é o Edward! Meu sobrinho falou muito sobre você. Me chamo Giovanni, prazer em lhe receber — apresentou-se, abrindo um largo sorriso e esticando a mão a convite de um forte aperto de mãos.

Surpreso pela amigável recepção, o rapaz ergueu milimetricamente as sobrancelhas, e de forma atrapalhada — quase o cumprimentou com a mão esquerda ao invés de sua dominante — respondeu ao gesto.

— Prazer é todo meu senhor Giovanni! — Retribuiu a gentileza exibindo um sorriso frouxo, não sabia ao certo se deveria ser formal ou informal com seu possível chefe temporário.

— Este aqui ao meu lado — iniciou a explicação, soltando a mão do visitante e apontando para a esquerda — é o zelador-chefe, Reith. Ele é o cara que resolve todos os problemas por aqui! — afirmou, soltando uma risada descontraída que ecoou pelo pátio silencioso.

Edward cumprimentou o zelador prontamente. Agora, a poucos passos de distância, conseguia captar detalhes antes ocultos: ambos carregavam marcas de expressão e rugas que denunciavam a experiência de décadas — traços mais profundos no rosto de Giovanni.

O porte físico de Reith era impressionantemente atlético; seus braços largos e a postura firme indicavam alguém habituado ao trabalho braçal e à rotina árdua do hotel. Já o tio de Matthew, embora não exibisse a mesma musculatura, demonstrava um vigor que deixava claro o quanto prezava pela própria saúde.

Feito os cumprimentos iniciais, os olhos de jabuticaba do dono encarava com esmero o amigo de seu sobrinho e ainda de maneira mansa prosseguiu com sua fala.

— Certo, quero lhe apresentar parte do hotel, mas principalmente o nosso prédio de funcionários — iniciou Giovanni, gesticulando com autoridade. — Todos os nossos colaboradores, eu incluso, chegam por este estacionamento e sobem esta escadaria logo atrás de mim. É lá que fica o local reservado a todas as nossas obrigações. Eu prezo ao máximo pela experiência dos hóspedes, por isso prefiro delimitar bem as áreas de lazer e acesso. Tudo em nome da imersão! — afirmou, fechando as mãos em um gesto de orgulho, como se segurasse o próprio conceito de hospitalidade.

Agora que o dono havia esclarecido, de fato Edward conseguiu reparar melhor no telhado do local acima da subida — parecia tão detalhado quanto a fachada. 

Giovanni e Reith viraram-se e iniciaram a breve subida pela escadaria de pedra. Edward preparava-se para segui-los, mas a voz da amiga, cortante e inesperada, interrompeu seus passos no primeiro degrau.

— Você percebeu? — A fala fria de Scarlet acompanhou o enrijecimento de seus braços. — Sinto ao menos três espíritos aqui no local, e um deles possui uma presença extremamente forte… Ed, vamos tomar cuidado… podemos realmente morrer aqui… — Quebrava a confiança de horas atrás para dar espaço a uma fala preocupada. 

— Certo! — afirmou engolindo o seco e cerrando os punhos.

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