Volume 3
Capítulo 32: O que ficou para trás
O céu nublado encobria os fracos raios solares do recém-nascido dia. Era por volta das seis horas da manhã e, como previsto, o frio começava a se tornar mais incômodo.
As árvores próximas pouco se moviam — ao menos havia ausência de ventos fortes.
Postado diante do portão fechado da garagem de Lilly — metálico, de cor branca, com pequenas manchas de ferrugem — Edward colocou sua mala no porta-malas do carro de seu pai. Não estava ofegante por carregar a bagagem de cerca de três quilos, mas sim pela expectativa de finalmente se aproximar de sua nova jornada. Então, deu início à despedida.
— Bom, acho que arrumei tudo... — disse, enérgico, limpando as mãos com leves batidas.
— Beleza… vai ficar uma semana? — A voz sonolenta de Lilly acompanhou sua postura cada vez mais contraída, uma tentativa inconsciente de se proteger do frio.
Diferente de Edward — que vestia seu outro sobretudo favorito, além de luvas, calça e tênis —, a tia usava um leve conjunto de pijama listrado, acompanhado de um grosso roupão marrom, uma pantufa azul — que combinava com o tom da roupa de dormir — e uma delicada rede de cabelo preta, que guardava cuidadosamente os cachos cada vez menos avermelhados. De certa maneira, toda a viagem de Edward ainda pegara a familiar de surpresa, mesmo após o aviso na noite anterior.
Ao observar o esforço da tia, o rapaz relaxou os ombros e falou em voz suave:
— Tia, obrigado por todos seus esforços, é importante para mim poder morar aqui contigo. Mas, bem que você poderia ter continuado na cama… Te incomodar ainda mais estava fora dos meus planos.
Lilly desfez seus movimentos, levou delicadamente a mão esquerda até o rosto de seu sobrinho e em um sorriso frágil disse:
— Claro que precisava… boa viagem querido, pode deixar que visito seu pai todos os dias. Fique despreocupado e foque nos seus objetivos, sei que será importante pra ti… isso por si só já basta. — Manteve firmeza em suas palavras, precisava demonstrar confiança.
Com um movimento delicado da mão, ela afastou o cabelo que encobria parcialmente o campo de visão do jovem. O gesto doce foi aceito em silêncio por Ed — ainda que mascarasse sua tristeza, ele reconhecia o quanto a companhia da tia fora importante.
Após o breve carinho, o jovem adulto apoiou as duas mãos no tampão do porta-malas e o fechou com firmeza. Virou-se novamente em busca da figura da tia, mas foi surpreendido: Lilly se aproximou ainda mais e envolveu o sobrinho em um abraço acolhedor. Edward levou alguns segundos para reagir, retribuindo então com a mesma intensidade.
A mulher, mais aquecida, tremia ainda mais. Preocupava-se com a saúde de Edward e, principalmente, temia as incertezas dos próximos dias. Aquela que, por tanto tempo, ostentara a beleza da imprevisibilidade da vida, agora, pela primeira vez, enxergava o abismo a encará-la de volta.
Ciente da instabilidade emocional de sua parente, o rapaz manteve-se firme e escolheu minuciosamente suas próximas falas.
— Tia, Matthew me trouxe essa oportunidade de vivenciar uma atividade jornalística, e estou prestes a receber o resultado das provas de admissão das faculdades que me inscrevi. Talvez eu fique mais afastado… porém, sempre estarei aqui por você, assim como tenho certeza de que todos vocês estão aqui para me ajudar… Logo eu volto, tá bom? Novos pontos… lembra?
A mulher evitou responder; precisava conter a voz chorosa. Preferiu apenas assentir com a cabeça.
Edward afrouxou levemente o abraço e aguardou, sem pressa, que a tia o soltasse. Escolheu acolher o sofrimento daquele coração sensível, mesmo que isso significasse carregar novas dores — daquela que sempre fora uma mulher forte.
O abraço se estendeu por mais de um minuto — um minuto que mesclava o silêncio do amanhecer gélido ao choro reprimido de Lilly. Quando se sentiu um pouco mais recomposta, a mulher desfez por completo o enlace, segurou com firmeza os ombros do rapaz e deu voz à única coisa que conseguia pensar naquele momento:
— Você é o orgulho de toda nossa família! — afirmou de forma confiante, estampando seu rosto avermelhado do seu recente choro.
Encarar a seriedade do olhar choroso de Lilly e compreender o peso da fala para a mulher, trouxe um significado totalmente contrário para o garoto. Edward sorria como resposta, contudo seu peito pesado denunciava a aflição de perceber que discordava por completo da afirmação feita — na verdade se via como o principal motivo de toda a dor da família, um fardo.
Sem estender sua despedida, Edward aceitou o elogio vazio, virou-se e caminhou até a porta do motorista. Logo embarcou na Pathfinder antiga de seu pai, ainda apresentava um bom conforto quanto a seus bancos de couro padrão de fábrica, e com garra deu a partida e pisou no acelerador. O forçado semblante alegre já se despedaçava para dar espaço a uma calada seriedade.

Repetir o mesmo trajeto de anos atrás, agora sem a presença dos pais e na posição de motorista, soava estranho — ainda que soubesse que, naturalmente, chegaria a esse momento ao atingir a maioridade. Gostava da sensação do couro desgastado do volante e da adrenalina ao acelerar; no entanto, o cenário detalhado que antes observava como passageiro agora lhe parecia monótono — era tedioso precisar dividir tanta atenção entre a estrada, os outros carros e os pedestres.
Além do desconforto da inversão de papéis, a presença do espiritual também aumentava ainda mais a estranheza de todo o cenário.
— Então, você explicou a viagem como um possível estágio para jornalista? Às vezes sua inteligência me impressiona — exclamou Scarlet de forma debochada e animada.
O espírito controlava sua própria presença para aproveitar ao máximo a carona e o conforto. Assim, afundou ainda mais as costas no banco do passageiro, ao lado do motorista, e logo esticou as pernas, apoiando as botas sobre o porta-luvas.
— Já estava com saudades de uma viagem — comentou, retirando os óculos escuros guardados em um dos bolsos do sobretudo. — Vamos direto ou vai passar na minha casa para pegar meu celular? — perguntou, colocando-os.
— Sua casa… — suspirou e observou de relance a folga de sua amiga. — É inviável e desnecessário, deixe ele onde está. Logo aí dentro do porta luvas deixei o celular da minha mãe justamente para ti… Você sempre salva tudo na rede social que utiliza, certo? Basta entrar em sua conta e pronto… problema resolvido. — Despejou sua estratégia de forma quase que robótica, confiava na segurança de seu plano.
A notícia deixou a mulher surpresa. Com os olhos levemente mais arregalados, abriu um sorriso e voltou sua atenção para Edward — finalmente, seu amigo voltou a se mostrar mais proativo.
— Ok, foi inteligente da sua parte… mas você tem certeza de que está tudo bem eu usar o celular dela? — fez uma nova pergunta, abandonando a entonação despojada.
— Sim, tudo de relevante foi armazenado em outros dispositivos e depois resetei o celular. Com esse aparelho posso levá-lo de forma prática para que você o utilize sempre que estiver em minha presença — descreveu ainda mais sua estratégia mantendo a sobriedade.
As explicações foram captadas de forma minuciosa por parte de Scarlet, sentiu orgulho e responsabilidade em portar um item tão especial de seu amigo. A questão é que algo ainda estava entalado em sua garganta, um problema persistente.
Orgulhosa, acostumada em nunca levar desaforo para casa, o espírito respirou fundo, observou o teto sujo do carro e direcionou a conversa para outro rumo.
— Obrigada… Ed, estou preocupada… na realidade, estou cansada da forma que você está agindo. Entendo todas as desgraças que está vivendo… mas agora se isolar, deixar de conversar comigo, deixar de correr atrás de dar sentido a seus poderes, deixar de guiar outros espíritos, tentar ser um pessoa fria — bufou ao listar todas as irritantes atitudes de seu amigo.
Aguardou em vão alguns instantes por uma resposta de Edward. Ao invés de gastar sua saliva, o amigo preferiu continuar com sua direção monótona.
Agoniada pela falta de ação, Scarlet desfez a postura relaxada, sentou-se ereta no banco e virou o tronco na direção de Edward. Com ambos os punhos cerrados, prosseguiu:
— Vai realmente ficar em silêncio? Sempre estive aqui quando você precisou. Tentei te distrair, te escutar, te arrastar para outras aventuras — listava, controlando ao máximo o impulso de socar alguma coisa. — E qual foi a minha resposta? Desdém! Edward, eu não quero invalidar suas atitudes nem te culpar por tudo isso, mas por que manteve todos os seus amigos tão distantes? E, principalmente, por que decidiu se acovardar tanto?
— Hum, realmente, Scarlet, você é uma ótima conselheira! — afirmou, acelerando ainda mais; a pista estava livre. — Eu precisava desse tempo, precisava repensar muitas coisas! — O trejeito robotizado começava a rachar, revelando traços de raiva.
— E o que fez? — Nem esperou que o rapaz concluísse o raciocínio e já elevou a voz, sobrepondo-se à fala do amigo. — Hein?
— Estudei—
— Ah, sim — disse de forma arrastada e debochada, baixando abruptamente a cabeça e encarando a rua à frente —, ignorou tudo sobre o sobrenatural para ir atrás de uma faculdade de jorna—
A essa altura da conversa, nenhum dos dois deixava o outro falar sem interrupções.
— Sim, Scarlet — retomou, agora quase gritando —, porque a porra desse dom não vai me fazer sobreviver! Você sabe o quanto dinheiro é importante? — questionou, enrijecendo as mãos ao redor do volante e franzindo a testa com força. Ignorando as interrupções da amiga, continuou: — Este ano era importante, meus familiares depositaram todas as fichas em—
— Cala a boca! — gritou, tomando para si o rumo da conversa. — Você entendeu exatamente o que quis dizer! — Encarou o perfil tenso de Edward e, apontando o dedo, prosseguiu: — Ignorar toda a nossa promessa, todo o seu dever, é pura covardia. Tudo bem planejar um futuro, mas lembre-se de que suas atitudes envolvem muitas outras pessoas. Deixe de ser egoísta!
Edward deixou a voz da garota dominar o ambiente. Contaminado pela raiva, sequer percebeu o sinal vermelho a tempo. Freou com força, o que assustou Scarlet, e já acionou a seta para a direita antes de retirar as mãos do volante.
Pela primeira vez, virou-se para encarar o rosto da amiga. Levou as mãos trêmulas até perto do próprio rosto e berrou:
— EU ESTUDEI TAMBÉM!! ESTUDEI SOBRE RITUAIS, TAMBÉM FUI ATRÁS DE APRENDER MAIS! CARALHO… EU TAMBÉM ESTAVA ME MOVIMENTANDO!! — exclamou desabafando em uma fúria quase chorosa.
— Tá vendo? Esse é o Edward que eu conheço… Essa sua máscara de alguém frio nunca vai colar comigo! — Sem recuar, aproximou ainda mais o rosto do de Ed, ao mesmo tempo em que cruzava os braços. — Sabe o que eu fiz enquanto isso? Sabe, né? MATEI MAIS DE DEZ PARASITAS, TENTEI CONVERSAR COM ESPÍRITOS, CONTINUEI PROCURANDO FORMAS DE TRADUZIR O LIVRO, DESCOBRI A INVESTIGAÇÃO DAQUELE MERDA DO COOPER… E TUDO PRA QUÊ?
A resposta ainda mais agressiva de Scarlet encerrou, por alguns instantes, o embate há tanto tempo adiado — restava apenas o som rítmico da seta acionada.
Edward reconhecia que a amiga acabara de dizer muitas verdades; sentia vergonha, contudo ainda precisava esclarecer melhor seu ponto de vista — afinal, cada um possuía o próprio lado da história.
— Eu sei… nunca quis desmerecer seus feitos, seus esforços. — Cansado de disputar uma conversa de gritos, Ed convidava um segundo round agora com mais calma. — Scarlet, essa viagem é minha resposta para tudo isso, se essa for sua cobrança.
— Anda, o sinal ficou verde — constatou, virando a face em direção a janela ao seu lado.
Irritado, também consigo mesmo, o jovem retomou o controle do automóvel e prosseguiu o caminho. Interpretou o estado mais calmo da amiga como uma brecha para prosseguir com seu ponto de vista.
— Matthew conseguiu uma semana de estadia para nós… nesse tempo vamos resolver o que identificarmos, eu prometo! E consequentemente vamos aprender mais, talvez até sobre esses casos estranhos que a polícia está tentando relacionar…
— Edward, me desculpe, mas essa viagem veio contra a sua própria vontade. Nada tira da minha cabeça que você só a aceitou porque foi colocado contra a parede, ainda bem que o Matthew fez isso… Sei que você não mudou de ideia de um dia para o outro, então, por favor… — desabafou a garota, apoiando o queixo na mão direita.
Scarlet apoiava o braço direito na porta ao seu lado. Com a outra mão, pressionou o botão para abaixar o vidro. Encarar os prédios do centro lhe trouxe o já conhecido sentimento de falta de pertencimento. Durante toda a conversa acalorada, conseguiu expressar o que sentia e no que acreditava; ainda assim, compreendia que fora insensível. No fim, projetara sua própria tristeza por se sentir incapaz de ajudar o amigo — talvez, se ainda estivesse viva, fosse diferente.
— Depois do que aconteceu com meu pai, nós continuamos estudando e ajudando alguns espíritos, mas… sabe… aquilo me fez repensar muita coisa — confessou Edward, quase em um murmúrio.
A fala do motorista despertou, de forma vívida, uma lembrança amarga em Scarlet: o dia em que ambos receberam uma notícia chocante pela televisão.
Ciente do erro que seria reacender a própria irritação, a passageira escolheu a cautela. De olhos fechados, disse, tentando soar o mais compreensiva possível:
— Edward… conseguimos salvar algumas almas, algumas vidas. O que aconteceu ali foi um caso, algo infeliz mas que partiu de outra pessoa… Evite carregar um peso desnecessário, sei que ofereceu o seu melhor, sei que fez tudo visando o melhor! — de forma mansa, proferiu sua verdade acerca do assunto.
— Claro que foi minha culpa! Minha interferência fez com que ela tomasse essa atitude… Depois disso eu simplesmente travei, parecia impossível seguir essa trilha — martirizou-se ainda em baixos sussurros.
— Outra vez sendo egoísta… Se te conforta, vamos evitar esse tipo de pedido. A negação te traria conforto? Sinto que podemos abordar de outras maneiras, negar será em vão… — enunciou reabrindo os olhos e suspirando.
— Ainda quero saber como lidar… — Ed afirmou ainda mais envergonhado.
— Continuar se fechando será um erro…
Suspirou e, a fim de aliviar a tensão esmagadora, Edward ligou o rádio. “The Man Who Sold the World” começava a tocar em volume médio.
— Chegaremos ao hotel em duas horas… Vamos nos preparar…
Julgou necessário aumentar ainda mais o volume; queria evitar qualquer nova conversa. No momento em que sua mão retornava ao painel para ajustar o som, Scarlet sussurrou:
— Sabe, queria te dizer algo… Tá tudo bem a conversa não acabar aqui?
Nota do autor
O que o destino lhes reserva?

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