Volume 3
Capítulo 31: Movimentando peças
Os dois cotovelos de Cooper, cobertos por um moletom marrom escuro, pressionaram com força o vidro áspero da mesa de seu escritório. Com as mãos entrelaçadas à frente de seu rosto, apático, exibia certa apreensão — aguardava algo. Seus olhos focaram apenas nos dois telefones celulares próximos de cada um de seus braços.
Além dos aparelhos, a larga mesa suportava objetos úteis para seu trabalho diário. Próximo à quina esquerda encontrava-se um singelo setup composto por um simples teclado preto, um pequeno e leve mouse esbranquiçado — baratos, comuns em pequenos escritórios — e um monitor preto de 19 polegadas. Já no extremo oposto, um abajur preto, compacto, mas potente, acompanhava um robusto bloco de notas junto à sua caneta metálica.
Sentado em sua poltrona, confortável como o esperado do estilo presidente, ironicamente afastava-se de todo o aconchego do cômodo.
Mesmo pequena, a sala, composta por paredes cinzas, cumpria perfeitamente seu papel. A alguns passos da porta, um pequeno sofá branco permitia o aconchego de no máximo duas visitas; próximo ao seu braço esquerdo, um alto abajur auxiliava na iluminação.
A parede entre o sofá e a mesa dispunha de uma larga janela acústica, bem ao centro. Uma grossa cortina cinza, recolhida, podia ser facilmente estendida por uma corda esbranquiçada ao lado da esquadria de PVC escuro.
A bancada possuía três grandes gavetas de madeira preenchendo seu pé direito. Logo abaixo do monitor, havia um espaço largo, da mesma madeira utilizada na composição do móvel — permitia a alocação do gabinete do computador.
Apesar de estampar um semblante apático, o pé esquerdo de Cooper levantava e descia freneticamente — por conta da meia, os repetitivos movimentos não emitiam ruído algum. A vista da janela, averiguada de canto de olho, confirmava a sobriedade de uma gélida noite de outono.
A tensão silenciosa foi rompida pela estridente vibração do celular à sua direita — um modelo antigo, utilizado para chamadas específicas de seu trabalho. Com a precisão de alguém que esteve à espera por um bom tempo, o homem sacou o aparelho, desdobrou-o e levou-o ao ouvido.
— Alguma novidade? — perguntou Cooper, em voz seca.
— Como você presumiu, ele veio até o cemitério. Ficou um tempo lá dentro e depois conversou com um amigo; parece que foi algo sério… Agora, ambos vão sair para algum outro lugar… — respondeu uma voz distorcida pela má qualidade do som, a de um adulto cansado.
A informação lançou o corpo do agente contra o confortável encosto da cadeira giratória. Com uma das mãos atrás do apoio de couro do móvel, respondeu de imediato:
— Poderia segui-los?
— Chefe… o caso está fechado e continuamos com essas vigilâncias há bons meses de forma irregular — murmurou em reclamação —, o garoto está completamente limpo. Será impossível tirar algo disso, é apenas em vão—
— E um custo de recurso indevido… É, sei bem… — disse levando os olhos até o teto branco.
— Reconheço sua integridade e o quanto acerta em suas intuições… — suspirou e em tom claro lamentou: — Desculpe pela situação.
— Tudo bem, obrigado por seu esforço.
A resposta acompanhou o fechar abrupto do aparelho; o estalo encerrou a chamada sem cerimônias, seguido pelo deslize do objeto de sua mão. O quicar no chão emitiu o som grave, digno de um modelo antigo e rústico.
Ainda com o olhar fixo no teto, admirou a inércia do ventilador metálico enquanto processava a nova informação em sua mente agitada. “Independentemente dos esforços, nenhum culpado foi encontrado… Independentemente dos diferentes casos bizarros, nada parece se encaixar…”, refletiu sem ao menos piscar.
Imerso em fragmentos de memória, novos pensamentos surgiam como um banho de água fria: “As poucas peças que julguei importantes não me trouxeram pista alguma… Qual a razão de casos tão confusos, principalmente nesta região do país?”, questionou-se, à espera de uma resposta repentina do universo.
Ciente das novas tarefas, baixou o rosto, ergueu o corpo e buscou o único telefone restante sobre a mesa. Muito mais moderno que o anterior, Cooper o desbloqueou apenas com o olhar e discou rapidamente para seu outro contato importante.
Respirou fundo — tentando dissipar a irritação recente — o tempo exato para que a chamada fosse atendida.
— Boa noite, Laura. Novas informações da central de Overhill? — Iniciou a conversa, esforçando-se para soar menos ríspido.
— Boa noite, senhor — Laura dizia em uma voz cansada no meio da confusão sonora da intensa movimentação da delegacia. Caminhando, à procura de um local mais calmo, progrediu com sua resposta: — Todas as informações do incidente do hotel foram coletadas… nada de muito útil. Ainda que a situação tenha sido adversa, acredito que o caso foge do padrão que estamos ainda tentando criar…
— Esperava notícias melhores — respondeu, levando a mão esquerda à barba para coçá-la.
— Cooper… sei que você engajou em toda essa teia de crimes mas até mesmo seus superiores estão descrentes de algum grande progresso.
— Foi o que te contaram ou é uma suposição sua?
— Digo, crimes acontecem diariamente e nem sempre conseguimos responsabilizar os devidos culpados, na realidade alguns inocentes acabam levando a culpa… Todos os cenários foram investigados, foram coletadas os relatos de todas as poucas vítimas sobreviventes e nada nos leva à algum culpado… Só parece a vida pregando uma peça… — em um ambiente silencioso, afirmou de forma serena e desanimada.
— Muitas pessoas morreram, gostaria de responsabilizar esses atos…
A fala contida do agente trouxera um silêncio desconfortável para toda a chamada, a realidade soava muito mais melancólica do que esperançosa.
Levou a mão esquerda até a testa, a pressionou e depois de duradouros segundos retomou o delicado assunto.
— O pai do garoto ainda está inconsciente, certo?
— Sim… o garoto já sofreu o suficiente. Deixe essa família em paz — suspirou Laura, o cansaço transpareceu em sua voz.
— Laura, para onde foi sua determinação? Você sabe bem o quanto a história do menino está cheia de furos.
A policial respirou fundo e procurou formular uma frase sincera.
— Ahn… sinceramente… Cooper você está distorcendo… Eu sou uma aliada da justiça, o problema é que talvez eu tenha compreendido o meu devido lugar…
— Na verdade você se acomodou em aceitá-lo….
Levantou-se da cadeira, que se tornara gradativamente desconfortável, e proferiu suas desejadas últimas palavras da chamada:
— Traçamos o mapa dos estranhos casos e constatamos uma média de 3 a 6 situações por cidade… Estarei partindo para Overhill, devo ficar lá por um tempo! — disse confiante, aumentando sua entonação.
— OVERHILL!! — O grito estridente de uma mulher atravessou a porta do escritório, ecoando pelo ambiente e interrompendo sua fala.
— E aparentemente não irei sozinho… — resmungou Cooper.
— Hm, você a levaria de qualquer forma... Certo, agente. Caso precise de ajuda, basta ligar… Mas, com todo o respeito: é inadmissível você falar por mim! — afirmou, trocando o timbre irônico por um tom cortante e firme.
— Então faça-me arrepender! — Cooper retrucou, sem hesitar.
A chamada fora desligada de imediato por Laura, uma resposta contra o desaforo antes sofrido.
Antes que Cooper pudesse esboçar qualquer reação ao fim da chamada, sua filha escancarou a porta com um solavanco violento — a madeira atingiu a parede com um baque estridente que ecoou por todo o escritório.
— Você sempre ansiosa por uma viagem… — Retrucou o gesto agitado da filha em um sorriso discreto, enquanto fitou sua imagem.
Elizabeth, a filha única de dezoito anos, ostentava um volumoso cabelo loiro que cobria toda a nuca, com vibrantes mechas azuis nas pontas e na franja. A escolha de customizar os fios partira da ideia de enaltecer seus olhos de um azul-escuro profundo, sua característica favorita. Apesar da baixa estatura — pouco mais de um metro e sessenta —, a garota parecia crescer diante de qualquer um, impulsionada por uma personalidade explosiva e enérgica.
— Que bela hora para chegar em casa, hein? Quase perdi essa oportunidade de viagem! — exclamou a garota, abrindo um largo sorriso enquanto fazia pose, com uma das mãos no queixo e a outra na cintura.
— Voltou tarde hoje… Parece que se acostumou com a cidade né? — indagou, colocando o celular outra vez sobre a mesa. Observando as vestimentas chamativas da filha, levantou outra pergunta em forma de deboche. — Saiu com as amigas ou algum namorado?
A garota vestia uma fina camisa de mangas longas azul-clara, um short-saia branco e botas simples da mesma cor. Claramente, Elizabeth priorizou a estética — desejava ter sido o destaque do evento ao qual compareceu — em vez de se proteger contra o frio. Independentemente do clima, para ela parecia ser sempre verão.
Ao ouvir as perguntas, retirou a mão do queixo e inclinou-se, deixando o ombro descansar contra a guarnição de madeira da porta. Entre breves risadas, devolveu o deboche:
— Um investigador tão renomado como o senhor e nem sabe para onde fui? Você já foi mais stalker pai… Estou decepcionada! — lamentou forçadamente, mexendo em negação a própria cabeça. — Mas vamos para o mais importante — levantou a voz, apontando o dedo até seu familiar — quando viajaremos?
— Liza — bocejou, sentando-se outra vez — estou indo a trabalho, não é férias!
— Para mim é! Terminei minhas obrigações… Sem ou com a sua presença eu já iria de qualquer forma pra cidade. Preciso ver se o inverno em Overhill é tão bom assim — orgulhosa, explicou cruzando os braços.
— Comporte-se lá — ele coçou levemente a cabeça; sempre fora difícil negar algo a Elizabeth. — E traga um café para mim, pode ser?
— Claro! Só me responde rapidinho: vamos que dia? Ficaremos no hotel assombrado, né? — As palavras vieram acompanhadas por um brilho intenso nos olhos.
— Provavelmente iremos amanhã, já esperei demais! Sobre o hotel, sinto muito, ficaremos em outro… Seria perda de tempo para a minha investigação, e toda a atenção da cidade está nesse local… Por isso—
As explicações, tediosas na visão da filha, fizeram-na jogar a cabeça para trás e iniciar um protótipo de grito arrastado — sons altos emitidos apenas para sobrepor a voz do pai.
— Ok, vou me hospedar nele mesmo assim! — Ignorando os argumentos, ela falou virando o corpo na intenção de se dirigir à cozinha.
— Liza, o hotel ficará interditado por dois dias! — Cooper projetou a voz, acompanhando o afastamento da filha.
— Tudo bem! Eu fico um pouco contigo e depois me hospedo lá, para desbravar e viver perigosamente! — Devolveu os gritos risonhos, explicando seu plano enquanto sumia pelo corredor.

No centro da cidade — quatro horas após o encontro entre Edward e Matthew —, Scarlet admirava solitária as luzes dos prédios do alto de um largo terraço, em meio aos maquinários do condomínio. Escorada no guarda-corpo de vidro, bisbilhotava a vida dos cidadãos: tanto daqueles que circulavam pelas ruas quanto dos que conseguia entrever pelas janelas dos edifícios vizinhos.
Entediada e exausta pelos esforços do dia, Scarlet aguardava ansiosamente por uma resposta de Edward, mas, acima de tudo, pelo retorno da amiga — com a qual convivia sem que a outra sequer suspeitasse de sua presença.
Durante o dia havia ficado imersa em novos estudos sobre o livro fotografado há tempos atrás e também acabou derrotando um irritante Parasita — os embates haviam se tornado um hobby perigoso mas produtivo.
Cansada da espera, de tempo em tempo aumentava sua presença espiritual a fim de sentir a ventania congelante da noite, cada vez mais próximo da madrugada. De certa maneira, o fantasma ansiava em participar de todo esse fluxo de movimentos — gostaria de sair outra vez com sua amiga, gostaria de ser vista.
O contexto melancólico e cinzento ganhou cor com o brilho do celular jogado ao chão, próximo aos pés de Scarlet — uma nova notificação.
De soslaio, viu que era uma mensagem de Edward. Animada para saber a reação do amigo aos seus parabéns e descobrir como fora o dia dele, a garota sentou-se e começou a usar o aparelho que extorquiu há um bom tempo atrás.
Preocupada, mas com um sorriso nos lábios, seus dedos ágeis desbloquearam a tela e abriram o chat. O longo texto de feliz aniversário que ela enviara recebera uma resposta sucinta: “Obrigado, você é importante para mim”. Mesmo simplórias, aquelas palavras foram como um abraço quente em Scarlet.
O conforto inesperado trouxe consigo uma surpresa ainda maior. Na mensagem seguinte, Edward dizia: “Vamos para Overhill amanhã… Acho que está na hora de colocarmos em prática tudo o que aprendemos…”
— Finalmente! — Scarlet gritou, desejando ser ouvida.
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