Volume 3
Capítulo 30: Vivendo um eterno inverno
O som de folhas arrastadas ao vento destacava a chegada de mais um outono. Algumas sambaram no ar delicadamente, como se anunciassem a sua chegada ao solo; já outras caminhavam pelo chão até se esbarrarem contra o granito desgastado de diversas lápides. Com o início do pôr do sol, o ambiente do cemitério se mostrava muito mais perturbador do que o convencional — a atmosfera combinava de forma horripilante com a estética gótica.
O mesmo vento gélido balançava os galhos — gradativamente desprovidos de suas folhas já amareladas — da grande árvore situada alguns metros atrás do túmulo de Joe.
A friagem também movia abruptamente o cabelo, agora mais longo, de Edward.
Já ciente da previsão do tempo, o rapaz decidiu visitar o túmulo de sua falecida mãe utilizando um sobretudo esbranquiçado sobre uma camiseta longa, fina e preta. Ainda de pé, caminhou pela lateral da lápide — seu tênis amassou brutalmente as folhas pelo caminho — até se encontrar próximo ao vaso de flores, cuidadosamente posicionado à esquerda do nome gravado de Joe.
Em completo silêncio, esticou o braço, retirou o arranjo de flores murchas e as substituiu por um novo: um conjunto de trinta amores-perfeitos, com uma metade de cor roxa e a outra mais esbranquiçada.
Depois de posicioná-las cuidadosamente, o jovem virou-se para ficar de frente ao túmulo. Ainda sem proclamar qualquer fala — enquanto apenas o barulho do ambiente gritava — Edward lentamente se acomodou para sentar.
Com as pernas cruzadas, sentou-se sobre a grama pálida repleta de folhas quebradiças. O jeans de sua calça escura as pressionava, destruindo-as ainda mais; havia um lembrete de morte em, literalmente, cada direção.
— Oi, mãe. Como tem passado? — questionou em voz serena, encarando a fria confirmação da morte de sua progenitora.
Ciente da impossibilidade de ver outra vez a figura de Joe, Ed deixava de criar qualquer nova expectativa sobrenatural — estava ali apenas para torcer que suas palavras alcançassem de forma direta o outro lado.
— Já faz um ano e três semanas desde do acidente com meu pai… Ainda sem previsões para ele sair do coma… tenho certeza que você já sabe disso… — sussurrou mantendo o mesmo tom. Após um breve suspiro retornou o monólogo em um timbre mais alto. — Sinto pena da Lilly, que ainda acredita fielmente que ele irá acordar em algum momento.
Segurou o punho fechado com a mão esquerda, na tentativa de controlar os nervos. Embora suas palavras fossem ditas com certa calma, ainda existia tensão em seus movimentos.
— Proibi Scarlet de possuí-lo, tenho receio de acontecer alguma coisa com ela… No fundo, mãe, gostaria de acreditar que ele está próximo de ti… Eu poderia comentar algo para minha tia mas, como fazer isso? É melhor deixar que ela aceite naturalmente?
As perguntas jogadas ao ar acompanharam uma respiração profunda do rapaz. Gostaria de silenciar os corações agitados de seus familiares, o problema é que havia certeza que poderia render ainda mais sofrimento para os mesmos — explicar o sobrenatural, o seu dom, nunca fora captado de maneira pacífica.
Apoiou as duas mãos no chão e levou os olhos até o horizonte, à procura do sol que lentamente dizia um "até logo". Observar os efêmeros raios e o gradativo escurecer do céu lhe trouxe um misto de alívio e profunda solidão. Mordeu os próprios lábios e, de forma contínua, mexia a cabeça em leves movimentos de confirmação — reflexo de sua agitação quanto ao retomar da conversa.
— É muito estranho o dia de hoje sem vocês por aqui… Sabe, mãe, nunca vou esquecer quando fiz meus quatorze anos. — Iniciou o relato, cerrando os olhos e encerrando os movimentos repetitivos. — Nossa casa recebeu muitas visitas; foi a primeira vez que tudo ocorreu de forma harmônica. Mesmo com tantos problemas, parecia que estava tudo tão bem em nossa família. Talvez seja por isso que até a comida mais simples estava tão deliciosa… Nunca esquecerei do bolo que você fez, se tornou o meu favorito… e muito menos da promessa do meu tio, de me ensinar a dirigir…
A lembrança trouxe uma risada de canto junto com um gosto doce do recheio de morango da antiga sobremesa experimentada. Por um instante, reviveu uma memória distante — conseguia até mesmo ouvir as múltiplas conversas paralelas daquele dia.
O conforto se esvaiu em mais uma forte ventania. O ar áspero batia em seu rosto levando consigo o frágil sorriso. De olhos abertos outra vez, suspirou desanimado:
— Agora com os meus dezoito, só quero que o dia de hoje acabe logo.
Estava longe de chorar, suas lágrimas secaram nos últimos meses entre seus desabafos solitários. Contudo, conseguia sentir um aperto no coração — uma saudade imensa de ouvir a voz de seus pais, a saudade de um outono vivo.
Virou o tronco de seu corpo até a posição inicial, posicionou as mãos ao lado da cintura e de forma meticulosa ergueu seu queixo.
Fitou os galhos secos e, em uma voz sóbria, continuou com o desabafo:
— Ano passado jurei que conseguiria verbalizar tudo isso, mas foi impossível… Mãe, eu falhei no que você me pediu, essa é a verdade. Condenei meu pai de certo modo!
A fala poderosa fluiu de forma natural; de fato, ele estava ciente do quão necessário era dar vida e voz a todos os seus anseios. Apesar dessa fluidez, no fundo Edward ainda era assombrado por uma densa energia de dúvida — os galhos cercavam seu coração. Nunca tivera problemas em fazer promessas, mas sim em cumpri-las.
Os olhos frios, com pouco brilho, encararam outra vez o nome do seu ente querido gravado na mórbida pedra.
Sem mais delongas, ergueu o corpo. Novamente de pé, observando a sepultura de cima para baixo, disse as últimas palavras de sua visita:
— Já finalizei todas as provas, mãe. De antemão, me desculpe por talvez não seguir a carreira que você tanto projetou para mim… — clamou, desapontado consigo mesmo.
O pedido cutucou uma ferida que ainda estava em processo de cicatrização: o receio do futuro. Em uma tempestade de adrenalina, sentiu as palavras dispararem em novas preces:
— Me desculpe pelos meus escapes… me desculpe pelo meu desgaste… me desculpe pelos meus lamentos — afirmou, rompendo a completa seriedade e desviando o olhar apressadamente.
Sem se esbarrar com o nome gravado de Joe, respirou fundo outra vez — precisava manter a compostura. Relaxou os ombros, guardou as mãos nos bolsos do sobretudo, virou-se na direção oposta ao túmulo e concluiu a conversa:
— Ainda que você desconverse, sinto que fui amaldiçoado. Descartar minha vida não resolveria nenhum dos meus problemas e, ainda assim, imagino que continuaria preso aqui… Já disse isso tantas vezes e espero nunca mais repetir: fique de olho em mim… Eu vou virar o jogo!
Após sua conclusão, encarou seus próprios pés e iniciou seu caminho até a saída do estabelecimento. Arrastou-se, riscando a trilha de pedras e esmagando novas folhas, em completo silêncio.
Em cerca de cinco minutos já se encontrou na entrada chamativa de Nova Initium. Ainda que mórbido, por conta de suas frequentes visitas, criara uma certa admiração pela arquitetura da necrópole. Presenciar o grande arco da entrada trazia sempre uma sensação mística sobre o ambiente. Todas as vezes, ele se indagava como fora o processo criativo dos arquitetos: “O que quiseram imortalizar aqui? Esperança, paz ou tristeza?”
Independente do quanto refletia, nenhuma resposta lhe satisfazia.
Despertado de seus pensamentos corriqueiros, fitou a figura de Matthew, que o aguardava do outro lado da rua — próximo a um banco de madeira de verniz amarronzado, robustecido por um suporte de ferro. O amigo esperava pelo retorno de Edward, escorado na distração provida por seu celular.
Matthew demonstrava pouco interesse pelo tempo ameno. Para se proteger, achou válido utilizar um grosso casaco jeans. Em vez de uma calça longa, optou por um short também jeans e um de seus tênis favoritos.
Sem novas distrações, Ed apressou o passo e logo atravessou a rua.
— Demorei muito? — perguntou Edward, já se sentando no banco.
— EI! — soltou um grito e saltou para trás escondendo o celular.
— Aprendeu a ver fantasmas agora? — debochou o amigo relaxando suas costas no apoio do banco.
— Porra, você me assustou! — respondeu entre risadas.
— O que está escondendo aí? Conhecendo você, imagino que está planejando com alguém para ir à nossa formatura… — replicou Ed, levando seu olhar à direita e soltando um suspiro alegre.
— Nossa? Decidiu ir? — Matthew indagou, surpreso.
— Ah, não… foi mais forma de falar…
Edward dizia de forma arrastada; sentia preguiça só de imaginar toda a cerimônia. Tinha certeza de que seria uma noite especial para todos aqueles que participassem, mas a questão era que o rapaz havia descartado sua presença. Quando perguntado, meses atrás, afirmou que sua decisão girou em torno de economizar; na realidade, preferiu evitar o vazio de subir em um palco sem a presença de seus pais na plateia.
Todavia, sofria certo peso por se ausentar em um momento tão importante para seus amigos. Então, logo reiterou:
— Fique tranquilo, vou sair para comemorar com você e a Ana! — em maior energia, alertou o amigo.
Matth gostaria, do fundo de seu coração, que seu amigo estivesse bem. Conviveu com ele desde a infância, logo, sempre era simples reconhecer quando o rapaz buscava se esconder. Enxergar Edward tão diferente do habitual, de anos atrás, sempre fazia seu estômago embrulhar — gostaria de ter feito mais, de resolver todas as suas angústias.
De cara fechada, Matthew caminhou até o delicado poste de luz logo ao lado esquerdo do banco. Escorou-se no metal frio da fonte de luz, cruzou os braços e iniciou — em um atípico tom sério — o diálogo que estivera à procura desde o início deste dia.
— Ed, tá tudo bem… sei que vamos aproveitar mais momentos juntos. Eu quis passar o dia de hoje contigo, pelo menos a noite — disse, olhando para o céu à sua esquerda, cada vez menos alaranjado —, pois, você sabe… me preocupo com você… — Concluiu, ainda escondendo os olhos já próximos de lacrimejar.
— Muito obrigado Matth, sem você seria tudo bem mais difícil… Obrigado por ter aceitado passar aqui antes de irmos para sua casa. — Aceitou as gentilezas avistando a entrada do cemitério.
— Tá tudo bem, é o mínimo… Sabe, Ed, estamos próximos da fase adulta. As provas terminaram, os exames de admissão começaram mês passado… Como você está se sentindo com isso? — Formulou a pergunta já mais calmo, ciente de suas próximas palavras..
— Ahn… menor ideia.
Ao fim da resposta, pela primeira vez no dia, Edward estampou um sorriso menos frágil. Encontrou graça na forma nada cautelosa com que o amigo tentou embarcar no assunto e, principalmente, pelo fato de não ter ideia do que seria sua vida nos próximos dias — talvez uma forma de se defender de seus próprios medos.
— Edward, ainda continua estudando muito sobre o outro lado, né? — Sem retribuir a risada, o amigo se questionou.
— Sim… eu sei que você entende… mesmo assim, me desculpe por ter ficado tão afastado de ti.
— Tá tudo certo, conseguiram decifrar por inteiro o livro?
O sol já se escondia por completo; a escuridão do começo da noite acendia os poucos postes dentro do cemitério e outros da rua. Entretanto, o poste mais próximo dos dois ainda insistia em ficar desligado.
A penumbra escondia parcialmente o rosto de Matthew, que agora descruzou os braços.
— Estamos longe ainda… Seria muito mais fácil se ele estivesse todo escrito em latim, Scarlet está focada em estudar a língua desconhecida.
— Isso está te travando?
— Desculpe Matth, não estou entendendo onde quer chegar! — exclamou Ed, em uma voz irritada, enquanto encarava o perfil do amigo.
As últimas palavras do amigo fizeram com que Matthew voltasse a se mover. De forma veloz, sentou-se ao lado de Edward ao mesmo tempo que colocava a mão direita sobre os cabelos dele.
— Apesar das incertezas sobre nossos próximos passos, tenho certeza de que continuará investido em todo esse mundo. Ou melhor dizendo: é inadmissível você parar com isso! É impossível mensurar o tamanho da sua dor, mas estou aqui, Ed, para reiterar que pode contar comigo para tudo! — esclareceu em um timbre firme.
— Eu sei disso, ent—
— Me escuta! — ordenou, saltando do banco.
Frente a frente com Edward, estampou um rosto confiante — seu olhar exalava uma chama ardente.
— Sei que está mal, preocupando-se com qual área seguirá, só que achei uma oportunidade excelente para você dar um salto em toda a sua jornada. Ficou todo este tempo testando e estudando que acabou deixando de ajudar muitos espíritos, certo?
— Precisei evitar riscos até melhorar certos pontos… — respondeu, franzindo a testa enquanto encarava o olhar afiado de Matthew.
— Mentira, você sabe bem! O seu caso foi arquivado, ninguém mais está te atormentando. Preciso de uma ajuda sua, na verdade preciso que você volte a ter confiança.
— Quem lhe disse que estou desistindo?
— Ninguém, sei que seguirá, contudo preciso lhe dar um empurrão. Seguinte, apenas me escute: meu tio Giovanni está enfrentando problemas atípicos em seu hotel. — Iniciou a explicação, retirando o celular e mostrando uma notícia. — Ele é dono de um dos maiores hotéis de Overhill. Há dois dias, ocorreu um caso que vem ganhando certo destaque, e ele teme que isso atrapalhe as férias de inverno.
Edward lia de forma rápida a chamada da notícia: “Casal relata problemas graves de estrutura, falta de privacidade e tentativa de agressão em famoso hotel de Overhill”
— O casal ouviu barulhos estranhos de respiração no quarto e batidas repentinas e fortes nas portas. Em uma das noites, a recepção foi procurada às pressas; quando chegaram ao quarto, a televisão havia estourado próxima à esposa, deixando marcas. Todas as câmeras foram checadas e nenhuma pessoa foi captada. Meu tio utilizou sua equipe de imprensa para informar que o hotel passaria por ríspidas checagens de segurança e que tudo não passou de um mal-entendido. Uma resposta vaga, né?
— Por que ignorar a oportunidade de lucrar em cima de uma lenda urbana? Isso traz mais visibilidade, é melhor para os negócios não?
— Até seria, o problema é que o contexto atual é bastante impróprio, afinal muitos assassinatos estranhos ganharam repercussão na mídia. Meu tio é medroso e se preocupa muito mais com negócios do que com ele mesmo.
— Então ele acredita que algo espiritual aconteceu, só que possui receio de chamar um padre?
— Bingo! — Guardou o celular e dirigiu-se ao lado direito de Edward, que ainda estava sentado. De pé, prosseguiu destrinchando o plano: — Disse a ele que você é sensitivo e que poderia esclarecer melhor a situação. E sério, quando o assunto é o paranormal, meu tio acredita em literalmente tudo.
— Então Giovanni vai me pagar para “exorcizar” o que tiver lá?
— Sim, o melhor é que com isso tu consegue sair um pouco desta nossa cidade e testar seus novos conhecimentos… Bem sei que isso será insuficiente para adormecer seus fardos, porém ainda vejo que pode ser um empurrão necessário.
A proposta inesperada deixara Edward sem reação, de fato soava como uma boa ideia.
De forma delicada, Matthew posicionou a mão esquerda no ombro direito do amigo.
— Vamos, mostre mais do seu potencial. Tenho certeza de que será diferente da última vez!
— Obrigado… irmão! — Edward agradeceu de forma enérgica, fixando o olhar atentamente no território carregado de lápides.
A resposta coincidiu com o repentino acender do poste próximo ao banco.

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