Volume 3
Capítulo 29: Burocracia e próximos passos
Do outro lado da porta — no corredor largo e agitado pelo fluxo de médicos, enfermeiros e macas — Helena aguardava a saída do oficial. De braços cruzados, ela apoiava as costas contra a parede esbranquiçada, decorada por duas finas linhas verdes que cortavam o centro do revestimento.
Enquanto a conversa dura entre Cooper e Edward se desenrolava, o som oscilante dos monitores no leito do rapaz ecoava nos ouvidos de Helena. Cada variação nos alertas servia para enrijecer ainda mais seus músculos. Era um esforço físico para conter a mistura de raiva e angústia que a sufocava.
Ela sabia que só teria autoridade para expulsar o policial se os sinais vitais do rapaz oscilassem perigosamente. Era uma ironia cruel que detestava: para proteger o jovem paciente daquele interrogatório invasivo, ela precisava que o corpo dele falhasse. No fundo, Helena vigiava o painel da central de enfermagem esperando por qualquer brecha, qualquer alerta sonoro que a permitisse interromper aquela cena.
Os oito minutos de conversa entre Edward e o agente pareceram oito horas para a enfermeira estressada.
Ao notar que Cooper finalmente saíra, Helena esperou a porta se fechar completamente. Desencostou-se da parede e, mantendo os braços cruzados, iniciou sua fala ríspida.
— Terminou de atrapalhar nosso trabalho? — reclamou, mordendo o canto do lábio e apertando os próprios cotovelos com as mãos.
O agente sem recuar, fitou os olhos afiados de Helena e em uma voz monótona rebateu.
— Já disse que este também é o meu trabalho… Você confirmou a estabilidade do rapaz e que ele não possuía qualquer problema cardíaco. Tudo que fiz foi feito de forma consentida e respeitosa.
Após a fala, o homem deu as costas iniciando sua caminhada rumo à saída da ala de internação e deixando a enfermeira irritada para trás.
De fato, havia verdade no contra-argumento dele, mas também uma hipocrisia gritante: o bem-estar de Edward nunca esteve em primeiro plano para o policial.
— Poderia ao menos ter esperado a alta dele ou até mesmo o reencontro com o pai? — questionou em uma voz mais potente, ignorando o gesto rude do homem.
— Deixe de se preocupar… Já consegui o que queria aqui, agora tudo que envolverá o rapaz estará fora da burocracia deste estabelecimento… Eu desgosto de muitas das minhas atitudes, senhorita Helena — respondeu, ainda de forma arrastada.
A figura alta, com vestimentas que destoavam completamente do ambiente hospitalar, afastava-se da visão da enfermeira. Cooper, em sua caminhada firme, enfiou a mão esquerda no bolso do sobretudo enquanto erguia a outra, com a palma aberta, em um adeus ríspido e sem olhar para trás.
Verificar a postura confiante do investigador — desde sua fala calma até seus passos — apenas irritava cada vez mais Helena. Gostaria de ter dito mais, ter feito mais, todavia encontrou certa semelhança nas últimas palavras de Cooper.
Em diversos outros momentos tivera que falar e fazer coisas contra sua vontade, e, de certo modo, encarar tal realidade a irritava ainda mais. Em um retrospecto de todos seus anos na área, indagou se poderia ter feito diferente e a resposta amarga batia de forma instantânea: com certeza perderia seu emprego ou ao menos seria penalizada.
Um padrão de regras a ser seguido. Conclui que estaria sendo hipócrita em continuar mastigando rancor pelo agente.
Um minuto depois, Cooper atravessou a porta verde-clara automática que separava a internação da recepção do andar. A deixa fez Helena recuperar sua postura desarmada; o que lhe restava era ser ainda mais presente na vida de cada paciente sob sua monitoração. Com os braços soltos, levou as mãos delicadamente ao rosto, fechou os olhos e sussurrou:
— Eu odeio burocracias.

Cooper respondeu ao 'boa tarde' dos funcionários na recepção e logo chamou o elevador à sua frente. Durante o curto trajeto, em nenhum momento se atentou a qualquer distração; os detalhes do ambiente e das pessoas fugiram de seu interesse. Precisava sair dali o mais rápido possível.
Para a sorte de sua mente inquieta, obcecada pelo caso que investigava, o elevador já se encontrava no andar.
Embarcou no elevador — um espaço amplo, projetado para comportar ao menos uma maca e dois acompanhantes. Havia um painel moderno de tela fina acoplado à parede direita, que exibia notícias e comerciais.
Cooper, sem motivos para observar os detalhes da chamativa tela, logo levou o dedo aos comandos. Pressionou o botão do subsolo e, enquanto as portas pesadas se fechavam, retirou o celular do bolso outra vez.
Se encontrava no terceiro andar, seria rápida sua chegada até a garagem, mesmo assim precisava soltar para fora seus pensamentos. Sem muitas cerimônias, acolhido de que estava sozinho no transporte, discou o número de sua nova assistente favorita: Laura.
A espera do atendimento da chamada, o policial iniciou batidas repetitivas, de seu pé esquerdo, no piso de borracha do elevador. Durante o aguardo, focou no indicador de andar sendo alterado.
Depois de dois toques uma voz conhecida recebeu a ligação.
— Boa tarde senhor, o que posso te ajudar? — Laura iniciou a conversa estampando uma voz serena, escondendo vibrações de ansiedade.
A pergunta cessou as batidas agitadas do sapato social de Cooper e logo despertou sua fala empolgada, diferente de anteriormente:
— Estou saindo por agora do hospital, consegui conversar com o garoto e foi bastante produtivo! — disse, contendo um discreto sorriso.
— Ahn espera… produtivo como? — perguntou em uma fala embaralhada. De forma instantânea reparou na alteração de sua postura, envergonhada buscou se justificar: — Desculpe senhor, é que desde ontem você vem desconversando sobre suas suspeitas, claro que todos os setores estão oferecendo todos os esforços mas… estamos confusos — relatou tentando robotizar outra vez suas palavras.
— Desculpa é irritante mesmo… sei bem como deixo meus funcionários perdidos — discorreu, soltando a risada antes contida.
O início da conversa fora suficiente para o meio de transporte alcançar o estacionamento localizado no subsolo do prédio.
O local assemelhava-se a um estacionamento comum: piso e teto de concreto cinza-escuro, pilares com faixas de sinalização e setas pintadas no chão. A maior diferença era o caráter exclusivo do setor, com capacidade para sessenta e nove veículos. Oito dessas vagas eram exclusivas: quatro para ambulâncias e quatro para oficiais de polícia.
Ao sair do elevador, Cooper encontrou uma rampa larga que levava ao pátio. À esquerda, em um quadrante destacado, ficavam as posições das ambulâncias — das quais apenas uma ocupava o posto no momento. À direita, estendia-se a área reservada às viaturas. Todo o restante do estacionamento organizava-se em fileiras a bons metros de distância da entrada.
Sem nenhuma movimentação pelo ambiente, Cooper seguiu segurando o celular contra o ouvido direito e retornou com os movimentos de suas pernas, agora mais velozes.
Ainda bem humorado, seguiu a chamada.
— Você é atenciosa, dedicada e metódica… — enunciou, alterando de pouco em pouco o tom risonho para um sério — Isso te faz uma excelente funcionária! Confesso que fico feliz em ter sua companhia para essa operação. Nós combinamos, preciso da sua sobriedade…
— Tsc — escapava da boca de Laura um suspiro debochado e alegre — Ah… só me diz tudo que descobriu… — tímida, replicou.
Laura compreendia perfeitamente que a frase do agente carecia de um duplo sentido — mesmo que existisse, isso pouco lhe importava — sua timidez provinha do elogio a seu trabalho. Afinal, uma das maiores referências do país acabara de enaltecer todo seu esforço, que por muitas vezes passava despercebido pelos seus chefes.
— Eu realmente estava pensando na possibilidade de Edward ter assassinado seu pai. Porém a falta de informações, inclusive preciso saber como está progredindo a perícia, e a postura do menino me fez repensar.
A verdadeira conversa se iniciava no mesmo tempo em que Cooper abria a porta de seu carro preto: um automóvel de modelo comum, de médio custo, com alterações tanto na carapaça quanto nos vidros para se tornarem à prova de balas. O agente poderia utilizar o veículo a bel prazer até o fim de sua estadia pela cidade.
Já acomodado no macio banco de couro, decidiu esclarecer melhor seus pensamentos.
— Acreditar na inocência dele não significa que iremos parar de investigá-lo. Depois dele receber alta, preciso que você converse com ele e talvez será necessário alguém para monitorá-lo por um tempo.
— O depoimento dele foi insuficiente? — perguntou Helena, já recomposta.
De fundo, ecoava o som de caneta deslizando pelo papel — astuta, a mulher estava pronta para agregar suas anotações.
— Em partes… A história contada por ele apresenta diversas inconsistências, nitidamente estava escondendo algo — suspirou, escorando a cabeça no encosto do banco. — Nada justificou a janela da sala destruída e as marcas grossas pelas paredes e cerca.
— Edward comentou sobre o invasor?
— Ele não tentou comprar a narrativa de que um animal havia atacado sua residência. Me descreveu um ser humano alto, forte, equipado por lâminas finas o suficiente para machucar seu pai… Essa descrição condiz com pouca parte de todos os fatos. Nenhum exame apontou qualquer distúrbio enfrentado pelo garoto… claro que a perícia vai pedir para refazer tudo…
— Compreendo… Tudo que você precisar iremos oferecer, já que lhe chamou tanta sua atenção por este caso. A perícia hoje mesmo deve ser capaz de identificar mais pontos chaves.
— O que me faz tomar a decisão de te ligar… — disse de forma imediata, ignorando em partes a fala de sua companheira.
O agente respirou fundo, cerrou os olhos e deu voz a uma pergunta vital:
— Laura, você mapeou os incidentes que lhe passei?
— Sim senhor! Estou com toda a papelada aqui… O acidente da igreja queimada, a morte de três indivíduos sem resquício nenhum de digital e a pilha de corpos encontrada na floresta… Todos os casos em localizações diferentes, em datas diferentes e sem muitas informações… — destrinchou, em uma fala ainda mais serena, agora sem emitir barulhos de anotações sendo feitas.
— Conseguiu encontrar algum padrão? — respondeu, sorrindo, com uma nova questão.
— Bom acho melhor conversarmos sobre isso pessoalmente…
— Você sabe que essa ligação é segura, certo?
— Sim senhor, e você também sabe que é a nossa política! — Devolveu a ânsia do superior oferecendo uma debochada, ainda que contida, risada. — Mas vou te antecipar algo: os acontecimentos parecem formar uma espécie de trilha. Agora venha para a delegacia, todos estão esperando uma luz nessa confusão.
— Pode deixar…
Cooper encerrou a chamada estampando um sorriso ainda maior, um mistério grandioso finalmente caia outra vez em seu colo.
O silêncio contemplativo, se esvaiu em uma nova notificação do celular do empolgado investigador: sua filha o ligava.
No aguardo de uma nova e inesperada dor de cabeça, guardou sua empolgação e atendeu o chamado.
— Oi Elizabeth, está precisando de algo? Ainda estou de plantão…
— Pai… estou entediada dessa cidade — resmungou Elizabeth em uma voz tediosa, ainda que doce.
— Se passaram apenas dois dias!! E agora aguente, você quis se mudar comigo. Eu sei que ela é muito menor do que você está acostumada, mas preciso ficar por aqui até finalizar essa investigação.
— Claro que não! — retrucou, estampando uma voz enérgica, raivosa. — Você já estava de olho em diversos casos muito antes de vir para cá.
— Filha… Illuco é muito bem localizada…
— Você sempre quis morar aqui, né… Pode entregar minha guarda pra minha mãe? — debochou a garota, mantendo a energia caótica.
— Elizabeth! — chamou pela filha aumentando o tom de voz, tirando as costas do apoio.
Pela primeira vez Cooper exibia um descontrole de raiva.
— Era uma piada pai… ok… me desculpe… Traga um doce bom para mim quando voltar… — comentou em um timbre de voz mais trêmulo e desligou a chamada.
— Ei, não… desliga…
Cooper suspirou e levou as duas mãos para o topo de sua cabeça.
— Merda… — sussurrou irritado.

Scarlet apoiada no vidro da janela do quarto, onde seu amigo estava instalado, sentiu-se seduzida pela luz da lua cheia. Estava nesta posição há mais de uma hora, depois de um dia turbulento — de constante preocupação com seu amigo — observar a superfície distante e brilhante a fez se perder em suas reflexões. Uma calma atípica, melancólica, a abraçava.
— Tão longe… — cochichou por impulso.
— Scarlet… Ainda está aqui?
A voz sonolenta de Edward assustou o espírito, que virou abruptamente em direção à cama e ergueu os ombros junto com as mãos.
Seu amigo movia delicadamente os lençois na busca de se erguer parcialmente.
— Ed você tinha que estar dormindo!! Agora são — iniciou a fala levando o olhar até o relógio preso na parede à frente da cama — 3 horas da manhã! — alertou ofegante, controlando sua força para apenas o amigo a escutá-la.
— Para ser sincero… dormi muito pouco desde que tomei o calmante… sei lá parecia que apenas cochilava de minutos em minutos… — explicou levando de forma suave a mão até a boca escondendo um bocejo.
Menos assustada, relaxou a postura reativa. Scarlet dirigiu a palavra até Ed de forma acolhedora.
— Muita coisa para digerir, né?
— É… não será fácil… — constatou estampando uma voz fraca, quase um sussurro.
Lentamente Edward virou o rosto em direção a amiga e logo também se hipnotizou pela luz que atravessava a janela.
— A lua parece estar linda, né? — Buscou uma confirmação da amiga se esforçando em dissipar ainda mais seu sono.
— Sim, ela está… Fiquei um bom tempo a observando — evidenciou Scarlet, virando o rosto até a janela e colocando outra vez a mão sobre o vidro.
O diálogo era entrecortado por pequenas lacunas de silêncio. Da parte de Edward, além do sono, parecia difícil virar a página dos acontecimentos recentes. Já Scarlet se via pisando em ovos; ainda não descobrira as palavras ou os métodos ideais para ajudar o amigo.
— Deve ter sido chato pra ti ficar aqui o dia todo… Ao menos parece que existem alguns espíritos aqui… Não deve ter ficado tão entediada…
— Na verdade foi bom, precisava refletir um pouco. E sim, vi alguns… acharam que eu era sua irmã por estar aqui te acompanhando. — Soltava uma risada em formato de sopro.
O estalar do ponteiro, combinado com o barulho do ar condicionado, evidenciava o silêncio desconfortável.
Edward, agora mais desperto, enxergou a necessidade de verbalizar um pouco mais sobre tudo o que passara. Porém, seu corpo, trêmulo pelos receios que ressurgiam em sua mente, hesitava em mexer os lábios.
Tudo ainda mostrava-se muito novo e muito catastrófico. Ainda repleto de fraquezas, tristonho, engoliu o seco e deu vida a uma espécie de prece.
— Scarlet, ficaremos mais fortes! Eu ainda… ainda quero… eu preciso… ou melhor dizendo… vou honrar minha mãe…
— Independente de seu dom, você ainda é humano… — respondeu de forma séria encarando profundamente o brilho da lua. — Tá tudo bem falharmos, há muito para ser descoberto.
— Eu tenho pouco, mas ainda quero te ajudar… criamos um propósito maior…
— Maior o suficiente para eu devorar outras almas para me tornar mais forte?
— Talvez… Acredito que nossos próximos passos precisam girar em torno do livro que descobrimos.
— Se tivermos sorte ele foi escrito em latim, se for uma linguagem desconhecida estaremos com problemas…
— Tá tudo bem, vamos encontrar um jeito…
— E a investigação? O que faremos sobre?
— Sei que você procurará descobrir detalhes sobre os envolvidos nela, e isso é ótimo. Mas não me importa tanto assim… preciso me reencontrar outra vez…
— Eu acho que nunca me encontrei…
— Eu sei… por isso que estamos juntos nessa…
A troca de falas secas e efêmeras evidenciou o início de um inevitável percurso: a aceitação do presente e a busca por meios realistas de seguirem rumo ao futuro.
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