Volume 3
Capítulo 28: Início da investigação
A prece melancólica de Edward preencheu o quarto hospitalar com um silêncio ensurdecedor entre os jovens. Prevaleceu, assim, apenas o som gradativamente menos intenso dos alarmes do monitor de sinais — que exibia tanto a oxigenação quanto os batimentos — e do potente ar-condicionado cassete logo acima do pé da cama.
Ainda com os olhos fixos em suas próprias pernas cobertas, o garoto remoía quietamente o que seria de seu futuro. Estranhamente, mesmo imerso em uma profunda melancolia, nenhuma lágrima ameaçava escorrer — estivera esgotado demais para isto.
Sentindo seu peito apertado, como se carregasse uma culpa mais pesada que seu próprio corpo, Ed observou sua mente borbulhar em possibilidades: “Como será quando encontrar meu pai? Quando poderei sair daqui?” Aéreo, sua visão tornava-se embasada.
Memórias antigas trouxeram amargor na boca do rapaz, o tipo de estabelecimento sempre lhe trouxe grandes traumas — a este ponto até mesmo acreditava ter sido um fardo seu nascimento.
O sabor do passado se intercalava com o misterioso gosto da dúvida: “A polícia quer falar comigo… faz sentido, pela anormalidade do acidente, mas eles suspeitam de algo? Alguém de lá também consegue ver espíritos como eu?”.
Cada reflexão iniciava um latejo fino e agudo na cabeça de Edward, o acúmulo de informações desafiava sua própria sanidade. No fim, escapava qualquer suposição ou qualquer espécie de plano de seus próximos passos.
Scarlet observava cada minucioso gesto do amigo. De forma fácil compreendia a luta feroz que o mesmo travava contra seus próprios demônios. Os lábios da garota se mexeram minuciosamente, todavia acreditou ser incapaz de agregar com alguma fala. O melhor que poderia fazer era continuar próxima do fragilizado companheiro — ao menos se escorou na ideia a fim de mascarar sua inércia.
O som abrupto da larga porta de entrada do recinto, interrompia os pensamentos nebulosos do paciente. O estrondo ergueu a cabeça do garoto, que logo direcionou seus olhos para a direção do som.
Uma enfermeira adentrava no ambiente de forma apressada. Ainda que acelerada, a mulher mantinha um sorriso seguro — típico de uma profissional confiante e segura. Ela encarou o rosto confuso do menino e disse em uma voz levemente ofegante, com requintes de doçura:
— Boa tarde Edward, me chamo Helena. Como você está se sentindo?
A voz alegre de Helena trouxera uma fagulha de conforto para o desnorteado paciente, assim como para Scarlet.
Helena tinha baixa estatura, mesmo aos 27 anos. Usava óculos de grau de armação fina e retangular. O cabelo preto, enfeitado por luzes loiras, era preso em um coque firme. Vestia o uniforme da casa de saúde: um simples scrub verde-claro e um sapatênis branco.
— Ahn… talvez um pouco confuso… — respondeu Edward encarando a feição gentil da enfermeira.
— Certo… — Helena levou o dedo à armação do óculos, a fim de ajustá-lo, e se aproximou do leito hospitalar. — Primeiro quer que eu ajeite algo da cama? Posso subir ela, para você ficar mais sentado.
— Tá tudo bem, eu posso me sentar mesmo assim.
— Certeza?
— Sim — afirmou Edward apoiando as duas mãos sobre o lençol e erguendo o próprio corpo.
Sentado, ainda com as pernas esticadas, o rapaz aguardou as instruções da visitante.
— Bom, deixa eu ver… — Coçando levemente a nuca a enfermeira deu a volta em torno da cama e parou a esquerda, onde podia verificar os sinais no terminal. — Você acordou faz pouco tempo, tivemos um alerta de variação dos ritmos cardíacos mas nada fora do comum. E olha só, está tudo bem assim como sua oxigenação. Agora sobre suas feridas… você sente alguma dor?
— Confesso que até me esqueci dos machucados… — Edward levou a mão esquerda de forma delicada até o ombro direito, enfaixado.
— Isso já é um ótimo sinal! Então — iniciou a fala, batendo as palmas das mãos de forma delicada — seus ferimentos no rosto foram superficiais; o ombro está um pouco pior e, por isso, exige cautela e medicamentos para o alívio da dor. Acho que isso também passou despercebido por você.
De fato, a enfermeira estava correta. Ed apenas só agora reparara na presença de um acesso venoso em seu braço direito.
— Fique tranquilo, como disse tudo isso é só por precaução… é para você ficar melhor o mais rápido possível — afirmou analisando a fisionomia do jovem. — E como está seu pé?
— Hm… meu pé? — perguntou, intrigado, observando e tentando mexer os dois pés.
O membro esquerdo apresentava menos mobilidade. Tal movimento trouxe um imediato frio na espinha do jovem — recordava de mais uma marca da árdua batalha.
— Pela sua reação, aposto que também se esqueceu de que seu pé havia sido torcido — a moça soltou uma risada confortável. — Quando você chegou aqui, ainda estava dormindo, então é impossível se lembrar: ao chegar, aplicamos uma sedação e o médico responsável logo realinhou os ossos… Você precisará usar essa botinha por um tempo.
Edward ergueu brevemente o lençol e pôde verificar o uso da bota ortopédica. As notícias, misturadas com ausência de qualquer dor aguda, trouxera um alívio inesperado e refrescante em Edward — ficaria menos tempo preso neste ambiente sufocante.
Tais informações também reverberaram no íntimo de Scarlet que, ainda sentada na poltrona, olhou para o teto e suspirou — um suspiro audível apenas para Edward.
— Certo, logo mais vou trazer seu almoço. É preciso comer direto para se recupe—
A fala otimista de Helena era cortada de forma serena pelo paciente.
— Obrigado pela preocupação, por esclarecer tudo… Quando terei alta? E principalmente… quando vou poder ver o meu pai? Como ele está? — indagou Edward em uma voz fria.
A interrupção recordava à enfermeira o quão delicada era a situação, apesar dos ferimentos leves uma rachadura profunda estava exposta no coração do paciente — a incerteza sobre o pai. Helena, ciente da necessidade de ser mais clara possível, iniciou novas explicações em um tom doce, ao mesmo tempo ríspido.
— Caso durante o dia você não demonstre algum sinal de alerta acredito que amanhã de manhã já receberá alta. Seu pai está se recuperando bem… não corre risco de vida. Te… peço para focar em sua recuperação primeiro… sei que é difícil ignorar tudo isso, mas Edward pode confiar na gente… tá?
Lentamente Ed realizou gestos sutis com a cabeça em confirmação, independente das palavras bonitas no fundo compreendia que a situação de Alex continuaria incerta.
Cabisbaixo, de forma apática, o ferido realizou um pedido repentino.
— Pode me trazer um calmante? Prefiro passar o dia dormindo…
— O dia dormindo? Seria uma dosagem muito forte, o médico impedirá sua prescrição. Contudo, pode deixar que vamos trazer algo para te deixar mais calmo… A questão é que… estou incerta se você poderá tomar ele agora — exclamou Helena em uma voz cada vez mais fraca.
Em um balançar sútil, a profissional virou de costas e caminhou até a entrada. Com a mão apertando delicadamente a maçaneta alongada, prosseguiu com sua fala:
— Eu entrei primeiro no quarto pois exigi isso, é questão de ética e humanidade! Agora que verifiquei sua situação, preciso liberar a entrada de um oficial que está investigando o caso — disse seriamente camuflando um tom de irritação.
Ao captar a mensagem de Helena, Scarlet levantou-se da poltrona e, com uma feição preocupada e irritada — a testa franzida completada por olhos entreabertos —, caminhou até a ponta da cama onde o amigo repousava. Encarando profundamente o olhar caído dele, proclamou em um timbre calmo, banhado de preocupação:
— Ed, o oficial que entrará aqui é um agente da inteligência nacional. Tenho certeza que será impossível ele te relacionar com algo, ou confirmar algo sobrenatural. Mesmo assim… tome cuidado, tente ser convincente… Qualquer coisa, estarei aqui!
As palavras da amiga acompanharam o rangido da porta, algumas trocas de murmúrios e o som gradativo de passos pesados — que pressionavam o piso vinílico hospitalar de forma bruta.
Enfim, o momento aguardado pelo investigador Cooper chegara — depois de tanta espera poderia progredir no conveniente caso em que se esbarrou.
O barulho do solado, provido do sapato social bem polido do agente, ecoou pelo quarto causando um incômodo ímpar — nenhum dos dois jovens gostaria de encarar uma situação tão delicada quanto esta. No fundo, uma imponência invisível contaminava o cômodo, o que tornava-o sufocante.
Com as duas mãos nos bolsos de seu sobretudo, Cooper aproximou-se do leito de Edward e iniciou sua fala aveludada e respeitável:
— Boa tarde Edward Griffin Xlu, vejo que está melhor. Fico aliviado e feliz… — comentou, soltando um bafo de café, enquanto estendia a mão em direção ao rapaz recluso.
Em um olhar de canto, Edward analisava toda a figura do novo visitante: a altura, junto das pequenas marcas da idade, causava certa imponência — ainda que lhe faltasse um corpo musculoso. A voz também contradizia o estereótipo que Edward formulara sobre policiais; embora apresentasse certa rouquidão, era menos grossa do que o esperado. O cabelo preto, ondulado e muito bem ajeitado para ambos os lados, revelava um trejeito metódico do adulto.
Apesar do desgosto, provido da situação adversa, no fundo o menino ficara intrigado com o agente. Todas as suas roupas e fisionomia soavam como um famoso detetive de um filme. Repentinamente Edward vislumbrava uma mistura deturpada de fantasia e realidade.
Perdido de como deveria agir, a, agora testemunha, demorou alguns instantes para virar o rosto e retribuir o cumprimento de sua visita.
— Prazer, sou o agente Cooper. — Desfez o aperto forte de mãos e logo sacou seu distintivo, do bolso interno de seu casaco. Após a rápida averiguação da vítima, Cooper esclareceu seus objetivos. — Eu compreendo que estou sendo invasivo, infelizmente faz parte do meu trabalho — expressou escapando um sorriso amarelado —, a partir daqui preciso gravar nossa conversa, ela será prova material de nossa investigação. — Concluiu guardando outra vez o distintivo.
Scarlet, mais irritada do que curiosa, cedeu o corpo para trás, escorando-se na parede esverdeada. Em uma voz inaudível para qualquer humano comum, repreendeu o amigo.
— Ed, não tente lutar contra. Apenas seja um bom mentiroso…
Edward, em um suspiro — fazendo questão de ressaltar o incômodo que sentia com a presença de Cooper —, disse em um frágil murmúrio:
— Sinceramente, já que é inevitável… peço que seja breve.
A curta resposta desencadeou a já esperada retirada do celular, disposto em um dos bolsos da calça social do agente. Sem muitas cerimônias, Cooper voltou a andar enquanto mexia em seu dispositivo.
O próprio circulou a cama, passou em frente à porta do banheiro, atravessou a invisível Scarlet e se posicionou junto à grande janela — disposta à esquerda do leito.
Com as costas banhadas pelo sol, a autoridade iniciou a gravação. Estendeu o braço, posicionou o celular próximo a ambos e, em um timbre sóbrio, começou o interrogatório improvisado.
— Dia 19 de novembro de 2020, 14:30… Converso com Edward, testemunha e vítima do acidente do dia anterior. Senhor Edward, serei breve: seu pai sofreu uma tentativa de homicídio, consegue pensar em algum motivo específico? — questionou fitando fixamente a testemunha cabisbaixa.
Imerso na sombra projetada pelo corpo de Cooper, sem muitas opções, o menino embarcou no clima investigativo.
— Não mesmo… meu pai nunca fez nada de errado — retrucou imediatamente, sem muito esforço na voz, encarando os olhos cor de mel do homem. — Inclusive, gostaria de vê-lo para ter certeza que não corre risco de vida.
— A enfermeira já te contextualizou, fique tranquilo — Cooper falava de uma forma fria e robótica, típico de alguém já acostumado com situações do tipo. — Antes de ligar para emergência, quais foram seus passos? Caso consiga me responder seria de suma importância.
— Tudo ainda é um pouco confuso… — Moveu o rosto lentamente, de forma natural, e encarou a figura de Scarlet. — Visitei uma biblioteca durante a tarde, quando cheguei em casa já estava anoitecendo… Em casa… percebi que todas as luzes estavam desligadas… — a fala acompanhava um leve tremor na voz de Ed. — Fui até o quarto do meu pai para verificar se estava tudo certo…
Enquanto escutava o relato, Cooper dividia a atenção entre o terminal de sinais e os gestos minuciosos do rapaz. O leve aumento da frequência cardíaca confirmava o quão tenso havia sido todo o ocorrido para a vítima à sua frente. No entanto, também simbolizava que estava prestes a encontrar ouro em sua investigação.
— E o que você viu?
Edward levou a atenção novamente para o pé de sua cama e continuou com os comentários, controlando ao máximo seu nervosismo e raiva.
— Um homem alto, com um instrumento estranho em suas mãos… algumas lâminas finas, talvez agulhas… atacando a cabeça do meu pai.
— E o que você fez?
— Edward, com toda certeza ele sabe das circunstâncias de sua casa. Recorde como ficou o quarto e prossiga. — Scarlet desconhecia todo este trecho inicial do conflito, porém precisava apoiar uma boa mentira.
— Ele me atacou — após digerir a fala da amiga, o garoto apontou em uma voz firme — e tentei me defender. Fiz tudo por puro instinto… no meio da nossa briga acabei empurrando ele contra a janela..
— Obrigado por estar sendo tão transparente… — expressou Cooper, com uma leve preocupação ao observar os ritmos acelerados dos batimentos do rapaz. — Podemos continuar depois caso prefira… ou posso ir além.
— Desculpe por isso, mas o quão rápido você sair daqui melhor será! — afirmou o paciente cerrando os olhos e apertando levemente o lençol do leito.
— Tudo bem, deixa eu pontuar algumas coisas antes de prosseguirmos. Você agiu em legítima defesa e nenhum corpo foi encontrado… logo, deixe de carregar o possível peso de um asssassinato… Correto, vou te fazer apenas mais três perguntas e deixarei você se recuperar…
O alerta, em vez de trazer alívio, despertou ainda mais aflição em Edward, já que possivelmente estaria prestes a receber as perguntas mais difíceis de responder e de mascarar o verdadeiro ocorrido. Em silêncio, confirmou com um movimento positivo de cabeça e aguardou pelas dúvidas — cerrando ainda mais os punhos contra o lençol.
— O que você fez até a emergência chegar?
— Esperei…
Edward repensava sua resposta ao encarar outra vez a figura de sua amiga, que agora coçava sua própria testa. De fato, a frase que estava prestes a formular soaria desconexa com os fatos.
— Esperou, apenas? — indagou o investigador.
— Esperei… mas fui averiguar o que estava acontecendo… quem era o homem misterioso. Ele tentou me atacar… foi destruindo cada vez mais minha casa. E depois de ver que ele era muito mais perigoso do que o esperado, eu me escondi junto com meu pai… — Ed, cada vez mais ofegante, desdobrava uma história fictícia que carregava o mesmo terror da real enquanto cerrava outra vez os olhos. — Passou um tempo e mais nenhum barulho chegou até mim… Sai do esconderijo e confirmei sua fuga….
Durante todo o discurso, os batimentos do rapaz continuaram acelerados, sem mudanças bruscas; todavia, o fechar dos olhos e a fala atrapalhada, para Cooper, enalteciam um trauma difícil, marcado por certas inconsistências.
— Imagino que tenha sido assustador... Agora vamos encerrar com mais uma pergunta que irá desencadear a outra… Edward, considerando seu histórico, por acaso você pode ter visto apenas uma alucinação?
A questão levantada interrompeu, em um estalar de dedos, os movimentos do garoto. Seus olhos, antes fechados, arregalaram-se em leves tremores. A boca tentava emitir algum som, alguma resposta; porém, uma raiva infestante contaminou por completo seus pensamentos — mais uma vez, revivia algo que já deveria ter sido superado.
Entre alertas de batimentos ainda mais elevados, flutuando entre 110 e 120 por minuto, Edward engoliu em seco — ou melhor, engoliu uma resposta sincera demais para a situação —, fitou Cooper outra vez e respondeu com punhos e dentes cerrados:
— Você pesquisou todo meu histórico então sabe muito bem que nunca encontraram nenhum tipo de transtorno. O que aconteceu ontem foi real! — proclamou engrossando e aumentando muito mais o tom de voz.
O contra argumento de Edward satisfazia parcialmente Cooper, agora havia certeza que o garoto acreditava fielmente em algo que poderia conectar dois diferentes acontecimentos. As engrenagens de sua mente giravam a todo vapor à procura da verdade, e para isso fora necessário cavar ainda mais.
— Edward, você teria motivos para agredir seu pai? — inquiriu o agente mantendo o mesmo tom sereno.
A nova indagação destruía a postura agressiva do rapaz, seus batimentos decresciam lentamente. Sabia de tudo que havia feito, de sua inocência, porém percebeu que era incapaz de formular qualquer constatação. “No fundo, eu me importo com meu pai?” refletiu enquanto recordava os últimos anos de sua vida junto com seu pai.
Um silêncio ensurdecedor contaminou, outra vez, todo o ambiente. Lágrimas ameaçaram sair das pupilas de Edward, mostrou-se em completo choque — em uma mescla de passado, presente e arrependimento.
— Vamos parar por aqui, inclusive vou chamar a Helena.
Cooper finalizou a dura conversa, encerrou a gravação e calmamente iniciou o trajeto até a entrada.
Já com a mão próxima da maçaneta, pôde escutar um último sussurro.
— Eu… não fiz nada com meu pai ontem… nada… — sussurrou o menino ainda com a atenção fixa na janela.
— Eu acredito em você… Vamos trabalhar juntos para encontrarmos o culpado. Hoje você foi de grande ajuda! — Concluiu, enfim, deixando outra vez Edward só.
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios