Edward The Guide Brasileira

Autor(a): Gusty


Volume 3

Capítulo 34: Fé e apostas

Os três homens subiram as escadas rústicas de pedra, acompanhados pelo espírito da garota de olhos e cabelos avermelhados — invisível para qualquer humano comum. Scarlet e seu amigo se concentraram ainda mais; era necessário desconectar-se de possíveis distrações, pois qualquer detalhe minucioso poderia ajudá-los a encontrar as figuras cuja presença sentiram há pouco.

O curto percurso levou-os a uma portinhola fina, de um marrom escuro quase sem desgastes, e logo encararam o novo ambiente.

Um corredor externo, coberto por um teto de vidro e sustentado por hastes de madeira, guiava o caminho até um grande chalé. Enquanto o lado esquerdo exibia uma cerca de árvores e arame, reforçando o isolamento da área reservada aos funcionários, o lado direito abrigava um pátio confortável.

Ao centro, encontrava-se uma árvore alta que se esticava como se buscasse ultrapassar as nuvens, repleta de galhos irregulares. O tronco largo do pinheiro era cercado por um banco de pedra branca — a mesma que decorava a grama, traçando pequenos caminhos até o corredor. Próximo à beleza natural, um poste alto e fino de aço acomodava uma lamparina delicada; a mistura de sutileza e robustez definia cada parte do hotel.

Outras lamparinas, menores, iluminavam o corredor de forma harmônica, presas ao centro de cada divisória.

O caminhar rítmico dos anfitriões e convidados logo os levou até as duas portas articuladas de folha dupla, feitas no mesmo tom de madeira e com pequenos vitrais em seus cantos. Giovanni, com um empurrão suave, abriu o caminho e convidou os dois homens a entrarem primeiro.

Ainda que omitissem seus impulsos de deslumbre, Edward e Scarlet reconheciam o quão bonito e organizado o local era. O piso de parquet, em uma madeira mais clara que a das paredes, criava uma sutil ilusão de ótica. O cheiro de café, entrelaçado a um aroma refrescante de baunilha — efeito de essências em difusores —, preenchia todo o ar. As paredes laterais e a oposta à entrada apresentavam grandes janelas retangulares, distribuídas de forma simétrica.

À direita da entrada, um largo quiosque arredondado, erguido com a mesma madeira robusta das paredes e com uma bancada de pedra cinza lisa, comportava quatro setups de computadores junto a materiais típicos de escritório: cadernos de anotações, canetas e telefones fixos modernos. Cada cadeira giratória, preta e bem almofadada, acomodava um funcionário focado; dois homens e duas mulheres jovens atendiam telefonemas e fitavam fixamente as telas, mostrando que a administração estava, de fato, ocupada.

Logo ao lado do quiosque, perto de seu acesso, havia três máquinas de conveniência. Duas ofereciam bebidas, tanto quentes quanto frias, enquanto a outra disponibilizava apenas alimentos embalados — nada muito saudável ou nutritivo.

Do outro lado, o piso sofria um pequeno desnível: a partir de degraus sutis, abria-se espaço para um aconchegante local de repouso. Dois longos sofás de couro avermelhado e uma poltrona preta combinavam com o carpete macio, de tons semelhantes.

Entre os móveis, encontrava-se uma mesa de centro. Na parede próxima à janela, havia uma larga televisão plana e, ao lado dela, uma imponente lareira — mantida sempre aquecida quando necessário.

À frente da entrada, outro carpete, em diferentes tons de bege, revestia o piso, um guia intuitivo até dois elevadores no fim do corredor e outras aberturas de acesso.

Em cada canto do estabelecimento, dispunham-se novas lamparinas e, ao centro, um grande abajur em formato de galhos espalhava luz por cada centímetro.

Giovanni, após a entrada dos convidados, fechou a porta e, em uma nova caminhada lenta, retomou sua fala.

— Bem, aqui é o nosso lobby, como você está percebendo nossos secretários estão trabalhando. Vanessa, Erick, Laura e Paul são pessoas sensacionais. Depois, quando estiverem menos sufocados, recomendo conversar um pouco com eles.

Edward retomou a caminhada e, de canto de olho, observou outra vez as figuras. A fala de seu chefe provisório trouxe-lhe uma indagação: "Até onde Matthew falou sobre mim?" 

O elegante dono do local passava à frente do zelador, de Edward e da imperceptível Scarlet; ajustando a jaqueta, prosseguiu com suas explicações e com o guia pelo local. 

— Ali do lado temos esse cantinho de descanso. E, bom, diariamente cada funcionário pode pegar três alimentos e três bebidas gratuitamente. Claro que água e café estão sempre disponíveis — disse Giovanni, soltando uma breve risada; sabia que o trabalho era puxado.

Mesmo com as novas informações, Ed preferia olhar para outras direções; precisava entender de onde vinha aquela confusão de presenças espirituais — além disso, já havia notado os detalhes que o anfitrião apresentava com atraso. A sensação de estar sendo vigiado constantemente trazia-lhe um desconforto cortante.

— Aquela outra porta ali — comentou Giovanni, apontando para uma entrada próxima aos elevadores — só pode ser aberta com cartões de funcionários. A partir dela, você encontrará outro corredor externo e, aí sim, chegará ao nosso hotel.

"Possivelmente sentirei melhor os espíritos quando formos para lá", refletiu o garoto, voltando a atenção para as grandes portas. Ele entendia o objetivo de sua missão e, justamente por isso, sentia uma vontade extrema de pular etapas para compreender com o que iriam lidar — a seriedade de Scarlet, pouco antes, o preocupava quanto à força daquelas entidades.

Então, escolhendo bem as palavras, Edward tentou uma nova abordagem.

— Impressionante, vejo que preza muito pelo seu trabalho — em um tom alegre, comentou enquanto mantinha suas pegadas amortecidas pelo suave carpete. Usando a máscara de alguém cada vez mais empolgado, omitir o receio era crucial, disse de forma direta: — Quero muito conhecer a área do hotel, até porque é lá que preciso fazer meu trabalho… certo?

— Claro, claro… — sussurrou o dono do local parando próximo aos elevadores e a outra entrada. 

A pergunta trouxe um certo incômodo a Giovanni, que, com força controlada, mordia o canto do lábio. A angústia provinha da lembrança sobre a delicadeza do caso pelo qual convocou o amigo de seu sobrinho.

Após breves instantes — preenchidos pela ausência de movimentos ou palavras —, o homem relaxou os ombros, apertou o botão de chamada do elevador e logo contra-argumentou:

— Entendo sua empolgação, você está correto mas também faz parte do seu trabalho conhecer a parte administrativa… afinal será interessante posteriormente para sua carreira, quero uma boa reportagem sobre o hotel! 

Edward ao ouvir a resposta ergueu as sobrancelhas em surpresa. Levou as mãos até os bolsos de sua calça e pensou: “Matthew de fato deixou tudo bem mais organizado do que esperava… eu apenas tinha dito uma ideia de desculpas para a realização da viagem. Até então meu pagamento seria apenas uma semana de estadia”. 

Ainda que a realidade exibisse um ar refrescante, tudo soava muito melhor do que o esperado, o desconforto ainda estava à espreita. O que diabos estava reservado para a dupla?

Scarlet, ciente de que seu amigo seria incapaz de se livrar desta situação, alongou os braços e o pescoço e dirigiu-se à porta trancada que a levaria ao hotel. Em um tom estridente, ainda que sereno, exclamou um recado particular para Ed:

— Vou indo na frente, talvez seja uma boa ideia reconhecer o ambiente! — pontuou, já prestes a atravessar a madeira da porta.

— NÃO! — Preocupado e sem pensar duas vezes, Edward reprimiu a amiga.

Giovanni e Reith encararam a expressão rígida e assustada de Edward com surpresa. Reith franziu a testa, esboçando um gesto de irritação. Afinal, como um recém-chegado podia tratar seu local de trabalho com tamanha displicência? Chegou a suspirar; sua aversão por jovens acabara de ganhar mais um argumento.

Giovanni apenas se encolheu em um olhar de confusão. O garoto estaria sendo prestativo demais com o trabalho ou havia algo a mais ali?

Independentemente das reações adversas, o alvo da mensagem entendera perfeitamente. Scarlet recuou, decidindo esperar pelo amigo. A ação de ir primeiro poderia ajudar, mas também traria uma preocupação excessiva ao seu companheiro. E mesmo confiante em sua própria força, ela reconhecia que uma ajuda seria muito bem-vinda.

— Ok, ok… entendi — comentou Scarlet levantando os dois braços e retornando lentamente de costas.

Reparar nas diferentes reações trouxe um embrulho no estômago do jovem. Em gestos atrapalhados coçou a cabeça com as mãos e logo tentou reverter a situação.

— Não quero atrapalhar ainda mais o senhor… Está mais do que claro o quão movimentado está o dia, gostaria apenas de tirar suas preocupações mais imediatas. 

Edward exibia uma vontade de escapar do campo de visão de Giovanni, gostaria apenas de olhar para o chão e tentar desviar o foco de sua vergonha, contudo em garra manteve-se firme confiante em suas próprias palavras.

— Você parece ser um garoto exemplar, Edward — afirmou o chefe, colocando uma de suas mãos no ombro mais encolhido de Edward. — Entendo seu anseio, vamos apenas fazer uma breve reunião antes ok? — Convidou o visitante com um novo sorriso.

— Apenas aceite logo, Ed, e tente ter uma conversa rápida. Estarei pronta caso precisemos agir! — sugeriu a garota de cabelos escarlates, retornando para o lado do amigo.

— Tudo bem! — Edward concordou, aliviado.

— Reith, pode nos esperar aqui embaixo? Quero conversar de forma privada com o rapaz — o dono, agora mais sério, dirigiu as palavras ao zelador enquanto retirava a mão do ombro de Ed.

— Você que manda! — respondeu Reith, com sua voz arrastada e grossa.

Reith suspirou, ajustou a calça pelo cinto e caminhou rumo aos sofás do lobby. Ao mesmo tempo, Giovanni, Edward e Scarlet entravam no elevador — moderno o suficiente para causar estranhamento em relação ao restante da decoração.

Em pressa, o senhor logo apertou o botão para o último andar — o terceiro. Com o fechar das portas, e o rangido bruto da máquina funcionando, detalhou novas informações.

— No segundo andar temos nosso restaurante para os funcionários. O preço é acessível e também há a possibilidade de esquentar as próprias refeições caso alguém prefira. Depois posso te levar até lá.

As pequenas informações de como o ambiente funcionava e como o dono tratava seus funcionários engrandeciam a imagem de ambos. Edward captava todas com atenção e principalmente com confiança. Talvez estivesse nas mãos de apenas um excelente vendedor, porém de fato o tio de seu amigo sabia orquestrar um enorme negócio e uma imagem íntegra.

Cerca de um minuto depois, todos já pisavam no piso, ainda mais liso, do novo andar. Os mesmos materiais da recepção encontravam-se ali; a única diferença era que a madeira era mais bem polida, o que conferia um ar mais moderno ao ambiente.

Do elevador, estendia-se um corredor com três portas: duas à esquerda e uma ao centro da parede direita. O escritório do dono, ao contrário do que Edward previa, ficava justamente na primeira porta à esquerda.

Sem se delongar com novas explicações, o chefe logo os guiou para dentro de sua sala privada.

O escritório de Giovanni, todo amadeirado, era mais simples do que o esperado: uma estante de livros cobria uma das parede, uma mesa longa comportava seus pertences de trabalho e três poltronas pretas serviam de assento — duas para visitas e uma para o senhor. O maior charme da sala residia em uma grande janela circular, típica de sótãos, que não apenas iluminava o recinto, como também oferecia uma visão ampla de parte do hotel.

A conversa foi retomada assim que os dois se acomodaram.

— Vou ser direto com você garoto… Matthew me contou sobre seu desejo em trabalhar com jornalismo e também, obviamente, sobre seus trabalhos com o espiritual. Mas essa segunda informação escondi do restante da equipe. — Giovanni, em tom calmo, terminou a fala apoiando os dois cotovelos sobre a mesa.

A fala do responsável pelo hotel agora saía de forma ainda mais destravada, finalmente poderia ser mais transparente. 

— Acredito que meu sobrinho contou que sou um medroso e ao mesmo tempo estava com medo de chamar um padre, por atrair atenção desnecessária. Estou certo?

— Você conhece ele bem… — Edward soltou um suspiro que quase se transformou em risada.

Ciente da mudança de abordagem, Ed começou a retirar sua máscara de formalidade excessiva, embora compreendesse que deveria manter o foco. Já Scarlet desconectou-se da conversa para observar o cenário através da janela; quem sabe não encontraria o rastro de algum espírito lá fora?

— Ai, ai, Matthew… — Giovanni riu brevemente. — Sabia que ele é ateu? Ele nunca teve muito tato com a religião de boa parte da nossa família, nem mesmo com o cristianismo, que é tão disseminado. Sabe, Edward, viemos de uma casa humilde e batalhamos muito para alcançar o status de hoje. Nesse caminho, infelizmente, desagradei alguns familiares, talvez por egoísmo ou deslumbre — comentava, entrelaçando e apertando as mãos.

O novo detalhe carregava uma tensão capaz de fazer o suor brotar na pele de Giovanni, mesmo que sua sala estivesse gelada; remexer em partes de seu passado trazia um peso evidente.

— Recentemente minha irmã me alertou sobre certos transtornos que iria passar em minha vida. Sentiu a presença de espíritos maldosos ao meu redor. Você está aqui Edward pois acredito em tudo isso mas me nego, repito, me nego a recorrer a familiares que poderiam me ajudar com isso. Só eu sei o quão tóxico foi o ambiente onde cresci.

Edward estranhava tamanha honestidade do homem à sua frente, ao mesmo passo que via a cena como a maior prova de fé de Giovanni para com seu pedido. 

— Pode ter certeza que te ajudarei! Só tenho uma pergunta.

— Diga! — Mesmo tenso, o tio de Matthew estava pronto para responder.

— Por que decidiu arriscar me chamar, sendo que você poderia convidar qualquer um mais experiente que não fosse da família?

— Simples… Matthew me procurou logo após o acidente e, bom… se alguém como ele, um cético, me procurou, é porque você possui algo de especial. Considere como um salto de fé… uma aposta que apenas eu, você e Matthew conhecemos — ofereceu uma risada frágil. 

De olhos fechados, em formato de prece, Giovanni perguntou:

— O que você já sabe sobre a situação?

Edward engoliu o seco e disse de forma clara:

— Senhor, talvez existam mais de três espíritos... Mas lhe garanto: estou preparado para isso! — Edward estampou confiança em sua fala firme.

— Estou gostando de ver, Edinho. E obrigada por não deixá-lo ainda mais apavorado sobre as possíveis mortes... — Scarlet falou, mantendo a seriedade enquanto encarava o pátio do Hotel Thur.

 

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