Volume 1

O Casaco

Em outrora...

Há cantos em que gostaríamos de evitar, seja por medo, lembranças ou acontecimentos. A prisão é um lugar na qual todos evitam, pessoas e seres são jogados em cubículos para serem julgados contra seus crimes e repensar seus feitos. Ou não. Exilados da sociedade e fadados a permanecer lá por tempo indeterminado. Esse é o padrão, não é?

Mas não para O Castelo. O Castelo não segue padrões, seus corredores frios e metálicos não segues jurisdições da Federação, a mesma Federação que visa proteger os direitos das pessoas, suas regulamentações, desejos, modos e afins. Essa mesma Federação não existia naquele lugar, um lugar, considerado pelos que o sabem, esquecido pelos deuses. Sua localização é desconhecida e afastada das mãos de reis e rainhas gananciosos, a jurisdição lá é única e restrita para os de dentro. Os ditos “presos” não tem seus direitos já postos em suas línguas assim que chegam ali. Não. No primeiro passo que der você se torna pertencente daquele lugar, um esquecido, estar ali é como se uma pessoa lhe desejasse algo pior que a morte. Os corredores berram um silêncio ensurdecedor, os pontos de luz em tom alaranjado quase não iluminam a passagem estreita — com teto tão alto que parecia não ter fim.

O Castelo não é considerado apenas uma prisão, mas um local sem retorno, você se torna vítima de experimentos com você, experimentos remodeladores, torturantes e, talvez até mesmo, psicótico. Indo de Um violino amaldiçoado até roupas vivas simbiônticas feitas da própria carne de seres.

Um pesadelo com tudo que há de pior, compactado numa gigantesca caixa metálica em algum lugar escondido de Ecor. Para os guardas, em sua ronda, é comum ouvir gritos, berros e choros de seres seguido por sons de misericórdia e zumbidos.

Mas isto nos níveis mais abaixo. Lá acontece experimentos diários, nesse dia há algo diferente, não seria apenas mais um experimento comum. Ah os guardas sabiam que haveria lago novo.

Um grupo de cientistas chegava transportando um carregamento valioso. A caixa é grande e amadeirada. O chefe, Dr. Phill, remexia alguns papéis em sua prancheta de mão coçando um pouco a testa úmida. Os guardas estavam servindo de suporte para que o produto chegue conforme o previsto.

— Roger — ele chama, sem mudar os olhos de posição.

— Dr.?

— Relatório.

— A nova leva de espécimes estão prontos, foram… cuidados. Estamos prontos.

— Ótimo, nosso chefe quer que comecemos o quanto antes.

Eles chegam na plataforma de testes, a caixa é posta perto do centro, e num movimento brusco ela é aberta por completa. Um brilho rapidamente ofusca a visão dos presentes. O brilho revela um Objeto de Poder, flutuante, intocado. Um dos cientistas o agarra com uma pinça e põe o Objeto numa câmara circular ligada a uma caixa maior de vidro, o circular conectava alguns cabos de energia até uma câmara separada onde um cockpit catalogava os acontecimentos com um aparelho de eletrocenfalograma e um sismógrafo. Os cientistas se acumularam como pequenas formigas para assistir a tortura diária e rabiscar o que quer que acontecesse em suas fichas para um possível relatório mais tarde. Todos estavam com seus papéis e suas canetas a postos.

O primeiro veio.

Acordara jogado na sela. Perdido e desorientado. Uma criatura semelhante a um orc, mas vermelha e enrugada. Veste uma roupa hospitalar comum e estava descalço. Ele estava tímido e assustado. Naquele lugar, quem não ficaria? Ele já vira muita coisa, sofrera muita coisa provavelmente. Assim que levantou, arfando, um pequeno autofalante de metal ecoou o pedido dos cientistas.

— Interaja com o casaco.

Um pedido simples. Um pedido vil. Eles sabem que as chances de todos os pacientes de sobreviver é quase nula e faziam apostas para quanto tempo durariam. Pessoas sem escrúpulos e sem empatia. Para o Orc vermelho, eles eram silhuetas tão frias quanto uma montanha do Norte. Ele engole seco e demora para se mexer.

— Agora. — Exigiram.

Manter a calma é essencial quando se depara com o desconhecido e o mesmo se aplica ao medo de tal modo que se você perder o controle de um perde o do outro também. Suas mãos se aproximaram pouco a pouco da entrada para o Objeto. O pobre ser não saberia o que estava fazendo, no que estavam colocando sua vida em jogo, mas ele o faz sem escolha, sua coleira não o permitia ir longe, apenas o manter ali por conta de sua força e tamanho incomuns para um humano comum e por isso ele fora escolhido para ir primeiro, talvez ele dure e possa sobreviver.

Ele mal toca e a energia se acumula do seu dedo, o frio vem desenfreadamente, como cavalos que se assustaram no estábulo e correram para fora à toda velocidade. Ele berra. Os cientistas? Estáticos. Ele nega o destino, mas seu dedo congelado não o permitia sair, seus olhos brilharam e o gelo o consumia, por fora e por dentro expulsando em respingos o seu sangue pelos esporos de sua pele. A nevasca o consumiu e o largou. Por segundos ele se tornou uma estátua de gelo extremamente amedrontada e no outro segundo ele se torna cacos numa pequena poça de sangue.

Experimento fracassado.

— Mande o próximo.

Assim outro vem.

Os resultados prosseguiram. Fracasso após fracasso. Frustração após frustração. A sala se contaminava com espinhos gélidos e um ambiente parcialmente gelado também, como uma contaminação, se misturando em sangue e corpos como uma implacável fome pedindo por mais cobaias. Mas não, isso não continuaria. Pelo menos não mais naquele dia. A sessão terminou com a papelada dos cientistas cheia de marcações vermelhas ao lado de cada paciente, chegou a um ponto de eles escreverem de forma automática supondo com previsibilidade que cada ser um seria morto também um após o outro.

Metade do dia se passou, o chefe dos cientistas se distanciou dos outros para respirar no fundo da sala, ele retirou os óculos de proteção jogando-os na mesa de ferro junto com sua prancheta. Apoiou-se na borda respirando de forma pesada e feroz, seu nariz procurava não se enrugar enquanto sua boca buscava se calar mediante à frustração do trabalho. O expediente terminou. O alarme soou e os cientistas se debateram como um grupo de pinguins desnorteados.

— Dr. — chamou o Dr. Roger com preocupação na voz. — Infelizmente os testes seguiram com negativo, precisamos de alguma coisa para mostrar!…

Para a surpresa deles, o superior desse grupo apareceu esperançoso por notícias, notícias favorecedoras assim ele supõe. O grupo se debanda, trotando para fora do complexo, descendo as pequenas escadas de ferro enquanto seu chefe aguardava todos saírem.

— Não se inquiete com isto, Dr. Roger. — diz o doutor, friamente. — Apenas dobre sua língua e deixe que resolvo. Vá

O pobre Dr. Roger quase tromba com seu superior na porta arqueada de ferro antes de seguir seu rumo.

Superior Kornsteff, é como o chamam. Temido e respeitado ao mesmo tempo. Seus passos ecoam pela sala quadrada, seu olhar sínico serpenteava as gaveteiras de metal enfileiradas com 6 gavetas cada até o simples lápis. Ele forçava um pequeno sorriso em seu rosto cujo semblante já mostrava sinais de rugas até mesmo por detrás de seu monóculo. Sua vestimenta lembra um tenente com ombreiras e botas pesadas. Após analisar a sala fingindo meticulosidade ele bruscamente se vira exigindo com animosidade os resultados.

O Dr. ajeita sua gravata detrás do jaleco, suspira fundo e se vira com mãos nas costas, mantendo a postura a todo custo.

— Senhor… — o tenente escutava com clareza, mas Dr. Phill aparenta recuo em suas palavras, ele sabe que haverá consequências se não haver resultado, ele temia isso tanto quanto teme morrer recém-chegado aos 40 anos. Ele ajeita o cabelo ralo na nuca, suspira mais uma vez e continua. — I-infelizmente nós não obtivemos progresso ao longo do expediente senhor.

Seus lábios tremiam e seus olhos pequenos desviavam o olhar.

Kornsteff não admitiu tal coisa, ele suspirou fundo enquanto nega com a cabeça de olhos fechados; se aproximando do Dr. ele o apontou três vezes antes de suas mãos se encontrarem nas suas costas.

— Senhor, por favor…

— Dr. — ele o corta, elevando seu queixo como sinal de superioridade. — Já se perguntou o que há nos níveis abaixo do quarenta e dois na qual estamos? Os piores experimentos ocorrem lá, desertores do seu reino, culpados e terroristas também passam por lá também. E piores experimentos. Também ocorre com aqueles que possam ser considerados… “descartados” para O Castelo.

O cientista engoliu seco.

— Senhor?

Kornsteff andou e se colocou diante da parede de vidro como os cientistas fizeram, ele secretamente deslumbra a beleza do Objeto de Poder e a magnitude se seu poder emanante. O Dr. se pôs ao lado do seu superior, também observando o Objeto.

— O que estamos fazendo aqui é evolutivo, obrigatório e belo, Dr.

— Com todo respeito senhor, esse não é o objetivo que nos foi dado... Marionete…

—Não me importo com o plano de visão de merda dele! — ele berra, cuspindo — Seu “chefe”, perdeu-se com suas vozes, e saiu do verdadeiro caminho que deveríamos realmente seguir. Ele nunca teve visão de verdade como eu tenho. Nunca quis se arriscar de verdade atrás dos devidos resultados para O Castelo.

— Mas que o senhor está pedindo aqui… nisto… nunca realmente matamos ninguém até o dia de hoje.

Kornsteff se manteve calado um pouco com um manto de frieza o acobertando; um homem orgulhoso de sua posição gosta de apreciar seu futuro prêmio, sua futura conquista. Como um falso pesquisador atrás de um falso prêmio. Ele faz um micro sorriso entre aquelas poucas verrugas.

— Há coisas na vida em que só se pode conseguir à força e com o estímulo correto. Na medida certa, eu diria.

Kornsteff quebra bruscamente um recipiente de vidro e crava um caco numa das mãos do Dr. Phill que estava no cockpit a sua frente.

O olhar do Superior mudou; raivoso, cruel e maquiavélico, com olhos quase saltando e seu nariz, convexo, se enruga. O Dr. urra de dor e se ajoelha com o sangue espirrando para fora como cachoeira.

— Onde estão meus resultados?

O Dr. geme antes que pudesse responder. Kornsteff põe força na esperança de que disto, o Dr. tirasse um aprendizado no dia de hoje, o Superior o olha com frieza esperando, ao menos, algum balbuciar do cientista em agonia. O cientista sabe que deve respondê-lo. Ele deve. Sua vida depende de responder a simples pergunta que manteria sua vida ainda pulsante. Seus lábios tremem e por um instante, devido a imensa dor, ele havia esquecido que tem uma pergunta para responder antes de ser tarde demais.

— E-eu os conseguirei! — sua cabeça balança freneticamente como se seu corpo inteiro fosse obrigado a concordar junto para mostrar comprometimento total com o projeto.

Kornsteff retira o caco e larga no chão. Seu semblante frio atravessou o cômodo até a porta dando uma estimativa de 3 dias para o doutor. Isto fora quase pior que ter a mão perfurada, um prazo menor que uma semana é como pedir para nove mulheres produzirem um único bebê em um mês. Ele já estimava sua morte, pior, sua tortura equivalente aos experimentos 1277 e 396. Mas diferente destes, Dr. Phill sabe que o Superior Kornsteff garantiria uma morte lenta e dolorosa.

Ele permaneceu por um tempo no chão, chorando de dor.

 

Outro dia, outra seção. Os testes continuaram. Mais fracassos seguidos, frustrações permaneceram vindo como pensamentos que vem e vão sempre havendo falso alarme de sucesso. Sua serventia estava se mostrando pouco a pouco inútil, de fato. Ele não deseja perder sua cabeça. Ninguém quer isto.

Num fim de turno ele passava por um corredor para verificar outros pacientes para o teste, outra leva para a morte. Ele fica estático na metade do caminho para andar e atira sua prancheta numa das selas de vidro que ecoam o som da vibração. Ele surta. Numa das selas está uma mulher indefesa, uma sem0-teto que se voluntariou par ao experimento por não haver nada a perder. Sem marido. Sem filhos. Tão pura de corpo, mas com o semblante de quem não banha faz muito tempo, ela veste roupa hospitalar e se assustou com a prancheta. A coitada se esgueira para o canto da sala olhando o mundo através de pequenas brechas de seu cabelo castanho bagunçado.

Num excesso de raiva o Dr. invade a sala da paciente e desconta sua frustração na inocente, ele precisava tirar essa raiva ou direcionar para algo, pois sabe, agora, que seu destino está selado. Ela a chuta enquanto ouve deus gritos, ela tenta escapar pela porta aberta, mas seus cabelos caem nas mãos do homem que a joga conta a parede e a larga no chão.

— Vocês são inúteis. Inúteis!

Ela se debate contra suas chicotadas de cinto.

— Por favor!… Não!…

Ela está tão perto e ao mesmo tempo tão longe da saída. Mas ela está submetida pela força dele. Ele a joga na cama e retira sua calça. A sem-teto chorava sem parar com os lábios trêmulos e sem forças para de mexer direito, naquele momento ela não resistia mais. Sua pele arde no local das chicoteadas e entre isto ela o sente, penetrando-a contra sua vontade. Ela é violada, estuprada por causa de um homem num dia ruim com ódio no coração por saber que vai morrer. Ambos poderiam morrer. Enquanto isto ocorre sua mente matuta sobre ter continuado na sarjeta; ela estaria melhor nas suas naquele instante horrível e maldoso. Ela não proferiu mais nenhuma palavra desde então durante a noite toda.

 

 

Dr. Phill, chega no local de testes novamente no dia seguinte, o dia final de seu prazo. Kornsteff está presente, sorriu forçadamente para o cientista e colocou óculos de proteção.

A sessão teve início.

Uma mulher é jogada para dentro da sela. A sela está fria, seu bafo se torna uma fumaça branca, aos poucos ela começa a tremer e seus pés nus sentem o chão metálico frio. A ordem dos cientistas é dada dentro do cubículo. A mulher se aproxima sentindo um vento sair do Objeto como se ele a atraísse para perto em um sussurro uivante e ameaçador. Parecia querer mais. Quase como se tivesse vontade própria, vontade para acabar com outra vida inocente apenas por pesquisas e resultados desejados de frutos malignos.

A mulher esticou a mão para o item a sua frente e nisto ela deduziu seu destino junto ao que os guardas fofocavam no caminho, mas o medo é tão normal quanto o estremecer diante da morte e ela sente os dois bombear no seu coração.

Ela está preparada, aceitou seu destino de olhos fechados e quando percebera, já estava vestindo o Objeto. O cubículo estava dispersando o frio e as placas gélidas pontiagudas não parecem mais tão ameaçadoras.

A mulher se surpreendeu, sentia sua pele firmar com o casaco tão bem quanto as roupas por baixo.

Kornsteff contemplou o sucesso com um sorriso de orelha a orelha; retirou os óculos e soltou uma salva de palmas para o doutor com entusiasmo e fervor. Seus olhos não saem do prêmio.

O Dr., parece aliviar os ombros tensos e soltar o ar preso no pulmão. Sua realização finalmente veio, mas nisto ele logo percebe o que fizera: abriu as portas para Kornsteff e seus planos maliciosos para com o Objeto de Poder, algo tão perigoso que talvez fosse melhor tê-lo deixado enterrado onde ele estivera por anos. Ele se questiona se realmente isto tudo, esta batalha por se manter vivo para alcançar um objetivo vil se tornou mesmo necessário? Ele deu a Kornsteff o que ele queria e provavelmente o mundo pagaria o preço.

Talvez ter sua cabeça decepada fosse melhor para todos.

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