Volume 1

A Vila

Estávamos rumo ao Norte. Não o norte da ilha, mas o norte da bússola. Temporizador deu-nos a trajetória logo pela manhã, acordei em meu lençol fino com o som do seu andar pesado, nos arrumamos pouco depois do sol aparecer ajeitando tudo e partindo em seguida, caminhei como nunca mas mantive (ou procurei) manter o ritmo deles e aos poucos meu cantil precisava reencher algumas poucas horas depois. Para minha surpresa aquele pequeno dragão ainda nos acompanhava.

Percorremos alguns belos caminhos, caminhos tão lindos que pareciam ter saídos de um sonho que ganhou vida, sonhos com ambientes idênticos a um oásis dentro da floresta, de um esqueleto de pedra caído — com sua espada de pedra servindo como ponte — entre um rio, perto de uma cascata, à grandes rochas trincadas com rostos de seres divinos esculpidos em grandes rochas acobertados por borboletas num campo florido e iluminado. São tão lindos que mal consegui definir qual o melhor quando passamos por eles. foi-me iniciado um treino básico, inicial, para eu conseguir musculatura necessária para continuar. Eu fui dividida em sessões: Erik cuidava do corpo pela manhã quando o sol surgia, Shaw cuidava da mente aprimorando minhas habilidades e resistências no ponto mais alto do sol, e Temporizador do espírito à noite quando o mundo estava silencioso e a ponte de conexão, para o que ele apelidou de “O Outro Lado”, fica mais fluida. Meus músculos ardiam, meu corpo penava e minha alma se engrandecia de pouco a pouco.

Nos dois dias seguidos meus treinos com Erik aumentaram minha força, Shaw me ensinou o treino de manipulação térmica com magia faiscando dos meus dedos e minhas sessões com Temporizador foram em busca de entender os meus sonhos que ainda tenho, o que significam. Sentia que pouco a pouco eu chegava porto de descobrir com a ajuda dele, numa das viagens descobri o nome de uma mulher adulta manipuladora de gelo chamada Felicia. Meu primeiro teste fora derrubar um golem mediano de pedra e musgos. Os três apenas observaram enquanto eu me virava para achar uma solução para derrotar o Golem. Levei duas horas. Duas horas estressantes.

Foi um bom início.

 

O caminho, assim como meu treino, continuou por campos de grama grandes, subindo e descendo. Logo, seguimos ainda mais para cima com os músculos das pernas ardendo de tanto caminhar, parava sempre que podia — ou quando eles sentiam que perderam o rumo (mesmo com um mapa mágico em mãos).

A floresta não era mais densa, então o frio chegou de repente e neve começou a cair, meus olhos seguiram o floco até desaparecer na ponta de meu nariz, me impressionei logo que vi e perguntei de forma cômica se o inverno poderia ter chegado antes do previsto.

Assim como a ilha, as temporadas de Ecor podem variar chegando mais cedo ou mais tarde dependendo do ano e prevíamos isso quando os pássaros arruavam comida antes de costume e os ursos desapareciam duas semanas antes de começar o período de neve. Os homens da ciência explicam que a sua natureza vem da mistura meteorologia com a gigantesca abundância de magia Arcana presente afetando o clima algumas vezes, para mais ou para menos, já os religiosos creem que Pikt, deus da natureza (também filho de Inumar), eles contam que ele tornou o clima desta forma para tornar a ilha única entre o resto do mundo.

Não era para estar assim.

Temporizador parou sua caminhada, observando o limiar da neve nas folhas acima, vê-las se formando é como ver uma flor desabrochar ou uma borboleta sair do seu casulo. Ele dá mais alguns passos passando por um arbusto com pouca neve e vê um átrio de pedra esquecido e queimado, coberto pela neve que parecia estar mais pesada e o frio mais penetrante. As pegadas do Cavaleiro se tornavam estranhamente macias sobre a neve afundando como se estivesse procurando a grama escondida.

— Ainda estamos no caminho certo? — Erik pergunta.

Shaw, próximo de um pilar destruído, observa os hieróglifos escondidos, riscados como se alguém quisesse profaná-lo de propósito. Ele arrasta os dedos sentindo a textura e o corte na vertical. Ele olha de cima a baixo sem mudar a expressão.

— É — Shaw comenta baixo. — Ainda no caminho certo.

Engulo seco.

Erik estava tão perdido quanto eu, mas ao menos eu sabia que estávamos indo em direção Norte. Ele estava totalmente à deriva, mas seu mapa mágico nos ajudava quando podia. O Cavaleiro chegou perto da fundação do estábulo no centro do átrio na qual, logo à frente, há apenas a marcação da porta e uma chaminé rústica quase inteira. Ele checa as marcações analisando seus traços enquanto o pequeno dragão brincava na neve perto dele.

Estamos perto, vamos.

Ele segue mais à frente para além do átrio e chegamos na entrada de uma pequena vila afundada em neve lembrando um campo de plantação de algodões, tão branca que as nuvens do céu teriam inveja se pudessem falar. Pobre vila.

O portão já vira dias melhores e o playground ali perto é tão enferrujado que pode ser que ao encostar você já contrairia tétano. A Vila não parecia ter mais que 2 hectares. A rua principal (praticamente a única) era a única com a neve descoberta com a trilha de tijolos laranja-avermelhado ligando à estabelecimentos adiante. O vento uivava de leve mexendo a ponta das árvores e farfalhando algumas poucas folhas como se quisesse as fazer cair propositalmente. Nossos passos estavam calmos e meticulosos, olhares atentos e ouvidos vigilantes, pois numa rua silenciosa daquelas nunca se sabe o que pode acontecer. Minha sobrancelha franziu, preparei-me mentalmente para sacar meu cajado para a batalha a qualquer momento.

Shaw percebeu meu instinto ansioso.

— Mantém a descrição, quanto antes demonstrar que está desconfiada, maior vão perceber que não é confiável.

— Mas e se houver confusão? — retruquei, baixo.

— Eu disse para manter a descrição e não para não ficar vigilante.

Temporizador segue para um canto, um estabelecimento, um salão com quartos para alugar. A porta de madeira possui entalhes e decorações típicas de uma vila agricultora e de lenhadores. A cabeça de urso no meio com os destes à mostra era o charme do lugar. A quietude não parecia se comum ali, no forro um lustre de galhas de cervo iluminava as mesas redondas cobertas com poucos ali num jogo de cartas ou se aquecendo na bebida com o frio de fora.

— Que triste… — comento com dó no meu coração. O lugar estava parecendo um canto reservado para a solidão. Qualquer um perceberia isso se pisasse os pés ali também.

— Você se acostuma. — Shaw diz.

Num canto da sala — à direita de quem entra — se vê um velho caçador com sua bebida coberto por pelos de suas caças de outrora.

— Olhem só — ele dá uma pausa nos olhando atravessar o salão com as pálpebras tão cansadas quanto sua voz. Sua voz, serrada e abafada também. — Mais bastardos vieram para enfrentar essa nevasca, tudo, apenas, para ir atrás dela.

Tomamos nossos lugares no balcão.

O velho ajeita sua velha bacamarte, de cano longo, em seu colo — com ferrugem e aspecto de que já viu dias melhores, caçadas melhores. Ele ergue o copo brindando nossa chegada.

— Boa sorte.

Ele toma seu gole de whisky.

Eu o olho por cima dos ombros. Erik cutuca meu cotovelo agitando a cabeça, era uma má ideia dar ouvidos para um tolo como aquele senhor, mas ele me intrigava. Sinto que já o vi em algum lugar. Erik sabia disso. Cidade desconhecida, pessoas desconhecidas. Permanecer quieta sem bate-papo com quem não conhecemos, ou sem necessidade, poderia salvar minha vida algum dia. Ele me olhou com preocupação. Eu assenti. O Barman surgiu do chão colocando um novo cilindro como bateria para seu braço esquerdo. Ele o agita e nos serve com seu caloroso cumprimento.

— No que posso lhes ser útil?

Ele agita seu bigode de barman enquanto ajeita seu cabelo ralo no meio. Fofo.

Quartos, por uma noite. — Temporizador deixa a moeda no balcão.

— Ficarão em duplas ou…

— Sim! — Shaw o corta. — Duplas. Perdão, não temos muito para individuais.

Eu queria um individual.”

 

Os quartos nos foram dados. Um de frente ao outro, a maçaneta, ao que notei, é bem polida e com cor de cobre. Quarto simples para pessoas simples, vai servir muito bem. Logo que abri a janela fora a primeira coisa que mês olhos acharam após ver minha sombra no chão de madeira. Abaixo do peitoril uma pequena mesa de cabeceira, servindo para ambos os lados com um abajur desligado. À princípio achei até simples demais, mas o entusiasmo de Erik com o quarto me fez perceber que até mesmo esse tipo de acomodação é para suficiente para alguns, vê-lo animado em conhecer o quarto me tirou um sorriso do rosto. Vê-lo conhecer nosso mundo é como ver um bebê atiçando a curiosidade.

— Quer ficar com qual cama?

— Tanto faz — dei de ombros adentrando o quarto.

Erik pegou a cama da esquerda.

O banheiro ficava no fim do corredor e eu ansiava por um banho. Na cama há toalha de banho e u sabonete individual, sentei-me na cama de mola e apreciei o áspero tecido da toalha, de fato estava com saudade disto. Tomar banho ao ar livre não é a mesma coisa que em um chuveiro com água quente e, principalmente, privacidade. Segundos depois percebi que Erik estava retirando sua camisola de costas para mim. Suas cicatrizes nas costas são intrigantes e atraentes ao mesmo tempo, mas algumas possuem um padrão seguindo até seu pescoço. Senti meu rosto ruborizar quando meus olhos, tão arregalados quanto os de um peixe, o serpenteou. Fiquei sem palavras, mas é nítido que as batalhas que ele travou foram majestosas, dignas de canções e lendas para se criar. Quando suspirei, involuntariamente, ele volta a si percebendo que estava se despindo comigo ainda ali. Ele se vira pedindo desculpas como se tivesse cometido um crime, e idem vale para mim que tento me explicar, futilmente.

Ambos ficamos sem jeito.

— Érr… De onde vieram suas cicatrizes?

Nossos rostos não ousavam se virar, extremamente envergonhados.

— Nós a conseguimos juntos… bom, deveríamos, não sei se você as ainda têm… — ele joga a toalha por cima do ombro. — Algumas conseguimos na Batalha dos Caídos e alguns outros…

Ele mudou de expressão, parecia entristecido com algo ou acontecimento. Ele, então, diz:

— Éramos nós contra o mundo… Isso antes do Evento Blackout… depois você nos deixou, quando mais precisávamos de você…

Meus olhos se voltavam para ele aos poucos.

— …por quê? Por que foi embora?

— E-Erik, eu…

— Tudo bem…, você não se lembra mesmo. É melhor deixar isso de lado, eu vou na frente tomar um banho logo.

Eu não consegui proferir mais nada, ele saiu me deixando com uma culpa que eu nem sabia que eu tinha de um passado longínquo. Meus lábios se estreitaram e meus olhos procuravam algo no chão sem saber o que é, talvez alguma resposta escondida ou um jeito de me desculpar com ele, mas como fazer isso sem mesmo saber do ocorrido? Ou de nem mesmo se lembrar deste? Não há como, é como procurar pelo em ovo; a culpa, é claro, permaneceria até sei lá quando.

Não fique assim, garota. Ele não sabe. Mas um dia vocês devem se entender.”

— É que… eu não entendo e mesmo assim me sinto culpada. — Engulo seco com expressão triste olhando para os meus pés tocando o chão. — Ele coloca sobre mim uma visão de alguém que não sou. Uma outra versão de mim…

Sombra sabe do que falo, ela sempre sabe. Sua breve fala passa a impressão de que eu estou disposta a sacrificar o necessário para salvar tudo, de certa forma soa como algo ruim. Não sou esse tipo de pessoa. Não sou. Toco no bracelete da Lilith no meu pulso como se eu procurasse sua concordância ou seu apoio naquele momento.

Depois de uns minutos eu abro a porta do quarto e me deparo com o velho bêbado se arrastando pelo corredor até sua porta, ele balbucia enquanto mal consegue carregar sua arma. Ele, enfim, entra no seu cômodo alugado. Do banheiro, Shaw sai já com traje de dormir gesticulando que o banheiro está liberado enquanto limpa seu cabelo com a toalha.

Após tempos, enfim, um merecido banho. Assim que limpo o espelho do banheiro me olho por uns instantes, pareço uma múmia enrolada com uma toalha no corpo e a outra no cabelo, mas o rosto é de alívio. Estava contente em poder relaxar mesmo que por pouco tempo, Temporizador avisou-nos de que o frio acoberta meu rastro e é difícil a Praga se alastrar no frio, ela prefere o clima equilibrado então eu podia despreocupar, mas ao chegar no quarto a janela mostra uma tempestade de neve se formando lá fora, mas o estranho foi não achar Erik no quarto. Onde ele está? Ponho minha cabeça para fora do quarto chamando por Erik não tão alto, olho para os lados, nada dele. Ouço falas no quarto vizinho e, ao me arrumar rapidamente, chego perto com os olhos na fechadura: os três estão em reunião discutindo algo.

Tomo coragem para enfim bater na porta, nervosa. Mas antes que meus dedos encostassem na madeira, Erik me recebe com uma leve surpresa no olhar, os três parecem prontos para partir para algum canto. Cumprimento-o e, sem perder tempo, questiono sobre o que estava acontecendo, ele, a princípio, não consegue se comunicar.

— Você não vem conosco. — Shaw é direto cortando Erik.

Minha expressão muda de supetão

Mais uma vez, questiono-os.

— Seguiremos para o Norte além da cidade — Temporizador diz. — Acreditamos que esta tempestade é causada por algo sobrenatural. Um Objeto de Poder.

Meus olhos se abriram de leve, ouvir que um Objeto de Poder é capaz de manipular o clima de tal jeito deixou-me incrédula, e maravilhada também, tal item mágico parece ser diferente de qualquer outro, capaz de invocar uma tempestade invernal em segundo apenas na pura vontade se quiser se assim o portador desejar. Minha mente já fervia nas possibilidades de se criar: castelos cristalizados, criaturas e monstros encantados de nele, é como pensar no impossível se tornar possível. Notei meu lado nerd tomar conta de mim, mas consegui guardá-lo no mesmo instante sem que transpareça. Eu certamente não queria perder a chance de testemunhar o feito de um item como este, mas no momento isto não está sob meu capricho e claramente já tenho minha resposta dada antes mesmo de formular alguma frase. Óbvio, me frustrou. Pensar que estarei de fora desse feito é como pedir para arrancar um membro meu.

— Certamente que não! Eu irei.

Eles saíram em direção ao salão à baixo. Eu estava logo atrás, mas minha presença fora detida pelo Cavaleiro Atemporal. “Você não está preparada para esse tipo de situação”, o Cavaleiro me diz.

 — Mas… eu enfrentei criaturas que vocês me pediram e estão me preparando de corpo e alma. É meu direito ir com vocês para a batalha que virá. — falei gesticulando.

Você. Não. Está. Pronta.

Em cada palavra eu o encarei. Em cada palavra ele me encarou. Em cada palavra ele cutucou abaixo da minha clavícula, como um aviso. Meu olhar desaprovado permaneceu o fitando até ele quebrar o silêncio indo embora com os meninos.

— Não vamos demorar — disse Erik, com otimismo no tom. — Vamos achar o Objeto e voltaremos.

Eles atravessaram a porta. O forte vento uivou para dentro como um convidado indesejado chegando até o parapeito em que eu estava no andar de cima. Meus cabelos suavizaram no ar levemente. Em outras circunstâncias isto poderia ter sido apreciado apropriadamente, mas ali, naquele momento, eu estava frustrada, com raiva de ter sido deixada de lado. Naquele instante relativo eu não conseguia enxergar a razão nas palavras do Temporizador, eu não estava mesmo preparada, mas a raiva cegou meu raciocínio e tudo o que posso fazer é me amargurar no balcão com o proprietário.

Sentei-me com a cara mais amarga que o sabor puro de um limão. O Barman ofereceu alimento por conta da casa, mas não sentia fome, se fosse o caso pedir-lhe-ia algo para comer de imediato. Apenas aceitei sua bebida: um copo de suco fresco de uva com maçã. Ele enfeitou o copo transparente com um canudo encaracolado até perto de onde a boca tocava, fazia menos curvas que as Estradas de Ferro, mas estava mais colorido que o ambiente, o toque final é o pequeno guarda-sol. Encarei o abismo escuro da bebida tentando achar o meu reflexo enquanto a memória me fazia rever involuntariamente o Temporizador recusando minha ida.

— Não deveria me envolver, mas… ele está certo em deixá-la de fora. — disse o proprietário. Eu o olhei de canto sem responder, mas ele entendeu o que estava para sair da minha língua. — Quero dizer… olha para você, madame. Seu rosto é de alguém de classe, certamente, e andas com bastardos que procuram um artefato imaginário pela glória.

— Não buscamos glória. — Retruquei com frieza. O que mais me impressionei fora ele não perceber quem sou para falar de tal modo.

— Garota, todos os bandos que passaram por aqui procuram tal artefato nesta nevasca dos infernos que só Innumar sabe se é real! Todos buscavam glória. Todos voltam de mãos vazias, ou nem mesmo retornam.

Me mantive calada por um tempo. Voltei a observar o vazio escuro do copo, dou um gole sentindo um doce gosto descer pela garganta depois de dias, quando percebi já estava vazio.

Acordei de repente com Sombra me chamando, abri os olhos vendo o mundo na vertical. Pisco algumas vezes com os olhos estreitos e sobrancelhas franzidas. Ergo a cabeça buscando orientação enquanto esticava meus músculos. O balcão está vazio. O ar é gélido e o ambiente propenso à uma escuridão ambiente com poucas luzes. Pisco e olho ao redor como um filhote querendo chamar pela mãe.

Eles não retornaram”

— Não retornaram? — repito, trotando para a janela amarelada. Vejo no relógio da parede, eles saíram perto das 20h, já são 2h44 da manhã. Isto passou a me preocupar. Erik me garantiu que seria algo rápido. Um item como aquele certamente não seria fácil, sei disso, minha mente imaginava as mais façanhas armadilhas que guardavam o Objeto. Isto só piorava meu medo e preocupação.

Aquela foi a gota d’água. Negava permanecer aqui na estalagem aguardando como uma simples donzela sem meios de lutar. Não. Eu nego. Sombra percebe minha vontade e não me impede, pelo contrário ela questiona como se tivesse me estimulando a ir atrás deles. É claro que irei, rapidamente subo indo de encontro com o meu quarto para buscar minha arma, o cajado. Minhas mãos tateiam debaixo da cama arrumada e branca até sentir a haste fria. Busco um casaco e um cachecol, os mais grossos que encontrei. Meu passo acelerado é evidente até quando descia as escadas, isto despertou o interesse do caçador que mais uma vez estava no seu trono às sombras, espreitando.

— Não vai conseguir chegar a ela — ele dirige a mim. Rapidamente paro meus passos e fito sua silhueta. Ele continua:

— Você… você se perderá neste inverno amaldiçoado. A menos se souber a direção certa e conhecer a floresta.

Minhas sobrancelhas estreitam de leve.

— Eu dou meu jeito.

Assim que toquei no puxador elegante da porta ele pontuou num tom condescendente.

— Você não entende, jovem — ele solta uma tosse, tão seca quanto o ar que respirávamos. — Eles foram atrás da Rainha Gélida. Todos vão. Ela é a responsável por amaldiçoar a cidade com este inverto não frio capaz de queimar nossa pele em minutos.

Me aproximei dele com cautela, ele soltou mais algumas tosses e bebeu um gole do seu copo na falsa esperança de que amenizaria sua condição.

— Rainha Gélida?

— Dizem ela já fora uma donzela, com súditos inconformados e um reino desgastado. Tamanha era seu desejo de sair das garras de seu próprio governo, até que os deuses ouviram suas preces e a concedeu tal liberdade com o poder de ser tão fria e tão poderosa ela dizimou o reino e partiu em busca do canto mais isolado possível para criar e viver sob suas próprias regras. Alguns ousam dizer que a frustração de viver por anos sozinha e sem companhia a fez enlouquecer em seu próprio monumento gélido.

Senti-me engolir seco diante da história tenebrosa, Sombra, sarcasticamente, repensava a necessidade de ter aqueles três conosco. O sermão do velho prosseguiu com algumas tosses pelo caminho.

— Você, jovem, mesmo se achasse o caminho seria morta em instantes.

— Obrigada pela história, senhor. De qualquer forma ainda irei achar meus companheiros.

— Minha intenção nunca foi lhe impedir de sua cruzada com a criatura, milady.

“Milady?”, pensei. No instante seguinte meus olhos se arregalam e ele os percebe.

— Posso ser velho, mas diferente daquele ignorante barbudo eu lembro da pequena garota que cumprimentei a muito tempo quando fui nomeado Sir pela sua mãe.

É claro, agora fazia sentido! Este velho bêbado é Sir Glorann, um respeitado caçador. Após uma intensa batalha contra uma criatura não identificada, Sir Glorann perdeu a batalha e sua honra nesse dia, se recusando a voltar para sociedade com o nome manchado. Imagino que ele passou a ficar aqui na vila com os habitantes e se lastimar tanto na bebida quanto na vergonha.

Chuto que o monstro que o Sir não derrotou seja esta Rainha Gélida.

— Sir! Desculpa por não lhe reconhecer… é uma honra!

— Deixe as formalidades de lado, milady. Temos uma criatura para matar e seus amigos para encontrar… isso se ainda estiverem vivos.

Ele larga o copo com um forte baque no copo na mesa lateral, seu corpo se esforça para se manter em pé com uma certa exuberância, uma das pernas tremia, contudo isto claramente não o faria recuar diante de mais uma caçada. Uma última caçada. Ele pega sua arma, limpa debaixo do nariz e se arrasta para a porta, chamando-me.

— Afinal — ele diz. —, o que vocês são?

— Somos uma guilda! — falo com orgulho colocando as mãos cerradas na cintura.

Antes de passarmos pela porta, mirou-me cima à baixo levantando uma sobrancelha, notavelmente pressupondo apenas pela minha vestimenta, ele funga o nariz.

— Sei…

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