Volume 1

O Cume

O forte vento frio da nevasca, aparentemente, quer nos afastar do nosso destino. Sir Glorann, mesmo em sua falta de forma, segue guiando-me na tempestade de neve. Seu braço esquerdo protege seu rosto até a altura do nariz com a outra mão segurando sua arma já carregada, cada passo é mais dificultoso que o outro, mas mais firme também. Ele me dera um de seus casacos estra no meio do caminho em consequência da minha estupidez de ter esquecido de trazer o meu. Seu casaco felpudo tentava fazer seu trabalho de me aquecer enquanto o Sir confiava na proteção que sua barba grisalha lhe diferia. Ele esticou a mão que protegia o rosto como se estivesse procurando agarrar algo escondido na nevasca. Ele arfa a cada instante.

— Já estamos chegando? — berrei.

— O quê? — ele responde sem se virar.

— Eu perguntei se já estamos chegando! — meus pés tremem com a neve próxima dos meus joelhos.

— Não a escuto, milady! Mas informo que já estamos quase lá!

— O quê?

Não escutávamos nada naquela merda de nevasca.

Com o tempo meu arfar se tornou cansaço, e o cansaço se tornou desmaio no meio do percurso.

Lembro-me da minha visão embaçar, tontear poucos instantes antes de finalmente vir a desmaiar. Sinto um calor emanar da minha frente, este me faz acordar apoiada numa árvore, Sir Glorann está sentado num tronco afiando seu machado retirado de não sei de onde. Preferi manter esse questionamento para mim assim que meus olhos o avistaram. Uma fogueira fora acesa e ao que supus conseguimos atravessar a tempestade.

O intenso frio se dispersou, o fogo agora aquecia nossos corpos neste lado da nevasca.

Me aproximo e estico minhas mãos ao fogo.

— O que lhe fez sair de casa?

Meus olhos viram para ele por um instante.

— Ando tendo uns problemas… — o despistei mantendo a descrição. Esfrego as mãos próximas ao fogo. — E o senhor, Sir? Por que veio parar neste fim de mundo?

Ele também aparenta se esquivar da pergunta, mas Sir Glorann é orgulhoso, e como todo homem orgulhoso este se deixa levar pelos seus antigos atos e a língua se solta em resposta à pergunta que fiz:

— Após minha batalha no Lago dos Perdidos… eu tive conhecimento de um outro ser. Um Mais volátil e sorrateiro, uma grande criatura de pelugem branca numa caverna.

Identifiquei imediatamente a criatura.

— Um urso? — eu disse quase como um sussurro.

— Aquilo não era um urso qualquer… era um Urso Mágico, feito pela Rainha dessa maldita tempestade infernal. Os moradores da vila me alertaram do perigo, mas eu ainda estava no auge da minha forma, pouco mais velho. E fiz o que qualquer homem pretensioso faria.

— Os ignorou e seguiu até o urso. — Completei sua frase.

Ele assentiu.

— Segui rumo à Nordeste até achar a criatura. Pela primeira vez na vida senti o medo no meu sangue e vi a morte em forma de urso. Quase não saio vivo daquela caverna e naquele dia eu não tomei coragem para voltar, e meu orgulho me impedira de retornar à minha cidade.

Ele desvenda uma das pernas e mostra uma perna de madeira entalhada, fico boquiaberta com a história e a prova em minha frente do cruel destino que Sir Glorann teve para si. Pergunto-me se ele conseguirá ter sua vitória e retornar para derrotar o urso e recuperar sua honra e voltar para casa; meus olhos fitam por alguns segundo seu pé falso seguido de um suspiro involuntário.

— Eu sinto muito

— Não sinta. — Ele venda o membro novamente. — A Rainha é a verdadeira culpada, devemos culpar a ela e sentir pena daqueles pegos por sua feitiçaria… Que Innumar os tenha.

Ele bebe do seu cantil, prestando homenagem.

— Não podemos demorar.

Levantei-me com o mando caindo até metade das minhas pernas. Exigi que Sir continuasse a levar-me até onde a rainha se mantinha.

— Se acalme jovem.

— Não consigo me acalmar sabendo que meus amigos foram raptados! Você me disse que iria me ajudar a resgatar eles.

— Eu disse que lhe ajudaria a achá-los — ele retruca terminando de afiar o machado. — Há diferença. E, milady, mesmo que seguíssemos, é impossível passar pela parede gigante.

— Mas que parede gigante?

O velho apontou por cima dos ombros o caminho, no cume logo acima. Não havia nada lá, chegando perto bato com a cara na tal parede dita por ele, ela vibra com o choque desavisado da minha testa, a parede se estendia até os céus não sei como e isto me impressionava quase tanto quanto me desapontava por não conseguir prosseguir caminho. O velho afirma que pode apenas passar se a Rainha capturar o invasor. Que intrigante jeito de passar, mas certamente um tanto quanto burro. Tem que haver outro jeito, não irei me render e ser pega, não, não, entrarei nem que seja à força literalmente. Me lembro que uma força descomunal já me apareceu antes no Dia da Criação então, agora, torço para que esta se mostre ainda presente como se mostrou nos dias de meu treinamento. Não derrotei um Golem sozinha à toa.

Retiro o casaco do Sir. Monto meus punhos cerrados e dou o primeiro soco.

            *BAMP*

A parede estremece, mas não cede, já minha mão, por outro lado, cede à dor e ardência; agito-a enquanto assopro o local vermelho gemendo de dor. “Por que derrotar o Golem foi tão mais fácil do que quebrar essa parede?”, pensei. Sir Glorann gargalhou um pouco enquanto me via tentar. A neve não me ajudava nem um pouco, é questão de tempo até meus pés perderem forças para o frio por eu me afastar da fogueira, devo me apressar o quanto antes.

            *BAMP*

Outro soco é desferido. E mais outro.

Mesmo doendo eu colocava mais força a cada vez. O velho me viu tentar cruzar à força, viu minha determinação e isto o faz refletir, refletir seus atos de quando uma vez fora jovem como eu, mas um jovem ingênuo e procurando uma nova batalha para se vangloriar ou saciar seu orgulho de ser um grande Sir naquela época, uma época em que ele ainda sente orgulho, mas se repreende pela falta de humildade que hoje ele vê que lhe faltava. Pobre Sir. O seu olhar de admiração cai sobre mim, e nisto ele talvez possa crer que conseguirei romper a barreira, mas seu lado cínico ainda berra tentando abafar esta pequena brecha de luz em mim. Ele olha o seu machado de bolso. “Quantas vezes eu já não a afiei?”, talvez ele tenha a afiado mais vezes do que se repreendido até sua velhice atual.

— Vamos, vamos!

Não importava o quanto, parecia mesmo indestrutível, um gelo indestrutível afinal. Eu já arfava de tanto socar, meu corpo pede descanso e o concedo. Apoio-me nos joelhos inclinada para frente enquanto recupero meu fôlego.

— Não pode ser assim, não pode…

Onde está Sombra quando preciso de conselhos dela?

— Está tudo bem, milady. — O velho diz se aproximando. — Eu mesmo já tentei uma vez também quando cacei o urso. Nunca passei por isto, e talvez ninguém nunca irá. É um fato. — Sir Glorann se vira e caminha de volta para a fogueira.

Um fato…, é claro que sim. Meu caminho todo fui seguindo fatos ditos a mim, mas desta vez será diferente. Sim, irá.

— Eu não sou qualquer uma, Sir. Pode parecer fato isto ser… indestrutível… — sigo arfando. —, um local inexplorado…, mas isto não vai me impedir… — volto a socar mais forte. —, pois me ensinaram que o inexplorado pode ser catalogado… o inalcançável, ultrapassado… e o fato…

As palavras mexem com o Sir que ouve, ele virou-se mais uma vez para mim intrigado.

— …Contornado!

O último soco que dei estilhaçou a parede em diversos cacos formando uma entrada arqueada. Sir Glorann vislumbra meu feito deixando vazar a bebida de seu cantil estando boquiaberto e de olhos tão arregalados como nunca. Tal feito nunca havia sido realizado, ele lembra de tentar passar o local usando tudo o que tinha enquanto eu, uma princesa fora de seu reino, consegui abrir um buraco com apenas socos e força de vontade. Talvez ele tenha caído num sonho do qual acordaria a qualquer momento, até deu uns tapas no próprio rosto como garantia, mas fora em vão, viro-me para ele acenando daquela parte de cima do cume.

— Que Innumar a abençoe…

 

⸗⸗⸗

Nossos passos tornaram-se mais leves, uma névoa amaldiçoada nos fomenta a seguir rumo à diante no desconhecido, Sir Glorann está tão perdido quanto um coelho sendo perseguido, quanto a mim permaneço firme, invoco meu cajado para minha própria proteção como medida defensiva e ataque. Minhas mãos, segurando na haste, estão na altura do meu peito enquanto procuro manter a respiração calma na névoa densa. Os cristais cintilantes servem como lampejo iluminando nossa estrada sem rumo, a neve fofa se desfaz aos poucos para uma fina camada já mostrando a grama e o início da madrugada, enfim, soltava as estrelas em cativeiro. O caminho segue subindo entre algumas pequenas pedras e troncos de árvores.

Ambos estávamos tensos, nossos corações palpitam enquanto as mãos tremem mais pelo nervosismo do que pelo frio em si com a espera de uma batalha sendo o nosso aquecimento interno quase reconfortante.

A névoa se dissipa mostrando o fim da escalada à diante com nosso objetivo. Uma casa aos pedaços está posta bem na beirada quase direto para o penhasco após o cume, a casa está praticamente em ruínas.

— Lá está. — diz o Sir.

Ele agacha contra uma rocha e aponta, seus olhos enrugados se tornam ferozes por uma caçada. Me junto a ele guardando a luz do cajado. Nosso objetivo, nosso inimigo, está logo à diante, minha vontade é ser direta e chegar com o pé na porta, Sir impediu este meu ato tolo e explicou-me com agir diante de uma presa: alertá-la diretamente é o pior a se fazer, deve estudar, analisar, após ter bastante informações do comportamento da caça, é neste momento que devemos atacar. A imprudência é o pior inimigo do momento. Sir Glorann me instruiu o que fazer, mas seu plano não parecia ser o dos melhores.

 

 

Me aproximo do casarão em ruínas devagar, minha mão está inclinada para frente com a palma aberta e o corpo de lado, mantenho a respiração calma mesmo nervosa e paro no pé da porta repensando todo o plano e se realmente funcionaria, em resumo o plano consiste em me aproximar aos poucos da Rainha, estudar e esperar o sinal para agir. Sir Glorann deixou-me apenas com isto e sumiu nos arbustos brancos da noite. Minhas sobrancelhas estreitam quando vejo uma luz num dos cômodos assim que abro parte da porta, o chão é imundo e a neve tornou-se cinza. Uma trilha é formada como se o caminho feito com as pegadas fosse refeito diversas vezes de forma quase ininterrupta. Meus passos leves me levaram para o próximo cômodo onde pude claramente ver o fogo aceso.

Cuidado, garota.

“Você diz isso apenas agora?”

Antes de avançar, puxo meu cajado e o ponho de prontidão. Respiro algumas vezes pela boca sentindo o coração pulsar antes do combate; num salto (ou quase) vou para o cômodo seguinte, o fogo ardente está só ali, apenas ele e a sujeita, nos cantos vejo alguns restos de peixe pela neve no cômodo de três paredes.

Vazio. Estranho…

— Sim… Muito estranho.

Meus olhos piscavam sem entender o que eu deveria estar vendo… ou procurando. À frente, depois do fogo, há uma janela quebrada com uma veneziana rasgada com vista para uma lagoa logo abaixo do cume. Vejo o que há além por uns instantes.

É uma bela queda. Se joga daí, vai.

— Sombra, deixa de brincadeira, temos que achar eles logo.

— Achar quem? — uma voz feminina falou.

Tomei um baita susto e bati a cabeça contra a parte superior da janela. Olho para trás e vejo uma criança na minha frente, ao menos aparenta ser uma criança segurando um peixe grande numa das mãos, ela chegara ali o arrastando pelo caminho pude deduzir isto por causa do rastro de escamas no chão. Ela me via com curiosidade, mas o mesmo tempo com um vazio no olhar e na expressão. Ela não aparentava ter mais do que treze anos. Vestia um casaco semiaberto quase maior que seu corpo com apenas um short curto e nada mais, seus pés sujos estão com lama na sola por ter caçado no lago abaixo e seus cabelos longos são brancos e sedosos.

Nos encaramos por um instante deixando o momento tenso e pesado para os que olharem de longe. Ela parecia uma boneca cuja alma é vazia de expressões, seus olhos grandes e profundos mal piscam enquanto me encaram, cianos e belos como a noite. Eu sei que eu deveria me pôr em modo de combate, mas esta garota não parecia fazer mal algum, olhei de canto nos dois lados apenas para ter certeza de que estávamos a sós.

— Quem é você? — sua pergunta é quase tão fria quanto a neve, mal tinha sentimentos na fala e isso me deixou em alerta instintivamente.

— Ninguém importante, só estou de passagem… procurando meus amigos…

— … — ela olhou para o peixe o levantando um pouco. Ela é deveras forte para carregar aquele peixe. A pequena esticou o braço e me ofereceu dividir o peixe para o jantar. Minha vontade é de recusar, mas com aquele olhar medonho me obrigava a ficar e aceitar o convite.

 

O fazia muito tempo que eu não comia algum tipo de peixe, as mercadorias de peixe são guardadas para ocasiões especiais por preservarmos bastante a vida marinha, então não há muita pesca para o reino em virtude de respeito às criaturas e seu ecossistema. É claro que, apesar de estar assado, faltava tempero, sal e outros condimentos, mas para esta garota na mata isto é um tremendo banquete provido por Innumar. Enquanto o resto do peixe assava a garota abocanhava pedaços do peixe com maestria quase como se ela tivesse que dar o primeiro ataque antes que a carne fugisse de seus dedos. Eu a observava enquanto mordia o filé na minha mão. Ela se senta torta, o cabelo quase toca no chão e seu rosto estava começando a me incomodar por estar com algumas escamas pela bochecha.

— Está me encarando tanto por quê? — ela diz sabendo o modo que meu rosto está se comportando sem eu perceber.

Assim que percebo me coloco em respeito quanto a ela, sou sua convidada e não deveria estar desrespeitando-a desta forma. Depois de muito tempo me vi colocando em prática a educação que recebi por ser princesa ao estar na presença do anfitrião. Já faz tempo…

— Perdão, eu só… Você está com alguns pedaços de… — gesticulei com a mão — …pedaços de escamas de peixe ao redor da sua bochecha.

No instinto estiquei meu braço para perto dela e usei a manga da minha camisa como pano para limpar as bochechas carnudas dela. Ela estranhou, certamente.

“O que foi que eu fiz? Limpei a bochecha da minha inimiga?!”

Que doce seu gesto, quer colocar ela pra dormir e contar histórias de terror para ela dormir também?

“Ela é só uma criança”

E daí, porra? Ela não hesitou em criar esta enorme temporada de neve tão duradoura apenas por diversão, sem falar que essa garota assassinou vários homens e mulheres que já vieram atrás dela. Aquele velho nos afirmou isso.

“Não acredito que tenha sido ela, ela é só uma criança”

Que está carregando uma das armas mais poderosas do mundo

Sombra disse algo que eu não havia notado, de fato.

“Ela não está armada, não diga bobagens”

Não, claro que não. Só esse Objeto de Poder em formato de casaco que ela está vestindo. Garota, achava que você sabia.

O casaco, é claro. Meu erro fora não ter, pois, notado o Objeto de Poder com ela, mas como eu tirarei tal coisa do corpo desta garota? Na conversa, certamente, não funcionará e pedir para entregar é idiotice. Não quero recorrer à violência com esta garota e não quero ter que arrancar dela a força.

Vamos ter que tirar dela de algum jeito

“Não vou machucar uma criança”

Sombra expeliu sua forma para trás da garota que ainda comia seu peixe. Ainda acho interessante que mesmo ela se materializando apenas eu consiga vê-la.

— Garota, nunca subestime seu oponente. Mesmo que seja uma criança. — Sombra agarra a cabeça da garotinha. — Sempre esteja preparada para cair numa briga e garanta que você terá a vantagem de subjugá-lo. Ela pode parecer fofinha e inofensiva, mas se piscar ela irá congelar seu corpo mais rápido do que uma forte nevasca.

Engoli seco ao ver Sombra gesticular enquanto falava. Ela sumiu.

— Você é gentil — ela me diz, olhando para a comida.

Eu me mantenho calada pelo elogio inesperado.

— Você é de verdade? — ela me perguntou. — Você… está mesmo aqui comigo?

Que tipo de pergunta é esta?” pensei comigo mesma. Só com esta pergunta já supus o que poderia ter acontecido com esta garota, sem pais ao redor e sozinha nesta floresta com uma arma tão perigosa que ela acha apenas que é um casaco para se aquecer. Pobre criança.

— É-é claro que sou real… Por que eu não seria?

A criança para de olhar-me e se volta para o pedaço de peixe na sua mão.

— Pessoas já tentaram vir atrás da minha mãe, machucar ela. Então, fiz com que nenhuma dessas pessoas voltassem para machucar a mamãe.

Sua voz fria e sem emoção, agora, parece melancólica.

— O que fez com elas? — perguntei escondendo o medo o máximo que pude, quem sabe assim eu saiba o que houve com os outros.

— Não importa agora.

Meus olhos piscam com o olhar em decepção se voltando para o assoalho onde eu estou sentada. Meus sentidos apurados escutam o movimento do Sir Glorann entre as árvores e arbustos quase pronto para agir. Meu rosto se vira para olhar longe, mas percebo que isso atiça a curiosidade da garota.

— Então!? — digo sem jeito, em alto tom. — O que você faz para se divertir?

A garota olhou-me por um instante e permaneceu em silêncio, ela parecia não entender o que esta frase significava, seu rosto entrou num estado de confusão piscando com mais frequência e se mostrando mais relutante, talvez eu tenha despertado outra curiosidade nela, mas dessa vez em saber o que “diversão” significa. Eu a olho cima à baixo.

— O que você faz aqui? — ela pergunta mordendo outro pedaço de peixe.

— Estou… procurando meus amigos, meu grupo. Eu…

Eu precisava de alguma história, não podia contar que eles vieram atrás do Objeto que ela carrega, seria o mesmo que dizer que também estou atrás dela, mesmo que tecnicamente não seja ela em si. Precisei bolar algo rápido. Então, falei:

— Eu me separei deles por acidente durante a nevasca que houve. Estou procurando por eles desde então.

À princípio pensei em mostrar uma foto que tenho de nós 5 (contando com o pequeno dragão), mas isto também entregaria meu disfarce. Ela não parecia se importar tanto, ajeito seu cabelo para deixar seu rosto mais visível e isto a intriga.

— Apenas mamãe faz isto… — diz a pequena.

— Ah, sinto muito eu…

— Tudo bem, apenas nunca vi outra pessoa fazer isto… — ela ruboriza um pouco.

Solto um sorriso carinhoso para ela e um olhar sereno, inclinando a cabeça para ela como sinal de que não farei mal a ela. Esta garota certamente nunca interagiu com outro ser humano, sua linguagem corporal demonstra isto.

— Me chamo Ayla. — Soltei sem pensar.

Por que se apresentou a ela?

— …Amora — a garota diz. — Seu cabelo é igual ao meu.

— É sim. — Mantive o sorriso para ela.

 

Conversamos mais um pouco e ela foi se abrindo, de forma tímida, claro. A garota tem um passado perturbado, sem conhecimento do pai ou da sociedade, e a floresta é tudo o que ela já conheceu na vida, mas de forma limitada até onde a neve pode chegar e, ah, sem falar da vila lá abaixo. A garota nunca pode chegar perto, pequenas fumaças entre as árvores lá abaixo do morro é tudo o que ela sabe, e o vento aqui de cima é tudo o que ela já sentiu. Pobre garota, ela não teve culpa de nascer aqui isolada, nascida e criada apenas pela mãe e ensinada que homens virão em busca pela sua mãe, isso explicaria o motivo de eu não ter sido atacada. Ela fora ensinada a atacar homens que buscam a mãe dela, não mulheres. Agora isto faz mais sentido o motivo do desaparecimento dos 4 patetas. Mesmo com nossa conversa e uma conhecendo a outra, eu ainda tinha um objetivo e irei cumpri-lo.

— Estou indo mãe!

Ela, rapidamente, se levantou e trotou até o quarto próximo. Agora a curiosidade dela passou para mim, ela havia respondido ao chamado da mãe, mas não houve chamado algum, talvez outra coisa da cabeça dela também com certeza, acabei seguindo-a em querer conhecer a mãe dela. Mas uma garota como ela ter este comportamento é de se estranhar, apenas ela e a mãe aqui… ela não deveria mostrar sinais de delírio. Então por que sinto essa sensação de desconforto?

Pisando com calma até a porta vejo a pequena de joelhos para a cama, perto de o que parece ser brinquedos de madeira, colada na mesma parede que a porta. Ela segura uma mão, uma mão de cor escura, seca e decomposta. Meus olhos serpenteiam a região da mão, segue pelos braços tão finos e secos que mal aparenta ter músculos ali, os ossos se mostram mais visíveis sob a pele do que a cor natural desta, escura como carvão lembrando um cadáver pútrido recém-retirado do próprio caixão. Meus olhos chegam nas poucas partes visíveis do corpo dela, aparentemente nu, coberto apenas por trapos remendados usados para acobertar o corpo neste frio comum para elas, mas o rosto… vê-lo me estremeceu e atormentou-me por um tempo após este dia, seu rosto demarcava a morte, olhos fechados e fundos, lábios tão secos e finos como se nunca haviam provado um copo d’água; a maçã do rosto deixa à mostra partes do crâneo e a pele tão flácida quanto o resto do corpo. Cabelo tão ralo quase não podendo afirmar que há cabelo ali além de fiapos restantes jogados do que deveria ser um travesseiro. E para meu horror seu peito ainda mexia.

Eu claramente via um cadáver. Um corpo se decompondo lentamente por sabe-se Innumar por quanto tempo, ela não emitia som algum, ou balbucios ou pigarros. Como ela ainda está viva? Amora comenta para a mãe, assim que nota minha presença, que não vim fazer mal, pois para a garota a mãe havia ficado pouco histérica. Chamou-me de amiga.

Ela retira o casaco e o põe em cima do corpo da mãe.

Engoli seco.

O que eu estava vendo era realmente real?

O velho está se posicionando para o abate, garota. Cuidado.

As paredes à minha esquerda estão derrubadas mostrando a queda descomunal até lá embaixo no lago e o horizonte trazendo a ventania para dentro. Está frio, de fato. Sombra amplia meus sentidos, faz-me ouvi-lo apontar a arma para fora do arbusto, arma carregada e dedo no gatilho.

 

BANG!

 

— Oras, milady. Saia da frente! — rugiu Sir Glorann saindo dos arbustos e se aproximando da estrutura da parede. — Saia da frente.

Ele levanta a arma já a tendo recarregada.

Eu protegi a garotinha do tiro mortal que ela levaria, Sir Glorann vê meu ato como tolice sem sentido, mas após conhecer a garota sentimentos de proteção, empatia e solidariedade tomaram conta de meus movimentos e a agarrei e jogue-a comigo sobre o chão pouco antes da bala disparar. Meus movimentos foram quase tão rápidos chegando se comparar à bala que atingira o resto de uma parede. Caberia um dedo inteiro naquela espessura de buraco. Eu arfava, com o corpo ainda a protegendo a pequena. Assim que abaixo o braço protegendo meu rosto, mostro minha expressão de espanto. Pisco algumas vezes ao olhar para o velho Sir Glorann. “Por Ínnumar, essa foi quase”, pensei.

O que está fazendo?

— Vamos, princesa. Eu estava com ela na mira, saia!

— Espere, Sir… — estendo o mesmo braço que me protegia, com a palma aberta na direção dele. Aurora estava assustada demais para falar algo. — Sir, por favor é só uma criança.

— Que matou homens, quantos mais ela matará se a deixar viva?

Seus olhos selvagens me encaram, ele almeja a morte da garota. Uma garota pequena por volta de seus 14 anos na mira de um velho caçador experiente. Minhas palavras não têm efeito, eu sei, mas eu precisei tentar entrar na cabeça dele, mas eu só arranhava a superfície.

— Milady veja o que esta, esta… coisa fez com quem ela conhece — seus olhos viraram para o corpo da mãe da Amora. — O que garante que ela não fará isto com você. É preciso cortar pela raiz, princesa.

— Sir, ela é só uma criança!

— Que matou muitos. Sinto muito milady. — Sir Glorann levantou a arma na nossa direção. — Sinto muito.

Seu dedo está no gatilho, pronto para o puxar. Meus olhos abrem como de uma presa vendo seus últimos momentos diante do caçador, a pequena se agarra ao meu braço com medo e sinto seu coração palpitar tão rápido que parecia ser de um coelho. O momento pareceu uma eternidade, meus olhos encarando o buraco da arma como se já estivessem esperando a bala sair e meu pulmão trabalhando sobrado devido ao medo constante de sentir o ferro penetrar na minha carne assim que ouvir o tiro. Uma imagem horrível passou em minha mente. Fechei os olhos tranquila de que fiz o certo em proteger a criança, mas tudo o que ouvi foi o cão da arma acertando o gelo se formando na arma. O velho não notou, tentou mais duas vezes e percebeu, pois, a arma se congelando em sua mão, se alastrou para perto de seus dedos. Ouvimos um sussurro de fundo, como se um espírito estivesse tentando se comunicar, então a voz aumentou, tornou-se um grito horrível e ecoante de uma mulher.

Era dela.

A mulher na cama está com a mesma mão de antes esticada em direção à arma com o casaco emanando energia, magia em tom azul, para seu corpo frágil. Seu semblante é expressivo e diferente de antes ela se mostra irada; os olhos emanam brilho ciano e sua boca está mais aberta do que um humano comum conseguiria. Seus dentes? Quase nenhum. Sua voz eleva assim como o tremor na mão esticada. O assoalho estremece e depois a casa também.

— B-Bruxa! — Sir proclama apontando para o corpo pútrido.

O corpo da mãe de Aurora se ergue, coloca-se na vertical com o casaco, esticado, cobrindo seu corpo. Pelo visto seu outro braço caiu e murchou. Da cintura para baixo há apenas uma fumaça escura e maquiavélica como um manto cobrindo seus pés secos, ele permite que ela flutue como uma criatura mítica.

— Bruxa! — ele grita tentando atirar na, então, entidade à frente.

Pois, ela congela os cantos do cômodo e fala com a voz arrastada e estridente:

Não. Me. Levarão. Novamente!

O velho cai com o vento forte e geme de medo se arrastando para trás. A mãe da Aurora se aproximava, nos empurrando para trás por causa do forte vendo que ela invocou, seu semblante mudara mais uma vez, agora para uma entidade morto-vivo com o Objeto de Poder.

— Mamãe! Não! — Aurora diz.

Ayla, cuidado!

— Nunca. Mais!

 

BUM!

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora