Volume 2
Capítulo 18 - Hora do Plano B
Base dos Hereges – Centro do Oregon – quase uma semana antes das missões diárias dos Ceifadores
O som das botas pesadas e o rastro de sangue no chão anunciaram o retorno dos sobreviventes. O QG, que costumava ser um santuário de ordem e fé, agora parecia uma tumba. Beck ajudava Vane a caminhar, enquanto Leo, Kane e Kol entravam com os olhos fixos no chão, a agilidade do parkour substituída por um cansaço que pesava como chumbo.
No centro do salão, Solomon estava de pé, imóvel. Sua bengala tática de aço batia ritmicamente no chão, um metrônomo de sua ansiedade crescente. Ele olhou para o grupo, contando as cabeças, e seu rosto envelheceu dez anos em um segundo.
— Onde ele está? — A voz de Solomon saiu como um trovão baixo. — Onde está o Henry?
Houve um silêncio sufocante. Elena, com o braço quebrado e o rosto sujo de fuligem, deu um passo à frente.
— Eles o levaram, Solomon. Não conseguimos chegar perto. Eles se movem como se o tempo parasse para eles. A Tara... ela...
Elena não conseguiu terminar. Mas Solomon não teve tempo para o luto. Seus olhos se desviaram de Elena e focaram na figura que fechava a retaguarda: Mickey, girando sua barra de ferro com um desdém que beirava o insulto.
O rosto de Solomon transfigurou-se. Ele deu três passos rápidos, a bengala batendo forte, e parou a centímetros de Mickey.
— O que esse animal está fazendo aqui? — Solomon rugiu, voltando-se para Gun e Piro. — Eu dei ordens claras sobre quem trazemos para este solo sagrado! Mickey é o câncer que ajudou a destruir esta região! Ele é um executor, um rato de lixão!
Mickey parou de girar a barra e soltou uma risada seca, encarando o líder dos Hereges sem um pingo de medo.
— Solo sagrado? — Mickey cuspiu no chão. — Acorda, vovô. Seus Anjos estão sendo empalados na floresta e o seu escolhido azul agora é o brinquedinho novo daqueles bastardos de preto e do Silas. Se você quer o Henry de volta, vai precisar de alguém que saiba como um monstro pensa. E, olha só que coincidência... eu sou o maior deles nesta sala.
— Saia daqui antes que eu use sua espinha para consertar o telhado! — Kol avançou, o machado de incêndio erguido, mas Gun se colocou entre eles, levantando a mão pesada.
— Chega! — Gun gritou, a voz rouca de exaustão. — Solomon, olhe para os seus homens. Eles estão quebrados. Beck não tem mais peças, a Mika está morta, a Tara virou adubo. Eu perdi meu império, mas eu sei quando uma guerra está perdida antes mesmo de começar. Os Ceifadores não são homens. Se quisermos entrar naquele QG da CIA, precisamos da insanidade do Mickey. Ele foi o único que conseguiu ferir um deles.
Solomon olhou para Gun, depois para Mickey, e finalmente para o rádio silencioso sobre a mesa de mapas. Ele estendeu a mão trêmula e apertou o botão de transmissão.
— Henry? Henry, responda. É o Solomon. Por favor, meu filho... diga alguma coisa.
Apenas a estática respondeu. Solomon fechou os olhos, a dor da perda de Mika e Tara colidindo com a incerteza sobre o destino de Henry. Ele olhou para a cruz de galhos na parede e depois para Mickey.
— Se ele colocar um dedo em qualquer recurso nosso sem permissão, eu o mato — Solomon disse, a voz gélida. — Agora, sentem-se. Se o Henry não responde, é porque ele está morto ou em um lugar onde a luz de Deus não entra. E se for o segundo caso... nós vamos queimar aquela base até que sobre apenas cinzas.
Mickey deu um sorriso macabro, sentando-se sobre a mesa de mapas, bem em cima da localização das Cascades.
— Vocês dão importância demais para o aço e para essas ferramentas barulhentas — Mickey disse, girando a barra de ferro entre os dedos com uma destreza irritante. — Eu estava no lixão da mansão quando um daqueles Ceifeiros apareceu. Máscara de esqueleto, olhos grandes, dentes de cima à mostra. Ele se movia rápido, mas ele era... arrogante.
Mickey deu um sorriso torto, os olhos brilhando com a memória da violência.
— Eu não tinha uma Magnum ou uma serra elétrica. Eu tinha a porra de um cabo de vassoura quebrado. Madeira velha. Eu esperei ele se inclinar e... BUM. Atravessei o peito dele. Enterrei a ponta lascada bem no centro do colete preto, onde a placa balística terminava. Ele não gritou. Ele só me olhou, soltou um engasgo de sangue e caiu. Eu não sei se o desgraçado morreu ou se só desmaiou para visitar o inferno, mas eu provei uma coisa: se sangra, a gente pode apagar. E eu posso apagar qualquer um de vocês com esse cinzeiro se eu quiser.
Solomon apertou o cabo de sua bengala, o nojo visível em cada ruga de seu rosto. Antes que pudesse retrucar, o som de passos lentos veio do corredor dos alojamentos.
Freya apareceu na entrada do salão. Ela segurava o ventre de forma protetora, o rosto pálido e cansado, mas seus olhos estavam arregalados, fixos em Solomon. Quando seus olhos encontram Mickey, o rosto dela se contorce em uma expressão de profundo nojo.
— O que esse animal está fazendo fora de uma jaula? — a voz de Freya é um chicote. — Gun, eu vi o que esse psicopata fez com as pessoas em Chemult quando você não estava olhando. Ele não é um soldado, é um erro da natureza.
Mickey soltou um beijo irônico no ar, girando sua barra de ferro. — Que recepção calorosa, Majestade. Também senti saudades do seu perfume de luxo e superioridade.
Freya o ignora e volta-se para Solomon, ignorando a provocação. Suas mãos tremem levemente enquanto ela se apoia em uma cadeira.
— Solomon... eu ouvi vocês falando. Ouvi o nome. Silas.
Solomon suspira, a expressão carregada de incerteza. — Eu sei o que você está pensando, Freya. O nome coincide. O irmão que você perdeu para os militares antes da Queda... o ativo. Mas não temos confirmação. Silas é um nome comum, e o homem que lidera os Ceifeiros é uma lenda urbana, um fantasma que usa uma máscara. Não podemos construir esperança sobre uma coincidência de nomes enquanto o Henry está desaparecido.
— Não é só o nome! — Freya rebate, a voz subindo de tom pela primeira vez. — Os militares levaram o Silas justamente para as instalações de uma base da CIA, não pode ser coincidência. O Henry... ele não respondeu ao rádio?
— Nada além de estática, Freya — Solomon diz, a voz amarga. — O Henry nunca ficaria em silêncio por escolha própria. Se ele não falou, é porque foi impedido.
Enquanto Solomon e os outros debruçavam-se sobre mapas antigos da infraestrutura das Cascades, tentando encontrar uma falha lógica na segurança dos Ceifadores, Mickey agia como se estivesse de férias. Ele caminhava lentamente pelo salão, com uma garrafa de vinho aberta em uma das mãos, bebericando o líquido diretamente do gargalo com um estalo de satisfação.
— Sabe, Solomon... — Mickey disse, encostando-se em uma pilastra e observando os rostos tensos dos Hereges. — Vocês estão tentando invadir um castelo que foi feito para não ser invadido. Drones, câmeras, sensores de calor... se vocês pisarem na grama deles, viram purê antes de dizerem amém.
Kol rosnou, apertando o cabo do seu machado. — E você tem uma ideia melhor, ou só veio aqui para secar nossa adega?
— Eu não sei entrar lá — Mickey deu de ombros, honesto e cínico. — Mas eu sei como atrair um predador. Se você quer matar um lobo, você não vai até a alcateia. Você coloca um cordeiro sangrando no meio do caminho e espera ele vir.
Solomon levantou os olhos do mapa, interessado. — Uma emboscada. Tirar um ou dois deles da segurança da base e trazê-los para o nosso terreno.
— Exato — Mickey apontou a garrafa para Solomon. — Eles são arrogantes. Acham que são deuses. Se a gente criar um incidente que eles não possam ignorar... algo que fira o orgulho do Silas... ele vai mandar os seus carrascos. E aí, no ambiente urbano do Oregon, entre os becos que a gente conhece, a gente equilibra o jogo.
Gun interveio, a voz rouca. — Precisamos de uma isca que eles não resistam. Alguma coisa ligada ao passado deles... — Seu olhar caiu sobre Freya, que desviou o rosto, sentindo o peso daquela sugestão.
— Vamos contar a eles, Rainha?
Freya ficou pálida no mesmo instante. O ar parecia ter sumido do salão. Ela olhou para os Hereges presentes. Com um suspiro trêmulo, mas carregado de uma dignidade real, ela resolveu contar a gravidez para todos.
A revelação caiu como uma bomba, mas nem todos estavam chocados. Leo, que observava a cena de longe, descruzou os braços e soltou um comentário audível:
— Bem que eu estava estranhando essa barriguinha crescendo — disse ele, com um tom de sarcasmo que escondia sua própria surpresa.
Base dos Hereges – Centro do Oregon – Hoje
Solomon observava o mapa com uma expressão severa.
— Nós encontramos uma sobrevivente em um dos abrigos ao norte — murmurou Beck, evitando olhar para Freya. — Ela tem a mesma altura, o mesmo tom de cabelo. Com um saco na cabeça e as roupas certas... de longe, em meio à névoa das Cascades, passará por ela.
Leo estava encostado na parede, os braços cruzados, o rosto pálido. As garras de aço em suas mãos tilintavam de nervosismo.
Freya observava tudo de longe, a mão apertando o ventre. Ela sentia nojo do plano, nojo de Mickey, e um medo profundo de que, se Silas fosse realmente seu irmão, ele mataria cada um deles antes que pudessem explicar o blefe.
— Não usem o meu nome em vão — Freya disse, a voz gélida. — Se vocês fizerem isso, estarão invocando um demônio que não podem controlar.
— O demônio já está solto, Freya — Solomon respondeu, fechando o mapa. — Nós só estamos dando a ele um motivo para sair da toca. Leo, prepare-se. Partimos ao anoitecer.
Base dos Hereges – Garagem Subterrânea – 01:00 AM
O ar estava gelado e carregado com o cheiro de diesel e solda. A caminhonete elétrica preta, modificada por Beck, estava pronta para ser enviada ao vazio. Piro já estava no banco do motorista, testando o acelerador em toques curtos e nervosos, com as manoplas de fogo tilintando no volante.
No fundo da garagem, Kane conversava em voz baixa com Maya. Ele segurava a mão dela, tentando acalmá-la, mas o peso da moeda de troca era evidente.
— Escute, Maya... — Kane sussurrou, olhando nos olhos aterrorizados da mulher. — Se você fizer isso, se ficar lá em cima da caminhonete com o saco na cabeça e não se mexer, os Hereges vão garantir o sustento da sua família pelos próximos seis meses. Comida real, remédios para sua mãe, segurança. Você não está apenas nos ajudando, está comprando a vida deles.
Maya engoliu em seco, olhando para a almofada amarrada sob o vestido de Freya. Ela assentiu levemente, as lágrimas secas no rosto. Ela sabia que, para os pobres do Oregon, o risco de morte era o preço do jantar.
Leo se aproximou, carregando o saco de estopa e o microfone de longo alcance. Ele estava mais pálido que a própria Maya. Ele sabia que o plano dependia da sua voz quando o inferno começasse.
— Vamos logo com isso — Leo disse, a voz trêmula. — Solomon, se um daqueles caras aparecer, o Piro vai dar ré. Eu não vou deixar a Maya lá sozinha.
— Você não vai precisar — interveio Mickey, encostado em uma pilha de pneus. — Porquê quando o Deus do Crânio ouvir que a irmãzinha dele está no nosso cardápio, ele vai vir com tanta fúria que vai esquecer de olhar para os lados. É aí que a gente morde.
Solomon deu o sinal. A caminhonete saiu silenciosamente para a noite das Cascades, com Kane observando da entrada, o peso da consciência dividido entre o dever e a moral.
QG dos Ceifadores – Ala de Monitoramento
O silêncio na base da CIA era absoluto, interrompido apenas pelo zumbido dos servidores. Henry, vestindo o traje negro e a máscara, estava parado ao lado de Ian, que revisava as câmeras térmicas do perímetro.
De repente, um ruído estático cortou o sistema de som da base. Jester, em sua sala de drones, inclinou a cabeça e os guizos de sua máscara tilintaram.
— Silas... temos uma transmissão de rádio aberta vindo da clareira sul — a voz de Jester soou pelos alto-falantes, agora sem o tom infantil, mas carregada de uma curiosidade maligna. — Alguém ligou um som muito alto lá fora. Eles estão usando um amplificador industrial.
Silas entrou na sala de monitoramento. Ele parou diante da tela principal. O áudio, distorcido pelo vento e pela distância, começou a ficar claro:
O Jogo de Espelhos – As Cascades – 02:10 AM
A névoa rastejava entre os troncos das árvores como um fantasma. A caminhonete de Piro estava parada em um descampado estratégico, cercada por sombras. O som das cornetas instaladas por Beck cortava o silêncio da floresta com uma clareza aterrorizante.
Leo segurava o microfone, as mãos suadas por dentro das luvas táticas. Ele olhava para a figura de Maya, imóvel na caçamba, com o saco de estopa na cabeça e a falsa barriga de grávida.
— UMA TROCA EQUIVALENTE, SILAS! — A voz de Leo ecoou, amplificada dez vezes. — NOSSO IRMÃO PELA SUA IRMÃ! NÓS SABEMOS O QUE VOCÊ QUER! TRAGA O HENRY ATÉ O LIMITE DO OREGON OU ELA MORRE AQUI, NESTA VALA!
Piro, no banco do motorista, mantinha o pé leve no acelerador, sentindo a vibração do motor. Seus olhos vasculhavam a escuridão.
QG dos Ceifadores – Ala de Monitoramento
Henry observava as telas. Seu coração batia forte contra as costelas. Ele sabia que Solomon e Gun jamais colocariam Freya em risco daquela forma. Aquela mulher na tela era um espectro, uma isca de carne e osso.
"Eles estão tentando dividir para conquistar", Henry pensou, mantendo a expressão neutra por trás da máscara. "Se o Silas mandar todos, a base fica exposta. Se mandar poucos, os Hereges têm uma chance no corpo a corpo."
Silas estava parado, a máscara de crânio inclinada enquanto processava a ameaça. Ele não estava desesperado; ele parecia calculista. Ele se virou para a dupla que estava encostada na parede oposta.
Diego brincava com uma de suas facas pequenas, o brinco de caveira balançando ritmicamente. Zack embaralhava seu maço de cartas com uma velocidade sobre-humana, o sorriso macabro de sua máscara negra refletindo a luz dos monitores.
— Diego. Zack. — A voz de Silas saiu como um comando absoluto. — Peguem as motos. Não quero blindados pesados fazendo barulho. Quero velocidade. Sigam aquele veículo. Não atirem na mulher, mas matem qualquer coisa que se mova ao redor dela. Se for realmente a Freya, tragam-na. Se for um blefe... tragam a cabeça do garoto do rádio.
— O baralho diz que hoje é dia de caça, Silas — Zack disse, guardando as cartas e ajustando o fuzil M4 nas costas.
— Vamos fazer eles dançarem na fumaça — Diego completou, já se dirigindo à garagem.
Henry deu um passo à frente, tentando intervir sem parecer suspeito. — Silas, eu conheço as táticas deles. Deixe-me ir junto.
Silas colocou a mão pesada no ombro de Henry, apertando com força. — Não, Henry. Você fica aqui. Se o seu antigo grupo quer uma troca, eles vão ter que esperar. Zack e Diego são os meus olhos agora. Se eles confirmarem que é ela, eu mesmo irei buscá-la. E você estará ao meu lado para ver o fim dos Hereges.
Fim do Capítulo
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