Volume 2
Capítulo 19 - Divididos, Eles Caem
O ronco dos motores dos Ceifadores não era contínuo; era intermitente, como o rosnado de um animal que brinca com a presa. Piro apertou o volante com tanta força que o couro da cobertura rangeu. Pelo retrovisor, ele viu os dois feixes de luz branca de Zack e Diego dançando na névoa.
— Maya, para baixo! Agora! — gritou Piro. — Sai da caçamba e deita no banco de trás! Cobre a cabeça e não levanta por nada!
A mulher, trêmula, deslizou pela janela traseira da caminhonete e se encolheu no assoalho. Leo, agachado no teto do veículo, sentia o vento chicotear seu rosto. Ele bateu no teto para chamar a atenção de Piro.
— Eles estão vindo rápido demais, Piro! Se a gente tentar lutar aqui na floresta, eles cercam a gente por entre as árvores. Temos que levá-los para a cidade!
— Eu vou abrir o caminho! — Piro respondeu, um sorriso maníaco surgindo em seu rosto. — Segura firme!
Piro acionou um dos botões no painel. Dos lados da caminhonete, dois bicos de ejeção dispararam uma mistura de óleo e gasolina na estrada, enquanto as suas manoplas de maçarico, estendidas para fora da janela, lançavam uma fagulha. Uma cortina de chamas se ergueu atrás deles, bloqueando a visão imediata dos perseguidores e forçando-os a reduzir ou manobrar.
Zack desviou da labareda com uma inclinação agressiva da moto, o pneu traseiro derrapando no asfalto úmido. Ele riu alto, o som sendo captado pelo rádio de Diego.
— Olha só, Diego! O porquinho está soltando faíscas! O que o baralho diz sobre churrasco hoje?
— Eles querem nos levar para os prédios. O parkour daqueles caras é irritante em ambiente fechado.
— Então vamos dividir — Zack propôs, sacando o M4 com uma mão só. — Eu fico na cola deles para garantir que não mudem de rota. Você corta caminho pelo antigo aqueduto seco. Se você chegar na entrada da cidade antes deles, a gente faz um sanduíche de lata.
— Copiado. Te vejo no centro, "Coringa".
Diego inclinou sua moto e mergulhou para fora da estrada principal, desaparecendo na escuridão da floresta em direção ao atalho perigoso do aqueduto.
O Plano de Fuga
Piro sabia que a caminhonete elétrica não ganharia dos Ceifadores em linha reta por muito tempo. Ele precisava de um atalho de peso.
— Leo! — Piro gritou pelo rádio. — Lembra do Viaduto de Blackrock? Aquele que caiu pela metade?
— Você tá louco? A caminhonete não voa, Piro!
— Ela não precisa voar, só precisa cair com estilo! O aqueduto passa por baixo. Se a gente saltar a barreira de contenção e cair no leito seco do canal, a gente ganha dez minutos de vantagem e sai direto no distrito industrial do Centro.
Leo olhou para trás. Viu a silhueta de Zack se aproximando, disparando rajadas curtas de M4 que estilhaçaram as lanternas traseiras do veículo.
— Faz isso! — Leo gritou, cravando as garras de aço no teto da caminhonete para se ancorar. — Maya, segura em alguma coisa!
Piro guinou o volante com tudo. A caminhonete rompeu a grade de proteção do viaduto. Por um segundo, houve o silêncio absoluto da gravidade zero. O veículo mergulhou seis metros para baixo, atingindo a areia e o concreto do canal seco com um impacto que quase deslocou os eixos, mas continuou rodando.
Eles agora estavam no expresso subterrâneo, um túnel de concreto que levava direto para o coração do Oregon, onde as sombras dos prédios favoreciam os Hereges.
QG dos Ceifadores – Sala de Monitoramento
O silêncio na sala era tão denso que Henry podia ouvir o tique-taque eletrônico dos servidores. A voz de Zack estalou no rádio, vinda da beirada do viaduto:
— Silas... perdi o contato visual. O "porquinho" saltou no canal seco. Se ele não quebrou o pescoço, ele está em algum lugar na escuridão dos túneis agora.
Silas cruzou os braços, a luz azulada dos monitores refletindo nas fendas de sua máscara de crânio. Ele não se moveu.
— Não se preocupe, Zack. O drone de Jester já captou o sinal térmico do Diego. Ele está vindo pelo acesso leste do aqueduto. Eles vão se esbarrar em menos de sessenta segundos no setor de drenagem.
Henry sentiu um calafrio subir pela espinha, mas manteve o rosto imóvel, os olhos fixos na tela como se estivesse analisando taticamente a situação. Por dentro, seu coração era um tambor de guerra. Nos últimos dias, ele havia jogado o jogo com perfeição; cumprira missões, demonstrara eficiência e ganhara a confiança daqueles monstros. Mas agora, o preço daquele disfarce era assistir a seus irmãos de alma serem caçados.
Dentro do Túnel
A escuridão era quase total, quebrada apenas pelos faróis trêmulos da caminhonete. O som do motor elétrico ecoava nas paredes de concreto como um fantasma. No banco de trás, Maya estava encolhida, o choro abafado pelas mãos.
— Eles sumiram, Leo! — gritou Piro, forçando a marcha. — Acho que o salto deu certo!
— Não relaxa, Piro! Eu tô ouvindo um... — Leo parou. Suas orelhas, treinadas no silêncio dos telhados, captaram um zumbido agudo vindo de frente.
De uma curva lateral do túnel, a moto de Diego surgiu como um projétil negro. No último segundo, Diego percebeu que a colisão era inevitável.
— SURPRESA, CRIANÇADA! — Diego gritou pelo modificador de voz.
Piro pisou no freio, mas o chão de concreto liso e úmido fez a caminhonete derrapar. Diego, com uma agilidade sobre-humana, empinou a moto e usou a lateral da parede como rampa. No momento do impacto, a moto se chocou violentamente contra o para-choque dianteiro da caminhonete, mas Diego já não estava nela.
Ele saltou no ar, executando uma pirueta perfeita, e pousou silenciosamente no capô da caminhonete em movimento.
— Peguei vocês! — Diego sibilou, puxando suas duas facas pequenas.
Leo não esperou.
— Sai do nosso carro, seu lixo de metal! — Leo gritou, avançando com as garras de aço em riste.
Diego desviou de um golpe de garra que teria arrancado seu ombro, girando o corpo e desferindo um chute que jogou Leo para a parte traseira da caminhonete, em cima da caçamba aberta. Diego o seguiu com um salto felino.
Agora, com o veículo a 80 km/h dentro de um túnel estreito, os dois estavam trancados em um duelo mortal na traseira. Leo atacava com a ferocidade de um animal acuado, suas garras de escalada faiscando contra o metal da caçamba a cada investida, enquanto Diego se movia com uma fluidez irritante, defendendo-se com as facas e rindo entre os dentes.
— Você é rápido, gatinho! — Diego provocou, desferindo um corte rápido que rasgou a manga da jaqueta de Leo. — Mas o baralho do Zack disse que sua sorte acaba no próximo túnel!
Lá dentro, Piro tentava manter o carro reto enquanto ouvia os estrondos da luta logo acima de sua cabeça.
— Leo! Chuta ele para fora! — Piro gritou, vendo a luz da saída do túnel começar a aparecer ao longe. O Centro do Oregon estava a poucos metros.
O túnel foi preenchido pelo som metálico de garras contra facas. No topo da caminhonete em alta velocidade, a luta era uma dança de morte. Leo e Diego eram ágeis, e o combate refletia isso: cortes superficiais surgiam nos braços e ombros de ambos, o sangue respingando no metal frio da caçamba.
Em um movimento de força bruta, eles se travaram, cada um segurando o braço armado do outro, os rostos a centímetros de distância. A máscara de metal de Diego encarava a máscara de madeira de Leo.
— É você tem fibra — Diego falou sob o modificador de voz.
Lá dentro, Piro viu o vulto da luta pelo retrovisor e, com um sorriso feroz, pisou no freio com tudo. O som dos pneus fritando no concreto ecoou como um tiro. O solavanco jogou ambos para frente, quebrando o impasse.
Leo recuperou o equilíbrio um milésimo de segundo antes. Ele partiu para cima como uma mola esticada. Diego, percebendo a investida, tentou um corte horizontal desesperado, visando a garganta do Herege. Leo inclinou o corpo para trás com uma flexibilidade de ginasta e, em um movimento ascendente e preciso, desceu suas garras de aço sobre a mão direita do Ceifador.
O som foi de carne e osso sendo cisalhados. Quatro dedos da mão de Diego voaram para fora da caminhonete, caindo na escuridão do aqueduto.
Diego soltou um grito que misturava choque e fúria pura, a adrenalina dos experimentos em seu sangue tentando suprimir a dor excruciante. — AH! SEU VERME! EU VOU ARRANCAR SEUS OLHOS!
A caminhonete saiu do túnel e derrapou na praça central, em frente à base fortificada dos Hereges. Piro fez o veículo deslizar de lado, criando uma nuvem de fumaça e poeira. O movimento desequilibrou Diego, que ainda tentava estancar o sangramento da mão.
Leo aproveitou a abertura. Ele deu um salto e desferiu um chute frontal com as duas pernas no peito do Ceifador. O impacto jogou Diego para fora da caçamba. Ele atingiu o asfalto, rolando e tentando se levantar, mas parou ao ouvir o som de passos pesados vindo de todas as direções.
Das sombras das colunas e das ruínas dos prédios, as figuras surgiram.
Solomon estava à frente. Ao lado dele, Kane, Kol, Beck, Vane, Elena e até Gun e Mickey saíram das sombras.
Diego olhou ao redor. Ele estava no centro de um semicírculo de vingança.
— Olha só o que o gato trouxe para casa — Mickey cuspiu no chão. — Um monstrinho de máscara. E olha, ele solta sangue igualzinho a gente.
Solomon deu um passo à frente, sua voz saindo fria e autoritária. — Onde está o Henry? E onde está o resto da sua ninhada?
Diego, mesmo ferido e cercado, soltou uma risada abafada e macabra através da máscara. — Vocês... acham... que eu sou a caça? — Diego tossiu sangue. — O baralho do Zack nunca erra. Ele disse que eu seria o primeiro a chegar... mas não disse que eu estaria sozinho por muito tempo.
A quilômetros dali, o motor da moto de Zack uivava. Ele não corria apenas por dever; ele corria por Diego.
"Aguenta aí, carinha", Zack murmurou, os olhos fixos na estrada.
Ele entrou na zona industrial do Centro do Oregon a mais de 120 km/h. A estrada era um corredor escuro ladeado por postes de luz tortos e carcaças de carros. Zack viu o brilho das luzes da praça ao longe. Ele acelerou ainda mais, inclinando o corpo para ganhar aerodinâmica.
O que ele não viu foi a armadilha de Mickey.
Entre dois postes de aço, a apenas um metro e meio de altura, Mickey havia esticado um cabo de aço ultrafino, uma linha de retenção que ele pegou ‘emprestado’ do arsenal de Vane. Era quase invisível a olho nu, especialmente para alguém vindo na velocidade do som.
Zack percebeu o brilho metálico um milésimo de segundo antes do impacto. Ele tentou abaixar a cabeça, mas a física era implacável.
O cabo de aço atingiu o garfo dianteiro da moto e a parte superior do colete de Zack com a força de um trem de carga. A moto foi freada instantaneamente, mas Zack foi arremessado para a frente como um boneco de pano, descrevendo um arco mortal no ar antes de colidir violentamente contra uma caçamba de lixo metálica 15 metros adiante.
O som do metal se retorcendo ecoou por todo o distrito.
Na praça central, os Hereges ouviram o estrondo do acidente de Zack. Solomon nem sequer desviou o olhar de Diego, que ainda tentava se levantar no asfalto, o sangue da mão decepada sujando o chão.
Mickey soltou uma risada rouca, batendo sua barra de ferro na palma da mão esquerda enquanto olhava para a direção do barulho. — Parece que o Coringa perdeu o equilíbrio. Vou lá ver se ele ainda tem todos os dentes para sorrir.
O grupo circulava Diego como lobos em volta de um alce ferido.
Diego, mesmo com quatro dedos a menos e cercado por oito assassinos, tentou uma investida desesperada. Ele sacou a faca com a mão esquerda, mas Kane agiu primeiro. Em vez de ligar suas serras, Kane usou a base da manopla para atingir o pulso de Diego, desarmando-o.
Kol avançou em seguida, desferindo um soco de direita que estalou contra a máscara de Diego, fazendo o Ceifador cambalear. Elena deslizou por baixo da guarda dele, usando sua lâmina oculta para fazer um corte profundo na panturrilha de Diego, forçando-o a cair de joelhos.
— Vocês... são... carne morta... — Diego rosnou, a voz falhando enquanto o sangue escorria sob a máscara.
Solomon aproximou-se e bateu o cabo da sua bengala tática contra a nuca de Diego, jogando o rosto do Ceifador contra o asfalto. — Kane, segure-o.
Enquanto isso, Mickey caminhava calmamente em direção aos destroços da moto de Zack, arrastando sua barra de ferro no chão, produzindo um som metálico e irritante que servia como o anúncio de um pesadelo.
A Queda do Primeiro Imortal
Solomon ajoelhou-se sobre as costas de Diego e, com um movimento firme, arrancou a máscara de caveira. O que surgiu não foi um monstro, mas o rosto de um jovem de pele escura e cabelos bagunçados, cujos brincos de caveira brilhavam sob a luz fria da lua. Diego arquejou, a vulnerabilidade humana exposta pela primeira vez em anos.
— Chame seus irmãos no rádio — Solomon ordenou, a voz como um túmulo aberto. Ele retirou uma pequena caixa amarela do bolso e extraiu uma linha de retenção ultrafina, brilhante e letal. — Queremos o Henry de volta. Agora. Ou vamos mandar o primeiro Ceifador direto para o inferno.
Diego, com o rosto pressionado contra o asfalto frio, soltou uma risada que beirava o delírio. Ele moveu a cabeça lentamente em sinal negativo, os olhos brilhando com uma lealdade cega.
— Minha morte não levará você... até o Silas — Diego sussurrou, o sangue borbulhando nos lábios.
Solomon não hesitou. Ele não buscava mais diálogo. Ele passou a linha em volta do pescoço do jovem Ceifador, posicionando um dos pés com força entre as escápulas de Diego para alavancagem. Com um movimento rítmico e violento, ele começou a serrar. A linha de aço cortou a pele, os músculos e a traqueia com uma eficiência cruel. O corpo de Diego teve um último espasmo antes de amolecer completamente sobre o concreto do Oregon.
O primeiro Ceifador estava morto.
Kol aproximou-se, recolheu o rádio de Diego e apertou o botão de transmissão. Sua voz, carregada com uma fúria de décadas, cortou a estática no QG dos Ceifadores.
— Vocês aí... — Kol disse, olhando para o corpo sem vida aos seus pés. — Seu irmãozinho já está morto.
A transmissão ecoou pelas paredes estéreis da base da CIA como uma granada de fragmentação. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Silas, o homem que se via como um irmão mais velho para aquele grupo de monstros, cambaleou um passo para trás. Sua máscara parecia subitamente pesada demais.
— Isso é impossível... — Silas murmurou, a voz tão baixa que quase sumiu no zumbido dos computadores. Era a primeira vez que ele sentia o gosto da derrota em dez anos.
Pelo rádio, a voz de Kol continuou. — O outro que veio junto sofrerá o mesmo destino. Parabéns, vocês não quiseram negociar, quem perdeu foram vocês. Isso foi pelas nossas duas irmãs. Olho por olho, dente por dente, filha da puta!
O som de Kol esmagando o rádio sob a bota foi a última coisa que ouviram.
Sílvia desabou. O choro era agudo, um som puramente humano que quebrava a aura de invencibilidade da sala. Fabrizio a envolveu em um abraço protetor, seus olhos agora injetados de um ódio gélido. Elijah, Lil, Aiden e os outros abaixaram as cabeças, as mãos fechadas em punhos tão fortes que as luvas de couro rangiam. O luto dos Ceifadores era uma tempestade silenciosa antes do furacão.
No canto da sala, Henry enfrentava a prova de fogo de sua vida. Cada fibra do seu ser queria gritar de alegria, queria rir da ironia de ver os imortais chorando. O sacrifício de Maya e o risco corrido por Leo valeram a pena. Diego estava morto.
O Destino do Coringa
Enquanto isso, a metros do acidente de moto, Mickey arrastava sua barra de ferro, aproximando-se da caçamba de lixo onde Zack estava caído.
Zack tossia, o visor de sua máscara negra estilhaçado, o braço esquerdo claramente quebrado pelo impacto do cabo de aço. Ele ouviu a transmissão final de Kol antes de seu próprio rádio chiar e morrer. As lágrimas de sangue escorriam sob sua máscara.
— Diego... — Zack sussurrou, tentando alcançar o fuzil M4 que estava a dois metros de distância.
Mickey parou a poucos passos, a sombra de sua barra de ferro cobrindo o Ceifador.
— O baralho não avisou que hoje o Coringa ia ser cortado ao meio, bonitão? O seu amigo já foi. Agora, eu e você vamos ver quantas cartas você consegue segurar com os ossos quebrados.
O som do metal contra o metal ecoou pelo beco desolado. No momento em que os dedos trêmulos de Zack tocaram o cano frio do seu fuzil M4, a barra de ferro de Mickey desceu como um raio. O impacto em Zack foi seco e brutal, jogando o Ceifador contra o asfalto áspero.
— Ah, cara... quando é que vocês vão aprender a dar valor para uma arma branca? — Mickey perguntou, a voz carregada de um deboche genuíno.
Ele se abaixou, pegou o fuzil M4 de Zack como se fosse um brinquedo quebrado e começou a golpeá-lo contra a quina de aço da caçamba de lixo. BAM. BAM. BAM. A coronha se partiu, o cano entortou e a mira óptica estilhaçou-se em mil pedaços no chão. Mickey jogou o que restou da arma de alta tecnologia no lixo.
— Olha, Zack... tem muita coisa interessante nesse pequeno lixo. — Mickey começou a remexer nos destroços ao redor, chutando latas e ferros velhos. — Que objetos eu posso usar como armas hoje? O que o destino reserva para o Coringa sem o seu baralho?
Zack se levantou com dificuldade. Sua máscara de metal negro, orgulho dos Ceifadores, estava partida. Quase metade de seu rosto estava visível: a pele pálida, a cicatriz no olho esquerdo e uma expressão de ódio que superava a dor. Ele não tinha mais o fuzil, nem a moto, nem o seu parceiro. Com a mão trêmula, ele sacou uma faca de combate do bolso tático.
— Olha só que delícia... um pé de cabra! — Mickey ergueu a ferramenta de aço pesado, testando o peso no ar. Ele ignorou a faca de Zack como se fosse um palito de dentes. — Você tem a técnica, Zack. Mas eu tenho a improvisação. E eu garanto: o aço frio de um pé de cabra dói muito mais que uma bala de 5.56.
Zack avançou primeiro. Mesmo com o braço esquerdo pendurado e a máscara partida, ele se moveu com uma economia de movimentos perfeita. Ele segurou a faca em uma pegada invertida, desferindo uma estocada rápida em direção ao abdômen de Mickey.
Mickey não tentou um bloqueio técnico. Ele simplesmente girou o corpo e usou o comprimento do pé de cabra para golpear a mão armada de Zack. O som do metal atingindo os ossos da mão do Ceifador foi seco, mas Zack, condicionado a ignorar a dor, não soltou a faca.
Ele tentou uma última estocada, mas seus reflexos, embora sobre-humanos, estavam lentos pelo choque da perda de Diego. Com um movimento brutal, Mickey usou o pé de cabra como uma alavanca, prendendo o pulso de Zack e torcendo-o até ouvir o estalo do osso. A faca caiu, tilintando no asfalto.
Mickey não parou. Ele desferiu um golpe que atingiu em cheio o queixo de Zack. O som de dentes se partindo foi nítido. O Ceifador, o mestre das cartas e da sorte, caiu de joelhos, sangrando e desfigurado pela primeira vez em sua vida de elite.
— Que irônico, né? — Mickey zombou, girando o pé de cabra. — Como se sente? Tanto treinamento... pra perder pra um humilde ser humano pobre? A sorte não foi legal com você hoje, amigão.
Zack fechou os olhos, aceitando o destino que suas cartas já haviam previsto. Mickey levantou a ferramenta de aço com as duas mãos e descarregou uma sequência de golpes violentos na cabeça de Zack. O som metálico chocando-se contra o crânio cessou apenas quando o corpo do Ceifador pendeu para o lado, sem vida.
O rádio no colete de Zack chiou. A voz de Elijah, calma, mas com um subtexto de urgência, ecoou pelo beco:
— Zack? Está ouvindo, irmão? Responda.
Mickey pegou o aparelho, apertando o botão com os dedos sujos de sangue.
— Sinto muito, a sorte não sorriu pra ele. Eu provei mais uma vez que vocês podem sangrar.
Houve uma pausa do outro lado. A voz de Elijah mudou, perdendo a gentileza habitual.
— Por que você está ajudando os Hereges? Você era um Executor, Mickey.
— Por quê? Simples: eu quero ver o circo pegar fogo. Eu quero sentir o gosto da agonia que causei a todos vocês e, no final, vão se lembrar de mim: Mickey! O humilde humano que matou um Ceifador!
Mickey esmagou o rádio contra a parede de tijolos, deixando os destroços caírem sobre o corpo de Zack.
O Luto e o Ódio
A transmissão final foi o golpe de misericórdia no moral da base. Sílvia estava em prantos, os soluços ecoando pela sala fria. — Por quê? Por quê? Zack... Diego... isso não pode ser real!
Fabrizio tentou se aproximar, estendendo a mão. — Irmã...
— Não toque em mim! — Sílvia gritou, esquivando-se e correndo em direção aos alojamentos, trancando a porta do quarto logo em seguida. Ela era a única que não conseguia — ou não queria — esconder sua humanidade sob a máscara de frieza.
Silas permanecia parado, uma estátua de ódio contido. Ele olhou para os membros restantes. — Daqui a alguns dias, iremos atacar os Hereges com tudo. Vamos preparar até o tanque. Entretanto, vou tentar negociar antes, eles conseguiram... eles conseguiram me machucar.
Henry sentiu um calafrio. Um tanque? Como um blindado de guerra daquela magnitude ainda funcionava e estava escondido ali? O plano de Solomon havia funcionado, mas a escala da retaliação seria catastrófica.
Todos os Ceifadores saíram em silêncio absoluto. No sistema de som, a voz fina e irritante de Jester comentou — Que droga... dois peões caíram do tabuleiro...
— Cala a boca, Jester! — Silas rugiu.
Silas saiu por último, batendo a porta pesada. Henry ficou sozinho na sala de monitoramento. Ele olhou para as telas escuras, colocou a mão sobre a boca para abafar o som e, lentamente, começou a rir. Suas costas tremiam e as lágrimas de alívio e triunfo escorriam por seu rosto.
Fim do Capítulo
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios