DYSTOPIA Brasileira

Autor(a): SkullGuy


Volume 2

Capítulo 17 - Origem dos Imortais

Mesa de Jantar - QG dos Ceifadores

 

Fabrizio mantinha os olhos fixos em Henry. Ele não comia; apenas encarava o intruso com um desprezo silencioso. Henry, sentindo o peso daquele vazio branco, decidiu que era hora de romper a barreira.

 

— Silas — Henry começou, e sua voz pareceu ser absorvida pelo silêncio das paredes brancas. — Agora que provei minha lealdade a vocês, eliminando aqueles grupos... me diga: quem são vocês? Por que se dizem imortais? Por que são imunes a venenos? Por que essa tolerância tão alta à dor? De onde vocês vieram? O que aconteceu dentro deste lugar?

 

O tilintar de um garfo contra o prato de Zack parou abruptamente. Sílvia baixou o olhar, e até o instável Lil ficou imóvel.

 

Silas soltou um suspiro pesado.

 

— Tudo bem, Henry... — Silas murmurou, e o tom de sua voz mudou para algo quase confessional. — Você é família agora, acho que tem o direito de saber a verdade. Saber de nossas cicatrizes.

 

Ele olhou ao redor, para as paredes imaculadas, como se enxergasse através delas.

 

— Olhe para este lugar, Henry. Tudo branco, não é? Foi assim que crescemos. Vinte anos atrás, o pai de Fabrizio e Sílvia, o Coronel Turner, dirigia o que ele chamava de "Próxima Evolução". Ele não queria soldados; ele queria deuses que pudessem sobreviver ao apocalipse.

 

Silas fez uma pausa, seus olhos perdidos no branco ofuscante da mesa, e a realidade do refeitório começou a se dissolver para Henry. O relato não era apenas uma história; era uma ferida aberta que sangrava memórias.

 

FLASHBACK: Base da CIA – Cascades, 2021

 

O ambiente era uma sinfonia de luzes fluorescentes. Por trás das paredes de vidro reforçado, a ética humana havia sido descartada em favor de uma ciência profana. Dezenas de cientistas em jalecos imaculados moviam-se com pressa mecânica, cuidando de espécimes que variavam entre 6 e 16 anos. 777 crianças em todo o mundo, retiradas de seus pais à força por militares, todas com sangue O negativo, apenas com exceção do casal de filhos gêmeos do Coronel.

 

No topo da galeria de observação, na sala de controle climatizada, o Coronel Turner observava tudo com as mãos cruzadas atrás das costas. Seus olhos não brilhavam com empatia, mas com o fascínio de um escultor diante do mármore. Para ele, aquelas crianças não eram órfãos ou filhos; eram o futuro. Eram os soldados perfeitos em gestação.

 

As câmeras de monitoramento à frente de Turner exibiam o horror em alta definição:

 

Setor de Estímulo Sensorial: Em uma câmara, uma criança era submetida a queimaduras severas por maçaricos controlados, enquanto ao lado, outra sofria cortes superficiais de lâminas automatizadas. Em uma sala de testes balísticos, os mais velhos eram alvejados por munições de baixo calibre. Não havia gritos; apenas o som de aparelhos eletrônicos monitorando a resposta do cérebro. O objetivo era claro: forçar o sistema nervoso a atingir uma tolerância à dor que nenhum ser humano normal poderia suportar.

 

Setor de Toxicologia: Ao longo de fileiras de macas, crianças recebiam infusões contínuas. Veneno de cobra e toxina botulínica eram injetados em doses calculadas para quase matar, sempre seguidas por soros curativos. Esse processo era repetido inúmeras vezes com cada veneno e soro até que o corpo desenvolvesse imunidade às toxinas.

 

Bloco Cirúrgico 01: Aqui, a eficiência superava a biologia. O Coronel considerava o corpo humano cheio de falhas de design. Em uma linha de montagem cirúrgica, órgãos considerados inúteis ou vulneráveis eram removidos em massa: amígdalas, apêndices, baços e vesículas biliares. Se pudesse causar uma infecção futura ou uma fraqueza desnecessária, era extraído.

 

Mas o monitor principal mostrava a crueldade mais profunda. No caso dos meninos, Turner foi além da biologia funcional. Para ele, as crianças foram feitas para ceifar vidas, não para gerar novas. O processo de castração era obrigatório para todos os garotos. Os testículos eram removidos para eliminar o que Turner chamava de "ponto cego anatômico" — um órgão sensível que poderia causar uma queda de pressão ou incapacidade em combate se atingido.

 

Curiosamente, Turner isentou as meninas dessa mutilação reprodutiva. Talvez, em algum lugar obscuro de sua mente distorcida, houvesse um resquício de piedade que o impediu de fazer isso com a própria filha, Sílvia, que na época tinha apenas 10 anos. Mas para Silas, Elijah, Fabrizio e os outros, o futuro havia sido cortado antes mesmo de começar.

 

FLASHBACK: Base da CIA – Cascades, 2030 (Poucos dias antes da Queda)

 

O escritório do Coronel Turner era um santuário de ordem em meio ao caos que começava a borbulhar no mundo exterior. Ele estava acomodado em sua poltrona de couro legítimo, a luz de um abajur de mesa iluminando documentos confidenciais sobre acordos de armamentos entre as 14 nações que ainda tentavam manter as aparências de controle global.

 

A porta deslizou silenciosamente. Um cientista-chefe, com o rosto pálido de quem não via o sol há meses, aproximou-se com uma pasta branca em mãos.

 

— Senhor — disse o homem, a voz trêmula entre o medo e o orgulho. — Das 777 crianças originais do projeto, nestes 10 anos... apenas 11 sobreviveram. Mas os resultados são estatisticamente impossíveis, senhor. Todos são perfeitos. O que o senhor buscou por uma década está aqui, neste documento.

 

Turner pegou a pasta. Seus olhos percorreram as fichas, analisando os "produtos finais" de sua experiência:

 

Arquivo nº 1: Silas

Status: O Protótipo Alpha. Forte, rápido, excelente em combate corpo a corpo e preciso no tiro. Detém a maior tolerância à dor registrada em toda a história do projeto. Notas psicológicas: Calmo, evita qualquer interação não essencial com a equipe técnica. Uma máquina de comando nata.

 

Arquivo nº 4: Elijah

Status: O Prodígio Marcial. Nível de combate impressionante. O único capaz de fundir Karatê, Jiu-Jitsu e Krav Maga em um fluxo contínuo. Alta tolerância à dor e excelente pontaria. Observação: Apresenta traços de arrogância que podem dificultar o controle disciplinar.

 

Arquivo nº 8: Aiden

Status: O Esteta. Combatente eficiente, dentro dos padrões de excelência do grupo. Demonstra uma indiferença patológica aos experimentos traumáticos aos quais foi submetido; seu foco obsessivo permanece em sua própria aparência e imagem.

 

Arquivo nº 21: Zack

Status: O Curinga. Especialista em armas de grande calibre e combate direto. Inexplicavelmente mantém um temperamento otimista, sendo uma anomalia psicológica positiva dentro do ambiente de alta pressão do laboratório.

 

Arquivo nº 223: Ian

Status: O Atirador de Elite. O melhor atirador entre todos os sobreviventes. Embora sua tolerância à dor seja ligeiramente inferior à de Silas, sua precisão compensa. Prefere o engajamento à distância; demonstra desdém pelo combate físico desnecessário.

 

Arquivo nº 3: Diego

Status: O Infiltrador. Resultados excepcionais em treinos de furtividade e agilidade. Combate corpo a corpo focado em velocidade. É o elo de conexão social entre os outros espécimes.

 

Arquivo nº 13: Andrew

Status: O Sádico. O mais jovem. Combate corpo a corpo funcional, mas o que o destaca é a ausência total de inibição moral. Demonstrou prazer em executar prisioneiros condenados sem necessidade de ordens repetidas. Irrita-se com facilidade; motivado por recompensas simples, como doces.

 

Turner virou a página, e o brilho dos monitores refletiu em seus olhos gélidos enquanto lia os arquivos finais:

 

Arquivo nº 666: Lil

Status: O Incontrolável. Um dos veteranos. A exposição prolongada aos protocolos de dor fragmentou sua psique. Desenvolveu um ódio patológico a ordens diretas; eliminou dois cientistas durante surtos de violência. Tolerância à dor extrema. Ineficiente com armas de fogo, mas compensa com uma força bruta devastadora no corpo a corpo. Assim como Andrew, manifesta tendências sádicas acentuadas.

 

Arquivo nº 776: Fabrizio Turner

Status: O Herdeiro. Inteligência superior e combatente de elite, equiparando-se a Elijah. Desempenho impecável em tiro de precisão e disciplina férrea. Sua tolerância à dor é descrita como "invejável". É o pilar de seriedade do grupo.

 

Arquivo nº 777: Sílvia Turner

Status: A Joia da Coroa. A única sobrevivente feminina. Demonstrando que os experimentos se adaptam bem ao sistema endócrino feminino. Combate ágil, excelente pontaria e um QI extraordinário, perdendo apenas para o arquivo 404.

 

Turner chegou à última ficha. O papel estava mais gasto, como se tivesse sido revisado centenas de vezes.

 

Arquivo nº 404: Nome: -------

 

De repente, um som agudo de estática vindo do rádio de comunicação do cientista ecoou na sala, mascarando o nome pronunciado. Turner nem piscou, focado na descrição:

 

Status: O Ponto Fora da Curva. O intelecto mais brilhante do projeto. Combate de nível lendário; o único capaz de sustentar um confronto direto contra Silas. Embora seja tecnicamente fraco com armas de fogo, sua agilidade é sobrenatural. Move-se como o vento; nos testes, Fabrizio lutou contra ele por 40 minutos sem conseguir desferir um único golpe. Empata com Silas na tolerância à dor. Observação Psicológica: Desenvolveu um transtorno de identidade dissociativa severo devido ao trauma. Apresenta três personas distintas:

 

Original: Calma, introvertida e analítica.

 

Instável: Hostil, expressa desejos genocidas contra o pessoal do projeto.

 

O Bobo: Uma regressão infantil onde usa truques, acrobacias e vozes finas como as de um palhaço, em uma tentativa desesperada de fazer os outros dez sobreviventes rirem na escuridão do laboratório, e com sucesso.

 

Turner fechou o documento com força.

 

— Perfeito — sussurrou o Coronel. — Temos um exército de onze. A humanidade pode cair amanhã, mas meu legado será eterno. Eu consegui onze humanos quase imortais.

 

FLASHBACK: Base da CIA – Cascades, 2030 (A Noite da Libertação)

 

Faltavam apenas algumas horas para o colapso total da sociedade lá fora, mas dentro do complexo, a revolução já havia começado. Os onze estavam em seus dormitórios, vestindo o uniforme padrão de testes: roupas brancas, simples e sem bolsos. A única exceção era o Jester de dez anos atrás; ele já usava uma máscara de palhaço de plástico barato que ganhara de um cientista após um teste de QI — um prêmio irônico por ser o "brinquedo" mais inteligente do Coronel.

 

No banheiro coletivo, o som do chuveiro ligado criava uma cortina acústica. Silas e Jester estavam sob a água, as mãos sobre as bocas para abafar qualquer sussurro.

 

— É hoje — murmurou Silas, seus olhos brilhando com uma fúria fria. — Jester, as câmeras?

 

— Já era, Silas — respondeu Jester, sua voz alternando entre a seriedade analítica e um riso nervoso. Por baixo do braço, ele escondia um tablet da CIA, um dispositivo que ele desviara meses antes durante os testes de drones. Seus dedos voavam pela tela hackeada. — O loop está rodando. Os guardas na sala de monitoramento estão vendo o corredor vazio. Eles não têm ideia de que a "Morte" saiu da caixa.

 

Em outra ala do dormitório, o cenário era de uma vulnerabilidade devastadora. Sílvia estava encolhida na cama beliche, as lágrimas escorrendo pelo rosto pálido. Fabrizio segurava a mão da irmã com uma força que prometia proteção eterna.

 

— Eu não aguento mais, Fab... — ela soluçou baixo. — As agulhas, o frio... eu quero que pare.

 

— Vai parar, Sílvia. Eu prometo — Fabrizio disse, limpando as lágrimas dela. — Hoje à noite, esses dez anos de tortura acabam. Nós vamos matar cada um deles. E se o Papai estiver no caminho... eu mesmo cuido dele.

 

Enquanto isso, a primeira fase tática já estava em curso. Elijah e Ian, os mais ágeis e letais em silêncio, moviam-se como sombras pelos dutos de ventilação. Eles caíram como fantasmas no setor de segurança 04.

 

Dois guardas mal tiveram tempo de sentir a presença deles. Elijah aplicou um mata-leão tão técnico que o guarda desmaiou antes de poder gritar; Ian, ao lado, foi mais definitivo, usando a força bruta para um "neckbreaker" seco que ecoou no silêncio do corredor. Eles não sentiam remorso. Aqueles homens eram os mesmos que os seguravam nas mesas de cirurgia.

 

Rapidamente, começaram a despir os cadáveres.

 

— Veste isso — ordenou Ian, jogando o colete tático para Elijah. — Vamos pegar as armas deles. Faltam nove uniformes. Precisamos limpar o arsenal antes que o alarme geral soe.

 

A caçada havia começado. As crianças criadas para serem armas finalmente tinham encontrado seus primeiros alvos: seus próprios criadores.

 

A Colheita

 

Elijah e Ian moviam-se com uma sincronia assustadora. Eles não eram apenas dois jovens; eram predadores em um labirinto. Após neutralizarem os dois primeiros guardas, Ian assumiu a posição de vigia na porta do setor de segurança, empunhando uma pistola com a frieza de quem já havia disparado milhares de vezes em simuladores.

 

— Elijah, vá! — sussurrou Ian.

 

Elijah, vestindo o uniforme largo demais do guarda morto, usou o cartão de acesso para abrir o Arsenal Sul. Lá dentro, a visão era o paraíso para quem fora criado para a guerra: rifles M4, submetralhadoras e granadas alinhadas como joias. Ele não pegou apenas para si. Ele começou a jogar os uniformes táticos pretos e os coletes balísticos dentro de grandes sacos de transporte de lona.

 

Enquanto isso, Silas deu o sinal. Nos dormitórios, a porta de Lil e Andrew foi aberta por Jester remotamente.

 

— É hora de brincar, garotos — a voz de Jester ecoou pelo sistema de intercomunicação interna, hackeado pelo tablet.

 

Lil saiu da cela com os olhos injetados. Ele não precisava de armas de fogo. Ele encontrou um machado de emergência em um armário de incêndio e, com um golpe, estraçalhou a trava da porta que levava ao dormitório dos cientistas. Atrás dele, o jovem Andrew sorria, segurando um bisturi de prata que ele havia escondido sob o colchão por semanas.

 

No corredor central, o encontro aconteceu. Elijah e Ian surgiram das sombras com os sacos de lona. O grupo se reuniu no ponto cego do Setor 02. Silas foi o primeiro a se vestir. O branco do laboratório foi substituído pelo preto tático.

 

— Zack, Diego, Aiden! — Silas comandou, distribuindo os rifles. — Vocês três tomam o setor de comunicações. Ninguém envia sinal para o exterior. Se alguém tentar tocar o rádio, cortem as mãos deles.

 

Zack pegou seu fuzil com um giro habilidoso, uma expressão de pura euforia no rosto. Diego e Aiden apenas assentiram, movendo-se com a agilidade que os testes de agilidade lhes deram.

 

Fabrizio e Sílvia receberam suas armas por último. Fabrizio pegou uma pistola Silver Ghost experimental e entregou um fuzil para a irmã.

 

— Não olhe para o rosto deles, Sílvia — Fabrizio avisou, sua voz endurecendo enquanto ajustava o colete dela. — Apenas atire no que se mover.

 

O plano era simples:

 

Jester trancaria todas as saídas eletrônicas, transformando a base em uma tumba.

 

Lil e Andrew seriam a distração violenta nos níveis inferiores, atraindo a força de resposta rápida para um "moedor de carne".

 

Silas, Elijah e Ian subiriam para o nível do comando para garantir que nenhum cientista ou guarda estivesse de pé.

 

Os gêmeos iriam direto para os aposentos privados do Coronel.

 

O massacre não foi barulhento no início. Foi uma sequência de tiros abafados por silenciadores e o som de corpos caindo sobre o chão de azulejos. Os cientistas, que horas antes injetavam venenos naquelas crianças, agora imploravam por misericórdia para "ativos" que não sabiam mais o que essa palavra significava.

 

O QG da Morte

 

A noite do massacre foi um balé de vingança técnica. Silas, Elijah e Ian moviam-se pelo nível administrativo como Ceifadores em um campo de trigo. Eles não apenas matavam; eles executavam o protocolo de eliminação com uma perfeição que deixaria o Coronel orgulhoso, se ele não fosse o alvo. Cada tiro de Ian era um crânio perfurado; cada movimento de Elijah era um pescoço quebrado.

 

Nos monitores da sala de comando, a imagem era surreal. Jester observava tudo através do tablet, sua risada distorcida ecoando pelos corredores vazios através dos alto-falantes.

 

— Agora... — Jester murmurou, os dedos dançando sobre o código de segurança. — É hora de o palhaço rir.

 

Ele selou as saídas com travas magnéticas de nível militar. Ninguém entrava. Ninguém saía.

 

Pelos corredores, os gêmeos Turner avançavam em uma formação de cobertura e avanço impecável, eliminando guardas antes mesmo que eles pudessem sacar suas armas. Diego, Zack e Aiden limpavam os setores de comunicação e energia, garantindo que o complexo ficasse isolado do mundo.

 

Enquanto isso, nos alojamentos dos cientistas, o horror era visceral. Andrew deslizou para cima de um homem que dormia, tapando sua boca com uma mão pequena e firme. Quando o homem arregalou os olhos em terror, Andrew deu um sorriso doce, de orelha a orelha.

 

— Shhh... vai dormir — sussurrou, antes de cravar a lâmina na garganta do homem.

 

Ao lado dele, Lil preferia o despertar do sofrimento. Ele cravava os dedos nos olhos daqueles que acordavam, sentindo o pânico antes de desferir o golpe final com seu machado de incêndio, decapitando-os com uma força bruta desumana.

 

Ao fim daquela noite, o complexo estava em silêncio absoluto. Mas, ao chegarem aos aposentos do Coronel, encontraram apenas o vazio. Turner havia escapado.

 

Sílvia caiu de joelhos, o peito arfando, as mãos sujas de pólvora.

 

— Ele... ele sumiu, Fabrizio!? — sua voz tremeu.

 

Fabrizio a puxou para um abraço apertado, os olhos fixos na poltrona vazia do pai.

 

— O mais difícil já fizemos, irmã. Um dia ele vai aparecer. E ele vai pagar.

 

Nos dias seguintes, o mundo lá fora começou a desmoronar. A "Queda" atingiu seu ápice. Governos caíram, exércitos se fragmentaram e as cidades queimaram. O governo tentou retomar a base algumas vezes, mas Jester já havia assumido o controle total. Ele ativou as cercas elétricas de alta voltagem e liberou a nuvem de milhões de drones de suporte que monitoravam cada centímetro da floresta de Cascade. Ninguém conseguia romper o cerco.

 

Na manhã, os onze sobreviventes arrastaram as centenas de corpos dos cientistas e soldados para o pátio central. Sob o céu cinzento do Oregon, eles atearam fogo. Uma fogueira gigante, a "Fogueira da Libertação".

 

— Agora isso é nossa casa — declarou Silas, a voz firme como aço. — Nós estaremos juntos para sempre.

 

Todos assentiram em silêncio.

 

— Eles queriam criar a Morte? — Silas olhou para o fogo. — Pois conseguiram.

 

A cena final da memória mostrava os onze já paramentados. Jester havia usado as oficinas do complexo para criar as primeiras máscaras de metal e os trajes táticos pretos. Dez deles saíram pelos portões da base pela primeira vez em dez anos, mergulhando no caos da "Queda" para sua primeira missão oficial. Jester ficou para trás, os olhos fixos nos monitores, liderando a tropa de drones.

 

Ali nasceram as lendas. Os Assassinos Originais. Crianças quebradas que se tornaram os maiores predadores do mundo, os Assassinos Imortais.

 

Presente: Base da CIA – O Refeitório Branco

 

Silas terminou o relato, seus olhos voltando-se para Henry. O ambiente branco parecia mais frio do que nunca.

 

Sílvia e Fabrizio permaneciam imóveis, como estátuas de um passado que nunca morreu. Henry percebeu que não estava lidando apenas com uma facção de assassinos, mas com um culto de sobreviventes que transformou o próprio trauma em uma arma global.

 

O silêncio no refeitório tornou-se insuportável. Henry, agora estava processando o nível de desumanidade daqueles que o cercavam.

 

— Agora você entende, Henry? — Silas murmurou, sua voz retornando ao presente. — Turner não nos deu a vida. Ele a roubou de nós, pedaço por pedaço, órgão por órgão.

 

Sílvia mantinha a mão sobre a de Fabrizio, um gesto de conforto que era a única coisa orgânica naquele mar de tecnologia e trauma.

 

— Eu... sinto muito por todos vocês — disse Henry, a voz carregada de uma sinceridade que raramente era ouvida naquelas paredes. — Não consigo imaginar o que é passar dez anos sendo torturado... Eu passei por momentos difíceis, perdi meus pais. No início da Queda, eles me levaram do Brasil para os EUA em um navio cargueiro achando que aqui seria seguro. Não poderiam estar mais enganados. Eles morreram, provavelmente... Embora triste, isso não é nada comparável ao que vocês passaram. Sinto muito pela infância que foi tirada de vocês e pela perda dos pais de todos aqui.

 

Sílvia desviou o olhar, uma sombra de tristeza cruzando seu rosto pálido. Silas permaneceu imóvel, absorvendo as palavras de Henry com a dignidade de quem já aceitou seu destino há muito tempo.

 

Foi então que a voz fina de Jester, carregada daquela energia caótica que o definia, cortou o ar. Ele inclinou a cabeça para o lado, os guizos de sua veste emitindo um tilintar metálico e agudo.

 

— Ah, pelo menos todos aqui são órfãos! — Jester exclamou, em um tom bizarramente brincalhão, quase como se estivesse contando uma piada em um velório. — Olha que família perfeita!

 

Ele soltou uma risadinha curta e seca, batendo palmas levemente.

 

Silas levantou-se lentamente, sinalizando o fim do jantar.

 

— A empatia é um luxo que poucos ainda possuem, Henry. Guarde a sua. Você vai precisar dela se quiser sobreviver ao que Turner planejou para este mundo.

 

Fim do Capítulo

 

Imortalidade Psicológica / Pseudo-Imortalidade dos Ceifadores

 

A imortalidade dos Ceifadores é classificada como pseudo-imortalidade porque, embora sejam vistos como lendas invencíveis, sua condição é o resultado de um condicionamento extremo e não de uma vida eterna real. O pilar central desse estado é a imortalidade psicológica: uma ausência total de medo e hesitação nascida de dez anos de tortura sistêmica no inferno do "Experimento 777". Eles vivem dentro da cronologia de um humano comum e sob a mesma expectativa de vida biológica, mas operam com uma frieza absoluta que os desliga de qualquer trauma ou instinto de autopreservação emocional.

 

Biologicamente, esses onze sobreviventes possuem uma durabilidade sobre-humana e uma tolerância à dor que nenhum humano normal poderia suportar, permitindo que ignorem ferimentos devastadores em combate. A CIA otimizou seus corpos removendo órgãos propensos a infecções — como as amígdalas, o baço, a vesícula e o apêndice — e os tornou imunes a venenos através de um rigoroso processo de Mitridatismo. No mundo de 2040, essa invulnerabilidade aparente é reforçada pelo uso de máscaras de metal de esqueleto e coletes balísticos de nível militar raros, relíquias de antes da "Queda" que os tornam blindados contra quase todas as ameaças comuns.

 

Apesar de serem tratados como mitos indestrutíveis, a natureza dessa imortalidade é finita e puramente física. Eles ainda são seres humanos de carne e osso e, embora seja extremamente difícil, podem ser mortos. A morte para um Ceifador vem através de métodos definitivos, como tiros na cabeça, carbonização, perfuração direta do coração ou cortes fatais no pescoço.

 

Eles também permanecem vulneráveis a traumas cranianos massivos e, caso não sejam abatidos em combate, acabarão sucumbindo às causas naturais do envelhecimento, provando que são máquinas biológicas de elite, mas ainda mortais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora