Volume 1
Capítulo 7 - Rota 666
Prazer e Prisioneira
Local: Escritório de Gun – Minicidade de Chemult (QG da Região 97)
O QG em Chemult é uma fortaleza de metal e madeira. No andar superior, o escritório de Gun cheira a uísque caro, pólvora e ao suor de um homem que se sente um Deus.
Sobre a escrivaninha de carvalho maciço, mapas das quatorze nações e planos de invasão foram jogados ao chão. Gun está no controle; seus movimentos são brutos e rítmicos, carregando a euforia da descoberta no bunker. Ele não removeu sua máscara de couro; o zíper na boca está aberto, e sua respiração pesada ecoa pela sala como o fole de uma fornalha.
Freya está sob ele, com as costas pressionadas contra a madeira fria da mesa. Seus dedos se enterram nos ombros de Gun, e ela solta gemidos que ele interpreta como paixão, mas que são, na verdade, uma técnica de sobrevivência. Enquanto seu corpo responde ao dele, sua mente está a quilômetros de distância. Ela encara o teto, imaginando o rosto de Silas no arquivo do Projeto. Cada toque de Gun agora parece uma queimadura de gelo.
— Sinta isso, Freya... — Gun rosna entre os dentes, sua voz vibrando contra o pescoço dela. — Este é o ritmo do novo mundo. Com aqueles vinte foguetes, vou escancarar as portas de cada nação. Vou te dar o mundo inteiro em uma bandeja de prata.
Freya inclina a cabeça para trás, fechando os olhos. — O mundo é seu, Gun. Eu sou apenas a sua sombra.
Ele pausa por um momento, segurando o rosto dela com as duas mãos, encarando-a através do único buraco na máscara. — Você não é uma sombra, minha Deusa. Você é a razão pela qual eu ainda não queimei tudo isso.
O Despertar do Comboio
Enquanto o Rei e a Rainha terminam seu ritual de poder no escritório, o pátio de Chemult é uma colmeia de atividade sob o brilho de refletores alimentados por geradores barulhentos.
Henry está sentado na beirada de um vagão de trem, limpando o sangue seco de sua briga com Mickey. Ele observa os soldados de Gun pintarem o número 666 em branco nas laterais dos caminhões que carregam os lançadores de foguetes. Para Gun, é uma piada; para os sobreviventes do Oregon, é um presságio do fim.
Colt caminha pelo pátio com sua prancheta, verificando os níveis de combustível. Ele para na frente de Henry.
— O Chefe quer o comboio na Rota 97 em duas horas — diz Colt, com a voz desprovida de emoção. — Ele apelidou a missão de "Rota 666". Estamos indo para a fronteira sul. Ele quer testar o primeiro foguete em uma estrutura real.
— E qual é o alvo, Colt? — Henry pergunta, levantando-se.
Colt olha para Henry com uma indiferença gélida. — A Represa Wickiup. Se derrubarmos a represa, cortamos a água das comunidades independentes que ainda se recusam a pagar tributo. É eficiente. É definitivo.
O Adeus Silencioso
Antes de partir, Henry consegue passar pela área de detenção. Ele vê Solomon através de uma janela reforçada. Solomon faz um sinal de mão discreto — um gesto que, na linguagem dos Hereges, significa: "O vento está mudando de direção".
Henry sabe que não pode mais esperar. Com os lançadores de foguetes em movimento, o tempo da diplomacia acabou. Ele olha para o andar superior, onde as luzes do escritório de Gun ainda estão acesas. Ele vislumbra a silhueta de Freya na janela, alisando o vestido.
O silêncio no escritório era absoluto, quebrado apenas pela respiração pesada de ambos após o ato. Freya sentava-se na borda da mesa de carvalho, com a seda de seu vestido ainda desalinhada, enquanto Gun terminava de ajustar as bandoleiras em seu peito.
Com o coração batendo contra as costelas, Freya quebrou o silêncio com uma voz que oscilava entre a vulnerabilidade e o cálculo:
— Gun... tenho medo de perguntar, mas preciso saber. — Ela buscou o único olho visível dele através da máscara. — Você me ama de verdade, ou apenas me vê como mais um objeto de prazer, como uma posse?
Gun parou instantaneamente. O líder psicopata, que segundos antes estava focado apenas na guerra, suavizou sua postura. Ele caminhou em direção a ela com uma lentidão solene e colocou suas mãos calejadas sobre o rosto dela. Seus dedos enluvados acariciaram o cabelo de Freya com uma ternura que era quase aterradora.
— Eu te amo de verdade, Freya. — A voz dele saiu em um tom baixo e rouco, desprovida de sua agressividade habitual. — Apenas os homens lá embaixo são objetos para mim. Eles são ferramentas, gado, bucha de canhão. Mas você... você é minha Deusa. Minha Rainha. Meu Anjo.
Ele aproximou o rosto do dela, o couro da máscara roçando em sua testa.
— Você é minha, e de mais ninguém. Nunca duvide disso. Tudo o que eu conquisto, cada gota de óleo e cada grama de pólvora, é para fortalecer o trono em que você se senta.
Freya fechou os olhos, sentindo o toque dele. Por fora, ela era a imagem da devoção, mas por dentro, as palavras "e de mais ninguém" ecoavam como a tranca de uma cela de segurança máxima. Ela o abraçou, escondendo o rosto contra o peito dele para que ele não visse o conflito em seus olhos. Ela tinha o amor do monstro, e era isso que a mantinha viva e prisioneira.
O tom da expedição mudou de uma marcha de guerra para uma transação de sangue. Após o momento de vulnerabilidade no escritório, Gun saiu para a varanda do QG, sua máscara de couro brilhando sob os refletores. Ele olhou para os quarenta soldados prontos para a missão e fixou os olhos em Henry, que esperava ao lado do caminhão principal.
— Escutem bem! — A voz de Gun ecoou, amplificada pelos alto-falantes da base. — A Rota 666 nos espera, mas antes de transformarmos aquela represa em fumaça, temos negócios. Henry, você liderará o comboio até o entroncamento leste. Lá, você encontrará Os Rodoviários.
Gun soltou uma risada curta e seca. — O bando de Dante Korthas. Trinta motoqueiros que pensam que são donos do asfalto só porque fazem barulho. Vamos entregar o combustível que eles precisam para suas máquinas inúteis e, em troca, eles entregarão os sobreviventes que capturaram nas vilas próximas. Recursos humanos, Henry. Braços para as minas e carne para o progresso.
Ele ajustou o coldre de sua Magnum e encarou o horizonte. — Enquanto você cuida da troca, eu vou descansar. Vou beber um bom vinho e aproveitar o silêncio de Chemult. Vão! E não me tragam desculpas, tragam-me os cativos.
O Barman Explosivo
A cena corta para o bar improvisado no centro da minicidade de Chemult. A atmosfera é rústica, com paredes de compensado decoradas com placas de trânsito cravejadas de buracos de bala.
Atrás do balcão, Steve Piro está em uma posição que odeia. O especialista em demolição dos Hereges, o homem que vive para ver o mundo queimar, foi reduzido por Gun ao papel de barman. Suas mãos, acostumadas a manusear napalm e maçaricos, agora poliam copos de vidro sujos com um trapo imundo.
A porta se abriu de supetão e Gun entrou sozinho, sem sua guarda pessoal, mas carregando a aura de um homem que é dono de cada átomo daquele lugar. Ele se sentou em um banco alto, batucando os dedos na madeira.
— Um uísque, Piro. Do bom — ordenou Gun, inclinando-se para trás. — E não tente batizá-lo com nada inflamável. Eu sentiria o cheiro a quilômetros de distância.
Steve serviu a bebida com movimentos tensos, o líquido âmbar transbordando levemente. Ele olhou para Gun, o ódio queimando por trás de seus olhos arregalados, mas suas Manoplas de Tocha haviam sido confiscadas e estavam trancadas no arsenal.
— O comboio já partiu, senhor — resmungou Steve, com a voz rouca.
— Bom. Henry é eficiente sob pressão. — Gun deu um longo gole, soltando um suspiro de satisfação. — Sabe, Piro... eu te coloquei aqui porque você entende de misturas. Álcool, fogo, adrenalina... somos parecidos. Mas você serve a Solomon, um homem que quer apagar as chamas. Eu? Eu quero que elas iluminem o meu império.
Gun encarou o reflexo de Steve no espelho atrás do bar. — Beba comigo. É um dia histórico. Hoje, Os Rodoviários comem na palma da minha mão e, amanhã, todo o Oregon será um pavio curto.
Enquanto isso, o asfalto da Rodovia 97 parecia uma cicatriz negra sob a luz pálida da lua. O comboio avançava em duas frentes: à frente, o caminhão de carga principal dirigido por Henry, escoltado por dois jipes com dez soldados cada; logo atrás, mantendo uma distância tática de cinquenta metros, o segundo caminhão era liderado por Colt, cercado por mais vinte homens de elite da Região 97.
Henry apertou o volante do caminhão com tanta força que o couro velho rangeu. No espelho retrovisor, ele via os faróis do jipe de Colt, brilhando como os olhos de um predador metálico. No banco de trás de seu caminhão, dois guardas de Gun cochilavam, confiando na lealdade forçada do batedor.
"Colt..." — O pensamento de Henry era gélido, uma sentença de morte silenciosa. — Você é o cérebro militar desse império de merda. Se eu apagar suas luzes agora, Gun perde a bússola. Você é apenas mais um nome que vou riscar da lista antes do amanhecer.
A oportunidade surgiu quando o comboio entrou em uma zona de curvas fechadas cercada por cânions de rocha vulcânica. O sinal de rádio ali era instável, e a poeira levantada pelos veículos da frente criava uma cortina de cegueira para quem vinha atrás.
A Derrubada Tática
Henry olhou para o painel. Ele sabia que o caminhão de Colt carregava os barris de combustível para Os Rodoviários. Se conseguisse isolar o veículo de Colt, poderia causar um acidente que pareceria uma falha mecânica para qualquer um que observasse à distância.
— Ei — chamou Henry para os dois guardas no banco de trás, com a voz rouca e controlada. — O eixo traseiro está vibrando. Acho que a carga de foguetes se deslocou. Preciso que vocês saiam e verifiquem assim que eu reduzir na próxima curva. Se essa coisa explodir, Gun não terá mais nada sobre o que reinar.
Os soldados, temendo a fúria de Gun mais do que qualquer outra coisa, assentiram. Henry reduziu a marcha bruscamente em um trecho onde a estrada se estreitava. Os dois homens pularam no momento em que o caminhão parou por um segundo, correndo em direção à traseira.
Henry não esperou. Ele engatou a ré com violência.
O caminhão de Henry, um monstro de metal pesado, recuou como um aríete contra o jipe de escolta que vinha logo atrás, esmagando o motor do veículo menor contra a parede do cânion. Antes que os soldados de Colt pudessem perceber o que estava acontecendo, Henry saltou da cabine com uma agilidade que desafiava a gravidade.
Colt, pressentindo a manobra, pulou de seu próprio jipe com uma carabina em mãos. — Henrikson! O que você está fazendo, seu idiota?! — gritou Colt, disparando um dardo elétrico que raspou no ombro de Henry.
Henry não respondeu com palavras. Ele disparou pelas sombras das rochas, usando parkour para escalar a parede do cânion e se posicionar acima do comboio de Colt. Lá de cima, ele viu os vinte homens de Colt se espalhando, tentando descobrir para onde o batedor havia desaparecido.
"Vinte contra um" — pensou Henry, enquanto puxava uma faca de combate serrilhada que havia escondido no forro do caminhão. — As chances nunca foram tão boas.
Sangue no Asfalto
Abaixo, Colt estava cercado por seus homens, mas a poeira e o caos das colisões tornavam tudo confuso. Henry lançou-se de cima, aterrissando silenciosamente sobre o primeiro guarda e cravando sua faca na base do crânio antes que o homem pudesse gritar.
Colt girou, disparando sua carabina às cegas. — Formação circular! Protejam o combustível! Mickey, onde você está?! — gritou Colt no rádio, mas Mickey estava milhas à frente, incapaz de ouvir devido à interferência das rochas.
Henry movia-se como um espectro. Ele não buscava uma luta justa; buscava o extermínio. Ele abateu o segundo e o terceiro soldados usando o próprio impulso dos impactos, transformando o espaço confinado do cânion em um matadouro silencioso.
Colt percebeu que Henry os estava caçando um a um. Ele largou a carabina, que era lenta demais para recarregar em combate próximo, e sacou sua faca Bowie de tamanho descomunal.
— Você quer minha cabeça, Brasileiro? — desafiou Colt, seus olhos frios focados na sombra que se movia entre os caminhões. — Venha buscar. Mas saiba disso: Gun vai queimar cada um dos seus irmãos quando descobrir que você traiu o acordo.
Henry moveu-se pelas sombras do chassi do caminhão, ouvindo os gritos de Colt ecoarem pelo cânion. O ar estava saturado com o cheiro de diesel vazando. Henry sabia que, contra vinte soldados, a força bruta era um erro. Ele precisava de caos.
Com um movimento rápido, Henry rasgou a lona do caminhão de Colt. Ele não foi atrás dos foguetes, mas de um dos barris de combustível destinados à troca. Usando a força dos ombros, ele tombou o barril, deixando o líquido altamente inflamável derramar sobre a estrada, criando um rio negro que serpenteava entre as botas dos soldados de Gun.
— Agora, Colt! — gritou Henry das sombras, sua voz ecoando nas paredes de pedra.
Ele acionou um isqueiro tático e o jogou no combustível.
BOOM!
Rugido Ciano
Uma parede de fogo laranja explodiu, partindo o cânion ao meio. O clarão foi cegante. Soldados gritavam enquanto a cortina de chamas isolava Colt e três de seus homens de um lado, enquanto o resto do grupo ficava preso atrás da barreira de fogo.
Henry saltou do teto do caminhão como um falcão, pousando exatamente no espaço onde Colt tentava recuperar a visão. Em segundos, Henry desarmou o primeiro soldado com um chute na traqueia e usou o corpo dele como escudo humano quando o segundo disparou seu bastão.
Colt sacou sua faca Bowie, a lâmina brilhando com o reflexo das chamas. — Você é bom, Henrikson. Mas o fogo atrai moscas.
Antes que as lâminas de Henry e Colt pudessem colidir, um som agudo e ensurdecedor rasgou o ar. Não era o trovão das armas de Gun, mas o grito de motores em alta rotação.
De ambos os lados da estrada, luzes ciano cortaram a névoa e a fumaça. Os Rodoviários haviam chegado cedo, e não vieram para negociar.
Trinta motocicletas azul-ciano, pintadas com precisão militar, surgiram em uma formação em V. À frente, Dante Korthas acelerava sua máquina, com a corrente de transmissão girando ao seu lado como uma hélice mortal.
— ¡Miren este desastre! — gritou Dante sobre o ronco do motor, sua voz amplificada pelo capacete azul. — ¡Gun nos prometeu combustível, não um churrasco de Executores!
Os Rodoviários não reduziram a velocidade. Eles entraram no campo de batalha como demônios sobre rodas. As motos, equipadas com bidentes de aço na frente, começaram a empalar os soldados de Gun, que ainda estavam atordoados pelo fogo. Dante girou sua corrente; o metal serrilhado atingiu o peito de um soldado, arrancando-o do chão com a força centrífuga da moto a 80 km/h.
Trégua de Sangue
Henry e Colt foram forçados a recuar para o mesmo lado da estrada enquanto os motoqueiros circulavam o caminhão de foguetes, balançando suas correntes laminadas. Era um balé letal de ciano e aço.
— Eles estão roubando a carga, Henry! — gritou Colt, esquecendo momentaneamente a rivalidade ao ver Dante sinalizar para seus homens prenderem as caixas de foguetes com ganchos acoplados às suas motos. — Se Dante levar esses LAWs, Gun vai matar todos nós!
Henry olhou para Dante, que realizava uma manobra de zerinho ao redor deles, levantando poeira e fumaça. O líder argentino levantou sua viseira preta, revelando olhos injetados de adrenalina.
— O acordo mudou, Executores! — debochou Dante. — Com esses foguetes, não preciso mais do combustível de vocês. Eu serei o mestre da Rota 666!
Henry sentiu o peso da faca de combate em sua mão. Ele olhou para Colt, depois para as motos ciano cortando o ar com suas correntes.
— Colt — disse Henry, com a voz fria e resoluta. — Se você quiser viver para contar ao Gun o que aconteceu, atire naqueles tanques de combustível das motos. Eu vou atrás do Dante.
Colt assentiu, pegando sua carabina do chão. O Batedor e o Tático agora tinham um inimigo comum movendo-se a cem quilômetros por hora.
Henry observou a silhueta de Colt enquanto ele tomava sua posição. O tático dos Executores estava de costas, com a carabina apoiada no ombro, focando a mira nos tanques das motos ciano que rugiam ao redor deles. A adrenalina de Colt estava no ápice; ele realmente acreditava que, diante de um perigo compartilhado, o batedor honraria a trégua.
— Ao meu sinal, Henry! — gritou Colt, com o dedo no gatilho. — Eu derrubo os batedores e você ataca o Dante!
Henry não deu sinal algum. Ele se moveu como um espectro, usando o rugido ensurdecedor dos motores dos Rodoviários para abafar seus passos. No momento em que Colt estava prestes a disparar, Henry envolveu o braço direito no pescoço do tático, travando-o com o esquerdo em um mata-leão perfeito e devastador.
Os olhos de Colt se arregalaram enquanto ele deixava a carabina cair. Ele tentou cravar os dedos nos braços de Henry, chutando o ar em desespero, mas a técnica do Herege era absoluta. Henry apertou com cada grama de ódio que acumulou desde a prisão de Solomon.
— Shh... — sussurrou Henry no ouvido de Colt, sua voz gélida enquanto sentia o corpo do inimigo amolecer. — A trégua só existia na sua cabeça, Colt. Diga ao inferno que Henry mandou um alô.
Com um estalo abafado de cartilagem, a resistência de Colt cessou. Henry segurou o corpo por mais dez segundos para ter certeza e então o jogou como lixo no asfalto quente.
"Mais um nome riscado da lista..." — Henry cuspiu no chão, olhando para o cadáver.
O Preço da Vingança
Enquanto Henry executava Colt, o caos ao redor cobrou seu preço. Dante, testemunhando o tumulto entre os líderes dos Executores, soltou uma gargalhada argentina que ecoou pelo cânion.
— ¡Gracias por el espectáculo, idiotas! — gritou Dante.
Com precisão cirúrgica, Os Rodoviários fisgaram as caixas de lançadores de foguetes M72 LAW com ganchos de aço presos às suas motos ciano. Em um movimento sincronizado, as trinta máquinas empinaram, queimando borracha e desaparecendo na névoa da Rota 97 em alta velocidade. O rastro de luz azul sumiu no horizonte, deixando para trás apenas o cheiro de borracha queimada e o silêncio da morte.
Henry estava sozinho. Os soldados restantes de Gun haviam sido empalados ou degolados pelas correntes. Os caminhões estavam destruídos ou sem combustível. Ele olhou para suas mãos manchadas de sangue e para a estrada vazia. Ele havia eliminado um dos generais de Gun, mas o Rei agora tinha vinte lançadores de foguetes perdidos nas mãos de um bando de psicopatas nômades.
O Caminho de Volta
O sol começou a nascer, pintando o céu com um laranja doentio. Henry caminhava a pé pelo acostamento, uma silhueta solitária cortando a vastidão do Oregon. Cada passo era uma agonia em suas costelas feridas, mas sua mente estava focada na mentira que teria de contar.
Ele precisava voltar para Chemult. Precisava olhar nos olhos de Gun e dizer que Os Rodoviários haviam traído a aliança e matado todos — incluindo o leal Colt.
O Retorno a Chemult
Henry entra pelos portões da minicidade, exausto, arrastando os pés. Ele caminha direto para o bar onde sabe que Gun o espera.
Gun está sentado no mesmo banco, sua garrafa de uísque quase vazia, e Steve Piro ainda está limpando copos sob pressão. Ao ver Henry entrar sozinho e coberto de sangue, Gun levanta-se lentamente, sua mão movendo-se em direção à empunhadura de sua Magnum.
— Henry... — diz Gun, com a voz perigosamente baixa. — Onde está meu combustível? Onde está Colt? E por que não sinto o cheiro dos meus foguetes voltando para casa?
Henry para diante de Gun, sustenta o olhar e respira fundo.
O silêncio no bar de Chemult tornou-se tão denso que o som do trapo de Steve no balcão parecia um trovão.
— Eles nos pegaram na curva do cânion, Gun — disse Henry, com a voz rouca e desprovida de emoção. — Dante e aquela maldita trupe de azul. Eles não queriam o combustível. Eles queriam os LAWs. Colt... os quarenta soldados... todos mortos. Empalados pelas motos e arrastados por correntes até não sobrar nada além de pedaços no asfalto. Eles levaram tudo.
A reação de Gun foi instantânea e violenta. Ele rugiu, um som gutural que ecoou nas paredes de madeira, e arremessou seu copo de uísque com toda a força contra a parede. O vidro se estilhaçou em mil pedaços ao lado da cabeça de Piro, que sequer piscou.
— MIL VEZES MALDITOS! — gritou Gun, chutando o banco de metal, que voou pelo bar. — Meus foguetes! Dante vai pagar com cada centímetro de sua pele por esta traição!
Gun parou, sua respiração pesada fazendo o zíper de sua máscara de couro subir e descer rapidamente. Ele se voltou para Henry, com os olhos injetados de fúria e suspeita, e caminhou até ficar a centímetros do rosto do batedor.
— E como você sobreviveu, Henry? — rosnou Gun, sua voz carregada de veneno. — Quarenta homens treinados, os gêmeos, Colt... todos debaixo da terra. E de todos eles, só você volta caminhando? Como?
Henry não recuou. Ele sustentou o olhar de Gun, mantendo a expressão gélida que Solomon lhe ensinara para momentos de vida ou morte.
— Não importa como eu sobrevivi, Gun. Eu estou aqui, não estou? — Henry deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal do líder. — O fato é que eu sou melhor que o Colt. Sou melhor que os gêmeos. Eles falharam e estão mortos. Eu estou vivo. Se você quer alguém que realmente possa proteger o que restou, eu posso ser seu guarda-costas de elite. Mas pare de chorar pelo chumbo perdido e foque em quem realmente pode fazer o serviço.
Gun ficou em silêncio, sua mão tremendo de raiva pairando sobre a Magnum. O bar inteiro prende a respiração. Lentamente, o líder soltou uma risada seca e doentia.
— Você tem culhão, batedor... — murmurou Gun, limpando uma gota de uísque de sua máscara. — Colt era um burocrata tático. Você é um predador. Talvez a morte dele tenha sido o upgrade que minha guarda precisava.
Gun virou-se para Steve. — Sirva outro uísque. Para mim e para o meu novo guarda-costas. Temos uma estrada para queimar e vinte foguetes para recuperar.
O Olhar da Rainha
No andar de cima, na varanda do QG, Freya observava a cena através da janela rachada. Ela vira Henry chegar sozinho e ouvira os gritos de Gun. Ela sabia a verdade: Henry estava limpando o tabuleiro, peça por peça.
Em uma de suas mãos ela carregava um aparelho com sinal de ‘positivo’. “Mesmo sinal”, pensou ela, enquanto fixava os olhos na figura de Henry lá embaixo. O plano de Solomon estava avançando, mas o preço estava ficando cada vez mais alto.
O Tabuleiro dos Mortos
Rodovia 97 / Rota 666 – 11:30 AM
O deserto do Oregon fervilha. O plano de Henry é uma faca de dois gumes: ele convenceu Gun de que a única maneira de recuperar os foguetes e punir Dante é através de um ataque relâmpago, usando o próprio Henry como a ponta da lança.
O Conselho de Guerra
Dentro de uma tenda fortificada em Chemult, Gun se inclina sobre uma mesa de metal. Freya está ao seu lado, com os olhos fixos em um rádio de comunicação captando a estática das patrulhas de Dante.
— Eles estão em Sunriver — rosnou Gun, apontando para o mapa. — Dante montou um "Ninho" em um antigo anfiteatro. Ele tem os LAWs mirados para a estrada. Se eu enviar meus caminhões blindados, ele nos transformará em cinzas antes de chegarmos a um quilômetro de distância.
Henry dá um passo à frente.
— Eu irei a pé, pelos telhados e pelas rochas — diz Henry. — Dante vigia o asfalto, mas ele não vigia o céu. Se eu desativar o primeiro foguete, você avança com o restante dos 250 homens.
O Salto de Fé
A cena corta para Henry navegando pelas ruínas de Sunriver. É um paraíso do parkour. Ele salta das varandas de cabanas de luxo abandonadas para pinheiros ancestrais, movendo-se com uma velocidade que nenhum dos soldados de Gun jamais conseguiria alcançar.
Abaixo dele, a Rodovia 97 é um formigueiro azul. Trinta motocicletas ciano circulam o anfiteatro. Dante está no topo do palco, sentado em um trono feito de pneus, com um lançador de foguetes M72 LAW apoiado em seu ombro.
— ¡Vengan, cobardes! — grita Dante para o vazio da estrada. — ¡El asfalto tiene un nuevo dueño!
Henry se posiciona em uma viga de aço acima do palco. Ele avista os foguetes: eles estão organizados em um caixote marcado com 666. Henry prepara suas facas de combate serrilhadas.
O Caos Começa
Henry não ataca Dante primeiro. Ele corta os cabos de suspensão de um enorme refletor do estádio. O metal pesado cai diretamente sobre dois motociclistas, esmagando suas máquinas e criando a distração perfeita.
BAM!
Henry aterrissa no centro do palco. Ele é um vulto em movimento. Chuta um lançador de foguetes para longe e corta a garganta do operador em um único movimento fluido.
— ¡INTRUSO! — ruge Dante, saltando de seu trono e desenrolando uma corrente de transmissão.
A corrente de Dante corta o ar com um sibilado metálico. Henry se esquiva com um rolamento, mas a ponta dentada da corrente rasga um pedaço de seu traje. A luta é uma dança da morte: o alcance de média distância de Dante contra o contato visceral de proximidade de Henry.
Dante chicoteia a corrente, tentando emaranhar as pernas de Henry. Henry usa a carcaça de um amplificador quebrado para ganhar altura, realiza um mortal para trás e acerta Dante com um chute duplo no peito.
— Você fala demais, Dante — diz Henry, limpando o sangue do lábio. — Mas sem aquela moto, você é apenas um homem com um pedaço de lixo na mão.
O Veredito de Chumbo
De volta ao anfiteatro, Dante está encurralado. Henry o desarmou, prendendo a corrente do argentino em uma polia de aço. Henry ergueu sua faca para o golpe final, mas para ao ouvir o som de um motor pesado.
Gun chegou.
Os caminhões blindados de Gun esmagam as barricadas dos Rodoviários. Soldados saltam para fora, disparando bastões elétricos e empunhando facas. Gun desce de seu jipe, caminhando calmamente entre os corpos vestidos de azul. Ele vê Henry segurando Dante pela garganta.
— Bom trabalho, Henry — diz Gun, sacando sua Magnum. — Agora, saia do caminho. Quero ver a cor dos olhos dele quando o chumbo entrar.
Henry olha para Dante. O argentino está rindo, com o rosto coberto de sangue. — ¡Ustedes son todos fantasmas, che! ¡Gun, el batedor te va a matar pronto!
Gun mira sua arma. Henry solta Dante e dá um passo para o lado.
KABOOM!
O tiro da Magnum ecoa pelo anfiteatro. Dante cai. Gun guarda sua arma e olha para os vinte foguetes recuperados.
— Henry — diz Gun, colocando a mão no ombro do brasileiro. — Você provou seu valor. Hoje, limpamos a Rota 666.
Henry sente um calafrio na espinha. Ele olha para o corpo de Dante e depois para o horizonte. O nó está se apertando.
Bar de Chemult
A atmosfera era de celebração. No balcão, Gun e Henry bebiam lado a lado, cercados por dezenas de outros caubóis que faziam o mesmo ou se dividiam nas mesas de bilhar. Um pouco mais afastado, Mickey arremessava dardos contra o alvo, a mente distante, presa em questionamentos internos. “O que aconteceu no desfiladeiro? Como o comboio de Colt caiu tão rápido?”
Henry fez um sinal sutil com a cabeça para Steve e caminhou em direção ao banheiro. Gun, já demonstrando os efeitos da bebida, desabou a cabeça sobre os braços cruzados no balcão. Aproveitando a distração, o balconista seguiu Henry.
— Nem precisei te lembrar, você foi inteligente — disse Henry, trancando a porta do banheiro atrás de si. — Deixou minha bebida sem álcool.
— Pois é, eu me lembrei que você é fresco — debochou Steve, soltando um riso abafado. — Mas e agora? O que você vai fazer?
— Você tem chaves de vários pontos de Chemult. Pegue uma parecida com a chave das celas que o Gun carrega. Trocamos as duas. Vou soltar nossos irmãos hoje à noite.
Steve ponderou por um instante, calculando os riscos.
— O plano é bom. Só preciso de uns minutos. Pegue esse trapo e fique de bartender no meu lugar, vou estar nos fundos procurando.
Os dois se separaram. Henry assumiu o posto atrás do balcão e, no mesmo instante, Gun ergueu a cabeça, os olhos semicerrados tentando focar o ambiente.
— Cadê o Piro? — perguntou, a voz arrastada e desconfiada.
— Ele foi aos fundos procurar mais gin inglês — respondeu Henry, limpando o balcão com o pano. — Vai querer algo mais?
— Não, Henry... Para mim já deu. Eu te conheço, você vai me envenenar com alguma merda.
Henry forçou um sorriso amigável, afetando inocência:
— Gun... por que eu faria isso? Tem uns cinquenta caras da sua irmandade aqui dentro. Vamos, é dia de celebrar. Eu bebo contigo.
Gun hesitou, mas a guarda baixa pela bebida falou mais alto e ele aceitou. Como Henry tinha tomado apenas bebida sem álcool nas primeiras rodadas, um pouco de álcool agora não faria diferença. Eles viraram mais alguns copos.
Após alguns minutos, o cansaço e o efeito acumulado finalmente derrubaram Gun, que adormeceu pesadamente sobre a madeira do balcão. O tempo passou e o restante dos homens começou a esvaziar o bar; alguns subiram para os quartos, outros saíram para render as patrulhas no monitoramento noturno da cidade.
Steve reapareceu dos fundos, segurando um molho de chaves idênticas às de Gun. Ele olhou para Henry com um sorriso cúmplice e jogou o chaveiro no ar. Henry pegou as chaves no reflexo e, com as mãos firmes e ágeis, aproximou-se do corpo apagado de Gun, retirando as chaves originais de seu cinto e colocando as falsas no lugar.
— Valeu, Piro. Depois eu te mando uma chamada no rádio. — sussurrou Henry, guardando o prêmio no bolso.
— Entendido, Capitão. — respondeu Steve, assentindo.
Henry guardou o molho verdadeiro, respirou fundo e começou a balançar o corpo do chefe.
— Ei, Gun... — chamou, insistindo até que o homem soltasse um grunhido e abrisse os olhos. — Vamos para casa. Eu estou morto de cansaço.
Gun piscou os olhos pesados, olhando ao redor do salão vazio.
— Mas que porra... Todos os buchas de canhão já se foram?! — Ele praguejou, cambaleando ao ficar de pé. — Cansado... Você dirige até a Serraria!
Corredores das Masmorras – Serraria Abandonada
O comboio de Gun retornou à Serraria em celebração, mas o Semideus, exausto pela adrenalina da vitória e bêbado, retirou-se para seus aposentos. Henry carrega o molho de chaves mestras em seu cinto — o metal que outrora foi sua prisão agora é sua autoridade.
Henry caminha pelos corredores úmidos. Ele chega ao bloco de celas de segurança máxima. O silêncio é absoluto até que o som metálico da primeira chave girando na fechadura ecoa como um trovão.
A grade da cela de Solomon se abre. O velho mestre se levanta, seus olhos brilhando nas sombras.
Uma a uma, as portas se abrem:
Vane massageia os pulsos, restaurando a circulação.
Kol sai da escuridão como um urso acordando da hibernação.
Elena ajusta suas botas, pronta para as sombras.
Mika, Leo e Tara assumem suas posições, formando um semicírculo ao redor de seu líder de campo.
Kane é o último a sair, olhando para Henry com um sorriso sarcástico.
Henry caminha até Kane e o abraça apertado — o abraço de alguém que suportou dois meses de inferno para chegar a este segundo. Ao se afastar, Henry olha para o grupo. Eles estão sem suas armas principais, mas estão juntos.
— Onde estão os outros? — sussurra Solomon.
— Piro está no bar em Chemult, cuidando das bebidas de Gun. Beck está no arsenal, fazendo a manutenção das máquinas — responde Henry, sua voz agora carregada de uma autoridade que nunca teve antes. — Eles estão seguros por enquanto.
Henry olha para a saída do corredor, onde a luz da lua corta o pátio da Serraria. Ele cerra o punho, sentindo o peso das chaves.
— O jogo recomeçou, irmão! Vou recuperar nossas armas — diz Henry para Kane, mas sua voz alcança a todos. — Hora de executar os Executores.
Fim do Capítulo
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