Volume 1
Capítulo 6 - Fazendo o Trabalho Sujo
Dois meses sob o domínio da Região 97 transformaram o Quartel-General dos Hereges em um templo de ruído mecânico e fedor de óleo queimado. No novo mundo de 2040, o ronco de um motor não é apenas um som; é o grito de um predador consumindo o que resta do planeta.
Henry agachou-se na beira de um viaduto em ruínas, observando o comboio de Gun avançar pela estrada abaixo. Ele sentiu o peso da falta de seu soco-inglês, mas suas mãos, agora envoltas em bandagens sujas, ainda guardavam a memória de cada golpe. Ao seu lado, Hiro e Nagi permaneciam imóveis. Os gêmeos eram como sombras mecânicas, as mãos descansando em katanas de aço industrial, os olhos fixos em Henry. Eles não estavam lá para ajudar na missão; estavam lá para serem os carcereiros de Henry.
Abaixo, o jipe de Gun parou. O líder supremo saiu do veículo com a elegância de um carrasco. Ele caminhou até o centro da estrada, onde um grupo de camponeses desesperados havia montado uma barricada de madeira e sucata. Gun não sacou seus revólveres imediatamente. Ele saboreou o medo.
— Vocês estão bloqueando o fluxo do progresso — disse Gun, sua voz ecoando pela fresta de sua máscara de couro. — O óleo deve fluir. O mundo deve girar. E vocês... são meramente areia nas engrenagens.
Um dos camponeses, empunhando uma lança feita de vergalhão, gritou sobre como Gun estava roubando a água deles. Gun apenas soltou uma risada seca, um som parecido com o clique de um gatilho. Ele sinalizou para cima, em direção ao viaduto.
— Henry! — gritou Gun, sem olhar para cima. — Desça aqui e mostre a eles o que acontece com quem interrompe o "Semideus". E faça do jeito que você gosta... sem desperdiçar meu precioso chumbo.
Henry sentiu o empurrão de Nagi em seu ombro — um comando silencioso. Ele saltou do viaduto, uma queda de seis metros que amorteceu com um rolamento perfeito, levantando uma nuvem de poeira aos pés de Gun.
— Henry, por favor... você nos ajudou no último inverno! — implorou o camponês com a lança, reconhecendo o Herege.
Henry olhou para o homem, depois para Gun, que agora acariciava a coronha de uma de suas Magnums. O poder de fogo de Gun era a única razão pela qual os 300 Executores mantinham o Oregon de joelhos. Uma bala ali era um milagre sombrio.
— Se eu não fizer isso, eles vão usar as armas, Camponês — murmurou Henry, sua voz pesada com uma culpa corrosiva. — Corra. Agora.
Mas os camponeses estavam paralisados pelo terror. Henry avançou. Em um borrão de movimento, ele desarmou o primeiro homem com um chute giratório e quebrou a lança do homem com um golpe de palma. Ele não matou, mas golpeou com uma precisão que incapacitava. Ele era a ferramenta de Gun, limpando o caminho para que o tirano não tivesse que sujar as botas ou gastar sua munição.
Enquanto Henry derrubava o último resistente, Gun caminhou até o Camponês caído no chão. Ele sacou uma de suas Magnums. O silêncio que caiu sobre a estrada foi absoluto. Para os camponeses, ver aquela arma era como ver um fragmento de um Deus vingativo.
— Sabe... Henry é um artista — disse Gun, pressionando o cano frio do revólver contra a testa do homem. — Mas, às vezes, o público quer ver uma performance mais... definitiva.
— Gun, o acordo era que eu limparia o caminho! — Henry deu um passo à frente, punhos cerrados.
Gun girou o tambor da arma, o clique metálico ecoando como um veredito. Ele olhou para Henry por cima do ombro.
— O acordo mudou, batedor. O medo exige manutenção. E a pólvora... ah, a pólvora precisa ser ouvida.
KABOOM!
O tiro ecoou, um estrondo de trovão que não era ouvido naquela região há meses. O velho desabou. Gun cheirou a fumaça que subia do cano, uma expressão de êxtase por trás de sua máscara. Henry ficou congelado, o sangue de um inocente respingado em seu rosto. Ele era um Herege, um homem que jurou destruir o culto às armas de fogo, e agora era o cão de guarda preparando o palco para o sacrifício.
Do alto do viaduto, Hiro e Nagi embainharam suas katanas simultaneamente. A mensagem foi entregue: no mundo de Gun, a força física dos Hereges era meramente o prelúdio para a autoridade absoluta da bala.
A Lógica da Dor vs. A Fome de Caos
Enquanto isso, na Serraria, o contraste entre os dois generais de Gun era o que mantinha as engrenagens da Região 97 girando: um era o relógio suíço da opressão, o outro era o caos faminto por uma brecha.
Enquanto o comboio de Henry e Gun ainda estava na estrada, o pátio da Serraria era o domínio de Colt e Mickey Trigger. O sol estava baixo, lançando longas sombras sobre os tanques de combustível.
Colt estava de pé na caçamba de um caminhão blindado, conferindo o inventário de dardos elétricos com uma prancheta de metal amassada. Ele não levantou os olhos ao ouvir o som de metal colidindo contra metal vindo do ferro-velho próximo. Ele sabia exatamente o que era.
— Você está desperdiçando energia, Mickey — disse Colt, sua voz seca e desprovida de emoção, sem nunca tirar os olhos dos registros. — O Chefe quer os batedores descansados para a incursão de amanhã.
Mickey estava agachado entre pilhas de sucata, segurando um amortecedor de caminhão quebrado. Com um movimento súbito e violento, ele girou o corpo e arremessou a peça de ferro contra uma placa de aço a vinte metros de distância. O impacto foi tão poderoso que a placa entortou, emitindo um estrondo ensurdecedor.
Mickey levantou-se, limpando o suor da testa com o antebraço manchado de graxa. Ele lançou um sorriso predatório para Colt.
— Descanso é para quem usa brinquedos que fazem o trabalho por eles, Colt. — Mickey caminhou até o caminhão, arrancando um dardo elétrico da mão do general e girando-o como um palito de dente. — Você confia demais nessa sua carabina. Se a pólvora acabar de vez, ou se a bateria deste dardo falhar... você vira um peso de papel.
Colt finalmente olhou para cima. Seus olhos eram frios, calculistas. Ele pegou o dardo de volta da mão de Mickey com um movimento rápido e o guardou em seu colete tático.
— A diferença entre nós, Mickey, é que eu entendo a logística da dor. Eu não preciso "sentir" o crânio de um homem estilhaçando para saber que ele foi neutralizado. Eu mantenho os 300 homens na linha porque eles sabem que eu não erro cálculos. Você? Você é apenas um animal que Gun mantém na coleira para quando ele quer sujar as mãos.
Mickey soltou uma risada rouca e saltou para a caçamba do caminhão, ficando cara a cara com Colt. O cheiro de metal e suor emanava dele.
— O "animal" aqui é o único que o Henry respeita, sabia? — sussurrou Mickey, sua voz carregada de veneno. — Ele olha para você e vê um burocrata com uma arma. Ele olha para mim e vê um reflexo do que ele poderia se tornar se parasse de orar para Solomon.
Colt ajustou seu chapéu de caubói, mantendo uma calma inabalável.
— Henry é um recurso, Mickey. Como óleo ou água. Se ele se tornar "cruel" demais, perde a utilidade tática e vira um problema. E eu resolvo problemas.
— Você resolve problemas com matemática. — Mickey pulou de volta para o chão, pegando uma barra de ferro enferrujada e testando seu peso. — Eu resolvo problemas com anatomia. Gun sabe disso. É por isso que você fica com os mapas... e eu fico com as chaves das celas.
Mickey começou a se afastar em direção às masmorras onde Solomon e os outros eram mantidos, arrastando a barra de ferro pelo asfalto, produzindo um guincho metálico que soava como um aviso.
— Colt! — gritou Mickey sem olhar para trás. — Se sobrar algum "Herege" depois da missão de amanhã, deixe o garoto do chicote — o bósnio — para mim. Quero ver se o cabo de aço dele é mais forte que o meu braço.
Colt observou o general se afastar, sua expressão permanecendo uma máscara de gelo. Ele voltou para sua prancheta, anotando um número. No mundo de Gun, a ordem de Colt e o caos de Mickey eram os dois lados da mesma moeda de chumbo.
O Tecelão e o Carrasco
O ar nas masmorras da Serraria era espesso, carregado com o cheiro de mofo e óleo diesel. O único som constante era o da barra de ferro que Mickey arrastava preguiçosamente contra as grades, criando um tilintar metálico rítmico que servia como tortura psicológica.
Mickey parou em frente à cela onde Vane e Kol estavam confinados. Ele era magro, mas seus movimentos tinham a fluidez de uma serpente. Faltava-lhe a massa muscular bruta de Kol ou a elegância atlética de Henry, mas havia uma eletricidade perigosa em seus ombros e uma rapidez em suas mãos que denunciavam um homem que sobrevivera a mil lutas de rua usando apenas o que o chão lhe oferecia.
— Sabe o que é triste? — começou Mickey, encostando a testa contra as grades frias, olhando para Vane com um brilho maníaco nos olhos. — Ouvi dizer que você é o diplomata, o homem dos chicotes. O "Tecelão". Mas aqui está você, preso em um tear de ferro que não consegue desvendar.
Vane estava sentado ao fundo da cela, mantendo uma postura ereta apesar de ter sido despojado de seu cabo de aço. Ele olhou para Mickey com uma calma que irritava o executor.
— O ferro que nos prende hoje é o mesmo que enferrujará amanhã, Mickey — respondeu Vane, com a voz baixa e firme. — Você serve a um homem que idolatra o passado. Nós olhamos para o futuro.
Mickey soltou uma risada estridente, enfiando a mão pelo vão das grades e girando uma pequena porca de metal que encontrara no chão entre os dedos com uma velocidade hipnótica.
— O futuro? O futuro é o que eu decidir com o que tenho na mão agora. — Em um movimento quase imperceptível ao olho comum, Mickey arremessou a pequena porca de metal contra a parede da cela. O objeto ricocheteou com a força de um projétil, passando a milímetros do ouvido de Kol antes de tilintar no chão.
Kol levantou-se lentamente. O ucraniano era uma montanha de cicatrizes e silêncio. Sem seu machado de incêndio, ele parecia um urso encurralado, mas seus olhos ainda carregavam o fogo das trincheiras da Europa.
— Você fala demais, magricela — rosnou Kol, aproximando-se das grades. — No meu país, homens como você só serviam para marcar onde as minas estavam enterradas.
Mickey não recuou. Pelo contrário, pressionou-se contra as grades, oferecendo o rosto.
— Então venha, carrasco. Pegue-me. Ah, eu esqueci... você precisa do seu brinquedo de cortar lenha para se sentir homem, não é? Matei um batedor militar na semana passada usando nada além de uma caneca de cerâmica quebrada. Imagine o que eu faria com esse seu pescoço grosso com uma simples chave de fenda.
Mickey começou a girar a barra de ferro na mão como se fosse uma extensão de seu braço. Seu estilo de combate era uma improvisação letal: ele usava o peso dos objetos, a física dos ricochetes e as fraquezas anatômicas de seus oponentes. Ele não precisava saltar entre prédios como os Hereges; ele dominava o chão onde pisava com uma malícia que nenhum treinamento formal poderia ensinar.
— Henry está lá fora, fazendo o trabalho sujo de Gun — continuou Mickey, voltando sua atenção para Vane. — E quando ele voltar, será um pouco mais parecido comigo. E um pouco menos como aquele velho decrépito que vocês chamam de mestre. Como é a sensação, Vane? Ver sua "bússola moral" sendo usada para apontar onde o óleo está escondido?
Vane fechou os olhos, ignorando a provocação, mas Kol socou as grades violentamente, fazendo o metal vibrar.
— Um dia, Mickey, — disse Kol, sua voz vibrando de ódio — Eu o encontrarei sem essas grades entre nós. E não haverá sucata suficiente no mundo para salvar sua vida.
Mickey apenas sorriu — um sorriso que não chegava aos olhos — e começou a caminhar pelo corredor novamente, arrastando a barra de ferro mais uma vez.
— Estarei esperando, carrasco. Mas traga o bósnio junto. Gosto de lutar em desvantagem... torna o som de ossos quebrando mais satisfatório.
O som da barra de ferro de Mickey desapareceu, substituído pelo eco metálico de uma bota batendo contra o concreto na cela ao lado. Dentro da cela mergulhada em sombras, Solomon tossiu — um som seco que fez Kol e Vane se aproximarem das grades divisórias. O líder dos Hereges estava sentado em um banco de pedra, com as mãos apoiadas nos joelhos. Mesmo sem sua bengala de aço, sua presença ainda impunha respeito.
— Kol, aproxime-se — sussurrou Solomon, sua voz rouca, mas dotada de uma clareza que o isolamento não conseguia apagar. — Mickey é o que chamamos de "ruído". Ele quer que você foque na raiva, porque a raiva torna seus movimentos previsíveis. Ele é perigoso porque não tem nada a perder, exceto o próximo prazer sádico.
Kol pressionou o rosto contra as grades laterais.
— Ele insultou sua honra, Solomon. Ele zombou do que Henry está fazendo lá fora.
Solomon deu um sorriso triste, olhando para as próprias mãos calejadas.
— Henry está fazendo o que eu pedi: sobrevivendo. Mas ele não está sozinho.
O Retorno do Prodígio
Do lado de fora, os portões pesados da Serraria se abriram com um rangido ensurdecedor. O comboio de Gun entrou no pátio, levantando uma cortina sufocante de poeira. O jipe da frente parou bruscamente, e Henry saltou da parte traseira antes mesmo de o motor ser desligado.
Henry estava irreconhecível. Seu rosto estava manchado com o sangue seco do camponês, e seus olhos pareciam duas frestas de gelo. Ele marchou em direção ao centro do pátio, ignorando os soldados que celebravam o sucesso da missão.
Ao cruzar a entrada das masmorras, ele deu de cara com Mickey, que ainda girava sua barra de ferro com um sorriso debochado. Mickey parou, bloqueando o caminho de Henry, com o olhar fixo nas manchas de sangue no peito do brasileiro.
— Ora, ora... se não é o novo herói da Região 97 — zombou Mickey, inclinando a cabeça. — O cheiro de pólvora e arrependimento combina com você, Henrikson. Mas me diga, o velho gritou muito antes de o Chefe estourar a cabeça dele? Ou você foi um bom garoto e segurou a mão dele?
Henry parou a um centímetro de Mickey. A tensão entre eles era quase física — um campo de força de puro ódio. Mickey sentiu o calor emanando do corpo de Henry, uma fúria contida que faria qualquer outro homem recuar — exceto ele.
— Gun deu o tiro — disse Henry, com a voz tão baixa que era quase um rosnado. — Mas a arma dele só dispara porque cães como você latem alto o suficiente para fazê-lo se sentir um Deus.
Mickey riu, um som seco, e cutucou o peito de Henry com a ponta da barra de ferro enferrujada.
— E você? O que você é, Henry? Você limpou o caminho. Você é o tapete que Gun pisa para não sujar o chumbo dele. Sabe o que eu fiz enquanto você estava fora? Eu lembrei ao seu mestre e aos seus irmãos que eles não passam de gado esperando pelo abate. O Ucraniano quase chorou de raiva.
Henry agarrou a barra de ferro com a mão nua, apertando o metal frio com uma força que deixou seus nós dos dedos brancos.
— Continue brincando com o ferro, Mickey. — Henry aproximou o rosto do ouvido do general. — Porque no dia em que eu decidir que a paz acabou, não precisarei de pólvora para apagar esse sorriso do seu rosto. Usarei cada gota de dor que você causou a eles para enterrar você neste ferro-velho.
Mickey não vacilou. Ele sustentou o olhar, as pupilas dilatadas de excitação. Antes que uma briga pudesse estourar, a buzina do jipe de Gun soou três vezes — o sinal para a reunião de comando.
Gun saiu do veículo, ladeado por Hiro e Nagi, e olhou para os dois em meio ao impasse.
— Mickey! Henry! — gritou Gun, ajustando o zíper de sua máscara. — Parem de medir seus egos. Temos trabalho a fazer. Freya encontrou as coordenadas de um antigo bunker da Guarda Nacional. Pólvora de verdade, Henry. Munição real. Amanhã, iremos atrás do resto do nosso destino.
Henry soltou a barra de ferro de Mickey, empurrando-a para o lado, e caminhou em direção à cela de Solomon sem olhar para trás. Ele sabia que a missão do dia seguinte seria o ponto de ruptura.
Rei e Rainha
O silêncio na Serraria é interrompido apenas pelo zumbido dos geradores a diesel e pelo gotejar constante de água alcalina. Henry move-se pelas sombras do corredor. Ele não usa parkour ostensivo; ele se move como uma sombra, cada passo calculado para não ranger as placas de metal. Ele alcança as grades da cela de Solomon.
O velho mestre está acordado, sentado na escuridão. Henry encosta a testa contra as barras de ferro.
— Gun quer o bunker, Solomon — Henry sussurra, sua voz pesada de exaustão. — Se ele conseguir munição real da Guarda Nacional, ninguém mais no Oregon terá chance. O reinado dele deixará de ser baseado no medo e passará a ser baseado no extermínio.
Solomon estende a mão por entre as barras e toca o rosto de Henry.
— Um Rei sempre busca mais poder para esconder sua própria fraqueza, Henry. Gun é um Rei de sucata. Mas uma Rainha... uma Rainha joga o jogo de forma diferente.
Henry franze a testa.
— Você está falando da Freya.
— Ela me visitou hoje — Solomon revela, sua voz quase inaudível. — Ela não está procurando pólvora, Henry. Ela está procurando o que foi tirado dela. O bunker não é apenas um depósito; é um centro de registros militares. Ela quer o irmão dela. Se você a ajudar a encontrar o que procura, ela pode ser a chave para abrir estas celas por dentro.
O Rei em Seu Trono de Óleo
Enquanto os Hereges sussurram nas sombras, Gun está em seus aposentos privados no topo da Serraria. O lugar é um santuário de excessos: tapetes de pele de lobo e garrafas de uísque de antes da Queda.
Gun está sentado em uma poltrona de couro, sem sua máscara pela primeira vez, embora seu rosto permaneça nas sombras, revelando apenas uma linha de mandíbula afiada e uma cicatriz que sobe pelo pescoço. Ele limpa sua Magnum com um pedaço de seda vermelha.
Freya entra na sala. Ela usa um vestido de seda cinza, um contraste gritante com o couro e a fuligem da base. Ela caminha com uma elegância gélida, servindo um copo de uísque para Gun.
— Os mapas estão prontos — diz Freya, sua voz como cristal batendo em metal. — O bunker fica sob o antigo aeroporto de Redmond. Mas a segurança pneumática ainda deve estar ativa. Você vai precisar do alemão, aquele tal de Beck, para abrir as portas sem danificar o estoque.
Gun aperta o pulso de Freya enquanto ela lhe entrega o copo. A força é excessiva, mas ela não muda sua expressão.
— Esse vestido combina com seu cabelo loiro curto, minha Rainha.
Freya não desvia o olhar. Gun solta o pulso dela e sorri, seus dentes brancos brilhando na penumbra.
— Amanhã, Freya. Amanhã seremos Deuses. Se Henry e Beck falharem... eu mato Solomon na frente deles. Ora, não olhe para mim desse jeito, minha Rainha. — Gun soltou uma risada baixa, um som que contrastava com a brutalidade que ele havia demonstrado na estrada horas antes. — Você é a única coisa limpa e inteligente que restou neste lixão que chamamos de mundo.
Ele se levantou, sua presença massiva eclipsando a luz da lâmpada de óleo. Com um movimento calmo, caminhou até a pesada porta de metal do quarto e girou a tranca. O clique do ferrolho ecoou pela sala como o veredito de uma cela de prisão. Gun virou-se para Freya e a abraçou por trás, enterrando o rosto em seu pescoço, sentindo o perfume que era um luxo impossível para qualquer outra pessoa no Oregon.
— Foi um dia longo, Freya... — ele sussurrou, sua voz rouca, perdendo a teatralidade de líder supremo para revelar a fadiga do tirano. — O sangue, o óleo, os gritos daqueles camponeses... às vezes o peso da coroa é demais. Preciso me livrar deste dia. Preciso de você.
Freya permaneceu estática, seus olhos fixos na parede oposta, sentindo o calor do homem que mantinha sua liberdade sob chumbo. Ela era a Rainha, mas o trono era uma gaiola.
O quarto mergulhou em uma escuridão densa, quebrada apenas pelo brilho tremeluzente de uma lâmpada de óleo no canto. O som do vento uivando nas frestas da Serraria parecia distante, abafado pelas grossas paredes de metal.
Freya sentiu o peso do corpo dele sobre o dela, as mãos percorrendo sua pele com uma possessividade que não admitia recusa. Sob o toque dele, ela se moldava, respondendo com a doçura e submissão que ele exigia. Aos olhos de qualquer um, ela era sua Rainha devota, mas por trás da máscara de prazer e rendição, a mente de Freya era um labirinto de gratidão e terror.
"Ele me tirou dos escombros", pensou ela, sentindo a respiração pesada de Gun em seu ouvido. "Ele me deu comida e um teto quando eu era apenas mais um corpo destinado a apodrecer no Oregon."
Havia amor genuíno em algum lugar de sua alma, mas era um amor de resgate — a afeição que se tem por um salvador brutal, não por um parceiro. Para Freya, Gun era o amigo terrível que a protegia do mundo exterior, mas exigia sua essência como pagamento. Ela fechou os olhos e entregou-se ao ato sexual com uma perfeição ensaiada, sabendo que qualquer hesitação, qualquer sinal de frieza, poderia transformar aquele abraço amoroso no abraço de um carrasco. Ela não era apenas sua amante; ela era o troféu que mantinha o monstro calmo.
— Minha... — Gun rosnou baixo, sua voz vibrando contra o peito dela, enquanto a prendia contra o colchão de seda.
Freya o abraçou de volta, suas unhas cravando-se nos ombros dele, desempenhando o papel de submissão absoluta. Ela sabia que, enquanto ele a visse como sua Deusa, ela teria o poder de influenciá-lo. Mas o medo era a base de cada gemido, de cada toque. Se ela deixasse de ser sua Rainha, voltaria a ser nada. E no mundo de 2040, ser nada era pior do que a morte.
A Alvorada de Chumbo
Horas depois, o comboio avançava pela estrada cinzenta em direção ao Aeroporto de Redmond. Henry, no jipe da frente, olhou pelo retrovisor e viu o veículo de Gun. Ele não sabia o que havia acontecido nos aposentos privados do líder, mas viu a maneira como Freya saiu do carro naquela manhã: impecável, gélida, mas com um brilho de exaustão nos olhos que apenas alguém que vive na corda bamba reconheceria.
Ao chegarem à entrada do bunker, a tensão era palpável. Gun estava revigorado, sua confiança transbordando em cada gesto grandioso. Ele parou diante da escotilha pneumática e colocou a mão no ombro de Freya.
— Minha Rainha nos trouxe ao pote de ouro — disse Gun aos seus soldados, que ergueram seus bastões elétricos em sinal de aprovação. — Beck! Venha até aqui. Abra esta tumba. Quero sentir o cheiro de pólvora fresca antes do meio-dia.
Beck aproximou-se com seu painel de ferramentas, o motor de partida manual em suas costas zumbindo baixo. Ele olhou para Henry, que estava cercado pelos gêmeos Hiro e Nagi.
— O sistema é antigo, mas ainda tem energia — murmurou Beck, conectando cabos de cobre aos terminais da porta. — Vou precisar de alguém para bombear a pressão hidráulica manualmente enquanto eu ignoro o código.
Gun apontou para Henry.
— Você, batedor. Use esses músculos que Solomon tanto treinou. Se a porta não abrir, começo a atirar nos pés do seu mestre via rádio.
Henry caminhou até a enorme alavanca hidráulica. Cada movimento seu era vigiado por Colt, que mantinha sua carabina de dardos apontada para a nuca de Beck. Freya estava ao lado de Gun, de braços cruzados, observando Henry. Por um segundo, os olhos do Herege e da Rainha se encontraram. Henry viu nela a mesma coisa que sentia em si mesmo: a vontade de quebrar as correntes, mesmo que o preço fosse a destruição total.
— Beck: Agora, Henry! Bombeie!
Com um esforço sobre-humano, Henry começou a mover a alavanca. O metal rangeu, um som de agonia hidráulica que ecoou por toda a pista do aeroporto. A porta começou a deslizar milímetro por milímetro, revelando um abismo escuro de onde soprava um ar gélido e estagnado de décadas.
— Pare! — gritou Beck de repente, olhando para o monitor. — Algo está errado. O sistema não está reconhecendo o comando de abertura parcial. Ativou o protocolo "Scylla".
Gun deu um passo à frente, a mão em sua Magnum.
— Que diabos é o protocolo "Scylla"?
— Defesa interna automatizada — respondeu Freya, sua voz sem emoção, embora seu coração estivesse acelerado. — O bunker não vai apenas abrir. Ele vai testar quem entrar.
A atmosfera na entrada do bunker tornou-se insuportável. Enquanto os pistões hidráulicos liberavam nuvens de vapor tóxico, Henry sustentou o olhar de Gun com uma intensidade que faria homens comuns recuarem. O sangue dos camponeses ainda manchava sua pele, e a fúria que ele vinha cozinhando há dois meses finalmente atingiu o ponto de ebulição.
— Eu vou entrar com o Beck — disse Henry, sua voz saindo como o estalo de um chicote, enquanto encarava Gun.
Henry deu um passo à frente, ignorando as katanas de Hiro e Nagi que se inclinaram em sua direção.
— Eu amo esse fogo, batedor! — Gun gesticulou para que os gêmeos guardassem suas armas. — Mas Hiro e Nagi vão com você. Esse é o meu preço. Se você quer ser o herói, proteja meu "chaveiro" Beck enquanto os gêmeos vigiam a retaguarda. Se você sobreviver ao protocolo "Scylla", talvez eu te dê um prêmio.
As Entranhas de Redmond
A porta blindada fechou-se atrás deles com um baque final, selando Henry, Beck, Hiro e Nagi na escuridão total do primeiro nível. O silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo bipe frenético do painel de Beck.
— Henry, as luzes de emergência vão acender em cinco segundos — sussurrou Beck, a voz tremendo. — Quando isso acontecer, as torres automatizadas vão escanear tudo o que se move.
Henry não respondeu. Ele estava focado nos gêmeos. Hiro e Nagi moviam-se em simetria perfeita, katanas desembainhadas, a apenas alguns metros de Beck. Eles eram máquinas de matar, e Henry sabia que não poderia enfrentá-los em campo aberto sem armas. Ele precisava do bunker.
O Plano de Henry: Ele precisava que o bunker fizesse o trabalho sujo. O protocolo "Scylla" não era apenas o disparo de torres; eram armadilhas de vácuo e sensores de pressão.
As luzes vermelhas de emergência piscaram. Henry deu o sinal.
— Beck! Agora! — gritou Henry.
Beck golpeou o teclado. Em vez de desativar as defesas, ele sobrecarregou o sistema de supressão de incêndio do corredor. Uma cortina de gás halon espesso e branco explodiu do teto, obliterando toda a visão.
Henry não precisava enxergar. Ele conhecia o peso do ar. Ele se lançou na escuridão, não em direção às torres, mas em direção a Hiro. O batedor usou o ambiente: chutou um cano de gás, criando um ruído metálico ensurdecedor para confundir a audição aguçada dos gêmeos.
No caos, Henry agarrou o braço de Hiro, usando a própria força do japonês para direcionar a katana negra contra o peito de Nagi. Ao mesmo tempo, ele empurrou ambos para a zona de varredura das torres de laser que acabavam de ser ativadas. O som foi de metal sendo fatiado e carne sendo cauterizada.
O Retorno do Sobrevivente
Vinte minutos depois, a porta pneumática rangeu e se abriu novamente.
Uma nuvem de fumaça negra saiu de dentro do bunker. Henry surgiu primeiro, carregando Beck, que tossia violentamente e parecia estar em choque. Henry estava coberto de fuligem, com cortes profundos nos braços.
Gun e Colt imediatamente miraram suas armas.
— Onde estão meus cães? — rosnou Gun, espiando o vazio escuro atrás de Henry.
Henry caiu de joelhos, ofegante, fingindo uma exaustão que beirava o colapso. Ele apontou para dentro com uma mão trêmula.
— O protocolo... — Henry engasgou, cuspindo um pouco de sangue. — As torres de laser... não eram de luz, eram de plasma térmico. Os gêmeos... eles tentaram interceptar um drone de defesa que saiu de uma fresta no teto. Eles foram rápidos, Gun... eles salvaram o Beck. Mas o plasma atravessou as lâminas deles. Eles foram desintegrados em segundos. Eu tentei puxá-los de volta, mas a porta corta-fogo desceu.
Beck, seguindo o plano que haviam combinado na escuridão, apenas balançou a cabeça.
— Foi rápido demais, Sr. Gun... eles foram heróis. Se não fosse por eles, eu estaria morto e o bunker teria explodido com o combustível.
Colt caminhou até a borda da porta e olhou para as marcas de queimadura de plasma nas paredes e os restos de metal negro derretido (as katanas que o próprio Henry havia lançado na zona de calor). Era uma cena de massacre acidental por tecnologia superior.
Gun permaneceu em silêncio por um longo tempo. Seu peito subia e descia. Ele acabara de perder sua guarda pessoal de elite, mas tinha o bunker aberto e seu "chaveiro" vivo. Ele olhou para Henry, procurando uma mentira nos olhos do brasileiro, mas encontrou apenas a fúria de quem quase morreu.
— Entrem — ordenou Gun, sua voz fria como o vácuo. — Colt, Mickey, Freya... vamos pegar nossa pólvora. E Henry... se você estiver mentindo, eu descobrirei quando analisar os registros de vídeo.
Henry levantou-se, limpando o sangue do rosto. Ele sabia que Beck já havia apagado os últimos 30 minutos de gravação.
— Não há vídeos, Gun — disse Henry, encarando o líder. — O plasma derreteu as câmeras junto com seus gêmeos. Agora, vamos. O Rei não queria seu tesouro?
O Protocolo da CIA
Dentro da sala de arquivos, o brilho esverdeado do monitor antigo refletia-se nas lágrimas contidas de Freya. Henry montava guarda na porta, mas a tensão nos ombros dela o fez se aproximar.
— Beck, o que você encontrou? — perguntou Henry, com a voz baixa.
Beck apontou para uma série de documentos criptografados que acabara de abrir.
— Não é apenas um registro de transferência, Henry. É o Projeto. Silas foi selecionado pela CIA porque era um doador universal. Eles o levaram para um centro de testes avançados antes da Queda.
Freya tocou a tela, a ponta dos dedos tremendo sobre a foto do irmão. Abaixo da imagem de Silas, o status não dizia falecido, mas sim: "Ativo".
— Ele está vivo... — sussurrou Freya, e pela primeira vez em dois meses, a frieza em sua voz deu lugar a uma esperança desesperada.
Freya fechou o terminal abruptamente ao ouvir passos pesados no corredor. Ela limpou o rosto, voltando a ser a "Rainha de Gelo".
— Eu vou encontrá-lo.
O Duelo de Sombras
Henry mal teve tempo de reagir quando uma figura caiu de um duto de ventilação no teto. Mickey aterrissou com a leveza de um gato, segurando uma pesada chave de boca e uma faca de cerâmica. O executor exibia um sorriso maníaco, seus olhos brilhando na escuridão.
— Eu sabia que os gêmeos não cairiam para máquinas, Henry — Mickey girou a chave, produzindo um som sibilante no ar. — Você fede a traição. E eu adoro o cheiro de carniça.
— Freya, saia daqui! — gritou Henry, lançando-se à frente.
A luta que se seguiu foi um embate de estilos brutais. Mickey era um borrão de movimentos improvisados. Ele não seguia uma técnica; ele usava o ambiente. Arremessou a faca de cerâmica, da qual Henry se esquivou por milímetros, e usou o ricochete da chave de boca contra a parede para golpear as costelas de Henry.
Henry respondeu com a precisão dos Hereges. Mesmo sem seus socos-ingleses, seus punhos eram martelos. Ele usou um rolamento de parkour para escapar de um golpe letal e desferiu uma sequência de socos no abdômen de Mickey.
Eles se moviam pelo corredor estreito como dois demônios. Mickey tentou furar o olho de Henry com um parafuso que arrancou da parede; Henry quebrou o pulso de Mickey contra um cano, mas o executor sequer gritou — ele apenas usou a cabeça para desferir uma cabeçada violenta no nariz de Henry.
O sangue jorrou. Eles se atracaram, caindo sobre um painel elétrico que disparava faíscas azuis. Mickey tentou estrangular Henry com um cabo de energia, enquanto Henry enterrava os polegares na garganta de Mickey.
A troca final de golpes foi simultânea: Henry acertou um cruzado de direita na mandíbula de Mickey no exato momento em que Mickey atingiu a têmpora de Henry com o cabo da chave de boca.
O impacto foi absoluto.
Ambos caíram ao mesmo tempo, estirados no concreto frio do bunker, ofegantes, cobertos de sangue e fuligem. Mickey tossiu, rindo em meio ao sangue.
— Um empate... por enquanto... batedor.
Gun ordenou que parassem, e o silêncio que se seguiu à declaração de Gun foi mais pesado do que o ar estagnado do bunker. Henry e Mickey, ainda caídos e ensanguentados, pararam de rosnar um para o outro. Colt baixou sua carabina por um segundo, e até Freya pareceu perder o fôlego.
Gun caminhou até o fundo da câmara principal, onde uma prateleira de aço inoxidável reforçado brilhava sob as luzes de emergência. Ele não estava olhando para as caixas de munição comum. Ele parou diante de cinco caixas verdes longas, seladas com o carimbo da Guarda Nacional.
— Pólvora é para quem quer manter o que tem — disse Gun, sua voz vibrando com uma satisfação maníaca enquanto arrancava o selo de uma das caixas com as próprias mãos. — Isso aqui... isso é para quem quer ser dono do que pertence aos outros.
Ele abriu a tampa. Lá dentro repousavam unidades de Lançadores de Foguetes M72 LAW, modernos, compactos e prontos para o uso.
— Vinte deles — sussurrou Gun, passando sua mão enluvada sobre o metal frio de uma das armas. — Vinte chances de transformar qualquer veículo blindado, qualquer muro e qualquer fortaleza em cinzas. Henry, você estava preocupado com balas? Esqueça as balas. Com isso, não preciso de mira. Só preciso de vontade. A arma que abateu o avião bósnio? Eu tinha apenas algumas balas e aquilo não é nada comparado a estes foguetes!
A tensão no lugar era quase sufocante. Enquanto os soldados terminavam de carregar as caixas pesadas contendo os vinte lançadores de foguetes, Henry e Mickey se encontraram a caminho de seus respectivos veículos.
O batedor e o psicopata pausaram por um segundo, seus rostos ainda inchados e manchados com sangue seco da luta brutal que travaram nas sombras do bunker. Sem dizer uma palavra, eles avançaram. Seus ombros colidiram com força desnecessária, um solavanco de osso contra osso que serviu como o aviso final de que a guerra particular deles estava longe de terminar. Mickey soltou uma risada rouca pelo canto da boca e dirigiu-se ao caminhão de carga, enquanto Henry assumiu o volante do comboio principal.
A cena corta para o interior do veículo de Gun, isolado do ruído dos motores e do vento cortante de Oregon. O silêncio lá dentro era absoluto, quebrado apenas pelo ranger dos bancos de couro.
Gun olhou pela janela, observando a escuridão da pista de Redmond desaparecer conforme o comboio ganhava velocidade. Sua voz saiu baixa, desprovida da teatralidade que usava diante de seus 300 homens, carregando uma nota de frieza calculista:
— Hiro... Nagi... o sacrifício de vocês não foi em vão.
Para ele, a morte de sua guarda de elite era apenas um custo operacional, um preço justo pago em troca do poder de fogo que agora repousava nos caminhões atrás dele. Ele então virou-se para o lado, onde Freya permanecia estática.
Com uma lentidão predatória, Gun estendeu a mão e acariciou o rosto de Freya. Seus dedos enluvados traçaram a linha da mandíbula dela com uma possessividade que a fazia se sentir mais como um objeto do que como uma mulher.
— Minha Rainha... — sussurrou ele, seus olhos brilhando por trás da máscara de couro — ...nós vamos conquistar este mundo juntos.
Freya suportou o toque, mantendo a máscara de submissão que a protegia, mas sua mente gritava com a revelação sobre Silas e o Projeto. O Rei tinha seus "raios", mas a Rainha agora tinha um motivo para sorrir de verdade.
O comboio desaparece, deixando o bunker para trás, aberto como uma ferida na terra.
Fim do Capítulo
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios