Volume 1
Capítulo 5 - Um Dia de Folga
O zumbido constante do purificador de água agora operando em capacidade total graças ao acordo com os Hidros era a música de fundo perfeita para a manhã no QG dos Hereges. Pela primeira vez em meses, a tensão habitual deu lugar a uma domesticidade caótica.
09:30 – O Arsenal da Cozinha
Na área comum, Beck estava debruçado sobre a mesa, mas não consertava armas. Ele usava um paquímetro para medir a espessura de fatias de pão amanhecido com precisão milimétrica antes de torrá-las.
— Beck, é só a porra de um pão, não um motor de arranque — comentou Elena, que passava por ali, girando uma de suas lâminas ocultas por puro tédio.
— Se a espessura não for uniforme, a transferência de calor será desigual — respondeu Beck sem desviar o olhar. — Eficiência, Elena. Até na mastigação.
Perto dali, Leo, o jovem escocês, tentava surrupiar furtivamente uma das fatias pré-cortadas. Ele usava suas garras de escalada para tentar pescar o pão de uma distância segura, mas uma mão pesada pousou em seu ombro. Era Tara.
— Leo, se eu tiver que costurar seus dedos de volta porque o Beck ficou puto com a sua mão no paquímetro dele, eu não vou usar anestesia — alertou Tara com um sorriso maternal, porém perigoso.
10:15 – Teste Diário
Leo saltou o vão entre os prédios com a facilidade de quem pula uma poça, rindo enquanto olhava para trás. — O último a chegar na antena vai lavar as bandagens da Tara! — gritou ele, a máscara de madeira marrom sacudindo enquanto ele chutava uma telha solta em direção ao chão de concreto.
Mika, um borrão rosa, vinha logo atrás executando um rolamento perfeito sobre uma tubulação de ventilação. — Isso é trapaça, pirralho! Você começou a correr antes do sinal! — rebateu ela, usando a haste da sua naginata para se impulsionar em um salto que a colocou um nível acima dos outros dois.
Kol não fazia acrobacias; ele corria como um tanque de guerra em alta velocidade, o uniforme cinza cortando o ar enquanto o machado de incêndio batia ritmadamente contra suas costas. — Se eu perder essa corrida por causa de uma discussão sobre ética... eu vou amarrar vocês dois no topo daquela antena — resmungou o ucraniano sob a máscara.
— Admita, Kol! A idade tá pesando! — provocou Leo, prendendo as garras de escalada das luvas na borda de um parapeito estreito para pegar impulso. Kol nem mudou o semblante — Na Ucrânia a gente não corria por esporte, a gente corria de artilharia. O incentivo era bem melhor que o seu deboche.
Mika aproveitou a distração dos dois e pegou um atalho por uma escada de incêndio, deslizando pelo corrimão e aterrissando com a ponta dos dedos na base da antena de rádio. — Cheguei — anunciou ela, limpando a poeira da jaqueta. Leo chegou logo depois, bufando de cansaço sob a máscara marrom.
— Deu empate! — mentiu o caçula, tentando recuperar o fôlego. Mika apenas cruzou os braços e apontou para o balde de limpeza que já estava ali — Nem nos seus sonhos. Prepare as mãos, as bandagens da Tara estão com cheiro de "antisséptico e derrota" hoje.
11:00 – O Spa dos Hereges
No canto do treinamento, Mika estava sentada no chão, desmontando sua naginata para limpeza. Ao lado dela, Kol dormia profundamente em um banco de madeira, abraçado ao seu machado de incêndio como se fosse um urso de pelúcia de metal. Ele roncava com um sotaque ucraniano audível.
Piro apareceu, carregando um maçarico aceso. Ele olhou para Kol, depois para Mika.
— Se eu esquentar a ponta do machado dele, você acha que ele acorda falando bósnio? — perguntou Piro, com um brilho maníaco nos olhos.
— Se você encostar no machado dele, ele vai acordar e usar você para testar a serra nova — respondeu Mika calmamente, sem levantar os olhos. — E eu vou deixar.
Piro deu de ombros e se afastou, resmungando sobre como "ninguém valoriza a porra da termodinâmica neste lugar".
12:00 – Tiro ao Alvo
Kane lançou a faca e acertou o topo do capacete com um estalo metálico. — Três a zero. Alguém avisa pro Henry que o cargo de líder de campo exige, no mínimo, acertar o alvo? — provocou o inglês, limpando as unhas com desdém.
Kol arremessou a dele com tanta força que o crânio quase virou. — No meu país, a gente não jogava faca em osso seco pra aparecer. A gente jogava em gente que falava demais — resmungou o ucraniano, sem nem olhar para o lado.
Henry ignorou os dois e cravou a lâmina exatamente entre as órbitas do crânio. — Bonito, Kane. Mas se isso fosse um Maquinista, ele já teria te serrado ao meio enquanto você fazia pose. Menos estilo, mais eficiência.
— O líder acordou de mau humor hoje — Kane riu, recuperando sua faca. — É falta de café ou é só o peso da responsabilidade esmagando seu senso de humor?
Kol arrancou sua faca do metal com um puxão bruto. — É o Beck. Ele tá tendo um troço lá embaixo porque alguém usou a lança dele pra mexer o ensopado.
— Se a sopa tiver boa, a lança foi bem usada — concluiu Henry, virando as costas.
14:00 – Saudades do Velho Mundo
Os três observavam o horizonte cinzento do Oregon do alto do prédio fortificado. Vane suspirou, encostado na mureta com um tédio que pesava mais que sua máscara. — Sabe do que eu sinto falta? De transar. De verdade. Sem máscara, sem pressa e sem medo de levar uma facada nas costas — soltou ele, do nada.
— Que romântico, Vane. Quase me fez chorar — debochou Elena, sem tirar os olhos da rua lá embaixo. — Achei que o diplomata do grupo tivesse padrões mais elevados do que reclamar de falta de sexo em plena tarde.
Vane nem se abalou. — Padrões elevados? Elena, o único calor humano que eu sinto hoje em dia é de algum saqueador fungando na minha nuca antes de eu cortar o pescoço dele. Não dá pra chamar isso de intimidade.
Leo soltou uma risada alta, chutando uma pedra para longe. — Pelo menos você tem memória, Vane. Eu só conheço o calor dos maçaricos do Piro e o cheiro de suor do treino da Mika.
Elena virou o rosto levemente para o caçula, com um sorriso sarcástico. — Não me diga que o nosso prodígio do parkour ainda é virgem? Tanta agilidade e não sabe nem como desabotoar uma calça?
O riso de Leo morreu na hora e ele desviou o olhar para as botas. — O mundo acabou quando eu tinha o quê, onze anos? Não é como se tivesse uma fila de pretendentes esperando entre uma execução e outra.
16:30 – A Aposta no Telhado
Do lado de fora, no terraço fortificado, Kane e Henry observavam o horizonte de Oregon. Kane equilibrava-se na borda de uma viga enferrujada, olhando para baixo sem qualquer sinal de vertigem.
— Dez rações de carne seca dizem que eu chego naquele prédio da esquina antes de você — desafiou Kane, ajustando suas manoplas.
Henry, que estava limpando sangue seco de seus socos-ingleses, olhou para o prédio. Era um salto de quase quatro metros sobre um vão, seguido por uma escalada vertical.
— Você está no seu dia de folga, Kane. E eu estou com pontos na coxa — Henry o lembrou.
— Acho que essa agressividade brasileira está tirando uma soneca? — Kane debochou.
Henry deu um sorriso de lado, cerrou os punhos e se levantou. — Me dê cinco segundos de vantagem.
— Nem um milissegundo! — gritou Kane, já saltando no vazio.
20:00 – Doces
Leo e Piro estavam agachados no chão da cozinha, concentrados em um pedaço de borracha espetado na ponta de uma faca sobre uma chama azulada.
— Tá quase no ponto — murmurou Piro, controlando o fogo com uma precisão maníaca. — O segredo é deixar essa crosta preta borbulhar, igualzinho ao que eu via nos filmes.
Mika encostou no batente da porta, observando a cena com os braços cruzados e um olhar de puro desprezo.
— Vocês dois perceberam que estão literalmente inalando câncer em estado puro, certo? Isso não é comida, é um pneu derretido — debochou ela, balançando a cabeça.
— Você fala isso porque é preconceituosa, Mika — rebateu Leo, soprando a borracha fumegante. Ele deu uma mordida cautelosa e fez uma careta, mas continuou mastigando com esforço. — Se você fechar os olhos e ignorar o gosto de queimado... bem lá no fundo... dá pra sentir o gosto de infância.
— O gosto da infância do Leo devia ser um lixão industrial — comentou Mika, dando um passo à frente. — E se eu fosse vocês, apagava isso agora. O Henry já está de mau humor porque o Beck sumiu com as ferramentas dele. Se ele chegar aqui e sentir esse cheiro de borracha queimada, vai fazer vocês engolirem o espeto.
Piro deu de ombros, aproximando mais a chama do doce.
— O Henry reclama de tudo. Ele não entende a arte da gastronomia de sobrevivência. Quer um pedaço, Mika? Tá crocante.
— Prefiro passar fome — respondeu ela, virando as costas. — Só não venham chorar pra Tara quando o estômago de vocês começar a derreter por dentro. Eu avisei.
21:04 – Lições do Mestre
Henry gesticulava sobre os mapas, orgulhoso.
— Dizimamos a vanguarda da Cruz de Pólvora, eles não vão mais encher o saco — relatou. Solomon ouvia tudo em silêncio, batendo levemente a bengala no chão, até que interrompeu com um olhar fixo — Me diga, garoto... você mata Cruzados porque eles são lixos ou eles são lixos e por isso você os mata?
Henry travou, com a boca entreaberta. — Ahn? Eu...? Eles são...
Antes que pudesse formular o raciocínio, Solomon continuou, implacável:
— Você é um Herege porque gosta de salvar os outros? Ou você salva os outros porque é um Herege? Qual veio primeiro, a fé ou a faca?
Henry piscou, sentindo o peso do silêncio da sala, mas o mestre não deu trégua.
— Você usa a máscara para ser misterioso, Henry? Ou você é misterioso porque usa a máscara?
O Azul olhou para as próprias mãos, sem palavras. Solomon deu um sorrisinho de canto e se levantou, usando a bengala para se apoiar.
— Vá dormir. Seus miolos estão fritando e o cheiro está pior que a borracha que o Leo está queimando na cozinha.
— Mas e a resposta? — perguntou Henry, finalmente recuperando a voz. Solomon nem olhou para trás — Quando você parar de tentar parecer um "filósofo de boteco" e começar a agir, a resposta para de importar. Boa noite, garoto.
22:24 – Sala de Treino
Leo avançou com uma sequência de chutes rápidos, mas Henry apenas esperou o momento certo, agarrou a perna do caçula e o derrubou com um puxão seco.
— Muito lento, pirralho. Agilidade sem equilíbrio é só jeito de cair mais rápido — debochou o líder, soltando o peso sobre ele.
Leo rosnou, tentando se soltar.
— Um dia eu vou te superar, Henry. Vou te derrubar antes mesmo de você perceber que a luta começou — prometeu, os olhos brilhando sob a máscara marrom.
Henry soltou uma risada e se levantou, estendendo a mão.
— É mesmo? E como pretende fazer isso? Treinando mais dez anos ou esperando eu ficar caduco como o Solomon?
Leo aceitou a mão, mas no segundo em que ficou de pé, disparou um chute certeiro na virilha de Henry. O líder dobrou os joelhos na hora, perdendo o fôlego.
— Assim! A regra é sobreviver, não é, "chefe"? — gritou Leo, já correndo em direção à saída. — Aproveita o gelo aí!
Rindo e olhando para trás para conferir o estrago, Leo não viu o braço de Kane esticado como uma barra de ferro na sua frente. O impacto da máscara de madeira contra o braço do inglês foi seco, e o garoto foi direto para o chão.
— Isso foi um golpe fraco, garoto — disse Kane, olhando para baixo com desdém. — Vai ficar uma semana sem sua "ração premium de cachorro" por causa dessa falta de atenção.
Mika e Elena passaram pela sala logo em seguida, caindo na risada ao verem Henry ajoelhado e ofegante no centro do tatame.
— Moleque... desgraçado... — resmungou o líder, tentando recuperar o ar.
— Cuidado, Henry — provocou Mika, passando direto por ele. — Se não começar a usar proteção aí embaixo, o prejuízo vai sobrar pros seus filhos.
23:00 – Verdade ou Desafio
Os quatro estavam sentados em círculo no chão sujo, iluminados apenas por uma lanterna de acampamento. Piro girou uma garrafa de vidro vazia que parou apontada para Leo.
— Verdade ou desafio, herdeiro do chute baixo? — cutucou Piro, com um brilho sádico nos olhos.
— Verdade. Minha cota de pancada já estourou com o braço do Kane — resmungou Leo, massageando o nariz.
— É verdade que você chora escondido quando a Tara manda você limpar o escudo de cofre dela? — disparou Piro. Mika soltou uma gargalhada alta, e até Elena deu um sorriso de canto.
— Eu não choro! O metal daquela coisa solta uma fuligem que irrita o olho, porra! — mentiu Leo, girando a garrafa com raiva. Ela parou em Mika. — Verdade ou desafio, ô perfeição?
— Desafio. Não tenho nada a esconder dessa sua mente de doze anos — rebateu Mika, cruzando os braços.
Leo sorriu, maligno. — Desafio você a ir no quarto do Solomon agora e trocar a bengala tática dele por um cabo de vassoura sem ele perceber.
O silêncio reinou por dois segundos. Elena balançou a cabeça.
— Isso não é um desafio, é um suicídio. O velho dorme com um olho aberto e a bengala na mão.
— Amarela? — provocou Leo.
Mika se levantou, ajeitando a máscara rosa com uma frieza assustadora. — Se eu morrer, eu volto pra puxar seu pé, seu pirralho.
Minutos depois, Mika surge das sombras como um fantasma rosa, segurando a bengala tática de Solomon. — O velho ronca como um trator, mas a mão dele nem relaxou. Foi por pouco.
Ela girou a garrafa com um sorrisinho. O vidro deslizou pelo chão até parar, com precisão cirúrgica, apontado para as botas de Elena.
— Minha vez — disse Mika, estralando os dedos. — Verdade ou desafio, sombra branca?
— Verdade — respondeu Elena, sem hesitar. — Diferente de vocês, eu não tenho segredos que me envergonhem.
Mika se inclinou para frente, a luz da lanterna criando sombras bizarras em sua máscara.
— Então me diz: é verdade que você só usa essas lâminas ocultas porque tem nojo de encostar nas pessoas, ou é só pra se sentir mais "assassina profissional" que o resto de nós?
— As duas coisas — respondeu ela com uma calma glacial. — É higiênico e eficiente. Além disso, se eu encostasse em vocês com as mãos, teria que passar um galão de álcool depois pra tirar o cheiro de combustível e fracasso.
Leo quase caiu para trás de tanto rir enquanto Piro tentava formular um contra-ataque. Elena simplesmente esticou a mão e parou a garrafa. — Chega. Minha vez de girar.
A garrafa girou, girou e, contra todas as probabilidades, parou apontada para o vão escuro da porta.
— Ué, não parou em ninguém? — estranhou Leo, franzindo a testa.
De repente, o som de madeira batendo contra o piso ecoou: TOC. TOC. TOC. Mas era um som oco, seco... o som de um cabo de vassoura.
Solomon surgiu da escuridão, segurando o cabo de vassoura com a mesma elegância que segurava sua bengala tática. O silêncio na sala ficou tão pesado que dava para ouvir o suor de Piro escorrendo.
— Minha vez — disse o velho, com a voz gélida. Ele não girou a garrafa; ele a chutou para longe, onde ela se estilhaçou contra a parede. — Verdade ou desafio, meus pequenos Hereges?
Ninguém ousou respirar.
— O desafio — continuou Solomon, aproximando o cabo de vassoura do pescoço de Mika — é vocês explicarem por que ainda estão acordados desperdiçando oxigênio, em vez de estarem polindo o meu equipamento que, por sinal, encolheu e virou madeira de pinho.
— Mestre, a gente estava só... — tentou Mika, mas o velho a cortou.
— E a verdade... — ele se inclinou sobre o círculo — ...é que se em cinco segundos eu ainda vir o rastro de vocês nesse corredor, o próximo treino vai ser contra mim. E eu vou usar a vassoura.
Antes que ele chegasse no três, a sala estava vazia. Leo tropeçou em Piro, Elena sumiu nas sombras e Mika foi a primeira a pular a janela.
Solomon ficou sozinho na sala. Ele olhou para o cabo de vassoura na mão, deu um suspiro cansado e murmurou para si mesmo — Pelo menos o equilíbrio dessa porcaria é melhor do que eu esperava.
07:15 – Energia e Pixels
Leo e Piro estavam estirados no sofá rasgado, os olhos vermelhos fixos na TV de tubo que zumbia. O console, um PS4 sujo de poeira que Kol resgatou de um porão de uma loja de eletrônicos, processava o DVD de Resident Evil 6. Graças aos geradores de Beck, os pixels dançavam na tela.
— Cara, por que esse Leon demora tanto pra recarregar? O mundo tá acabando e o maluco parece que tá num piquenique! — reclamou Leo, apertando os botões com uma fúria maníaca e rindo do próprio desespero.
Piro deu um gole numa água morna, com uma expressão de quem viu o nascimento do universo. — Relaxa, moleque. Na minha época, isso aqui já era uma relíquia em extinção. Respeita o pai dos emuladores. Se o gráfico tá ruim, é porque sua alma não tá preparada pra 128 bits de pura glória.
A risada histérica dos dois foi cortada pelo som metálico do elevador se abrindo. Henry, Kol e Kane saíram de lá como três espectros da morte. Estavam cobertos de fuligem, sangue seco e um mau humor que dava pra cortar com uma faca.
— Vocês... ficaram aqui... a noite toda? — rosnou Henry, a voz falhando de exaustão. — O Kol quase perdeu um dedo na barricada e o Kane teve que costurar o próprio braço — disse ele caminhando pesadamente até os dois. Antes que Leo pudesse pausar o jogo, Henry passou e deu um tapa seco no topo da cabeça dele. POW!
— Ai! Que foi? — choramingou o caçula.
Kane passou logo atrás, distribuindo outro tapa, dessa vez na nuca de Piro. — Uma semana sem "ração premium" e agora sem eletricidade. O Beck vai desligar essa caixa de plástico antes que eu use ela pra esmagar o crânio de vocês.
— Pô, mas a gente tava salvando o mundo no jogo! — gritou Piro, enquanto os três passavam direto, deixando um rastro de cheiro de pólvora e ódio na sala.
O Mestre do Mundo
O sol do meio-dia castigava implacavelmente o pátio de manobras dos Viajantes. O estrondo de uma buzina de ar comprimido cortou o ar, anunciando o intervalo para o almoço, e o silêncio caiu sobre os trilhos. Arthur, exausto e coberto de graxa, sentou-se em seu balcão improvisado dentro de um vagão-restaurante desativado. Ele serviu para si um copo de uísque, suas mãos trêmulas finalmente repousando sobre o metal frio.
De repente, a porta do vagão rangeu. Uma presença massiva bloqueou a entrada. Uma mão pesada e firme que emanava autoridade absoluta repousou no ombro de Arthur. Arthur paralisou. Ele não precisava se virar para saber quem era.
— O uísque continua ruim, Arthur. Mas o que realmente me incomoda é a sua matemática.
Arthur virou-se lentamente, o sangue fugindo de seu rosto. Parado diante dele estava Gun, o líder supremo e o Semideus da Região 97.
— Chefe... Gun... — Arthur sussurrou, a voz falhando. — Não esperávamos você até o próximo ciclo.
Gun apertou o ombro de Arthur com força suficiente para fazer o metal da cadeira ranger. — Meus coletores me disseram que a remessa de suprimentos que você levou para Chemult estava fraca. Beirando o vergonhoso. O que aconteceu, Arthur? Esqueceu como se conta?
— Estamos com pouco estoque, senhor — Arthur justificou, baixando a cabeça em sinal de desculpa. — O solo está seco, e os saques tornaram as rotas difíceis. Peço perdão, vamos dobrar os turnos para compensar...
Gun soltou uma risada seca, o zíper de sua máscara vibrando. Ele se inclinou sobre o balcão. — Sabe o que é engraçado? Eu gastei munição antiaérea cara para derrubar aquele cargueiro que cruzou o meu céu. Meus homens usaram artilharia pesada. Eu esperava encontrar comida naquele cofre. Esperava sementes, carne, algo que valesse o óleo nos meus tanques.
Gun pegou o copo de uísque de Arthur e o girou lentamente. — Mas o que havia dentro? Dinheiro. Pilhas de papel verde. Lixo de um mundo morto que não serve nem para limpar uma bota. Eu perdi recursos, Arthur. E você vem até mim com "estamos com pouco"?
Arthur engoliu em seco, sem saber o que dizer. Gun continuou — Você se lembra de ter me falado sobre os Hereges e sobre Solomon? Sobre Henry e como eles estão "limpando" o Oregon?! Sabe o que eu decidi? Estou levando minhas frotas de veículos blindados e 60% do meu povo para o quartel-general deles agora mesmo. Metade de tudo o que eles conquistaram — a água, as sementes, a glória — agora me pertence.
Gun soltou o ombro de Arthur e endireitou o corpo, limpando uma partícula invisível de poeira em suas bandoleiras de munição no tronco. — Quanto a você, meu amigo... — Gun sacou um de seus revólveres Magnum com velocidade sobre-humana. — Você não tem mais utilidade para mim.
BOOM!
Gun disparou sua Magnum na cabeça de Arthur, deixando o corpo esfriando no chão. Ele levou dois dedos à fenda do zíper em sua máscara e soltou um assobio agudo e penetrante que cortou o silêncio do pátio.
Lá fora, o inferno se desencadeou.
Os homens de Gun, os Executores, surgiram vestidos como caubóis sob a poeira. O que se seguiu não foi uma batalha, mas um expurgo. O som de bastões elétricos e os gritos de misericórdia dos Viajantes tornaram-se a trilha sonora do almoço. Gun saiu do vagão, caminhando calmamente em direção à superfície, pisando sobre poças de óleo e sangue sem olhar para trás enquanto o pátio ferroviário era varrido pelas chamas.
Quartel-General dos Hereges – 40 minutos depois
A atmosfera dentro do quartel-general era o oposto polar do massacre lá fora. O ar estava pesado com o cheiro de cigarros e o som rítmico das bolas de bilhar colidindo.
Henry passava giz em seu taco com movimentos lentos, os olhos focados na bola 8. Kane estava encostado na mesa oposta, observando o jogo com um sorriso de canto, uma garrafa de cerveja morna na mão esquerda.
— Você está demorando demais para dar a tacada, Henry — provocou Kane. — O mundo pode acabar de novo antes de você decidir sobre esse ângulo.
Henry deu um sorriso seco, sem nunca desviar o olhar. — No bilhar, como na guerra, Kane... aquele que se apressa acaba entregando o jogo ao inimigo.
Ele se inclinou, posicionando o taco. Mas antes que pudesse golpear, uma vibração profunda começou a sacudir as janelas de vidro reforçado do edifício. Não era um motor comum; era um coro gutural de cilindros pesados, um trovão mecânico que vinha de todas as direções ao mesmo tempo.
Kane largou a garrafa e caminhou até a janela, puxando a cortina pesada.
— Que diabos é aquilo? — perguntou Kane, seu tom perdendo o deboche.
Lá embaixo, o horizonte do Oregon estava sendo engolido por uma nuvem de poeira negra. No centro dela, frotas de veículos blindados, eriçados com espetos, avançavam em uma formação de pinça. Liderando todos eles, um jipe de guerra modificado ostentava uma bandeira com o número 97.
Henry soltou seu taco sobre o feltro verde. O som das bolas batendo foi substituído pelo estalo dos bastões de choque.
— O jogo acabou — disse Henry, com a expressão endurecida.
Os 11 Hereges se reuniram no topo do quartel-general, o ponto mais alto do edifício, olhando para baixo com uma mistura de choque e fúria. Eles nunca conheceram a paz no Oregon, mas jamais tinham visto algo como aquela demonstração de poderio motorizado e tecnológico.
Lá embaixo, os veículos blindados formavam um semicírculo perfeito, iluminando a fachada do prédio com faróis potentes. Gun caminhou até o centro do pátio. Um de seus homens lhe entregou um microfone antigo, conectado a alto-falantes montados no jipe de frente.
A voz de Gun surgiu amplificada, distorcida pelo metal enquanto ele abria o zíper da cobertura sobre sua boca, ecoando pelas ruas vazias.
O Monólogo do Semideus
— Solomon! Henry! — começou Gun, sua voz carregada de uma calma predatória. — Sei que estão aí em cima, respirando esse ar frio e sentindo-se como os salvadores desse lixo que sobrou. Eu olho para este prédio e vejo o que vocês construíram com suas serras, suas armas caseiras e sua... honra. É bonitinho. Quase nostálgico.
Gun caminhou lentamente, chutando uma pedra no asfalto. Ele olhou para cima, o único orifício em sua máscara fixo nas sombras dos 11 heróis no telhado.
— Vocês acham que são heróis porque limparam o Oregon de alguns saqueadores e cultistas e plantaram algumas batatas. Mas cometeram um erro de cálculo geográfico. Esqueceram que o mundo não é feito de solo ou esperança. O mundo vive de recursos. E cada recurso neste setor pertence a mim.
Ele abriu os braços, gesticulando para os veículos ao seu redor.
— Eu sou aquele que mantém as máquinas vivas. Eu sou aquele que decide quem viaja e quem apodrece. Eu sou o dono da Rodovia 97. E ouvi histórias sobre o "Código dos Hereges". Sobre como vocês são imbatíveis no combate corpo a corpo. — Gun soltou uma risada curta e seca. — Mas como vão lutar contra o que não podem alcançar? Eu tenho dois revólveres, combustível que nunca acaba e 300 homens... e eu sou o diabo de plantão.
Gun fez uma pausa, o silêncio preenchido apenas pelo rosnado dos motores em marcha lenta abaixo.
— O acordo é simples, e só vou dizer uma vez, porque meu combustível é caro demais para desperdiçar com discursos: eu quero metade. Metade da sua água, metade das suas sementes e 100% da sua lealdade. Vocês serão meus cães de caça no Oregon. Se aceitarem, deixo vocês continuarem brincando de parkour. Se recusarem... — Gun apontou sua Magnum para o prédio — ...eu transformo este quartel-general em uma tumba de concreto e metal retorcido antes do amanhecer.
Ele soltou o microfone, causando um ruído de microfonia agudo e ensurdecedor. Gun apenas ficou parado ali, esperando por uma resposta.
No topo do edifício:
Henry apertou seu soco-inglês com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Mika estava com sua Naginata pronta, mas sabia que a distância era a maior inimiga. Solomon permaneceu em silêncio, com a mão firme no cabo de sua bengala.
— Ele é um lunático — sussurrou Leo, a voz tremendo pela primeira vez.
— Ele quer nos escravizar, Solomon — disse Kol, seu machado de incêndio apoiado no ombro. — Eu não vim da Ucrânia para servir a um caubói de máscara de couro.
A tensão no telhado era palpável. O vento frio do Oregon soprava contra as máscaras dos 11 Hereges, mas o calor que emanava dos motores lá embaixo era o que realmente os inquietava.
Henry começou a protestar, com o sangue fervendo, mas o olhar de Solomon foi um comando silencioso que ninguém ousou desobedecer.
— Baixem suas armas... — A voz de Solomon era um sussurro rouco, porém firme. — Eles são muitos. Vamos lá fora falar com esses caubóis imundos.
A Descida dos Hereges
Eles não usaram o elevador ou as escadas internas como civis. Todos eles — exceto por Solomon, que pegou o elevador — moveram-se em uma coreografia de sombras, descendo pelas laterais do prédio usando vigas, calhas e saliências de concreto com a agilidade que os tornou lendas.
Um por um, eles aterrissaram no pátio, a poucos metros do semicírculo de faróis. O brilho ofuscante dos carros de Gun projetava sombras gigantescas dos Hereges contra a parede do quartel-general.
Solomon caminhava à frente, usando sua bengala de aço para ditar o ritmo no asfalto rachado. Logo atrás, em uma formação em V, estavam Henry e Mika. Os outros se espalharam, mantendo as mãos visíveis, mas próximas de seus equipamentos. Tara carregava o escudo de cofre nas costas; Piro mantinha as mãos cruzadas, com suas manoplas de maçarico escondidas sob mangas largas.
O Encontro de Dois Mundos
Gun inclinou a cabeça para o lado, observando a descida atlética do grupo. Ele estava genuinamente entretido.
— Aí estão eles. Os acrobatas do apocalipse — ironizou Gun, ajustando o cinturão de munição da Magnum em seu peito. — Solomon. Você parece mais velho do que as histórias dizem. E mais cansado.
Solomon parou a três metros de Gun. O contraste era absoluto: de um lado, a disciplina e elegância rústica dos Hereges; do outro, o excesso industrial e o sadismo tecnológico de Gun.
— Sou velho o suficiente para saber quando um homem fala demais porque tem medo do silêncio — respondeu Solomon, sua voz projetando-se sem esforço, mesmo sem microfone. — Você veio à nossa casa e agora late sobre "impostos". O Oregon não pertence à Região 97. E não somos cães de ninguém.
Gun caminhou ao redor de Solomon como um tubarão circulando a presa. Seus homens mantinham os bastões apontados para o peito de Henry, Kane e os demais.
— Casa? — Gun riu, o som abafado pelo couro de sua máscara. — Isso aqui é um curral, Solomon. E vocês são apenas gado que aprendeu a morder. Eu não quero seu respeito; eu quero seu produto. O Maquinista me disse que vocês estão estocando o que há de melhor. De qualquer forma, eu matei ele e os Viajantes!
Gun parou na frente de Henry e encarou o soco-inglês serrilhado em sua cintura. Ele estendeu uma mão enluvada e, com um movimento rápido, tentou tocar o queixo de Henry com o cano frio de sua Magnum.
— E você deve ser o garoto brasileiro de quem todos falam. Henry, certo? O futuro líder. Diga-me, garoto... você prefere ver sua família de acrobatas ser morta bem aqui, ou vai convencer o velho a abrir os cofres?
Henry sentiu o metal da arma contra sua pele. Ele não recuou. Seus olhos encontraram o único orifício na máscara de Gun com um ódio gélido.
— O que Solomon decidir, será feito — disse Henry, sua voz baixa e perigosa. — Mas se eu fosse você, não manteria esse dedo tão perto do gatilho. O tempo que você leva para puxá-lo é o dobro do tempo que eu levo para arrancar o seu braço.
Gun soltou uma risada genuína, afastando a arma. — Eu gostei dele! Ele tem o fogo que falta nesse velho.
O Impasse
Gun virou-se novamente para Solomon, abrindo os braços. — E então, Solomon? O tempo está passando e o óleo está queimando. O diálogo acabou. Ou você abre os portões e começa a carregar meus caminhões agora, ou eu dou a ordem para meus "caubóis" transformarem este prédio em um espeto de metal. O que vai ser?
A Queda dos Hereges
Henry olhou para seu mentor, com os olhos arregalados, buscando qualquer sinal de que aquilo fosse um plano, uma armadilha, um truque. Mas o rosto de Solomon estava pálido, marcado pela idade e pela percepção de que a coragem não poderia deter aquilo.
— Solomon... nós não podemos — sussurrou Henry, com a voz sufocada pela fúria.
— Ajoelhem-se. — Solomon disse, agora mais alto, sua voz ecoando contra as paredes do quartel-general. — Todos vocês. Agora!
Um a um, o choque se transformou em uma aceitação dolorosa. Tara soltou o escudo de cofre, que atingiu o asfalto com um estrondo metálico final. Kane desligou suas serras, o zunido agudo morrendo lentamente. Mika, Leo, Elena... todos desceram.
Henry foi o último. Ele olhou para Gun, os punhos cerrados. Ele rangeu os dentes e, lentamente, o herdeiro do Oregon deixou seus joelhos tocarem o solo manchado de óleo.
Gun observava a cena, estufando o peito, com as mãos apoiadas em seu cinturão de munição. Ele saboreava o momento.
Enquanto a câmera se afastava em direção ao céu cinzento do Oregon, os 11 Hereges pareciam pequenas figuras frágeis ajoelhadas no centro de um círculo de aço. Ao redor deles, a frota da Região 97 se expandia como uma mancha de óleo; dezenas de veículos blindados, centenas de soldados com armas elétricas, todos sob o comando da figura solitária no centro.
Do alto, Gun não era mais um homem em uma máscara de couro. Ele era uma força da natureza, um monumento ao novo mundo que construiu sobre o terror e o petróleo. O Mestre do Mundo estava em seu auge.
Mesmo com a máscara de couro cobrindo quase tudo, os músculos ao redor do zíper aberto se contraíram. Pelo orifício do olho esquerdo, uma satisfação psicopata brilhava. Ele deu um largo sorriso e olhou para os Hereges subjugados aos seus pés.
— Muito bem — a voz de Gun saiu em um tom casual, desprovido de qualquer misericórdia. — Vamos ao trabalho.
Fim do Capítulo
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