DYSTOPIA Brasileira

Autor(a): SkullGuy


Volume 1

Capítulo 4 - Horizonte de Cinzas

O vento uivava no topo do antigo prédio de seguros, a três quarteirões de distância do cemitério. Henry, Kol, Mika e Tara agacharam-se atrás de uma parede de ventilação, observando o panorama através de binóculos e miras.

 

Abaixo, a cidade era um labirinto de asfalto morto. Mas à frente, o cemitério se destacava como uma ferida aberta: o brilho das fogueiras dos Cruzados criava uma cúpula alaranjada sobre o mármore branco do Mausoléu.

 

— Olhem o tamanho daquele lugar — sussurrou Tara, ajustando a alça pesada de seu escudo de porta de cofre. — Eles não estão apenas guardando sementes. Aquilo é uma fortaleza.

 

Henry baixou os binóculos e olhou para sua equipe. Ele precisava que todos explorassem suas especialidades para que não fossem cercados no chão.

 

— Não podemos atravessar a estrada. Se descermos agora, os batedores de Vincent nos pegarão em campo aberto — decretou Henry. — Vamos nos separar e convergir no portão norte do cemitério.

 

O Plano de Infiltração

 

Mika (Rota Acrobática): 

 

— Mika, você assume a rede elétrica e os outdoors. — Henry apontou para os fios de aço que ainda ligavam os prédios menores. — Sua Naginata desmontada é leve. Use sua agilidade para eliminar os vigias nos postos de observação. — Mika apenas assentiu, dividindo sua lança em dois bastões e prendendo-os nas costas. Ela saltou no parapeito e, com a leveza de um espectro, começou a correr pelos fios mortos de alta tensão.

 

Kol (Rota das Sombras): 

 

— Kol, você desce pelos dutos de ventilação do estacionamento anexo e segue pelas passarelas de manutenção. — Henry olhou para o ucraniano. — Se encontrar resistência em locais apertados, você sabe o que fazer. — Kol deu um tapinha no cabo de seu machado de bombeiro, seus olhos brilhando com uma intensidade sombria. Sem dizer uma palavra, ele deslizou para a escuridão de um duto metálico, movendo-se com o silêncio de um sobrevivente das trincheiras.

 

Tara e Henry (Rota de Impacto): 

 

— Tara, você vem comigo pelo telhado da catedral vizinha. Se precisarmos de uma saída rápida, seu escudo será nossa porta de entrada — e nossa porta de saída.

 

Movimentação Pelos Telhados

 

A travessia começou. Henry e Tara saltavam de prédio em prédio. Em certo ponto, um guarda dos Cruzados em uma torre de vigia elevada avistou uma silhueta. Antes que pudesse erguer sua trombeta para alertar o exército de Vincent, uma sombra caiu sobre ele.

 

Era Mika. Ela surgiu do nada, saltando de um outdoor de propaganda de sapatos. Em um movimento fluido, usou seus bastões de carbono para desferir um golpe duplo nas têmporas do guarda. O homem desabou silenciosamente. Ela olhou para Henry e fez um sinal de "positivo" com os dedos sujos de graxa.

 

Do outro lado, Kol encontrou dois Cruzados em uma passarela de metal. O ucraniano não hesitou. Usou a lâmina de serra de seu machado para prender o pescoço de um, arrastando-o para as sombras. O segundo foi silenciado com um golpe seco da parte cega do machado, direto na nuca.

 

Henry e Tara alcançaram a borda final. O salto era longo, mas para um Herege, era apenas mais um dia de trabalho.

 

— Piro, estamos na borda — sussurrou Henry no rádio. — Qual é a visão daí?

 

— Eu vejo vocês, Blue — a voz de Piro chiou por cima do som das chamas estalando. — O cemitério está calmo... calmo demais. Mas tem um grupo de dez caras patrulhando perto do Mausoléu. Se pularem agora, vão cair bem no colo deles.

 

O ar da noite foi cortado pelo som de botas atingindo o cascalho. Henry pousou com precisão predatória no centro do círculo de dez guardas. A luz das fogueiras de pneus dançava em suas máscaras de madeira enquanto os cultistas, pegos de surpresa, buscavam suas armas de sucata.

 

— Piro, mantenha a posição. Apenas observe — ordenou Henry. — Se alguém tentar correr para buscar reforços, você sabe o que fazer.

 

A Dança Sincronizada

 

Os dez Cruzados avançaram. Henry e Mika ficaram de costas um para o outro, formando um eixo de morte de 360 graus.

 

Mika era um redemoinho de fibra de carbono. Com seus bastões, ela parou o golpe de uma marreta e, no mesmo movimento, desferiu uma estocada serrilhada no estômago de um atacante. Henry, atrás dela, era puro impacto. Um Cruzado tentou agarrá-lo, mas Henry desferiu um soco direto no esterno, seu soco-inglês estraçalhando o osso com um estalo seco.

 

Eles eram um único organismo. Em segundos, o círculo foi reduzido a quatro homens, que começaram a recuar conforme o medo finalmente vencia os efeitos do PCP.

 

O Presente de Volkovich

 

Enquanto os reforços começavam a se agrupar, Kol moveu-se pelas sombras das criptas laterais. Ele puxou três garrafas de vidro âmbar — um presente do Maquinista.

 

— Cortesia dos Viajantes... — sussurrou Kol com seu sotaque carregado.

 

Ele riscou um fósforo e acendeu o pavio de querosene. Com um arremesso poderoso, lançou o primeiro coquetel molotov. A garrafa se estilhaçou, criando uma parede de fogo azul e laranja.

 

— AARGH! O FOGO! — Os gritos dos cultistas rasgaram a noite.

 

O Confronto com O Coveiro

 

As portas de bronze do Mausoléu se escancararam. O que surgiu não era um homem comum.

 

Ele tinha quase dois metros e dez de altura, trajado em uma armadura grotesca feita de placas de ferro rebitadas e correntes de cemitério. O Coveiro, o executor pessoal de Vincent, arrastava um mangual pesado — uma bola de demolição cravejada com estilhaços de aço.

 

— Vocês profanam solo sagrado! — sua voz trovejou de dentro do elmo de ferro.

 

Tara deu um passo à frente, batendo o punho contra seu escudo de porta de cofre.

 

— Sagrado é o que eu vou fazer com a sua cara, lata-velha!

 

O Coveiro desferiu o golpe. O impacto teria pulverizado qualquer outra pessoa, mas Tara fincou suas botas no mármore. Kol não perdeu tempo; ele deslizou por baixo do braço do gigante, usando seu machado para encontrar as juntas expostas na armadura da perna do monstro.

 

O Cerco

 

O pátio tornou-se um ninho de vespas furiosas. Quarenta homens armados com facões e tochas convergiram.

 

— Mika! Volte para a porta! Ninguém entra, ninguém sai! — gritou Henry.

 

Mika remontou sua Naginata. Ela era um redemoinho de cortes horizontais, enquanto Henry recebia qualquer um que conseguisse passar com socos de quebrar ossos. Eles lutavam em meio a uma chuva de cinzas.

 

O Fim da Investida

 

Lá dentro, O Coveiro caiu de joelhos quando Kol rompeu seu tendão de Aquiles. Tara o finalizou, golpeando o elmo dele com a borda de seu escudo, esmagando o aço contra o crânio.

 

Os quatro Hereges se agruparam, protegendo as sementes e o fertilizante, no momento em que o mar de cultistas se abriu. No portão principal, surgiu a figura aterradora de Vincent Malakor. Sem camisa, coberto de cicatrizes rituais e usando um colar feito de carregadores de pistola.

 

Ele apontou seu facão de lâmina negra para a máscara azul de Henry.

 

— Agora é entre você e eu, demônio! — gritou Vincent. — Você acha que o azul pode apagar o vermelho do nosso batismo? Eu vou pintar você com sangue divino! Vou pintar você com cinzas!

 

Henry deu um passo à frente, o fogo refletindo em seu soco-inglês.

 

Descanse no Inferno

 

O círculo de chamas e fumaça negra criado por Kol isolou o centro do pátio, transformando o solo sagrado em um ringue da morte. De um lado, o restante do exército de Vincent colidia contra a parede de aço formada por Mika, Tara e Kol. Do outro, o silêncio mortal entre Henry e o profeta da pólvora.

 

Vincent Malakor investiu como um chicote estalando. Seu facão negro cortava o ar com uma velocidade errática, impulsionada pelo frenesi químico que corria em suas veias. Henry bloqueava e desviava; cada movimento era um cálculo frio de força e precisão. Henry era fisicamente superior, um batedor de elite moldado por Solomon, mas havia algo de inumano em Vincent.

 

Henry desferiu um soco brutal que acertou em cheio as costelas de Vincent. O som de osso quebrando foi inconfundível, mas Malakor apenas riu. Ele cuspiu sangue e aproveitou a proximidade para girar seu facão, rasgando o ombro de Henry. O corte não foi profundo, mas o sangue começou a manchar a jaqueta azul do Herege.

 

— Você sente isso, demônio? — Vincent sibilou, com os olhos dilatados. — A dor é o beijo de Deus! Cada ferida é um versículo do meu evangelho!

 

Henry não respondeu. Ele avançou com uma sequência de cortes de suas facas de trincheira. Abriu um talho no peito de Vincent e outro em sua bochecha, mas o líder dos Cruzados continuava vindo, ignorando o sangue que jorrava de seu corpo. Ele lutava como se a dor fosse combustível, tornando-se mais perigoso a cada golpe recebido.

 

Enquanto isso, ao fundo, Tara usava seu escudo para prensar três Cruzados contra um túmulo, enquanto Mika executava uma rasteira baixa com sua Naginata, mantendo a massa de maníacos à distância. Kol era um borrão de fúria, seu machado subindo e descendo, garantindo que nenhum cultista interferisse no duelo.

 

O Momento do Sacrifício

 

Vincent, em um surto de adrenalina, saltou sobre Henry, conseguindo enterrar a ponta do facão na coxa do batedor. Henry soltou um grunhido de dor, caiu de joelhos e, por um segundo, Malakor pensou que finalmente havia silenciado o herdeiro de Solomon. O profeta ergueu o facão negro para o golpe de misericórdia, expondo toda a sua guarda em um delírio de triunfo.

 

Foi seu erro final.

 

Henry não recuou. Ele ignorou a dor na perna, agarrou o pulso armado de Vincent com a mão esquerda e, com a direita, desferiu um soco ascendente devastador. O impacto do soco-inglês deslocou a mandíbula de Vincent, forçando sua boca a abrir em um ângulo grotesco.

 

A Consagração Final

 

Com agilidade cruel, Henry arrancou um dos carregadores de munição do colar de Malakor e o forçou dentro da boca ensanguentada do líder. Vincent tentou morder ou lutar, mas Henry já havia agarrado uma garrafa de vidro comum jogada em um altar de oferendas próximo.

 

Em um movimento contínuo, Henry quebrou a garrafa na cabeça de Vincent. O vidro se estilhaçou, cortando o couro cabeludo do profeta e misturando-se ao sangue que já cobria seu rosto. Atordoado e com a boca cheia de metal e pólvora, Vincent não teve tempo de reagir quando Henry o agarrou pela nuca e pela cintura.

 

— Se você quer o céu, Vincent... — rosnou Henry por baixo de sua máscara. — Vá pelo fogo.

 

Com um esforço hercúleo, Henry arremessou o corpo de Malakor diretamente para o centro da grande fogueira de pneus e destroços que queimava furiosamente.

 

O que se seguiu foi um pesadelo visual. As chamas lamberam o corpo de Vincent instantaneamente. Mas, mesmo enquanto o fogo consumia seus pulmões, Vincent Malakor continuava rindo.

 

Sua risada, distorcida pelo chiado da carne queimando, ecoou pelo cemitério como uma sinfonia macabra. Ele queimou vivo, mantendo o riso de um louco que acreditava estar sendo purificado, até que seus nervos finalmente cederam e o som cessou.

 

Os Cruzados restantes, vendo seu deus ou profeta transformar-se em uma pira de ossos, perderam a coragem. Lançaram suas facas ao chão e fugiram para a escuridão, deixando os Hereges sozinhos com o cheiro de fumaça e morte.

 

Henry permaneceu de pé, sem fôlego, limpando o sangue de sua máscara. Ele olhou para seus companheiros, que estavam cobertos de fuligem, mas vivos.

 

— Peguem a carga — ordenou Henry, com a voz firme novamente. — Maros terá o que quer. E nós teremos a nossa água.

 

A cena corta abruptamente do calor das chamas do cemitério para o frio clínico da Estação de Tratamento de Água Willamette. O contraste é chocante: o silêncio lá dentro é quebrado apenas pelo zumbido constante das bombas hidráulicas e um gotejar metálico.

 

As portas pesadas da Sala do Conselho se escancaram. Henry, Mika e Tara entram, carregando o peso da missão nos ombros e em suas roupas manchadas. Kol caminha à frente, jogando os últimos sacos de sementes sobre a mesa de vidro com um estrondo que faz os monitores de Maros tremerem. Os barris de fertilizante são depositados no chão com um baque surdo, liberando uma fina poeira química.

 

O Regente Maros levanta-se lentamente, ajustando os punhos de seu uniforme impecável. Ele olha para os barris, depois para o sangue que escorre da coxa de Henry e para a fuligem no rosto de Mika.

 

— Está feito — diz Kol, sua voz ucraniana rouca cortando o ar como uma navalha. Ele limpa o sangue seco da lâmina de seu machado na calça, sem nunca tirar os olhos de Maros. — A Cruz de Pólvora não é mais um problema. Vincent Malakor agora não passa de fumaça no céu de Oregon.

 

Maros caminha ao redor da carga, inspecionando os selos nos barris com satisfação silenciosa.

 

— Libere a água potável para o nosso setor — continua Kol, dando um passo à frente, impondo sua estatura. — Queremos um ano inteiro de fluxo garantido em nossas redes. Seremos o alicerce para o povo faminto, e você cumprirá sua parte no acordo.

 

Henry permanece na retaguarda, encostado em uma viga de aço. Ele está em silêncio absoluto, sua máscara azul escondendo a exaustão, mas seus olhos estão fixos no Cetro Hidráulico que Maros mantém ao alcance da mão. Ele observa a linguagem corporal do Regente; Henry sabe que homens como Maros não gostam de entregar o que consideram "ouro líquido" tão facilmente.

 

Maros para diante de Henry e sorri burocraticamente, virando-se para o painel de controle atrás de si.

 

— Um ano é muito tempo no novo mundo, Herege — diz Maros enquanto digita um código no terminal. — Mas a palavra do Hidro-Conselho é tão pura quanto o nosso aquífero.

 

Ele puxa uma alavanca de bronze. Ao longe, o som de grandes comportas se abrindo ecoa pelas tubulações da estação. O fluxo foi liberado.

 

— A água já está correndo para as suas cisternas — afirma o Regente, virando-se para eles.

 

Henry deu um passo lento e deliberado em direção a Maros. O som de suas botas pesadas, ainda sujas com as cinzas do cemitério, ecoou no chão de metal polido da estação. Ele parou a poucos centímetros do Regente, que permaneceu rígido, segurando seu Cetro Hidráulico com os nós dos dedos brancos.

 

A atmosfera na sala mudou de uma negociação tensa para uma ameaça direta e letal. Henry inclinou a cabeça levemente para o lado, e sua voz saiu em um sussurro gélido que fez os guardas do Hidro-Conselho congelarem em seus postos.

 

— Se for necessário, ou se este contrato for quebrado por um único centavo a menos de pressão... nós tomaremos a sua base — sentenciou Henry.

 

Maros tentou manter a postura, mas Henry continuou, sua presença ocupando todo o espaço entre eles:

 

— Se matamos mais de setenta doentes mentais, também podemos matar simples marinheiros aqui dentro. Não confunda nossa necessidade de negociar com falta de capacidade para conquistar.

 

Henry olhou para o Cetro nas mãos de Maros como se fosse um brinquedo inútil.

 

— A água é nossa agora. O fluxo é nosso. Mantenha as máquinas funcionando, Regente.

 

Henry deu as costas sem esperar por uma resposta, sinalizando para Mika, Tara e Kol. O grupo deixou a Sala do Conselho com a arrogância de quem acabara de redesenhar o mapa de Oregon. Maros permaneceu imóvel, observando os Hereges desaparecerem pelo corredor. Ele sabia que, a partir daquele momento, o Hidro-Conselho não era mais o soberano absoluto; eles eram meros zeladores da água dos Hereges.

 

Como um ritual de encerramento, cada Herege levou a mão ao rosto para ajustar sua identidade de guerra. Kol ajustou a sua, cinza-escuro como as trincheiras onde foi forjado. Mika deslizou sua máscara rosa sobre o rosto, um contraste delicado com a violência que acabara de desferir, e Tara fixou a sua verde-escura, a cor da resistência e da força bruta.

 

Eles saíram da base do Hidro-Conselho e iniciaram a caminhada de volta ao quartel-general dos Hereges. O ar do amanhecer estava pesado, mas pela primeira vez em semanas, a pressão sobre seus ombros havia diminuído. Sem a sombra constante da Cruz de Pólvora e com o fluxo de água garantido para o povo, Oregon parecia um pouco menos hostil.

 

O silêncio do caminho foi quebrado pelo tom rouco e humorado de Kol. O ucraniano limpou uma última gota de sangue de seu machado e olhou de relance para seus companheiros.

 

— Esqueçam de mim amanhã — brincou Kol, soltando um suspiro pesado de exaustão. — São 12 por 36, pessoal. Meu turno como executor acabou. Só me acordem se o mundo acabar de novo.

 

Mika soltou uma risada curta, e até Henry permitiu que o canto de seus lábios se curvasse por baixo da máscara azul. Eles haviam sobrevivido ao inferno, e o descanso, embora raro naquele mundo de cinzas, finalmente fora conquistado.

 

Fim do Capítulo

 

 

 

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