Volume 1
Capítulo 3 - O Calibre do Desconhecido
O retorno à Locomotiva 09 foi feito sob um silêncio pesado. Os Hereges e os homens do Maquinista carregavam as caixas de suprimentos médicos e tecidos bósnios com uma urgência sombria. Os Espectros tinham desaparecido de volta para a folhagem como se nunca tivessem existido, deixando apenas um rastro de fumaça esverdeada e o peso de um aviso não verbalizado.
Henry caminhava na retaguarda, sentindo o objeto que o Major Ghost lhe entregara pesar no bolso de sua jaqueta azul. Era um estojo de munição, mas não como os que os Cruzados adoravam. O metal era escuro — uma liga de tungstênio-polímero sem marcações de fábrica e uma ponta que abrigava um núcleo de carga térmica.
Ao chegarem aos trilhos, o farol amarelado do trem cortou a escuridão da floresta. Vassily, o piloto de confiança de Volkovich, estava encostado na porta da cabine, fumando um cigarro enrolado à mão que cheirava a alcatrão. Ele se endireitou ao ver o grupo emergir da mata pesadamente carregado.
— Vocês demoraram — disse Vassily, sua voz rouca abafada pelo ronco baixo da locomotiva. — O rádio subterrâneo não passa de estática. O Maquinista está impaciente. Ele não gosta de deixar o motor ligado em território aberto.
— Tivemos companhia — respondeu Henry, sinalizando para Kane e Elena embarcarem com a carga. — Mas o acordo está de pé. 70% para nós e para o povo; o resto vai para as caldeiras de Arthur.
Vassily cuspiu no chão, observando o movimento.
— E o que mais vocês encontraram lá fora? — Os olhos do piloto brilharam com curiosidade gananciosa. — O velho disse que aquela ave estava carregando tecnologia de ponta.
Henry parou no primeiro degrau do vagão e tirou o cartucho do bolso, segurando-o entre o polegar e o indicador para o piloto ver. Vassily, que passara a vida cercado de sucata e ferramentas pesadas, empalideceu ao reconhecer a sofisticação da peça.
— Isso... isso não é daqui — sussurrou o piloto, esquecendo o cigarro. — Nem os exércitos das Catorze Nações usavam esse tipo de munição antes da Queda. Isso é obra de alguém com poder de sobra e laboratórios frios.
— Foi o que derrubou o avião — disse Henry, guardando o projétil. — E quem quer que tenha disparado isso levou a coisa mais valiosa no cofre. O Maquinista vai querer ver isso.
Vassily subiu na cabine e puxou a alavanca de pressão. O vapor chiou agressivamente, limpando o ar da floresta.
— Se há pessoas com esse tipo de calibre vagando por Oregon, Henry... então o Maquinista não é mais o mestre do castelo. Entre. Se o brilho dessa munição atrair quem a disparou, não quero ficar parado quando eles chegarem.
O trem deu um solavanco, rodas de aço rangendo contra os trilhos enquanto iniciavam a jornada de volta para as entranhas do mundo. Henry demorou-se na plataforma traseira por um momento, observando a carcaça do avião diminuir à distância.
Ele sabia que a era das facções de facão e serra estava prestes a passar por um choque de realidade.
O vagão de carga balançava suavemente enquanto a Locomotiva 09 mergulhava de volta na escuridão dos túneis. A luz fraca da lanterna a óleo refletia no metal polido do cartucho desconhecido nas mãos de Henry.
Kane, sentado sobre um fardo de gaze médica, limpou o suor do rosto com um pano imundo. Ele olhou para o projétil de alta tecnologia e soltou uma risada seca e irônica.
— Quer saber o que eu acho? — começou Kane, inclinando-se contra a parede de metal. — Talvez a mulher no túnel estivesse certa. Talvez sejam aqueles "Ceifadores da Noite". Onze homens, máscaras de caveira e o poder do trovão. Só falta eles aparecerem agora e pedirem troco por esse cartucho.
Elena, que estava organizando garrafas de antisséptico, deu um sorriso discreto, embora seus olhos permanecessem fixos nas sombras da porta.
— O mundo é grande, Kane. E ficou muito vazio nos últimos dez anos — ela respondeu, guardando uma faca na bota. — Talvez eles realmente existam, escondidos em algum bunker de luxo. Mas honestamente? Não quero conhecê-los. Já temos problemas suficientes com fanáticos que sentem prazer na dor e espanhóis que viraram mato. Não precisamos de fantasmas com munição de tungstênio.
Henry não entrou na brincadeira. Seus dedos percorreram o contorno da munição, sentindo a frieza de uma engenharia que não pertencia a esta era de sucata e improvisação.
"Talvez Solomon saiba a que arma isso pertence", pensou Henry, com o olhar perdido na escuridão do túnel. "Ele serviu antes da Queda; viu coisas que eu só ouvi em histórias. Se alguém pode identificar esse rastro de morte, é ele."
O Retorno ao Pátio de Manobras
Após algumas horas viajando em silêncio absoluto, o trem finalmente diminuiu a velocidade. O cheiro de ozônio e graxa anunciou que estavam entrando no coração do território dos Viajantes.
Quando as portas da oficina se abriram, o cenário era de prontidão. Arthur Volkovich estava no centro da plataforma, cercado por mais homens do que o habitual, todos empunhando marretas e chaves de cano como se esperassem uma invasão.
O trem parou com um suspiro de vapor. Vassily saltou da cabine antes mesmo de Henry.
— Eles voltaram, Maquinista! — gritou o piloto. — E trouxeram a carga... mas trouxeram algo que vai fazer você querer trancar todas as entradas em Oregon.
Arthur caminhou até Henry, que desceu do vagão com o cartucho na palma da mão aberta. O gigante russo olhou para o objeto, mas não o tocou. Ele simplesmente encarou Henry com semblante pesado.
— Vocês cumpriram o acordo — disse Arthur, sua voz vibrando como um motor antigo. — Meus homens vão descarregar sua parte e levá-la para o prédio do centro. Mas esse pedaço de metal na sua mão... isso é um convite para o funeral de todos nós.
— Você reconhece isso, Arthur? — perguntou Henry.
— Eu reconheço o perigo — respondeu o Maquinista, virando as costas e sinalizando para que os portões fossem fechados. — Vá. Agora. Leve isso para Solomon. Se sobrou alguém que ainda sabe ler o alfabeto da destruição, é aquele velho.
Henry assentiu. Ele, Kane e Elena deixaram os túneis, subindo pelas rotas elevadas para a segurança das ruínas do centro da cidade.
Chegada à Base
Eles cruzaram os perímetros de segurança de Beck e entraram no saguão principal do prédio fortificado. Solomon estava diante da grande janela de vidro reforçado, observando a silhueta da cidade. Ele se virou quando ouviu os passos pesados de Henry.
— Vocês voltaram — disse Solomon, sua voz paternal, mas afiada pela percepção. — Sinto cheiro de sangue e produtos químicos. E sinto que a missão trouxe mais do que apenas remédios.
Henry caminhou até a mesa de carvalho no centro da sala e colocou o cartucho preto. O som do metal batendo na madeira pareceu ecoar por todo o edifício.
— O Major Ghost nos deu isso — começou Henry. — Estava no cofre do avião. Mas o cofre foi aberto antes de chegarmos. Por algo que usa isso, Solomon.
Solomon aproximou-se da mesa. Ele pegou o cartucho com dedos trêmulos — não de medo, mas de uma antiga memória. Ele girou sob a luz de uma luminária e suspirou, um som profundo que parecia carregar o peso de um mundo inteiro.
— O mundo não acabou com pólvora, Henry... — sussurrou Solomon, olhando para seu pupilo. — Estava apenas esperando o silêncio ser profundo o suficiente para o verdadeiro mestre falar novamente.
Solomon segurou o projétil preto contra a luz âmbar da luminária, seus dedos traçando as linhas aerodinâmicas da liga de tungstênio. O silêncio na sala tornou-se pesado, interrompido apenas pelo som distante de Mika praticando golpes com sua naginata no andar de baixo.
— Isso não é uma bala comum, Henry — começou Solomon, sua voz caindo como uma sentença. — É um projétil de aceleração magnética, não sei quem disparou isso. Não há marcações de país, nem brasões de exército. Quem fez isso opera em um nível de tecnologia que o mundo esqueceu que existia.
Ele devolveu o projétil a Henry, mas balançou a cabeça rapidamente, forçando-se a focar na urgência do presente.
— Mas o mistério da arma terá que esperar. Temos uma crise imediata: nossos estoques de água doce no setor sul foram contaminados por infiltração de esgoto das ruínas. Se não agirmos, o grupo e os civis que protegemos morrerão de sede antes que a primeira bala magnética nos alcance.
Solomon caminhou até o mapa e apontou para a antiga Estação de Tratamento de Água de Willamette, agora controlada por uma facção conhecida como os Hidros.
— Henry, leve uma equipe à base dos Hidros. Eles controlam o fluxo. Não somos inimigos, mas eles são negociadores implacáveis. Leve recursos para troca, mas esteja pronto para o pior. Assim que descobrir o preço deles, entre em contato via rádio.
A Equipe de Apoio
Henry sinalizou aos três membros escolhidos para esta missão específica. Desta vez, ele precisava de força, disciplina e alcance.
Kol: O executor silencioso. Ele afiou a lâmina serrilhada de seu machado de incêndio. Se os Hidros decidissem fechar as válvulas à força, Kol seria o encarregado de abrir caminho através de suas trincheiras.
Mika: Ela uniu as duas seções de sua naginata de fibra de carbono, testando o equilíbrio da arma. Em espaços abertos como a estação de tratamento, o alcance de sua lança seria a vantagem necessária contra qualquer investida.
Tara: Ela não era apenas proteção; ela era a garantia de que o grupo poderia recuar em segurança carregando os galões de água caso a diplomacia falhasse.
A Lei do Aquífero
O interior da Estação de Tratamento Willamette era um santuário de eficiência fria. Diferente da base dos Viajantes, que era manchada de graxa, ou do acampamento dos Espectros, que era selvagem, este lugar era estéril. O som do maquinário de bombeamento alemão, mantido com rigor obsessivo, preenchia os corredores.
Henry, Kol, Mika e Tara foram levados para a Sala do Conselho. No centro de uma mesa circular de vidro, cercado por monitores exibindo os níveis de pressão dos aquíferos, estava o Regente Maros. Ele não usava armadura, mas sim um uniforme de oficial de saneamento impecavelmente limpo, contrastando fortemente com o azul desbotado da jaqueta de Henry.
Maros não se levantou. Ele simplesmente observou os Hereges com um olhar que calculava o valor biológico de todos ali.
— Henry Henrikson — começou Maros, sua voz polida e desprovida de emoção. — Seus tanques no setor sul falharam. Eu previ isso. O concreto de Portland não foi construído para durar séculos. Agora, vocês vêm a mim com as bocas secas.
Henry manteve sua posição, sentindo a vigilância de Kol e Mika ao seu lado. Tara mantinha seu escudo abaixado, mas seu corpo era uma mola em espiral.
— Nós sabemos como as trocas funcionam, Maros — disse Henry, com a voz abafada pela máscara. — Diga o preço. Grãos? Carne de carniça dos Espectros? Nós temos o que você precisa.
O Regente Maros sorriu gelidamente e ergueu seu Cetro Hidráulico, deixando-o descansar sobre a mesa. O bico de pressão brilhava como prata.
— Grãos e carne sustentam hoje, Henry. Mas o Hidro-Conselho pensa no amanhã. Nós sabemos sobre o avião bósnio. Sabemos que vocês recuperaram tecidos e suprimentos médicos.
Maros inclinou-se para frente.
— Eu não quero comida. Eu quero que os Hereges invadam os suprimentos dos Cruzados na sede deles, no Mausoléu. Eles carregam sementes geneticamente modificadas e fertilizantes sintéticos.
— A sede por água também é uma fúria, Henry — respondeu Maros. — Traga-me as sementes e o fertilizante. Em troca, abrirei o fluxo para o seu prédio por um ano inteiro. Caso contrário... bem, o corpo humano é 70% água. Eu adoraria ver quanto tempo leva para você perder essa porcentagem.
Henry soltou uma risada seca e abafada atrás de sua máscara de madeira, um som áspero que ecoou nas paredes estéreis e metálicas da Sala do Conselho. O som estava tão fora de lugar naquele ambiente de ordem alemã que dois guardas do Hidro-Conselho alcançaram suas bestas.
Maros arqueou uma sobrancelha, mantendo sua calma burocrática, mas apertando ligeiramente o aperto em torno de seu Cetro Hidráulico.
— O que tem tanta graça, Herege? — perguntou Maros. — Eu não costumo fazer piadas quando se trata da sobrevivência do seu povo.
Henry parou de rir, mas a faísca de agressão em seus olhos era visível através da fresta de sua máscara. Ele deu um passo à frente, ignorando o protocolo de distância do Conselho.
— A graça, Maros, é que você está com sorte — disse Henry, inclinando a cabeça. — Eu odeio aqueles bastardos da Cruz de Pólvora tanto quanto você — talvez até mais. Eles são um câncer se espalhando pelas ruínas, e eu adoraria arrancar as raízes desse problema.
Henry pausou, olhando para Kol e Mika, que mantinham uma postura de prontidão absoluta.
— Mas não pense que isso será um passeio no parque — Henry continuou, sua voz agora séria e mortal. — O ódio não vence guerras sozinho. Vincent Malakor tem mais de cinquenta maníacos chapados de PCP ao seu lado. Eles não sentem dor, não sentem medo e morrem sorrindo se acharem que estão protegendo a "santidade do chumbo". Invadir o território deles para roubar sementes e fertilizantes é caminhar para um moedor de carne.
Maros relaxou sua postura, mas não seu olhar. Ele sabia que Henry estava certo sobre o perigo dos Cruzados.
— É por isso que estou pedindo aos Hereges, e não aos meus técnicos — respondeu Maros, sentando-se novamente. — Meus homens sabem como manter a pressão em um cano, mas vocês sabem como aplicar pressão no pescoço de um inimigo. Traga-me os recursos, Henry. Limpe aquele ninho de ratos vermelhos, e eu transformarei o deserto do seu prédio em um oásis.
Henry ativou seu rádio, transmitindo a decisão a Solomon.
— Solomon, o preço foi definido. Vamos caçar os Cruzados no quintal deles. Maros quer a comida que eles estão estocando.
A voz de Solomon surgiu através da estática, pesada e estratégica:
— Entendido, Henry. Se vamos enfrentar cinquenta deles em terreno aberto, precisamos levar todos juntos. Henry, o plano de ataque começa agora. Não entrem pela porta da frente; a Cruz de Pólvora adora receber convidados com fogo.
Henry fez um sinal negativo com a mão, cortando as coordenadas de Solomon pelo rádio.
— Não, Solomon. Levar o grupo inteiro agora é muito arriscado. Mover onze pessoas pelos telhados sem serem notados por cinquenta maníacos é pedir para serem cercados — explicou Henry, sinalizando para Kol, Mika e Tara se aproximarem. — Deixe que nós quatro cuidemos do avanço inicial.
A voz de Solomon hesitou por um segundo antes de responder:
— Entendido, Henry. Câmbio.
Fim do Capítulo
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios