Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 8

Capítulo 7: A Expedição

O ar seco roçou as faces de Jinshi. Assim como vinha fazendo nos últimos dias. Ainda assim, ele não fazia uma excursão de verdade desde sua viagem para o oeste. Observar a paisagem passar enquanto sua carruagem sacolejava pela estrada não era uma forma ruim de passar o tempo, mas ele não podia negar o desejo de cavalgar pelos campos em seu próprio cavalo.

— Você pode simplesmente deixar as coisas aqui conosco. Não se preocupe, nosso mundo vai continuar girando sem você por alguns dias — disse Maamei, estufando o peito com orgulho. Jinshi fingiu não perceber Baryou (cuja expressão dizia "Vai mesmo me deixar aqui?”). Em vez disso, impulsionado pelo proverbial empurrão de Maamei, partiu para realizar suas inspeções. Seu destino: uma aldeia cujas plantações haviam sido devastadas por insetos.

Isso significava um dia e meio viajando em uma carruagem trêmula. Na tentativa de concluir o trabalho o mais rápido possível, Jinshi planejava trocar de cavalos e cocheiros em cada cidade. Apesar do ritmo acelerado que pretendia manter, pelo menos dez pessoas o acompanhavam, incluindo seus guarda-costas. Era um número relativamente modesto para uma expedição envolvendo alguém da posição de Jinshi, mas viajar com um grupo grande apenas tornaria tudo mais demorado. Ele seguiu em frente com sua comitiva reduzida na esperança de chegar à aldeia o quanto antes. 

Da mesma forma, para garantir que tudo corresse bem, ele decidiu ser um pouco... exigente quanto à escolha de sua equipe.

— O senhor não se sente desconfortável por ficar sentado por tanto tempo?

— Se está tão preocupado com isso, deixe-me cavalgar.

— Receio que não, senhor.

Sentado ao seu lado não estava Basen, mas Gaoshun. Basen estava presente, montado entre os guardas. Com as devidas desculpas a ele, Gaoshun continuava sendo mais competente quando se tratava de servir como ajudante de ordens de Jinshi. Por isso, Jinshi o havia tomado emprestado do Imperador. Também era, de certa forma, sua pequena vingança contra Sua Majestade, que vinha facilitando a própria vida ao deixar Gaoshun fazer seu trabalho.

— Tem certeza de que Baryou vai ficar bem? Mesmo com Maamei? — perguntou Jinshi. Ele estava preocupado. — Sei que ele sempre foi um tanto frágil. Achei ter ouvido que estava de repouso em casa por causa de uma doença.

Era verdade, tinha sido o próprio Jinshi quem insistiu para que Baryou entrasse a seu serviço, mas ele estremecia ao imaginar o homem adoecendo novamente.

— Era só a reclamação de sempre dele. — Gaoshun ofereceu a Jinshi uma tangerina já descascada, mas não antes de pegar um gomo e colocá-lo na própria boca. Jinshi não tinha certeza de que fosse realmente necessário verificar algo tão trivial em busca de veneno, mas transformar aquilo em hábito desencorajaria qualquer um de tentar envenenar algo que pudesse escapar à vigilância.

— Conheço o básico da história dele, mas talvez possa me contar o restante? — Jinshi lançou um olhar inquisitivo para Gaoshun enquanto mordia a fruta. Ela ainda estava azeda, perfeita para umedecer sua garganta ressecada.

— Sim, senhor. Ele nunca se deu bem com o supervisor de seu departamento, a ponto de acabar com uma úlcera no estômago. A situação chegou ao ápice quando ele vomitou copiosamente sobre a mesa do supervisor. Depois disso, foi levado ao setor médico e, pouco tempo depois, se afastou de suas funções. Isso foi há cerca de três meses, se não me engano.

E era esse o homem que Gaoshun afirmava que ficaria perfeitamente bem? Jinshi conhecia Baryou havia tempo suficiente para saber que ele nunca se sentia muito à vontade perto das pessoas, e que pessoas com quem realmente não se dava bem podiam, bem, lhe causar uma bela dor de barriga.

Gaoshun deve ter percebido a preocupação no rosto de Jinshi, pois acrescentou em tom tranquilizador:

— Não haverá problemas. Maamei está com ele. Desde que teve filhos, ela se tornou uma pessoa muito mais equilibrada.

— Equilibrada? — Para Jinshi, ela parecia tão autoritária quanto sempre foi. Precisava ser, para ter uma ideia de como devolver ao estrategista excêntrico o próprio trabalho.

— De fato. Por exemplo, ela parou de reclamar toda vez que toco em meu neto, desde que eu lave as mãos antes.

Jinshi não comentou nada. Talvez fosse simplesmente o destino do pai daquela filha em particular. Gaoshun passou muitos anos sendo tratado por Maamei como se fosse uma barata.

Gaoshun tinha um olhar distante, mas, ao observar pela janela, disse:

— Lá. Já dá para ver.

Jinshi olhou e viu uma aldeia aninhada entre acolhedores arrozais. Conforme se aproximavam, ele conseguiu distinguir fileiras de casas simples. Uma delas era maior que as demais. Um sentinela estava de guarda no portão da aldeia, observando o grupo de Jinshi com desconfiança.

— Vamos direto para a casa do chefe da aldeia. Tudo bem?

— Primeiro, chame Lihaku para mim, por favor — disse Jinshi.

Lihaku, um soldado que tinha o ar de um cachorro amigável, nunca pareceu particularmente intimidado, mesmo na presença de Jinshi. Mais importante ainda, era um homem de caráter forte, o que o tornava extremamente valioso. Mais uma vez, Jinshi havia pedido especificamente que ele integrasse a guarda.

— Como desejar, senhor. — Gaoshun chamou Lihaku pela janela. Talvez fosse mais rápido se o próprio Jinshi o convocasse, mas era melhor que seu rosto não fosse visto com frequência. Ele pretendia usar sua máscara enquanto estivesse do lado de fora. Isso não o faria parecer menos suspeito, exatamente, mas, com Gaoshun para confirmar sua identidade, imaginava que nem mesmo o chefe da aldeia insistiria muito no assunto. Antes, ele havia contado com Basen para algo semelhante, mas tudo tinha sido um pouco... angustiante.

— Sim? O que deseja, Mestre Jinshi? — perguntou Lihaku, saltando facilmente para dentro da carruagem ainda em movimento. Ele conhecia Jinshi desde a época em que este fingia ser um eunuco e evitava o apelido eufemístico de “Príncipe da Lua”, preferindo o nome que usava no Palácio Interno.

— Você é das províncias, não é? O que acha desta aldeia?

— Das províncias? Sim, senhor, embora não desta região. Quanto a esta aldeia… — Lihaku observou o lugar pela janela, sem saber muito bem o que dizer. — As casas parecem robustas demais para um simples povoado agrícola. Sei que, da sua perspectiva, podem parecer bem simples, mas são perfeitamente respeitáveis por aqui. Ouvi dizer que os insetos realmente devastaram este lugar.

Para Jinshi, eram os pilares expostos e desgastados pelos infortúnios que faziam as casas parecerem menos luxuosas.

— Meu avô me contou que os gafanhotos não comem apenas os grãos. Eles atacam madeira e até tecidos também — disse Lihaku. Tinham apetites insaciáveis; pareciam determinados a privar as pessoas não apenas de comida, mas também de roupas e abrigo.

— Segundo os relatórios, os únicos grãos que sobreviveram foram aqueles que já tinham sido completamente colhidos e armazenados nos celeiros. Praticamente todo o restante foi consumido — disse Gaoshun, lendo um pedaço de papel.

— Dá dor de cabeça só de pensar, não é? — disse Lihaku, franzindo a testa. — Embora eu ache que quase demos sorte de isso ter acontecido aqui e agora. — Os danos teriam sido muito piores se o enxame tivesse chegado durante o auge da colheita do trigo ou mais ao sul, em terras de cultivo de arroz.

— É difícil enxergar daqui, mas tenho certeza de que há insetos mortos espalhados por todo o chão. Pode não ser uma visão bonita, mas conseguiram manter os danos ao mínimo porque as ordens para exterminar os insetos já tinham sido emitidas. — Lihaku balançou a cabeça e suspirou. Era um comportamento um tanto informal para alguém diante de um membro da Família Imperial, mas Jinshi sabia que Lihaku tinha plena consciência de sua posição e escolheu ignorar a indiscrição. A decisão beneficiava tanto a si mesmo quanto a Lihaku, tornava sua vida mais fácil. Gaoshun percebeu a reação de Jinshi e não disse nada ao soldado. Se Basen estivesse ali, já estaria repreendendo o outro homem, e francamente isso seria um pouco irritante.

— Bem, vou voltar para fora — disse Lihaku. — Caso contrário, o Mestre Basen vai me lançar o olhar mais mortal da minha vida.

Mas antes que pudesse sair, a carruagem parou. Devem ter chegado à casa do chefe da aldeia. Basen claramente não gostava do fato de Jinshi valorizar os serviços de Lihaku, e o grandalhão não perdeu tempo em se retirar. Quanto a Jinshi, ele colocou a máscara e saiu um instante depois.

Embora as vigas e o telhado apresentassem sinais de terem sido mordiscados, a casa do chefe da aldeia era adequadamente impressionante. Jinshi sabia disso por causa do leve tom de zombaria na voz de Lihaku quando comentou:

— Parece mais uma mansão do que uma casa comum, não acha?

Canais cercavam a mansão, conduzindo água para um lago artificial criado no centro do jardim. Era uma ideia elegante, mas a ausência evidente de vegetação fazia tudo parecer melancólico. Mais especificamente, tentar transformar um arrozal em lago ornamental era uma ideia inteligente, inteligente até demais. Mas Jinshi guardou essa opinião para si.

Ele permaneceu atrás de Gaoshun. O chefe da aldeia apareceu à porta, esfregando as mãos e curvando-se obsequiosamente para Gaoshun enquanto lançava olhares desconfiados ao homem mascarado. Ele os conduziu para dentro, onde Jinshi concluiu, pelos sussurros de Lihaku, que o interior era tão relativamente luxuoso quanto o exterior. Lihaku podia parecer simples, mas, na verdade, era bastante perspicaz.

— Por aqui, por favor — disse o chefe da aldeia, conduzindo-os a uma sala onde um banquete havia sido preparado. A comida pareceu bastante simples para Jinshi, acostumado aos elaborados banquetes da capital, mas havia toda a possibilidade de que fosse muito mais luxuosa do que se esperaria de um chefe de aldeia do interior.

Jinshi permaneceu em silêncio. Gaoshun sequer olhou para ele, mas sabia exatamente o que seu mestre gostaria de dizer.

— Não viemos para comer. Conte-nos imediatamente a situação de sua aldeia  — disse ele. 

— S-Sim, senhor — respondeu o chefe da aldeia. Para Jinshi, acostumado a ouvir Gaoshun falar de maneira respeitosa, aquele tom autoritário era revigorante. Até mesmo Maomao sempre falava educadamente com ele. Às vezes, isso podia ser sufocante.

O chefe da aldeia prontamente ordenou que um servo retirasse a refeição, deixando a grande mesa vazia. O cômodo havia sido cuidadosamente limpo, e a janela oferecia uma vista do jardim. Jinshi suspeitava que aquele fosse o orgulho do chefe da aldeia, mas naquele momento estava coberto por cadáveres de insetos.

O homem trouxe um mapa da aldeia.

— Você pode pular as formalidades. Conte-nos a situação. O máximo de detalhes que puder, mas seja breve — disse Gaoshun. 

— Sim, senhor. Tudo começou há cerca de duas semanas...

Cerca de duas semanas antes, explicou o chefe da aldeia, uma nuvem negra apareceu no horizonte noroeste. Era uma visão estranha, uma nuvem de tempestade fora da estação das chuvas. Logo eles perceberam que a nuvem vinha acompanhada de um zumbido terrível. Na verdade, não era uma nuvem, era um enorme enxame de gafanhotos.

O enxame alcançou a aldeia e começou a devorar todo o arroz que ainda não havia sido colhido. Os aldeões revidaram com tochas e redes, mas, não importava quantos insetos matassem ou capturassem, isso nunca parecia reduzir o tamanho do enxame. Eles simplesmente continuavam comendo. E não apenas o arroz, também as roupas e os sapatos dos moradores. Até cabelos e pele sofreram mordidas dos insetos.

Os homens capturavam os gafanhotos para queimá-los ou simplesmente matá-los. Mulheres e crianças tentavam se abrigar dentro das casas; as mulheres matavam os insetos que passavam pelas frestas das paredes, mas as crianças apenas se encolhiam nos cantos, tremendo.

O ataque dos gafanhotos durou três dias e três noites.

— Estas são as roupas que eu usava naquele dia — disse o chefe da aldeia, erguendo uma vestimenta feita de resistente fibra de cânhamo. Havia buracos atravessando completamente o tecido, e, a julgar pelas cores ainda vivas da roupa, não tinha sido o tempo que causou eles. — Produzimos inseticida, mas o enxame era simplesmente grande demais. Não tivemos a menor chance.

Jinshi mordeu o lábio. Então os produtos químicos realmente não tinham sido suficientes.

— E há isto também. — O chefe da aldeia saiu para o jardim e passou a mão pelo tronco de uma árvore. — Esta árvore estava coberta de folhas novas... Mas os insetos comeram cada uma delas. — Ele soltou um longo suspiro.

— Onde estão os insetos agora? — perguntou Gaoshun.

— Matamos todos os que conseguimos, queimamos os que foi possível e tentamos reunir os demais mortos na parte de trás da aldeia. Gostariam de vê-los?

Eles gostariam. O chefe da aldeia os conduziu para trás da mansão. Conforme avançavam, começaram a ver mais gafanhotos mortos espalhados pelo chão, e logo os corpos passaram a estalar sob seus pés.

Jinshi permaneceu em silêncio enquanto se aproximavam do local. Vamos poupar uma descrição detalhada; basta dizer que eles haviam escavado um enorme buraco, e um monte escuro podia ser visto acima da borda. Alguns guardas levaram as mãos à boca, lutando contra a vontade de vomitar. Claramente, alguns homens do destacamento não gostavam de insetos.

— São todos eles? — perguntou Gaoshun.

— Todos os que conseguimos deter — respondeu o chefe da aldeia.

— E quantos você diria que escaparam de vocês?

— Não sei dizer.

Gaoshun acariciou o queixo.

— Basen.

O rapaz veio rapidamente ao ouvir o chamado do pai.

— Sim, senhor?

— Vá às outras aldeias próximas e descubra exatamente quanto dano foi causado. Se pegar um cavalo rápido, deverá conseguir voltar em um tempo razoável.

— Sim, senhor.

Basen partiu para perguntar aos moradores sobre os assentamentos vizinhos. Por trás da máscara, Jinshi ergueu as sobrancelhas e logo as abaixou novamente.

— Há algo errado, senhor? — perguntou Gaoshun em voz baixa.

— Não exatamente...

Jinshi precisava lidar com o que havia acontecido… Mas havia algo ainda mais importante exigindo sua atenção. Ele se perguntou o que a apotecária maluca faria se estivesse ali.

De repente, ele se agachou no chão. Os gafanhotos estavam mortos e imóveis, mas ele percebeu que seus abdômens estavam inchados. Ele já tinha ouvido dizer que gafanhotos em enxames assumem uma coloração mais escura e tinham as pernas mais curtas. Esses eram de fato de cor parda e simples. Jinshi tirou uma pequena adaga. Sem dizer uma palavra, cravou-a no corpo de um dos insetos. Ele não gostou da sensação. Mas tinha certeza de que, se Maomao estivesse ali, era exatamente isso que ela teria feito. Ele passou então a dissecar um gafanhoto após o outro. Os aldeões observavam o homem mascarado com horror, mas Jinshi não podia se preocupar com o que pensavam dele. Ele foi alinhando os insetos abertos lado a lado.

— Isso é... — começou Gaoshun. Ele parecia ter compreendido o que Jinshi procurava. Jinshi não era um especialista em insetos, mas até ele conseguia imaginar o que causava aqueles abdômens inchados. Estavam cheios do que pareciam ser longos tubos amarelados. 

Era outono, e depois do outono vinha o inverno. Esses insetos não sobreviveriam aos meses frios, eles confiariam o futuro à próxima geração.

— Ovos? — sussurrou Gaoshun, e Jinshi respondeu com um aceno de cabeça. Outra coisa que ele conseguia imaginar era o que aqueles insetos carregados de ovos fariam em seguida.

— Esta praga ainda não acabou — disse suavemente, a máscara abafando sua voz. — Vamos queimar esta terra.

Quaisquer ovos sobreviventes precisavam ser destruídos pelo fogo, ou a colheita de trigo da primavera seria devorada pela prole desses gafanhotos.


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