Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 8

Capítulo 6: Trovoada

Era uma tarde de outono, e Maomao e seu pai estavam ambos com uma expressão confusa.

— Acha que vai chover hoje? — perguntou seu pai, olhando para o céu pela janela do consultório médico.

— Vai cair um temporal... ah, senhor — respondeu ela, corrigindo-se antes de falar de forma brusca demais com ele. Havia outros membros da equipe médica por perto, e ela precisava tomar cuidado. Yao e En’en, porém, não estavam ali. À medida que as assistentes médicas se tornavam mais confiantes em seus trabalhos, eram cada vez mais designadas para diferentes locais, onde houvesse serviço a ser feito. Naquele dia, por acaso, Maomao tinha sido enviada para ajudar no consultório onde seu pai trabalhava.

Luomen segurava uma mensagem nas mãos, ordens de uma pessoa em particular. O problema estava justamente em quem era essa pessoa.

— Parece que ele tem trabalhado bastante. Estou um pouco surpreso — murmurou um jovem médico próximo, aparentemente sem querer. Maomao o conhecia da época em que trabalhou para Jinshi, e, se estiverem se perguntando, não, ela ainda não tinha aprendido o nome dele.

— E ele deveria estar. Ele deveria estar trabalhando — disse Luomen, embora sua voz soasse menos firme do que de costume.

— Mas o que o Grande Comandante Kan quer com o senhor, doutor Kan?

Em resumo, o estrategista excêntrico estava tentando empurrar seu trabalho para o pai de Maomao. A carta era redigida como um pedido educado, não como uma ordem, mas não havia nada de “se lhe for conveniente” em seu conteúdo.

— Tenho que admitir que não estou confiante de ser a melhor pessoa para um interrogatório — disse Luomen. Ele tinha sido encarregado de conversar com três suspeitos. Normalmente, aquilo seria responsabilidade de algum funcionário do Ministério da Justiça. Por que pedir a um médico que fizesse isso?

— Era de se esperar que eles fossem um pouco mais discretos com um assunto desses — comentou Maomao.

— Sim, era de se esperar — concordou Luomen. Os suspeitos eram três soldados, tratava-se de uma investigação interna.

— E exatamente sobre o que o senhor deve interrogá-los? — perguntou o jovem médico. Ele parecia profissional demais para fazer perguntas fofoqueiras, mas seu interesse claramente tinha sido despertado.

— Consigo entender por que querem manter isso em segredo. Há uma mulher envolvida — respondeu Luomen.

— U-uma mulher? — disse o médico, olhando para o chão com todo o embaraço de um garoto inocente.

Por que querem que o meu velho cuide disso? Maomao se perguntou. Talvez não houvesse mais ninguém adequado para a tarefa. Ainda assim, ela ficava mais surpresa à medida que descobria sobre os alvos do interrogatório. — Todos eles têm o mesmo sobrenome — disse ela.

O número de sobrenomes em Li não passava de algumas dezenas, então não era incomum que pessoas compartilhassem um nome. Mas os três suspeitos terem exatamente o mesmo sobrenome era um pouco estranho.

— São irmãos. Trigêmeos, aliás — explicou Luomen.

— Trigêmeos? — Isso chamou a atenção tanto de Maomao quanto do jovem médico.

— Uma mulher afirma que um dos três tentou abusar dela, mas apresentou a acusação sem ter certeza absoluta de qual deles foi. Como a mulher é parente de um soldado, decidiram iniciar a investigação como um assunto interno. Porém...

— Sim? O quê?

— O pai dos trigêmeos é um alto funcionário do Ministério da Justiça e está insistindo que nenhum julgamento pode ocorrer até que descubram exatamente qual dos três foi o responsável. Pelo que entendi, não seria a primeira vez que os rapazes usam a influência do pai para escapar das consequências de seus atos.

Que maravilha, pensou Maomao, franzindo a testa instintivamente.

— Teremos apenas uma oportunidade para interrogá-los e deixar claro quem cometeu o crime. Não podemos falhar.

Era por isso que o estrategista excêntrico havia recorrido a Luomen. O motivo dele ter se tornado tão trabalhador de repente continuava um mistério, mas seguia demonstrando excelente discernimento na escolha de seus agentes. O pai de Maomao era brilhante, um homem capaz de ouvir um fato e deduzir outros dez.

 

Luomen não perdeu tempo; foi ouvir o relato dos jovens já no dia seguinte.

— Poderia vir comigo e anotar o que eles disserem, Maomao? Gostaria de ter a opinião de uma terceira pessoa.

— Melhor não. Eu sempre atraio os esquisitos. — Ou, mais precisamente, o esquisito. Ela balançou a cabeça, imaginando o que aconteceria se o estrategista aparecesse.

— Não precisa se preocupar. Lakan não estará lá.

— Está bem, beleza. Mas e a Yao e a En’en?

Ela lançou um olhar para as duas. Naquele dia elas estavam trabalhando no mesmo consultório que ela e certamente perceberiam se ela desaparecesse.

— Já conversei com elas. Yao recusou; disse que não entende de taquigrafia.

Nem eu, pensou Maomao, mas decidiu não dizer nada. Se Yao ouvisse aquilo, poderia acabar se oferecendo para ir. E En’en jamais permitiria que ela ficasse em uma sala com homens acusados de violência contra uma jovem. Não, a escolha mais sensata era permanecer calada. Yao podia se frustrar com suas próprias limitações, mas estava disposta a aceitar os limites que elas lhe impunham.

Já fazia algum tempo que Yao observava Maomao com pesar atrás de uma coluna. Atrás dela, En’en agitava um lenço branco como se dissesse: Vai logo! Até mais!

— Acho melhor irmos — disse Maomao, sabendo que quanto antes começarem, mais cedo terminariam.

 

Eles receberam uma sala de reuniões entre os escritórios militares para trabalhar. Não era apertada, mas também não era espaçosa; parecia mais uma sala de interrogatório do que uma verdadeira sala de reuniões.

O incidente que investigavam havia ocorrido cerca de cinco dias antes. A questão era descobrir qual dos homens, se algum deles, tinha colocado as mãos em uma garota de quatorze anos. Maomao imaginava que alguém tentaria alegar que a culpa era parcialmente da menina por se deixar enganar por um rosto bonito, mas naquele dia uma tempestade repentina caíra sobre a cidade, e a garota, separada de sua acompanhante, disse que tinha ficado assustada.

Foi no dia em que saí para fazer compras com Yao e En’en. Uma onda de raiva atravessou Maomao. Ela queria encontrar alguma forma de punir o homem que se aproveitou de uma garota assustada. Não, não. Se acalme. Ela precisava manter a imparcialidade. Eles não sabiam ao certo qual dos trigêmeos era o culpado e, era preciso admitir que existia a possibilidade da acusação ser falsa.

— Ah, são vocês! — disse o soldado que os recebeu à porta. Maomao reconheceu o grande cachorro, quer dizer, Lihaku.

[Kessel: kkkkkk, não aguento com isso dela chamando ele de cachorro toda vez…]

— Obrigado por estar aqui — disse seu pai, fazendo uma reverência educada.

— Claro. Se houver algum problema, é só chamar. Tem outro funcionário aí dentro, um secretário, mas ele é apenas um burocrata. — Ele bateu no próprio peito largo, tão direto e expansivo como sempre.

— O que o traz aqui, mestre Lihaku? — perguntou Maomao.

— Ordens de cima. Considerando quem são os suspeitos, não podemos correr o risco de alguém ficar violento. Queriam um guarda competente por perto. Além disso, tenho patente superior à daqueles três irmãos e conheço você. Acho que foi por isso que me escolheram.

— Muito interessante. — Fazia sentido. Embora talvez fosse mais correto dizer não que Lihaku conhecia Maomao, mas que sabia que ela seria imparcial.

— Além disso, tarefas como esta são uma boa mudança de ritmo de vez em quando. — Lihaku sorriu para ela com sua habitual simpatia. Maomao percebeu que a faixa de patente em sua cintura era diferente da de antes.

— Pelo visto está mesmo subindo na vida, se me permite dizer — disse ela.

— Estou mesmo. O problema é que comecei a receber tanto trabalho de escritório que meu corpo está perdendo o condicionamento.

Maomao estava curiosíssima para saber quanto dinheiro ele ganhava atualmente, mas sabia que seria indelicado perguntar, então se conteve. O que mais queria saber, porém, era se ele conseguiria resgatar Pairin, a Princesa da Casa Verdigris, por quem ele era tão apaixonado.

[Noelle: Que saudade eu estava dessa boa energia do nosso cachorrão Lihaku <3]

— Desculpe interromper, mas poderia responder algumas perguntas? — disse Luomen, olhando para Lihaku.

— Ah! Sim, claro. Desculpe, pode perguntar.

— Pelo que entendi, você conhece esses três jovens pessoalmente. Que tipo de pessoas eles são?

Lihaku levou a mão ao queixo, pensativo.

— Sabe, não tenho certeza de como responder isso. Os três são canalhas espertos. Parecem idênticos e até falam quase da mesma forma. Acho que as personalidades deles também são parecidas. Mas não posso garantir; não os conheço há tempo suficiente para distinguir um do outro. Posso afirmar que ninguém os diferenciaria num primeiro encontro, e acho que estão usando isso para confundir aquela jovem. São bonitos, sem dúvida. Bonitos o bastante para enganar os olhos de uma garota idealista.

— Humm.

— É por isso que só perseguem garotas protegidas, jovens que não entendem como o mundo funciona. Existem até... Existem até histórias de que eles atacaram meninas de apenas doze anos. — Lihaku parecia incapaz de compreender algo assim.

Pronto. Já chega. Não precisamos de gente assim. Tentar se aproximar de garotas que talvez nem tivessem menstruado ainda era mais do que Maomao conseguia suportar. Ela conseguia imaginar muitas delas chorando até dormir depois de tudo terminar.

Seu pai assentiu. 

— Os irmãos são próximos entre si?

— Nem um pouco — respondeu Lihaku. — Uma vez, um deles cometeu um erro no trabalho e, quando houve uma investigação para descobrir quem tinha sido o responsável, não houve nenhuma tentativa de encobrir o outro nem de ajudá-lo. Na verdade, todos pareciam querer piorar a situação dos irmãos.

— Então, nesse caso, eles não tentaram conspirar para esconder o erro?

— Você acha que conseguiriam? Lak... quero dizer, aquele velho gagá de monóculo enxergaria através deles num instante.

Que gentil da parte de Lihaku lembrar do que Maomao tinha lhe dito. O estrategista excêntrico era praticamente inútil como ser humano, mas era bom em Go, em shogi... e em julgar caráter.

Ele mesmo deveria ter assumido este caso, pensou Maomao. Por outro lado, o que eles realmente precisavam era de provas concretas. Mesmo que ele tivesse certeza intuitiva de quem era o culpado, ainda seria necessário apresentar evidências.

— Ufa, aquilo foi algo e tanto de ver! Ah, isso me lembra uma coisa — disse Lihaku.

— Sim?

— Acho que dois dos três irmãos serão honestos. Eles fazem o que querem porque sabem que o pai vai protegê-los, então não esperam ser punidos quando não fizeram nada de errado. Acho que dirão a verdade se acreditarem que isso não vai lhes causar problemas.

— Você também é uma pessoa bastante honesta — disse Luomen, suavizando o rosto em um sorriso que o fazia parecer uma bondosa senhora idosa.

— N-Nossa, você acha? — disse Lihaku.

— De qualquer forma, obrigado pela ajuda. Vamos contar com você caso precisemos de alguma assistência mais... física.

Seu pai entrou na sala, e Maomao o seguiu logo atrás dele.

 

Lá dentro eles encontraram um homem com a aparência típica de um funcionário civil. Devia ser o secretário que Lihaku mencionou. Quando os viu, ele se levantou da cadeira e fez uma reverência.

— Eles devem chegar em breve. Por favor, sentem-se.

— Muito obrigado — disse Luomen, acomodando-se. Havia uma mesa com uma folha de papel detalhando as funções dos três irmãos, bem como a identidade de todos os seus familiares. Estão tentando nos intimidar? O papel parecia transmitir uma mensagem clara: Estamos aqui porque o estrategista ordenou, mas vocês não têm autoridade para nos punir.

— Agora, como vamos lidar com isso? — refletiu Luomen.

Eles conversariam com cada um dos três irmãos individualmente, e o primeiro deles já havia chegado. Era hora de começar. Maomao mergulhou o pincel na tinta, pronta para registrar tudo o que pudesse.

○●○

— Claramente vocês cometeram algum engano, porque eu não fiz nada. Para começar, acho impensável colocar as mãos em uma garota de apenas quatorze anos. Que provas vocês têm contra mim?

— Hã? Onde eu estava cinco dias atrás? No centro da cidade, tomando uma bebida depois do trabalho. Qualquer um quer um gole quando finalmente termina o expediente, não é? Mas eu não queria gastar uma fortuna, então fui para o lado sul da cidade. Conheço um lugar que vende um bom vinho de uva por um preço baixo.

— Não, não fui ao distrito dos prazeres. Aquela parte da cidade não é lugar para beber, posso garantir isso. E você sempre corre o risco de acabar enfrentando acusações como esta. E depois se perguntam por que os homens dizem que as mulheres são assustadoras!

— Trovão? Ah, sim, aquele enorme estrondo. Claro que me lembro. Quem esqueceria um barulho daqueles? O raio deve ter caído muito perto da capital. Ouvi aquele estrondo tremendo quase no mesmo instante em que vi o clarão. Não tenho vergonha de admitir: levei um baita susto! A chuva só piorou depois disso, então fiquei na taverna até ela diminuir.

— Quer saber quando tudo isso aconteceu? Foi bem na hora em que o sino da tarde estava tocando. Primeiro vi o céu se iluminar, depois ouvi o sino, e não passou nem um instante antes do trovão soar.

— Então, como podem ver, sou completamente inocente. Podem perguntar ao dono da taverna, ele confirmará minha história. Foi um dos meus irmãos mais novos que fez isso. Façam com eles o que quiserem. Mas se tentarem atribuir esse crime a um de nós sem provas muito convincentes... bem, presumo que saibam o que acontecerá com vocês.

○●○

O irmão mais velho foi o primeiro a falar com eles. Era bonito, exatamente como Lihaku havia dito, mas sua palidez era preocupante e ele apresentava espasmos ocasionais. Seus punhos estavam cerrados e permaneceram assim durante todo o tempo em que o interrogaram.  Talvez estivesse sofrendo com uma ressaca de suas bebidas favoritas, ou talvez fossem os nervos cobrando seu preço. Ainda assim, respondeu às perguntas prontamente, embora em um tom que os desafiava a identificar o culpado.

Luomen soltou um pensativo: — Hmmm. — E acariciou o queixo. Maomao sabia que, mesmo que ela e o secretário não tivessem registrado uma única palavra, seu pai se lembraria de tudo. Ele era simplesmente tão talentoso assim.

O irmão mais velho saiu e, em seu lugar, entrou um homem exatamente igual a ele, mas com muito mais cor nas bochechas. Segundo os documentos, aquele era o irmão do meio. Que gentileza deles aparecerem do mais velho para o mais novo, numa ordem fácil de identificar.

○●○

— Que incômodo. Estou tentando fazer meu trabalho, sabem? E vocês me chamam para um interrogatório? Como pretendem compensar meu tempo quando perceberem que não fiz nada de errado?

— Bem, tanto faz. Como não fiz nada de errado, não me importo de falar com vocês e acabar logo com isso. Depois irei embora. Imagino que queiram saber onde eu estava e o que fiz cinco dias atrás. Por acaso, eu estava de folga naquele dia, então fiz um pequeno passeio a cavalo. Mas não fui muito longe. Tinha trabalho no dia seguinte e sabia que precisava voltar antes do anoitecer.

— Como é? Para onde fui? Não muito longe da capital. E voltei às pressas, porque o céu parecia prestes a desabar a qualquer momento. Eu estava cansado, então fui para casa e fui direto para a cama. Tenho certeza de que sabem qual é minha residência, não? Já que certamente sabem quem é meu pai. Embora, pensando bem, talvez não saibam. Caso contrário, jamais teriam me arrastado até aqui.

— Tenho alguém que possa confirmar meu álibi? Bem, há meus criados, mas imagino que vocês não acreditariam neles. Aposto que reclamariam e chorariam dizendo que ordenei que mentissem por mim. Infelizmente, é o que é. Meus aposentos ficam em um anexo, não na residência principal, então duvido que alguém sequer tenha percebido quando entrei ou saí.

— Querem saber onde eu estava quando o sino da tarde tocou? Ah, estão falando da hora daquele trovão. Acreditem, a tempestade que veio depois foi o toque final para um dia exaustivo. 

— Isso me assustou terrivelmente. O céu se iluminou exatamente quando o sino estava tocando, e então veio aquele estrondo horrível. Deve ter sido um grande susto para os tocadores do sino. Lá no alto, poderiam muito bem ter sido atingidos por um raio. Não foram, é claro... Uma pena. 

— Pronto. Estão satisfeitos? Vou voltar ao trabalho. Deve ter sido um dos meus irmãos: o mais velho ou o mais novo. Tenho certeza de que investigarão isso. Com muito cuidado, é claro. Não gostaríamos de cometer nenhum... erro.

○●○

O segundo irmão não era menos provocador que o primeiro. Ele manteve um sorriso debochado do começo ao fim. Maomao percebeu algumas bolhas na palma de sua mão, mas aquilo não era surpreendente. Como soldado, ele praticava esgrima e cavalgava. Algumas bolhas eram algo perfeitamente normal.

Maomao terminou de registrar seu depoimento, franzindo levemente a testa. Seu pai assentiu e fez um gesto circular com o dedo. Ambos queriam acabar logo com aquela farsa.

Então entrou o terceiro e mais novo dos irmãos. Como era de se esperar, parecia exatamente igual aos outros. Maomao já estava começando a se cansar daquele rosto, mas teria que suportar. Quanto à saúde do mais novo, ele parecia comum, nem doente nem especialmente exuberante.

○●○

— O quê? Eu sou o último? Queria que um dos meus irmãos tivesse confessado logo. Eu teria sido poupado de tudo isso. Bem, tanto faz. Podemos terminar isso rápido? Já encerrei meu expediente por hoje.

— Há cinco dias, eu estava trabalhando o dia inteiro. Sim, sim, já era hora de sair, mas eles me empurraram mais trabalho. Ugh. Vá ao arquivo! Traga este livro! Isso é trabalho de burocrata, se você quer saber. Maldito seja aquele estrategista maluco... Cof cof! Não, er, eu não disse nada. Absolutamente nada. Enfim, fui buscar os livros, mas acabei tendo uma conversa agradável com uma dama da corte com quem me deparei. Não, ela não tinha quatorze anos! O nome dela e o departamento? Ah... era... Sabe, acho que não me lembro. 

— Em qual arquivo eu estava? No depósito do distrito oeste. Soldados não costumam ir muito lá. Mas pelo menos ganhei uma nova amiga com essa pequena excursão. 

— De qualquer forma, quando percebi, já tinha passado da hora de voltar para casa. Sim, acho que estava nos arquivos quando o sino da tarde tocou. Estava escuro lá fora e havia uma chuva fraca. Não ouvi o sino, mas deve ter sido por volta daquela hora. Agora, o trovão? Ah, sim. Esse eu ouvi. Estava carregando um monte de documentos nos braços e o clarão me assustou tanto que deixei tudo cair no chão. Me abaixei para recolher os papéis, e então ouvi o som. Parecia que a terra inteira estava tremendo! Rapaz, aquilo foi enorme.

— Quanto tempo levou até eu finalmente me abaixar? Eu estava meio atordoado, mas não pode ter sido mais do que quatro ou cinco segundos.                                    

— Pronto, e aí? Estou louco para ir para casa, então, se me dão licença, já vou indo.

○●○

Maomao tinha esperado que pelo menos um dos irmãos fosse minimamente decente, mas não. Os três eram casos perdidos. Ela estava exausta, e tudo o que havia feito foi transcrever os interrogatórios. 

Luomen, porém, era o único dos três que parecia encontrar algum sentido naquilo tudo. Ele continuava assentindo como se as respostas fossem perfeitamente compreensíveis para ele. O secretário imediatamente começou a produzir uma cópia limpa de suas anotações. Maomao se inclinou para a frente e cochichou, tomando cuidado para não ser ouvida, e disse:

— Descobriu alguma coisa, pai?

— É. Acho que já temos a maior parte das peças de que precisamos — respondeu ele. Ele soava surpreendentemente despreocupado. Maomao olhou para ele, confusa. Gostava de acreditar que havia aprendido uma ou duas coisas com o pai, mas ainda existia muito que ela não compreendia, como o que se passava na cabeça do velho eunuco naquele momento. — Talvez possamos organizar nossos pensamentos quando voltarmos — disse ele. Então se levantou da cadeira, usando a bengala para se apoiar.

Do lado de fora, encontraram o guarda que deveria protegê-los.

— Então não precisaram do velho Lihaku, hein? — disse ele, embora parecesse um pouco desapontado. Maomao tinha certeza de que ele adoraria ter uma desculpa oficial para acertar pelo menos um daqueles três rostos irritantes.

Assim que retornaram ao consultório médico, o pai de Maomao pediu um mapa da capital e de seus arredores. Maomao estava se perguntando se precisaria ir aos arquivos buscá-lo quando o doutor Liu apareceu com uma cópia e poupou-lhe o trabalho. 

— Apenas mantenham isso limpo — advertiu ele.

Luomen, que tinha toda a intenção de rabiscar o mapa, escondeu discretamente o pincel. Ele olhou ao redor em busca de algo que pudesse usar no lugar e encontrou alguns pequenos enfeites de cerâmica de várias cores, normalmente utilizados para impedir que pacotes de remédios saíssem voando.

— O que estão fazendo? — perguntou Yao. Ela e En’en se aproximaram, claramente curiosas. O doutor Liu dificilmente poderia reclamar, ambas já tinham terminado o trabalho do dia. O que faziam em seu tempo livre era problema delas.

— Apenas tentando organizar as informações que temos — respondeu Luomen. — Vocês duas gostariam de ajudar?

Yao corou ao perceber que ele claramente esperava que respondessem sim; ela desviou o olhar, como quem dizia: Bem, suponho que não tenho escolha. Era muito típico dela não conseguir simplesmente dizer “sim”. En’en, por sua vez, parecia estar gravando a imagem de sua jovem senhora na própria retina. Sua intensidade chegava a ser um pouco assustadora.

[Kessel: Ponto para En’en! Ganhou o dia!]

— Para começar, este marcador vai aqui — disse Luomen, colocando uma peça de cerâmica vermelha no centro da capital.

— E isso representa o quê? — perguntou Maomao.

— Este é o local onde tocam o sino da tarde, certo? — respondeu Luomen.

— Sim, é ali. Ele fica numa posição de onde pode ser ouvido em qualquer parte da cidade — disse Yao. Ela sabia perfeitamente onde era, já que haviam passado bem ao lado do local naquele dia de tempestade.

Em seguida, Luomen colocou três marcadores azuis: um redondo, um triangular e um quadrado.

— O redondo representa o filho mais velho e o local onde ele afirmou estar no momento do incidente. O triângulo marca a residência onde o segundo filho disse que estava. E este quadrado eu coloquei nos arquivos do distrito oeste, onde o mais novo afirmou estar.

— Então nenhum dos três estava no mesmo lugar no dia do ataque — observou Yao.

— Exatamente. E este é o local onde a jovem diz que estava.

Luomen apontou novamente para o objeto vermelho, bem próximo ao distrito comercial.

— Mas isso... — disse Maomao.

Era bem perto de onde ela e suas amigas tinham estado.

Yao franziu a testa. — Se tivéssemos encontrado aquela pobre garota assustada, talvez nada disso tivesse acontecido. — Ela parecia abatida e então baixou os olhos. Naquele dia, elas mal conseguiam enxergar alguma coisa por causa da chuva. Além disso, estavam determinadas a terminar suas compras o mais rápido possível. Estavam ocupadas demais para prestar atenção em qualquer outra coisa.

— “Se” não significa nada diante daquilo que já aconteceu — disse o pai de Maomao, sem qualquer dureza na voz. — O máximo que podemos fazer agora é ajudar a garantir que isso não aconteça com mais ninguém.

— Os três suspeitos afirmam ter testemunhas que podem confirmar onde estavam, mas os três álibis parecem suspeitos. O senhor sabe qual deles está mentindo? — perguntou Maomao, tomando cuidado para falar educadamente na presença de Yao e En’en.

— Acredito que sim. Mas antes, acho que seria útil obter mais algumas informações. — Ele olhou para as três. — Vocês se lembram daquele trovão de cinco dias atrás?

— Eu lembro! Que estrondo foi aquele! — disse Yao.

— Nós estávamos do lado de fora quando aconteceu. Foi bastante surpreendente — acrescentou En’en.

— Vocês disseram que estavam perto da torre do sino, certo? — perguntou Luomen, tocando o objeto vermelho. — E, pelo que ouvi, o raio caiu perto da parte noroeste da cidade. — Ele colocou um objeto amarelo próximo às muralhas.

Maomao e as outras piscaram. Não conseguiam imaginar aonde ele queria chegar.

— Posso fazer mais uma pergunta? — disse Luomen.

— Por favor, faça.

— O que veio primeiro: o relâmpago e o trovão ou o sino da tarde?

Sua pergunta fez En’en bater as mãos. Ora essa. Aquilo foi inesperado.

— O céu se iluminou no mesmo instante em que o sino tocou, e depois veio o trovão — respondeu ela.

— Vejo que você se lembra muito bem — disse Luomen, em tom apreciativo. Maomao percebeu que a memória de En’en devia estar ligada à imagem de Yao em pânico. Aquela era a única explicação possível. Mas por que ele quer saber disso? Ela se perguntou. Ela observou o mapa, comparando as posições dos diferentes marcadores, e então arregalou os olhos. Voltou imediatamente às anotações que havia feito durante os interrogatórios, relendo o que os três homens tinham contado.

— O que foi, Maomao? — perguntou Yao.

— Leia isto. Isso lhe sugere alguma coisa? — ela perguntou, mostrando o depoimento, especialmente os trechos relacionados ao trovão.

— Humm... Sim. Tem alguma coisa estranha. — Ela analisou atentamente o depoimento do irmão mais velho. — A ordem está errada aqui. — Ele afirmava, em poucas palavras, que primeiro o céu se iluminou, depois o sino tocou e só então veio o trovão. — E aqui também! — disse ela ao ler o depoimento do segundo irmão. Nesse caso, ele afirmava que o clarão e o toque do sino teriam acontecido ao mesmo tempo, seguidos pelo estrondo do trovão. — Este último talvez esteja correto, mas não diz quando o sino tocou. — O irmão mais novo disse apenas que, quatro ou cinco segundos após o relâmpago, o trovão veio como um terremoto.

— Então isso significa que o irmão mais velho e o do meio estão mentindo? — perguntou Yao.

— Não necessariamente — respondeu Maomao. Ela pensou consigo mesma: Agora entendi do que se trata. Ela olhou para o pai, que observava as três com uma expressão gentil, esperando para ver se chegariam à resposta sozinhas.

Ela se lembrou do que Lihaku havia dito: que pelo menos dois dos irmãos provavelmente estariam dizendo a verdade. O cachorro grandão talvez não tivesse precisado entrar distribuindo socos, mas ainda assim lhes dera um conselho muito interessante. Se ele estivesse certo, os três homens não tentariam encobrir uns aos outros. Os irmãos que não haviam atacado a garota não mentiriam para Maomao e Luomen, desde que não acreditassem que isso lhes causaria problemas. E isso levava a uma única conclusão...

— Maomao, explique o que está acontecendo — disse En’en.

Maomao olhou para o pai. 

— Se de fato você já descobriu — respondeu ele com um sorriso.

Agora ela realmente queria acertar. Ela respirou fundo e organizou os pensamentos, tentando decidir qual seria a forma mais simples de começar. Depois de um instante, disse:

— Yao, En’en... vocês sabem como descobrir a que distância um raio caiu?

— Dá para saber pelo volume do trovão, não é? E pelo tempo que demora para ouvi-lo depois do clarão… — Yao era inteligente. Só precisava de um pequeno empurrão para enxergar a resposta. — Então você está dizendo que, quanto mais cedo ouviram o som, mais perto estavam do local onde o raio caiu!

Luomen assentiu. Yao franziu a testa enquanto comparava os depoimentos dos três homens.

— É difícil montar a sequência dos acontecimentos. Todos mencionam o trovão, mas não concordam sobre o sino.

Sua confusão era compreensível. Maomao disse: — Quanto mais distante você estiver do raio, mais tempo o som do trovão leva para chegar até você — explicou Maomao. — O som do sino não se comportaria da mesma forma? — Aquilo explicava por que os homens relataram os sons em ordens diferentes. E, ao comparar esses detalhes, apenas um dos depoimentos se destacava como claramente errado.

— É o irmão do meio, não é? Se ele realmente estivesse em casa quando o trovão aconteceu, como afirma, isso não faria sentido. — En’en usou os dedos para medir a distância entre os objetos amarelo, vermelho e azul no mapa. — Mesmo sem saber a distância exata, dá para perceber que, se ele estivesse em casa, não teria como ouvir o sino no mesmo instante em que viu o relâmpago.

A torre do sino ficava longe da casa onde o segundo irmão alegava estar. Em vez disso, ele ouviu os sons praticamente na mesma ordem que Maomao e as outras, o que significava que estava perto do mesmo local onde elas estavam.

— O irmão do meio devia estar por aqui — disse En’en, movendo o triângulo azul para perto do objeto vermelho. Em outras palavras, exatamente onde a jovem afirma ter sido abordada por um dos homens.

Maomao, Yao e En’en olharam para Luomen. Era para isso que todas aquelas perguntas serviam desde o começo? Quem imaginaria que seria possível determinar a localização de uma pessoa pelos sons que ela ouviu? Pensou Maomao, quase incapaz de acreditar.

— Muito bem. Agora temos os registros do secretário e nossas próprias conclusões. Acho que está na hora de apresentar tudo a Lakan — disse o pai de Maomao, erguendo-se lentamente do assento.

— Como uma pessoa tão extraordinária acabou se tornando um eunuco? — murmurou Yao.

Maomao, ajudando o velho a se apoiar por causa do joelho ruim, entendia perfeitamente o que ela sentia. Ele era médico, sim. Mas era alguém cujo valor merecia ser reconhecido muito mais do que era.

[Kessel: Grande Luomen! O nosso Sherlock!]


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