Volume 8
Capítulo 5: Cartas
— Se você tem um trunfo na manga para jogar — Maamei tinha dito a Jinshi, — é melhor usá-lo o quanto antes.
Impulsionado por aquela observação, Jinshi se viu diante do escritório de Lakan. Ele enviou um mensageiro no dia anterior para avisá-lo sobre o assunto, mas, para ser completamente honesto, ele não tinha certeza se o Grande Comandante estaria lá. Provavelmente não estaria, pensou ao entrar.
— Com licença — disse ele.
Para sua surpresa, o estrategista excêntrico estava lá, deitado em um sofá e bebendo de uma cabaça. À primeira vista, parecia completamente à vontade, mas um secretário colocava documentos sobre uma mesa, folha por folha, e entregava a Lakan um carimbo para que ele os marcasse.
— Ah, o estimado irmão mais novo de Sua Majestade. E como posso ajudá-lo? — Lakan perguntou em tom arrastado.
Jinshi não tinha certeza de como Lakan o reconheceu, talvez fosse por causa do mensageiro que ele tinha enviado. Maomao havia lhe dito que o estrategista era terrível para distinguir um rosto de outro.
Se Jinshi se comportasse da forma como o estrategista se comportava, tinha certeza de que Basen o repreenderia por isso. E ele desejava que Lakan parasse de usar bolinhos lunares como peso de papel. Eles deixavam pequenas manchas redondas de óleo nos documentos.
Basen não estava ali naquele momento; Jinshi tinha outro guarda-costas. Ele tinha quase certeza de que Basen jamais se daria bem com o estrategista, mas também foi avisado para não visitar Lakan completamente desprotegido.
Ele também tinha outra companhia: Maamei. Lakan lançou um olhar para cada um deles antes de voltar sua atenção para Jinshi. Estava abundantemente claro que ele não gostava do que, ou de quem, estava vendo.
— Por favor, sentem-se. Ninguém gosta de conversar em pé. Ora, nem mesmo alguns petiscos para os nossos convidados?
Ele estava sendo perfeitamente razoável, mas o suco que serviu para eles saiu da própria cabaça, a mesma da qual ele esteve bebendo até segundos antes. Será que ele não se lembrava de ter sofrido uma intoxicação alimentar por beber diretamente do recipiente? Seu assistente correu para buscar bebidas frescas.
O “Senhor Monóculo” fez um espetáculo ao alisar a barba desgrenhada.
— Então, o que o traz aqui hoje?
— Ouvi dizer que o senhor está planejando um evento bastante interessante, mas em um local menos que ideal. — Jinshi tirou o pedaço de papel que estava escondido entre as páginas do livro de Go e o colocou sobre a mesa. — Você obteve autorização oficial para usar uma das salas de palestras do palácio?
— Ah, isso. — Lakan desviou o olhar, e seu lábio inferior se projetou um pouco, quase como se estivesse emburrado. — Sou eu que sou o responsável por aqui. Se houvesse alguma objeção, eu esperaria ouvi-lá do Velho Lo. Certamente isso está fora da alçada do irmão mais novo do Imperador.
Isso não é da sua conta, então vai se ferrar, parecia ser a mensagem.
O sorriso de Jinshi não vacilou nem por um instante, mesmo sabendo que estava lidando com alguém que via rostos humanos como pedras de Go. Contra Lakan, ele era privado da única arma em seu arsenal na qual tinha confiança absoluta, mas o assistente do estrategista imediatamente corou e baixou os olhos.
— Eu não esperaria que alguém tão sério e trabalhador quanto você entendesse, mas desde que os enviados do oeste voltaram para casa, as pessoas estão famintas por entretenimento — disse Lakan.
— Famintas? Há mais mercadorias disponíveis para comércio do que nunca.
Tudo o que Jinshi ouviu indicava que as lojas estavam cheias de itens incomuns e os mercados fervilhavam de atividade.
— Ha ha. Talvez seja verdade, mas uma excelente refeição faz o comensal desejar o próximo grande prato, e acontecimentos tão memoráveis deixaram as pessoas buscando algo mais. Algo ainda melhor para agradar ao paladar ou para deslumbrar os olhos. É preciso dizer que produtos exóticos de terras estrangeiras servem de pouco quando não se tem dinheiro no bolso para comprá-los. E os impostos aumentaram ultimamente, pouco a pouco. É algo sutil, mas pelo que ouvi, as taxas estão se tornando pesadas nas aldeias agrícolas. E que leis estranhas são essas de que ouço falar? Incentivos para comer insetos? Eu mesmo não aprecio pratos de seis patas, mas talvez você aprecie, honrado irmão do Imperador?
Jinshi não disse nada.
— O Go é um prazer simples, algo de que se pode desfrutar apenas com algumas pedras. Não lhe parece a forma perfeita de dissipar o mal-estar que paira sobre o povo?
Lakan o atingia exatamente onde doía. Tendo experimentado pessoalmente os gafanhotos desnutridos, bem... se perguntassem a Jinshi se eram bons ou ruins, sua resposta definitivamente não seria a primeira opção. Da mesma forma, o aumento dos impostos servia como proteção contra a escassez de grãos. O aumento de impostos foi a única proposta dele que foi aprovada prontamente. Ele não sabia bem o que isso dizia sobre a situação.
A essa altura, Basen já teria partido para cima de Lakan. Jinshi fez bem em deixá-lo para trás. Ele respirou fundo e, ainda sorrindo, disse: — Acho que o senhor está sob algum mal-entendido, Senhor Lakan. — Ele deixou os dedos deslizarem pelo folheto, parando na palavra Local. — Não tenho objeção alguma ao torneio em si. Apenas ao local onde ele será realizado.
— Bem, o que você quer que eu faça? Onde devo realizá-lo? Sou um homem com poucos amigos. Não tenho as conexões necessárias para convencer os mercadores a concordarem comigo.
Jinshi sabia muito bem disso. Ainda assim, acreditava que Lakan talvez tivesse pelo menos um amigo capaz de ajudá-lo naquela situação, mas aquele não era o momento para tocar no assunto.
— Permita-me sugerir este local — disse ele, apresentando um pedaço de papel na qual estava escrito Teatro Argento. Era o mesmo lugar onde a Dama Branca exibiu seus milagres, mas permanecia fechado desde sua prisão. Tinha uma localização privilegiada ao longo de uma grande via, o lugar perfeito para uma competição como a de Lakan. Toda a questão envolvendo a Dama Branca foi deixada sob a responsabilidade de Jinshi, por motivos que ele não compreendia totalmente. Ainda assim, ele estava satisfeito por aquele trabalho fragmentado finalmente estar se mostrando útil de alguma forma.
O Teatro Argento era o “trunfo” sobre o qual Maamei o havia alertado com tanta perspicácia. O lugar não poderia permanecer fechado para sempre, ela havia dito, e, mesmo que alguém suspeitasse que o proprietário estivesse envolvido com a Dama Branca, na opinião dela ele já havia sido punido o suficiente.
Havia, é claro, funcionários civis que foram envenenados pela Dama Branca; o proprietário nunca se safaria simplesmente alegando que apenas havia dado a ela um local para se apresentar e que não sabia nada sobre o que sua atuação envolvia. Basen ficou furioso com a sugestão de Maamei, mas sua irmã respondeu:
— Existe mais na política do que simplesmente punir as pessoas. Vamos fazer com que ele entre no jogo, que faça tudo o que puder por nós. Se formos cuidadosos ao pressioná-lo, ele nos agradecerá e pedirá mais. Não é isso que um governante sábio faria? E, se houver algum problema, é o Grande Comandante Kan quem estará comandando tudo. Deve haver soldados de sobra para conter qualquer confusão.
O próprio Lakan era um enorme incômodo de se lidar, mas subordinados excelentes era algo que ele possuía em abundância. Haveria pessoas para ajudar no dia do evento. Muitos militares para controlar qualquer problema que surgisse.
Se Maamei fosse um homem, ela teria sido a assistente de Jinshi, e ele confiaria nela sem qualquer reserva. Ela era perspicaz e tinha estudado esgrima até se casar. Diferente dos irmãos, cada um inclinado um pouco demais para o intelecto ou para a força física, Maamei parecia capaz de fazer qualquer coisa.
[Kessel: Muito legal ver o Jinshi reconhecer isso tão abertamente/rapidamente. A Maamei realmente parece ser impressionante. Curioso para ver o que mais ela vai planejar daqui pra frente… A propósito, para quem não sabe, Argento é uma palavra romana que pode significar (entre outras coisas) prata. Portanto, seria o “Teatro Prateado”!]
Lakan franziu a testa, mas parecia intrigado com a sugestão de Jinshi.
— Teatro Argento? O que é isso? — perguntou ele.
A pergunta não foi dirigida a Jinshi, mas ao seu burocrata sempre solícito. Jinshi tinha a impressão de que o Argento era relativamente conhecido. Ficou surpreso por Lakan nunca ter ouvido falar dele.
— É um teatro na parte norte da capital, próximo à área residencial. No entanto, encontra-se atualmente fechado após uma série de apresentações realizadas por uma milagreira conhecida como Dama Branca — explicou o outro homem.
— A Dama Branca?
Jinshi sabia que Maomao não fazia esforço algum para se lembrar de coisas que não despertavam seu interesse, mas Lakan ultrapassava qualquer limite. Ele mal podia acreditar que o homem não se lembrasse de alguém que causou tanta comoção.
— É o lugar para onde Rikuson foi com o Mestre Lahan e a Senhorita Maomao — lembrou o assistente.
— Ah! Aquele lugar!
O estrategista saltou do sofá e bateu na mesa. Agora ele tremia de raiva ao se lembrar. Jinshi suspeitou que ele também queria ter ido até lá.
— Posso continuar? — perguntou Jinshi, cada vez mais irritado.
Lakan pareceu contrariado, mas voltou a se sentar.
— O Argento seria um local perfeito. Espaço mais do que suficiente. Muito mais adequado do que a sala de palestras, que só seria acessível às pessoas autorizadas a entrar no palácio.
— Você está dizendo que aprovaria o evento lá?
— Sim. Atualmente está fechado, mas posso providenciar sua reabertura. No entanto, vim pedir sua opinião. Em vez de simplesmente permitir que retomem suas atividades normais, não seria melhor realizarmos nós mesmos um evento lá, supervisionado por alguém capaz de manter tudo sob controle, se necessário?
Tudo o que Jinshi dizia era verdade, até certo ponto. E não além disso. Ele sentiu um fio de suor frio escorrer: Lakan talvez não fosse capaz de interpretar expressões faciais, mas tinha outras maneiras de perceber o que estava acontecendo. Outros talentos que compensavam sua incapacidade de distinguir rostos. Um deles era sua habilidade excepcional para detectar mentiras.
Naquele momento, Lakan encarava Jinshi como se tentasse arrancar camada por camada de suas palavras, de seus planos. Ele o olhou diretamente nos olhos e acariciou o queixo.
— E qual é o seu objetivo ao fazer essa sugestão tão generosa? — perguntou ele.
Jinshi reprimiu a vontade de engolir em seco. Respirou uma única vez para se recompor.
— O mesmo de sempre.
Por fim, Maamei deu um passo à frente. Ela colocou uma pilha de documentos sobre a mesa.
— Estamos devolvendo ao senhor assuntos que sempre deveriam ter estado em suas mãos, Senhor Lakan. Naturalmente, também devolvemos aos outros oficiais o trabalho que lhes pertencia.
— Acho que entendi.
Lakan olhou para a pilha com indisfarçável desgosto. Havia ali três vezes mais trabalho do que aquele que ele vinha realizando sem entusiasmo momentos antes. Maamei trouxe o máximo que conseguiu carregar, mas ainda havia mais no escritório de Jinshi.
A tendência de Jinshi ao trabalho duro o levava a tentar cuidar de toda a papelada que recebia, mas Basen, seu segundo em comando, não tinha talento para trabalho de escritório, e o burocrata apaixonado por Go, Sei, estava apenas emprestado de outro departamento e não se sentia em posição de opinar sobre assuntos tão elevados. Com a chegada de Baryou e Maamei, decidiu-se devolver o trabalho àqueles de quem ele havia vindo.
— Você não acha que eu simplesmente vou empurrar tudo isso de volta para você, honrado irmão mais novo do Imperador?
— Ah, não há trabalho suficiente aí para justificar esse esforço. O senhor poderia resolver tudo enquanto segura um lanche em uma mão e boceja o tempo todo, e ainda assim terminaria antes do fim da tarde.
O assistente de Lakan parecia abertamente aterrorizado, as palavras de Jinshi eram nada menos que uma provocação, mas Jinshi não via vantagem alguma em se conter naquele momento. Estava confiante de que Lakan faria o que ele queria, mesmo que isso lhe ferisse um pouco o orgulho.
— O senhor precisa do Teatro Argento, e precisa que a rua ao redor seja fechada por um dia inteiro. Quem mais pode fazer isso pelo senhor além de mim? — perguntou Jinshi.
Lakan olhou para seu assistente.
— Se mudarmos o local para o teatro, o que acontece?
— Espera-se que o número de participantes aumente drasticamente, senhor. Veríamos muito mais plebeus e crianças. Em quantidade suficiente para que eu duvide que nosso plano de realizar tudo em um único dia seja viável. — Era uma pena para ele; certamente esperariam que ele ajudasse, fora do horário normal de trabalho. — Teremos de consultar o Mestre Lahan para ter certeza, mas acredito que precisaríamos de pelo menos três dias, incluindo o tempo necessário para preparar o local. Além disso, como não sabemos quantas pessoas a mais podem aparecer, talvez acabemos com falta de tabuleiros de Go. Teríamos de conseguir mais, ou então reconsiderar a possibilidade de limitar o número de participantes.
O medo do assistente parecia estar dando lugar à tagarelice.
— Sem limites. A ideia toda é que o maior número possível de pessoas jogue Go — disse Lakan. Isso pegou Jinshi de surpresa. Ele sempre presumiu que o estrategista só pensava em si mesmo.
Por outro lado, quando conversou com Lahan antes daquela reunião, o outro homem tinha dito: — Meu honrado pai está agindo de forma diferente desta vez. Aquele livro de Go é sua homenagem à minha querida falecida mãe.
Até mesmo a ideia de organizar um torneio como aquele era fora do comum para Lakan, mas ele tinha um motivo. Ele havia comprado a liberdade da antiga cortesã que era a mãe de Maomao, mas ela morreu pouco mais de um ano depois. Lakan criou seu livro para homenagear uma mulher que foi uma mestra do Go, preservando o registro de suas partidas, e aquele torneio era uma extensão desse sentimento. Aquilo não era mais uma de suas excentricidades habituais.
[Kessel: Quero comentar algo sobre isso, mas é meio grande. Vou deixar no fim do capítulo!]
Enquanto Jinshi estava perdido em pensamentos, o assistente de Lakan havia elaborado um cronograma simples. — Se dissermos que a entrada custará metade do preço para quem se inscrever antecipadamente, conseguiremos medir o nível de interesse. Uma taxa de entrada de cinco moedas de cobre permitiria que até mesmo as pessoas de renda mais baixa participassem, caso desejassem. Também estamos considerando oferecer prêmios em dinheiro aos melhores colocados. — (Jinshi sabia que uma moeda de cobre podia comprar um pão cozido no vapor; Maomao lhe contou isso certa vez.) Agora em seu elemento, o assistente não demonstrava mais nenhuma das hesitações anteriores. Aquele homem não possuía as peculiaridades evidentes que caracterizavam o antigo assistente de Lakan, Rikuson, mas parecia que também não era alguém comum.
Lakan cruzou os braços e encarou a montanha de documentos. Ele ainda parecia descontente com aquilo. Talvez precisasse de mais um empurrão.
— Há mais uma coisa — disse Maamei e então apresentou, entre todas as coisas, uma lista de nomes. Parecia ser uma relação da equipe médica.
— Um evento desse porte traz consigo a possibilidade de problemas inesperados. Além da segurança, acho que deveríamos ter algumas pessoas com conhecimentos de medicina presentes.
Estritamente falando, aquilo estava muito além do que cabia a uma dama da corte sugerir, mas Jinshi teve vontade de erguer os polegares e exclamar um sonoro “Muito bem!”. Se o próprio Jinshi tivesse tentado levantar o assunto, talvez só piorasse as coisas, mas agora os olhos de Lakan brilhavam. A lista incluía os nomes de duas das pessoas que ele mais amava no mundo: sua filha e seu tio.
— S-Se você insiste, então... suponho que não tenho escolha — disse Lakan.
Foi tudo o que Jinshi conseguiu fazer para não abrir um sorriso de satisfação. Ele finalmente arrancou uma concessão de um adversário que parecia sempre levar vantagem sobre ele. Era apenas um pequeno passo, na verdade algo trivial, mas para Jinshi parecia um salto gigantesco.
Ele ainda saboreava aquela sensação de triunfo quando Maamei o cutucou e lhe lançou um olhar que dizia claramente: não baixe a guarda ainda.
— Se pudesse ter a gentileza de redigir os detalhes e enviá-los para mim, então — disse Jinshi.
— Hum — resmungou Lakan, aparentemente aceitando o acordo de má vontade. Ele acenou com sua cabaça vazia para o assistente, exigindo mais bebida; para surpresa de Jinshi, o homem rapidamente trouxe outra cabaça e a entregou ao estrategista. Lakan tomou um gole… e cuspiu na hora.
— Mestre Lakan? — disse o assistente.
— Mas que diabos é isso?!
— Er... é... hum... deveria ser suco, senhor — respondeu o assistente, verificando o conteúdo da cabaça com uma expressão preocupada.
— Bem, há algo de errado com isso. Você não pegou do lugar de sempre, pegou? — Lakan estava visivelmente irritado.
— D-Desculpe, senhor! Parece ser licor de frutas… — O assistente saiu correndo para buscar água.
— Vou me retirar — disse Jinshi, ansioso para sair antes que não conseguisse mais manter uma expressão séria. Ao sair, percebeu que o próximo visitante de Lakan já estava esperando.
— Ah! Oh, ahn... ah. Príncipe da Lua… — Um jovem funcionário civil carregando uma braçada de tábuas de escrita de madeira curvou a cabeça ao ver Jinshi. Certos departamentos preferiam as tábuas de madeira ao papel, e aqueles particularmente obcecados por etiqueta e formalidades pareciam gostar delas mais do que ninguém. Jinshi se perguntou de qual repartição aquele jovem vinha.
— Deixe-me ver isso. — Lakan se levantou do sofá e arrancou as tábuas das mãos do oficial. Em seguida, dirigiu-se a uma grande mesa no canto do escritório, sobre a qual havia um mapa com peças dispostas sobre ele. Enquanto lia as tábuas, movia as peças pelo mapa. — Vamos fazer assim, então.
— S-Sim, senhor — respondeu o jovem oficial, registrando cada movimento. Jinshi lançou um último olhar para ele ao deixar a sala. Toda a corte conhecia Lakan como o estrategista excêntrico e, embora a ênfase normalmente recaísse sobre o “excêntrico”, não se podia esquecer que ele também era um estrategista. E, à medida que movia aquelas peças sobre o mapa, os soldados marchavam, centenas, milhares, até mesmo às dezenas de milhares.
Lakan não era como Jinshi, que recebeu um cargo civil adequado ao irmão mais novo do Imperador, mas vazio de responsabilidades reais. Jinshi só pôde suspirar diante de sua própria mediocridade, e se perguntar como uma pessoa comum como ele conseguiria superar um gênio como aquele.
[Kessel: Ih, Jinshi. Que finalzinho de capítulo mais autodepreciativo, em?]
Kessel: Sobre o comentário que eu fiquei de fazer no meio do capítulo...
Eu sei que para a maioria dos leitores esse assunto já havia sido encerrado no Volume 6, quando descobrimos que a Fengxian morreu (caso não se recordem, foi no capítulo 6 quando vimos pela primeira vez o Lakan completamente abatido e em profunda depressão). Dito isso, não sei explicar o real motivo, mas eu tinha uma sensação de que a história estava mal contada. Como se eu imaginasse que foi um surto do Lakan, sabe? Mas agora lendo pela perspectiva do Jinshi, acho que li o suficiente para deixar esses sentimentos de lado. Caramba, ela morreu mesmo.
Não que a mãe da Maomao tenha sido muito importante em sua vida (sendo ela criada pelo tio-avô e pela madame, basicamente) mas ainda sim. Bom, sei lá. Talvez eu esteja projetando. Não lembro da Maomao ter se abalado com isso na época (ela apenas curvou sua cabeça em respeito, como podemos ver aqui no trecho do Capítulo 6 do Volume 6: “Normalmente, Maomao o ignoraria, mas agora, surpreendentemente, ela abaixou a cabeça com respeito na direção do cabelo. Não, ela não tinha nada a dizer, mas podia ao menos fazer aquilo.”)
Ainda que se pararmos para analisar detalhadamente, foi a única vez que ela se dispôs a fazer algo pelo seu pai, afinal concordou em ir vê-lo e até “jogou” Go com ele para tirá-lo da depressão profunda em que ele estava, e ainda que possamos ver que isso não significou necessariamente um perdão da parte dela, definitivamente é um primeiro passo em direção a esse perdão e uma possível melhora na relação com ele. (Por favor, queremos tanto isso Maomao…)
Pelo menos ela não guarda rancor da mãe, por tudo que aconteceu com ela. Mesmo com todas as circunstâncias pesadas e negativas que cercam essa breve relação delas… a Fengxian foi uma péssima mãe. Horrível, uma das piores possíveis. E ainda sim a Maomao encontrou alguma forma de lidar com isso. Ou talvez ela esteja acumulando sentimentos ruins e culpando o pai pelo destino da mãe (e por consequência os abusos que sofreu enquanto criança)...
“Desabafei” meus pensamentos aqui sobre essa situação. Vamos continuar lendo para descobrir de fato como a Maomao lidará com isso tudo.
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