Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 8

Capítulo 8: Assédio

Era uma fresca manhã de outono, e Maomao estava prestes a seguir para o consultório médico para trabalhar quando foi interrompida por uma entrega. Ela teria ficado perfeitamente feliz com um presente, mas não era isso que aquilo era. Pelo menos, não era o tipo de presente que ela queria.

— Alguém está te assediando? Você sabe que pode me contar, não sabe? — disse Yao, lançando-lhe um raro olhar de pena. O olhar, porém, vinha de uma distância segura, Yao havia recuado, franzindo intensamente a testa.

— Não exatamente, não... — respondeu Maomao, mas não podia culpar Yao por pensar isso, pois dentro do cesto que ela havia recebido havia algo marrom: uma pilha de insetos mortos.

Gafanhotos, mais especificamente.

Normalmente, reunir tantos deles seria uma tarefa difícil, mas ali estavam eles, o que significava que vinham de algum lugar onde coletá-los não era tão complicado.

— Deixei isso aí porque veio dos superiores, mas ficaria muito feliz se você tirasse essa porcaria daqui — disse o doutor Liu, completamente indiferente. Ele era mais velho, o homem de mais alta posição no consultório médico, o que significava que havia pouquíssimas pessoas diante das quais ele sentia necessidade de ser deferente.

E levar para onde? Maomao pensou. Ela não queria um cesto cheio de insetos mortos em seu quarto. Ela tinha uma boa ideia de quem o havia enviado, mas isso apenas a deixava ainda mais confusa sobre o que fazer.

O Dr. Liu parecia perceber que ela estava entre a cruz e a espada. Ele acenou para que ela se aproximasse. — Use a sala vazia do prédio ao lado — disse ele. — Normalmente eu não teria autoridade para cedê-la a você, mas... hum... apenas reúna algumas pessoas sem nada para fazer e faça o que precisa fazer. Rápido. — Ele parecia considerar que o assunto era mais importante do que as tarefas do consultório médico. Muito bem, então...

— Diz aí, hum, o que foi tudo isso? — perguntou Yao, puxando a manga de Maomao. Seus belos traços estavam marcados por uma expressão de aflição.

Maomao sorriu e decidiu recrutar a encolhida Yao para ajudá-la com os insetos. 

 

Yao colocou mais um inseto na balança, com o rosto pálido como o de um cadáver. En’en a observava com as bochechas coradas. Já Maomao permaneceu em silêncio enquanto media as patas e as asas dos gafanhotos.

— Hã... q-quantos m-mais... insetos... você precisa? — perguntou Yao, pegando um gafanhoto com os hashis e demonstrando uma boa dose de repulsa. Ela definitivamente não gostava de insetos. Já haviam colocado dez deles na balança, um por um; depois tirariam a média do peso deles.

— Acho que não precisamos pesar todos eles — disse Maomao. — Mas, certamente, quanto mais, melhor. — Enquanto fazia as medições, ela colocava em uma pilha separada quaisquer espécimes com coloração incomum.

— Se achar que não aguenta mais, minha senhora, eu assumo por você — ofereceu En’en. 

Mas Yao disse: — N-Não, eu consigo. F-f-faz parte do trabalho… — A pergunta só a deixava ainda mais determinada a não ficar em segundo lugar, exatamente como En’en sabia que aconteceria. Era por isso que ela havia dito aquilo.

— Jovem senhorita... — disse En’en; o rubor em seu rosto ficava cada vez mais intenso, seu coração batia mais forte, e arrepios percorriam sua pele enquanto observava Yao lidando com os insetos.

Doentio, doentio, doentio, pensou Maomao, lançando às duas um olhar meio carrancudo. Mas ela não parou de trabalhar.

(O cadáver do gafanhoto veio censurado mesmo, não foi a gente! PS: A En'en tá muito fofa nessa arte!!!)

Elas haviam passado por cerca de um terço da pilha quando um visitante chegou, um homem baixo, de óculos redondos, cabelos despenteados e, naquele dia, um sorriso no rosto. — Ora, olá. — E nem precisava dizer, que era Lahan. Maomao não parou de trabalhar, mas agora parecia irritada. Lahan não demonstrou qualquer preocupação enquanto examinava seus números. — Hum. Maomao, será que você poderia ser tão gentil a ponto de explicar este valor aqui para o seu irmão mais velho? Ela o ignorou deliberadamente, então ele se inclinou e sussurrou em seu ouvido: — Eu trouxe sua recompensa da última vez. Aquela que mencionei. Acho que talvez você tenha esquecido.

Os olhos de Maomao se voltaram para Yao e En'en. Yao aparentemente não tinha percebido nada: En'en tinha percebido, mas fingia que não. Lahan estava se referindo à investigação de Maomao sobre a sacerdotisa shaoh, algo que ela havia feito sem o conhecimento das outras duas mulheres. Ela presumiu que o assunto tivesse sido engolido pela confusão em torno da tentativa de envenenamento da sacerdotisa, mas parecia que Lahan se lembrava.

Maomao finalmente interrompeu o trabalho.

— Já analisamos cerca de trezentos deles. Medi o comprimento das patas e das asas e registrei a cor e o peso, além da quantidade de ovos que as fêmeas carregam. Acho que esses gafanhotos vieram voando de bem longe.

Lahan emitiu alguns sons de compreensão enquanto folheava as anotações. O que ele estava pensando? Para uma pessoa comum, aquela coleção de medidas talvez parecesse sem sentido, mas para aquele homem não havia nada mais interessante do que números.

Yao continuava claramente perturbada com toda a situação, mas finalmente percebeu a presença de Lahan e fez o possível para cumprimentá-lo apesar do cansaço. Maomao, pensando que talvez fosse uma boa hora para uma breve pausa, estava prestes a preparar chá, mas então percebeu que talvez fosse cruel oferecer algo para Yao beber naquele momento específico.

— Aqui está. — En'en colocou uma xícara de chá diante de Lahan, e apenas de Lahan. Ele tomou um gole, tão absorvido pelos números que a montanha de gafanhotos mortos sequer o incomodava.

— Maomao, o que representam estes valores aqui? — perguntou ele, apontando para um grupo separado dos demais.

— São os dados dos gafanhotos locais. Eles são verdes em vez de marrons. Separei-os dos que vieram de outras regiões com base na cor, na forma e no peso.

Durante uma infestação de gafanhotos, os próprios insetos podiam sofrer mudanças fisiológicas. Os que haviam desenvolvido asas curtas eram os que tinham voado de longe.

— Entendo. E até onde você acha que eles conseguiriam voar?

Maomao não respondeu. Ela não era especialista naquilo. Foi então que Yao entrou na conversa, embora parecesse tão confusa quanto Maomao.

— Não consigo imaginar que seja muito longe — disse ela. — Alguns li (1 li = 0,5km) no máximo. Quero dizer, são apenas insetos.

Lahan assentiu. — Curiosamente, não houve outros danos causados por insetos nas proximidades da aldeia onde o enxame apareceu. Mas, para haver tantos deles, devem ter conseguido alimento em algum lugar. — Mas, evidentemente, não nos arredores. Ele tirou um mapa das dobras de seu manto, uma ilustração que abrangia todo o país. — Você sugeriu que eles só conseguiriam voar alguns li, certo?

— Sim. E acho que fui generosa — respondeu Yao.

— No entanto… — disse Lahan e retirou um pedaço de barbante e o colocou sobre o mapa. Evidentemente não queria escrever diretamente nele e usava o barbante em seu lugar. Ele o posicionou na diagonal, do noroeste até a localização da aldeia afetada. — Esta é a direção do vento sazonal — disse ele.

— Você acha que eles vieram carregados pela brisa — disse Maomao.

— Exatamente. Nesse caso, provavelmente conseguiriam percorrer dezenas de li. — Em seguida, colocou várias pedras brancas de go sobre o mapa.

— E para que servem as pedras? — perguntou Maomao, apontando para elas.

— Representam áreas onde houve danos causados por insetos. Acho razoável supor que esta região seja apenas a vítima mais recente do enxame enquanto ele avança a partir do noroeste.

— Essa é a direção de Hokuaren — disse Yao. 

Maomao não falou nada; sentiu uma desagradável gota de suor escorrer por sua nuca. Yao apenas havia declarado um fato. Não tinha percebido as implicações. Lahan estava falando de algo maior. En'en parecia compreender, mas escolheu permanecer em silêncio. Ela apenas observava sua senhora com carinho.

Lahan reuniu as folhas contendo os números de Maomao.

— Acho que já temos dados suficientes. Outra pessoa deve conseguir continuar o trabalho daqui em diante, certo?

— Eu preferia que tivesse deixado outra pessoa cuidar disso desde o começo — resmungou Maomao.

Lahan ergueu um dedo em repreensão. — Não fui eu quem ordenou esta investigação dos gafanhotos. Só me pediram para verificar se os números estavam corretos. Posso não parecer, mas sou um homem muito ocupado. — Ele tentou soar indignado, mas era difícil levá-lo a sério enquanto mexia nas pedras de go durante a conversa. Quanto ao que o mantinha tão ocupado, as pedras em sua mão contavam a história: ele estava envolvido em um trabalho paralelo. — Se os números não forem precisos, aquilo que deveria ser visto acaba obscurecido. Precisávamos garantir que começássemos com medições confiáveis.

Maomao entendeu o que ele queria dizer. Provavelmente ele já possuía números perfeitamente adequados. Quando Lahan se preparou para partir, porém, ela agarrou sua manga.

— Não está esquecendo alguma coisa?

— Ah! Sim, claro. — Lahan tirou teatralmente um embrulho, dentro do qual havia uma raiz. Maomao não conseguiu evitar; sentiu sua respiração ficar quente ao sair pelas narinas. — Então vou me retirar — disse Lahan. Maomao já tinha conseguido o que queria. Não tinha mais nada para tratar com ele.

— O que é isso? Ginseng? — perguntou Yao, espiando o conteúdo.

En'en parecia conhecer o segredo da raiz. — Sim, é, mas...

Quanto a Maomao, tudo o que conseguia fazer era encarar intensamente seu prêmio.  Ela não conseguiria desviar o olhar, mesmo que quisesse. Era irresistível para ela, lindo. Ela começou a rir:

— Hee hee hee hee hee!

— Ah... Você está bem? — perguntou Yao.

— Haaah hee hee hee hee hee hee hee! — Essa foi sua única resposta.

— En'en, acho que tem alguma coisa errada com a Maomao...

— Só percebeu isso agora, minha senhora?

Para Maomao, elas podiam muito bem nem estar conversando. Naquele momento, todo o resto parecia trivial comparado ao seu ginseng.

— Hee hee hee hee hee hee hee hee hee hee!

— Tem alguma coisa acontecendo aqui, eu sei! Aquilo que ele deu para ela é algum tipo de droga terrível, não é?

— Está tudo bem, jovem senhorita. Sim, é um medicamento, mas não há nada de terrível nele.

Maomao ergueu o ginseng triunfantemente e girou sobre si mesma.

— Ginseng!

Ginseng, de fato. Mas não era um ginseng qualquer. Era ginseng medicinal. Ninguém jamais conseguiu domesticá-lo; a única opção era procurá-lo na natureza. Às vezes recebia o nome de bangchui; quando fervido sem retirar a casca, transformava-se no chamado "ginseng vermelho". Um exemplar tão grande era um presente extremamente valioso.

Pela primeira vez em muito tempo, Maomao fez sua dança da felicidade em uma sala cheia de insetos mortos, enquanto Yao (cada vez mais preocupada) e En'en (completamente tranquila) observavam a cena.

[Kessel: Doentio, doentio, doentio...]


Entre em nosso servidor no Discord para conversar sobre essa obra, além de conhecer os nossos outros trabalhos: Servidor da Scan Moonlight Valley

Ainda não leu o Mangá Spinoff da Xiaolan, a nossa querídissima melhor amiga da Maomao? Clica aqui e confira: Memórias da Xiaolan

Quer ler algo parecido? Existe uma novel inspirada em Diários de uma Apotecária, com diversos elementos parecidos, confira aqui: O Corvo do Palácio Interno

Atenciosamente,
Scan Moonlight Valley

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora