Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 8

Capítulo 1: O Livro de Go

O vento ficava mais frio a cada dia. Maomao começou a dormir debaixo de um cobertor extra.

Mas naquele momento ela não estava dormindo. Estava parada, boquiaberta, encarando uma verdadeira montanha de livros empilhados na entrada do dormitório, todos marcados com a inscrição: para Maomao.

— O que é isso? Quer dizer, são livros, obviamente — disse Yao ao sair do quarto. Felizmente, ela conseguiu se recuperar do episódio de envenenamento. Levou algum tempo até voltar à ativa, mas em poucos dias estaria de volta ao trabalho.

Ela foi até Maomao e parou ao seu lado. Seu belo rosto agora estava marcado pela icterícia. O veneno tinha comprometido gravemente seu fígado e seus rins; ela teria de evitar álcool e sal, provavelmente pelo resto da vida. E elas também precisariam encontrar alimentos que ajudassem a melhorar sua pele.

[Noelle: A icterícia (popularmente chamada de amarelão) é o acúmulo de bilirrubina no sangue, que causa coloração amarelada na pele, mucosas e na parte branca dos olhos. É um sinal de que algo está afetando o fígado ou o sistema biliar.]

— São todos o mesmo livro — observou En’en. Como era de se esperar, ela estava presente sempre que Yao aparecia. Ela carregava uma sacola com ingredientes para o jantar e vinha reunindo com afinco remédios e alimentos que ajudariam a aliviar a icterícia de Yao. Isso poupava Maomao do trabalho. — Parece ser sobre Go. Diz que foi escrito por Kan Lakan.

Isso foi obra do estrategista excêntrico. Maomao sabia que se envolver com pessoas problemáticas só trazia problemas, mas saber disso e conseguir evitá-los eram coisas diferentes.

— Eu disse a ele que não queríamos isso ocupando espaço aqui, mas ele não aceitou um não como resposta. Ele também me deixou uma carta para você — disse a mulher de meia-idade que administrava o dormitório.

Ela entregou a carta a Maomao. O texto estava repleto de expressões rebuscadas e indiretas, escrito numa caligrafia belíssima, mas, traduzido para uma linguagem simples, dizia: Fiz várias cópias deste livro sobre Go. Você também pode ficar com algumas. Era óbvio que ele tinha obrigado algum subordinado a escrevê-la por ele. Coitado do sujeito.

— E o que deveríamos fazer com tudo isso? — perguntou Yao. A pilha de livros era alta o bastante para ela se apoiar nela. Livros eram objetos valiosos, um único exemplar podia custar o equivalente a um mês inteiro de refeições. E ali havia uma pilha inteira deles. Eram livros impressos, portanto mais baratos que manuscritos copiados à mão, mas ainda assim produzir tantos exemplares não era tarefa simples. Maomao conseguia imaginar Lahan, o filho adotivo do estrategista, hiperventilando ao pensar na quantidade de dinheiro envolvida. Bem, não era problema dela.

— Vamos queimá-los — disse Maomao, sem emoção. Mas logo mudou de ideia. — Não... Isso não seria legal. — A culpa não era dos livros por terem sido escritos por aquele autor específico.

Ela abriu um dos exemplares e começou a folheá-lo, descobrindo que era surpreendentemente bem-feito. Continha registros de partidas, diagramas de jogos de Go e explicações sobre os pontos mais importantes de cada situação no tabuleiro. Provavelmente seria complicado demais para iniciantes, mas parecia algo que jogadores experientes apreciariam. Havia até uma ilustração de gatos tricolores jogando Go juntos, mas Maomao decidiu ignorá-la.

En’en espiava o livro com evidente interesse.

— Quer dar uma olhada? — perguntou Maomao.

— Claro!

Maomao lhe entregou um exemplar, e ela começou a folheá-lo com os olhos brilhando. Quem diria que ela tinha interesses além de Yao? Maomao refletiu (que também escolhe umas coisas estranhas para se impressionar).

— Parece interessante? — perguntou ela.

— Sim, parece! Dá para ver que é obra do nosso honrado estrategista. É muito bem-feito. A primeira metade consiste principalmente em partidas que dependem bastante de joseki, enquanto a segunda exibe estilos de jogo menos convencionais.

[Kessel: Joseki refere-se a sequências de movimentos estudadas e padronizadas nos cantos do tabuleiro, tais como as aberturas clássicas de xadrez que são comumente usadas pelos jogadores mais experientes.]

As "irmãs mais velhas" de Maomao haviam lhe ensinado o básico de Go e Shogi, mas ela ainda não entendia muito bem do que En’en estava falando.

Em vez disso, ela perguntou:

— Quer ficar com um?

— Se você está oferecendo, então sim. Mas, se estiver tentando me vender, eu pagaria até uma moeda de prata. Não apenas o conteúdo é excelente, como o papel e a qualidade da impressão também são belíssimos.

— Uma moeda de prata?

Maomao olhou para a montanha de livros. Não fazia ideia de que valiam tanto.

— Só uma? Você acha mesmo que ela deveria vendê-los tão barato? — perguntou Yao, examinando a encadernação dos livros.

Por vir de uma família rica, sua noção do que era "barato" destoava um pouco da maioria das pessoas. Uma moeda de prata poderia facilmente pagar duas semanas de refeições.

— Admito que ela provavelmente conseguiria mais — respondeu En’en. — Eu estava esperando um desconto entre amigas.

Não um desconto por coleguismo. Um desconto entre amigas. Então agora somos amigas? Se En’en considerava Maomao uma amiga, seria rude não retribuir o sentimento. Portanto, En’en era uma amiga. Maomao sentia que podia confiar na avaliação que En’en fazia do valor dos livros (ao contrário da de Yao, cuja percepção financeira era um tanto deslocada da realidade). Se En’en dizia que valem uma moeda de prata, então provavelmente valiam mesmo. Por outro lado, tudo indicava que entrariam em produção em massa. Talvez fosse melhor vendê-los por um pouco menos.

— Você e Maomao são amigas, En’en? — Yao encarou as duas fixamente. — Então o que isso faz de mim?

— A senhorita é minha preciosa e insubstituível jovem senhora! — declarou En’en, batendo no peito e abrindo um largo sorriso.

Acho que não era isso que ela queria ouvir, pensou Maomao. A expressão da "jovem senhora" azedou na mesma hora. Ela se sentou numa cadeira perto da entrada, cruzou as pernas e ficou emburrada.

— Hã? — disse En’en, surpresa.

— Você pode ficar com o livro, En’en. Mas, se conhecer alguém que goste de Go, pode espalhar a notícia?

— Está procurando jogadores de Go? Sim, conheço alguns. Os médicos gostam de passar os dias de folga jogando.

Ah, essa informação é útil. Um sorriso começou a surgir no rosto de Maomao enquanto ela olhava para os livros. Com um pouco de dinheiro no bolso, posso comprar alguns remédios valiosos. Uma grande variedade de produtos vindos do oeste havia chegado à capital junto com a sacerdotisa de Shaoh. Os itens mais exóticos seriam rapidamente adquiridos pelos moradores mais ricos da cidade, mas, em pouco tempo, o restante acabaria chegando aos mercados. Mesmo ali, produtos importados não seriam baratos, mas, bem, é para isso que serve o dinheiro.

— Você acha que poderia me dizer quem são esses jogadores de Go? — perguntou Maomao.

Como resposta, En’en tirou uma moeda de prata da bolsa.

— Aqui — disse ela. — O pagamento.

— Eu disse que daria o livro para você.

— Não me importo de pagar por ele. Mas, em troca… — En’en lançou um olhar significativo para a pilha de livros. — Quero participar do negócio. —  Ela apontou para a moeda.

Eu sabia que ela era esperta. Maomao lhe lançou um olhar que dizia claramente que tinha entendido. Foi nesse momento que ouviram um barulho atrás delas. Yao estava batendo os pés no chão. Bater os pés não era um comportamento apropriado para uma jovem refinada, mas Yao estava se esforçando especialmente para chamar atenção.

— J-Jovem senhora, não faça isso! — disse En’en imediatamente.

Era exatamente a reação que Yao estava procurando.

— En’en! O jantar ainda não está pronto?

Ela lançou um olhar carrancudo para as duas.

— Ah! Desculpe! Vou preparar alguma coisa agora mesmo! — disse En’en correndo para a cozinha. Maomao observou Yao e pensou em como ela era adorável. Ela deixou a mão roçar os livros. Decidiu colocá-los no quarto por enquanto. O espaço ficaria apertado por um tempo.

— Maomao — chamou Yao.

— Sim? — Maomao se virou, já com alguns livros nos braços.

— Você está livre amanhã?

— Suponho que sim, de certa forma. Mas, por outro lado, também tenho trabalho amanhã.

As três Maomao, Yao e En’en  estariam de folga no dia seguinte. Maomao podia fazer o que quisesse: dar uma passada na farmácia do distrito dos prazeres ou passear pela cidade para ver se alguém tinha recebido medicamentos interessantes.

— Tem que ser uma coisa ou outra! — reclamou Yao.

— Então estou ocupada. — disse Maomao.

— Você está livre! Eu sei que está! — Yao segurou Maomao pelos ombros e a sacudiu. A jovem senhora podia ser incrivelmente teimosa.

Maomao assentiu. — Tem alguma coisa que você queira fazer amanhã?

Em resposta, Yao levou a mão ao rosto e tocou uma das manchas causadas pela icterícia.

— Eu gostaria de sair para comprar remédios. Achei que você entendesse mais disso do que En’en.

Entendi. Yao tinha quinze anos, uma idade em que muitas jovens se preocupavam com a aparência.

— Talvez você também queira comprar maquiagem enquanto estivermos lá.

Maomao conhecia uma loja que atendia as cortesãs mais renomadas. Quando algum cliente imprestável as agredia, era para lá que elas iam. A loja sabia como esconder até os hematomas mais feios. Ela tinha certeza de que Yao gostaria de voltar ao trabalho com sua melhor aparência.

— Maquiagem? — Yao observou Maomao atentamente. Ela estava examinando a região ao redor do nariz dela. — Afinal, por que você desenha sardas no rosto? — Como elas moravam juntas no dormitório, Yao já havia percebido há muito tempo que as sardas de Maomao eram falsas.

— Ah, sabe como é... — respondeu Maomao. Ela já tinha decidido parar uma vez, mas Jinshi ordenou que continuasse fazendo aquilo. Explicar o motivo, porém, era complicado. Mencionar Jinshi nisso seria arriscado. Por fim, ela disse: — Motivos religiosos.

Pareceu a melhor forma de evitar explicações.

Yao, no entanto, não desistiu.

— Tipo... representa algum deus dos apotecários ou algo assim?

— Não. É um amuleto, por assim dizer. Para me ajudar a crescer mais.

— Ah. Entendi.

Yao não precisava ficar mais alta, então um amuleto desses não tinha utilidade alguma para ela. Maomao se sentiu aliviada ao vê-la perder o interesse.

— Maomao...

Foi nesse instante que En’en entrou carregando o acompanhamento do jantar. Ela lançou a Maomao um olhar que dizia claramente: Por favor, não minta para a jovem senhora.

[Kessel: Muito fofas! Gosto demais da relação delas… aaaa!]


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