Volume 8
Capítulo 2: Um Passeio Pela Cidade
No dia seguinte, Maomao foi às compras com Yao e En’en. A pequena expedição as levou a um distrito comercial ao longo de uma avenida principal ao sul do dormitório. As lojas se alinhavam pela rua, com barracas ao ar livre ocupando os espaços entre elas. O lugar estava movimentado, cheio de vida e atividade.

— O que você está carregando aí, Maomao? — Yao perguntou, apontando para um pacote embrulhado em pano que ela carregava.
— Alguns dos livros de ontem — ela respondeu. — Achei que talvez pudesse vender alguns exemplares para a livraria.
Ela tinha trazido apenas três, sabendo que eles não se interessariam por uma grande pilha de cópias do mesmo título.
— Você vai vender eles? — En’en fez uma careta.
— Só estou tentando ter uma ideia do valor de mercado.
— Entendo. — Ela pareceu satisfeita com a resposta.
Yao observava o céu.
— Não sei se gosto do aspecto desse tempo — disse ela.
Maomao ergueu os olhos: o céu estava carregado de nuvens cinzentas e pesadas.
— Você tem razão. Estranho para o outono. Não pode ser um tufão nesta época do ano.
— Está um pouco frio sem o sol — disse Yao, que tinha um cachecol enrolado no pescoço. Isso ajudava a afastar o frio, sim, mas Maomao suspeitava que também servia para esconder a icterícia.
Eu sabia que isso estava incomodando ela. Ela renovou sua determinação de encontrar uma boa maquiagem para Yao.
— Gostaria de começar comprando essas coisas — disse En’en. Ela mostrou a Maomao uma lista que havia escrito. Consistia principalmente em frutas e verduras. — Esqueci de anotar algo? — perguntou ela.
Em resposta, Maomao olhou para Yao.
— Você gosta de arroz branco, não é, Yao?
— Gostar? Quer dizer, acho que sim. Não é simplesmente comida básica?
— Vou perguntar de outro jeito: você evita ativamente outros tipos de arroz?
Arroz branco era arroz polido. Tinha um sabor muito melhor que o arroz não polido, mas o processo de polimento removia muitos dos nutrientes que faziam do arroz um alimento valioso. O velho de Maomao havia lhe dito que comer arroz não polido em vez de polido ajudava a evitar o beribéri.
— Você está dizendo que eu tenho que comer arroz não polido? — perguntou Yao. A expressão em seu rosto deixava claro o que ela realmente achava da ideia.
— Não necessariamente, mas você deveria considerar misturar outras coisas ao arroz branco. Grãos, cevada ou talvez sementes de gergelim. Qualquer um deles daria a você uma variedade maior de nutrientes.
Se o arroz fosse continuar sendo seu alimento principal, seria melhor conseguir outros nutrientes junto com ele.
— Que tal colocarmos alguns grãos de trigo-sarraceno então, senhora? Eu sei que a senhora gosta deles — disse En’en.
Maomao imediatamente fez um grande X com os braços.
En’en pareceu preocupada.
— Nada de trigo-sarraceno?
— Infelizmente não. Porque eu não posso comer.
Trigo-sarraceno lhe causava urticária.
As outras duas mulheres encararam Maomao sem qualquer impressão.
O que eu deveria dizer? As refeições da En’en são deliciosas. E ultimamente ela frequentemente preparava comida suficiente para três pessoas.
— T-Talvez eu possa sugerir algas marinhas? — disse Maomao.
— Algas marinhas… — En’en repetiu, sem parecer muito animada.
— Certamente. E a carne pode ser substituída por feijões ou peixe. Não tudo, claro, apenas uma parte.
Comidas gordurosas supostamente faziam mal. Yao parecia cada vez mais abatida. Pessoas da idade dela gostavam de comer bastante; naturalmente ficaria desapontada ao ouvir que não deveria exagerar na carne. Também teria que limitar o consumo de sal e álcool. En’en também parecia preocupada.
Hmm, pensou Maomao. Dizem que você é o que você come: comida e remédio eram quase parentes próximos. Mas ainda precisava ser saborosa. Acho que sei o que fazer.
Maomao tinha um lugar favorito para momentos como aquele.
— Venham por aqui — disse ela.
— Por quê? O que tem ali? — perguntou Yao.
Maomao as conduziu para fora da avenida principal, cada vez mais para dentro dos becos, olhando para trás de vez em quando para garantir que ainda a seguiam. Logo havia tantas casas quanto lojas e, por fim, chegaram a um restaurante com uma placa manchada de fuligem. Não parecia exatamente um lugar especializado em alta gastronomia. Havia duas mesas apertadas dentro do restaurante e outra colocada do lado de fora. Em vez de cadeiras, as mesas eram cercadas por barris virados de cabeça para baixo.
— Vocês duas estão com fome? — perguntou Maomao.
— Ainda é um pouco cedo para o almoço — disse Yao, embora parecesse intrigada. Mas ela não pôde deixar de notar que o restaurante parecia deserto.
— É melhor vir um pouco mais cedo. Fica lotado na hora do almoço — disse Maomao. Ela espiou para dentro da loja, de onde saía vapor quente. — Tia? Está aberta?
— Claro que sim — respondeu uma voz lá de dentro. Uma mulher que devia ter mais de quarenta anos se aproximou arrastando os pés. — Ora, ora. A garota da farmácia. Não costumo ver você por aqui a esta hora.
— Esperávamos conseguir uma refeição antes que ficasse cheio.
A mulher era uma das clientes de Maomao; ela vinha até o distrito dos prazeres para comprar remédios. Era freguesa regular desde que o pai de Maomao a curou de uma doença da qual sofria muitos anos antes.
— Três porções, por favor. O que tiver à mão. De preferência algo que não seja frito.
— Já está saindo. Também não costumo ver você sem seu pai...
Ela olhou para Yao e En’en e abriu um sorriso.
— Menos conversa e mais comida. Por favor. — Maomao se sentou sobre um dos barris.
— Maomao, por que decidiu de repente nos levar para comer fora? — perguntou En’en. Tanto ela quanto Yao pareciam completamente confusas.
— Confiem em mim. Sentem-se — ela insistiu.
Elas se sentaram. Logo a mulher trouxe a comida: uma panela cheia de mingau de arroz e vários acompanhamentos. Maomao dividiu os acompanhamentos entre as três, entregando uma tigela para Yao e outra para En’en.
— Muito bem, se não se importam...
Yao, sempre uma jovem educada, fez um gesto de agradecimento e pegou a colher. Ela não parecia totalmente convencida; o restaurante não era exatamente o lugar mais limpo da região.
— Isto é mingau de batata? — perguntou En’en, provando uma colherada. Sementes de gergelim flutuavam no mingau, que também continha batata cozida. Na primeira colherada, seus olhos se arregalaram. — Isto é mingau de batata?! — A doçura deve tê-la surpreendido.
— Sim. É batata-doce — disse Maomao.
Os mesmos tubérculos que o pai biológico de Lahan cultivava. Vinham do sul e normalmente eram uma raridade, mas o restaurante daquela mulher conseguia obtê-los por meio da Casa Verdigris.
— Isto é absolutamente incrível — disse Yao, levando outra colherada à boca.
Maomao sorriu. Ela já sabia disso.
— Está vendo? Batata-doce com gergelim combina perfeitamente com sua dieta. Provavelmente você também poderia colocar um pouco de cevada ou aveia.
A pequena quantidade de sal no prato era perfeita para dar sabor, embora, se precisasse de algo a mais, algas marinhas picadas fossem uma boa adição.
— Experimente isto também — disse Maomao, passando para ela um pouco de tofu cozido e pegajoso.
— É realmente maravilhoso — disse En’en, quase com pesar. Como cozinheira confiante, talvez mexesse com seus sentimentos comer algo tão delicioso.
— O sabor é tão intenso, mas nunca fica exagerado.
— É isso que gengibre e alho fazem — disse a mulher de meia-idade. — E, em vez de temperos, usamos xiandan. — Ou seja, um ovo conservado em sal adicionado no momento em que normalmente seriam usados temperos. — Conseguimos essa consistência com raiz de kudzu. Ela aquece o corpo; é boa para quem pega friagem com facilidade. (A raiz de kudzu também era usada como medicamento.)
— Como você fez isto? — perguntou En’en, com os olhos brilhando enquanto apontava para um peixe grelhado.
— Ervas aromáticas e apenas um toque de manteiga para dar sabor. Eu sei que vocês disseram nada muito gorduroso, mas um toque não deve fazer mal.
Ela esfregou as laterais do corpo enquanto falava.
— Nossa anfitriã não pode comer comidas pesadas por causa de uma doença antiga — explicou Maomao às outras garotas. — Mas ela prova que ainda é possível preparar refeições maravilhosas sem muito sal ou gordura.
— Ora, Maomao, você vai me deixar sem graça. — A mulher voltou a sorrir. — Aqui, leite de vaca. Vocês podem beber um pouco se o cheiro dos condimentos incomodar.
— L-Leite de vaca? — disse Yao. Era algo regional; nem todos estavam acostumados com aquilo.
— Eu aqueci e coloquei um pouco de mel. Deve descer fácil. Quero causar uma boa impressão nas amigas da Maomao.
Ela fez questão de enfatizar a palavra “amigas”.
— Ah. Tá bom. Você não tem outros acompanhamentos para cuidar? — Maomao praticamente empurrou a mulher de volta para dentro do restaurante, em um tom que deixava claro que gostaria que ela parasse de se meter. Pelo visto, as pessoas consideravam Maomao alguém sem amigos. Quando ela contou às suas “irmãs mais velhas” da Casa Verdigris sobre as garotas da mesma idade com quem costumava sair no palácio interno, todas pareceram chocadas. Pairin chegou ao ponto de enxugar os cantos dos olhos com um lenço.
Não acredito nelas. Sinceramente. Claro que ela tinha amigas. Talvez a ênfase estivesse no “tinha”. Ela conseguia pensar em pelo menos duas, mas uma delas, ela não podia mais ver, e a outra... bem, Maomao esperava que estivesse se saindo bem. Onde Xiaolan acabou indo trabalhar? Ela se perguntou, lembrando-se da serva tagarela do palácio. Maomao sabia que ela havia conseguido trabalho em alguma mansão da capital, mas era tudo o que ela sabia. Ela recebeu algumas cartas, escritas com a caligrafia trêmula de Xiaolan, mas nenhuma delas continha o detalhe crucial de onde ela realmente morava. Maomao não poderia responder ela mesmo que quisesse.
[Kessel: Mesmo que a Xiaolan e a Shisui não estejam aparecendo, a Natsu sempre deixa um jeito de lembrar o quanto a relação dessas duas marcou a Maomao e ajudou a moldar a forma como ela se relaciona com outras pessoas no futuro. O amor não tem fronteiras e não mede distância, para sempre bffs!]
Ela pegou um pouco de um dos acompanhamentos, ainda encarando o vazio. Yao devorava o mingau com entusiasmo, aparentemente encantada com o sabor. En’en estava ocupada tentando deduzir exatamente como ele havia sido temperado.
— Gostaria de ir à loja de maquiagem depois da refeição? — perguntou Maomao. En’en havia sugerido comprar os ingredientes primeiro, mas então elas acabariam carregando as compras para todo lado. É verdade que os melhores produtos poderiam esgotar se demorassem, mas, por outro lado, o que sobrasse acabaria ficando mais barato. Maomao considerava isso uma troca justa.
— Estou surpresa que você saiba tanto sobre maquiagem, Maomao — disse Yao.
— Meu trabalho me expôs a muitas coisas diferentes — respondeu ela. Na farmácia, às vezes ela precisava misturar tintas e pó branco para clientes que tinham vergonha de alguma cicatriz, experiência que tinha sido muito útil para disfarçar Jinshi.
— A loja de maquiagem fica perto daqui? — perguntou En’en. Agora ela anotava uma receita em um pequeno conjunto portátil de escrita.
— Vamos precisar caminhar um pouco, mas não fica longe. E talvez possamos fazer um pequeno desvio na volta?
Maomao ergueu seu embrulho de livros de Go.
— Você ainda está determinada a vender esses livros? — En’en ainda parecia incapaz de acreditar nisso.
— Bem, certamente não pretendo ficar carregando eles para sempre — disse Maomao. Ela já havia tomado sua decisão.
Depois da refeição, as garotas voltaram para a avenida principal. As cortesãs mais famosas da capital usavam um pó branco tão bom quanto qualquer um encontrado na penteadeira de uma jovem nobre, e a loja que Maomao tinha em mente ocupava uma localização privilegiada no distrito comercial.
— Espetinhos! Deliciosos espetinhos! Quem vai querer?
Um homem com um punhado de espetinhos de frango tentava atrair clientes. A carne era assada sobre carvão, pingando sucos. O homem nem precisava anunciar seus produtos, o cheiro era mais do que suficiente para manter uma fila constante de clientes. Se não tivesse acabado de almoçar, Maomao estaria entre eles.
— É impressão minha ou o mercado parece um pouco diferente da última vez? — disse Yao. Ela olhou ao redor, confusa. A jovem senhora protegida estava realmente pegando o jeito das compras!
— Conforme as estações mudam, as lojas também mudam. E você talvez esteja notando todas as mercadorias importadas — disse Maomao. Havia tecidos coloridos, acessórios exóticos e…
— Excelente vinho de uva, vindo diretamente do oeste! Não encontrará em nenhum outro lugar! Venha provar! — Um comerciante servia um líquido vermelho de um barril. Maomao começou a caminhar em sua direção, mas En’en a segurou pela gola.
— Nem um copinho? — perguntou ela, olhando para En’en.
— Não quando a jovem senhora não pode beber. Você vai sobreviver.
— Eu realmente não me importo — disse Yao. Ela não podia consumir álcool agora, mas como nunca foi de beber, isso não era realmente um problema.
— Ficar bêbada não é a melhor forma de fazer compras — respondeu En’en.
Os ombros de Maomao caíram e elas voltaram a caminhar pela avenida principal. Outros clientes, aqueles que não tinham alguém para impedi-los antes de experimentar uma bebida, compravam garrafas quase imediatamente após provarem. Maomao normalmente preferia bebidas secas de qualidade, mas algo frutado também não era ruim de vez em quando.
Será que era mesmo importado? Talvez não viesse de outro país, apenas daquela direção geral. Por outro lado, a bebida que Maomao tinha provado na capital do oeste era excelente. Ela ficaria feliz em experimentar de novo, embora se preocupasse com a possibilidade do sabor ter mudado durante a longa viagem para o leste. Será que vou ter tempo de comprar um pouco na volta?
Elas passaram pela loja de vinhos, mas Maomao continuou olhando para trás com pesar.
A loja de cosméticos frequentada pela Casa Verdigris era menor que muitas de suas concorrentes, mas era mais do que encantadora o suficiente para fazer o coração de qualquer jovem disparar. Havia pinturas de belas mulheres expostas na frente, e fileiras de produtos de maquiagem podiam ser vistas no interior. Toda mulher que passava lançava um olhar para o local, claramente travando uma batalha interna sobre entrar ou não. A proprietária não gritava, chamava ou insistia. Estabelecimentos de elite como o dela não se rebaixavam a esse tipo de propaganda vulgar. Quem quisesse o que ela vendia iria até ela sem precisar de incentivo.
— Certo, só para eu saber: qual é o orçamento de vocês? — perguntou Maomao.
— Vamos pagar qualquer preço, desde que consigamos o melhor produto! — respondeu En’en, cerrando o punho para dar ênfase.
Duvido muito. Sei que você não pode pagar isso com seu salário… Maomao presumiu que En’en recebia o mesmo que ela, o que certamente colocava os cosméticos mais refinados fora de alcance. Talvez ela estivesse recebendo uma mesada daquele tio de Yao que ela tanto detestava?
— Bem-vindas, senhoritas — disse a proprietária, uma mulher de meia-idade cuja voz era tão refinada quanto sua aparência, e sua aparência era realmente refinada. Sua maquiagem era impecável, como convinha a alguém que vendia esse tipo de produto. A pele era pálida e a boca estava perfeitamente destacada com batom. Um simples prendedor sustentava seu cabelo, mas um olhar mais atento revelava que ele estava penteado com gel. As unhas também estavam impecavelmente pintadas, combinando com o tom de sua pele. Agora entendo por que a velha megera compra aqui. pensou Maomao. As mulheres do distrito dos prazeres precisavam estar sempre na vanguarda da moda, e, naturalmente, a madame que as administrava também.
A proprietária continuou sorrindo, mas não se aproximou delas. Estaria ali caso tivessem alguma dúvida.
— Que tal começarmos pelo pó facial? — sugeriu Yao, parando diante de uma prateleira repleta de pós brancos.
Havia uma variedade enorme deles, organizados pelos ingredientes. Iam do branco puro até versões que continham corantes ou pigmentos para combinar com diferentes tons de pele. Tudo estava cuidadosamente arrumado, mas uma das prateleiras estava vazia.
— Com licença, estes produtos esgotaram? — perguntou En’en.
— Ah, esses… — A proprietária se aproximou, com um aroma de perfume flutuando atrás dela. Era uma mulher de constituição delicada, e sua pele clara fazia parecer que poderia desaparecer a qualquer instante. — Os produtos que ficavam nessa prateleira foram proibidos quando se descobriu que continham um ingrediente tóxico. É uma pena; sempre vendiam muito bem. Eles tinham uma ótima adesão na pele.
Ah, eu me lembro muito bem disso, pensou Maomao. Então a proibição do pó clareador venenoso não tinha ficado restrita aos muros do palácio interno; aparentemente, havia entrado em vigor por toda a capital. Isso era louvável à sua maneira, mas devia ter sido um golpe duro para comerciantes como aquela mulher.
— Deve ter sido muito produto para descartar — observou En’en.
— Sim. Nós oferecemos uma variedade grande o suficiente para absorver a perda, mas dizem que alguns estabelecimentos ainda vendem o pó tóxico.
Nada difícil de entender. O produto cobria bem a pele, deixando quem o usava pálida e bonita. Um dos ingredientes principais era o mercúrio. Diferentemente dos cosméticos à base de plantas, ele não estragava e podia ser produzido em massa, tornando-o fácil de adquirir. Havia muitas cortesãs que continuaram usando ele apesar dos avisos de Luomen. Sempre existiriam tolos que não escutavam, assim como as damas do Pavilhão Cristal da concubina Lihua.
Bem, talvez "tolos" fosse uma palavra injusta. Algumas pessoas podiam valorizar algo mais do que a própria saúde ou até a própria vida. E quanto àqueles que vendiam a substância venenosa, eram tão diferentes assim? Sem dinheiro não podiam comer, e sem comer morreriam. Algumas pessoas não hesitariam em encurtar a vida dos outros para prolongar a própria. Talvez os comerciantes daquele pó tóxico não tivessem outra forma de ganhar a vida. Não que Maomao acreditasse que proibir a substância tivesse sido um erro, já que até sua produção poderia causar efeitos nocivos ao corpo.
E ainda tem isso aqui, pensou ela, pegando outro pó. — Isto é calomelano? — perguntou. Era outro pó branco que deixava seu pai visivelmente descontente. Ele também continha mercúrio, que às vezes era usado no tratamento da sífilis.
— Sim, é. Felizmente, ajudou bastante a compensar a queda nas vendas — respondeu a proprietária.
O calomelano provavelmente também deveria ser regulamentado, mas se começassem a dizer "isto é veneno, aquilo é veneno e aquilo outro também é veneno" e retirassem tudo do mercado de uma vez, poderiam acabar incentivando uma circulação ainda maior desses produtos problemáticos. Seria preciso escolher o momento certo para implementar novas regras.
— Maomao, qual você acha que seria melhor? — perguntou En’en. Ela e Yao tinham separado algumas opções, sabiamente evitando qualquer produto que utilizasse calomelano.
— Farinha de arroz e talco? — disse ela. Ambos pareciam conter outros ingredientes também, mas eles não estavam descritos em detalhes. — Posso experimentar?
— Claro — respondeu a proprietária, usando uma haste de algodão para aplicar um pouco na palma da mão de Maomao. Maomao verificou a textura e o cheiro. Ambos estavam bons. Muito bons, na verdade. Ela achou que aquele pó talvez fosse quase tão bom quanto o usado pela Imperatriz Gyokuyou.
— O que você acha? — perguntou En’en.
Maomao lançou um olhar para a proprietária. — Opiniões sinceras, boas ou ruins, nos ajudam a melhorar nossos produtos e nosso atendimento — disse a mulher. Então ela não apenas vendia produtos de qualidade, também era uma pessoa decente. Não era de admirar que conseguisse negociar com a madame.
— Acho que ambos parecem excelentes pós faciais — disse Maomao. — As partículas são finas e aderem bem à pele. Tenho uma pergunta sobre o pó de farinha de arroz.
— O que é isso? Se me permite perguntar.
— A farinha de arroz pode estragar. E considerando o tamanho do recipiente, imagino que, durante a estação das chuvas, ela começaria a mofar antes mesmo de chegar à metade. Presumo que haja algum ingrediente adicional usado como conservante, e isso me deixa um pouco inquieta por não saber qual é. — Sabendo que Yao usaria aquele pó, a segurança era a principal preocupação de Maomao. — O talco não estraga e não é tóxico. Acho que este seria o mais simples de usar.
O talco possuía propriedades diuréticas e anti-inflamatórias e era frequentemente usado como medicamento junto com fungos medicinais. Em todas as vezes que Maomao o utilizou, nunca soube de efeitos colaterais indesejáveis. Isso não significa que não existam, mas não vou saber até encontrá-los, pensou ela. A vigilância continuaria sendo sua regra até que tivesse certeza.
— Então vocês vão levar o de talco? — perguntou a proprietária.
— Não, senhora. Acho que ambos contêm ingredientes misturados. Minha preocupação é que, se houver algo prejudicial à saúde, isso anularia todo o propósito.
A proprietária franziu a testa discretamente diante do que talvez tivesse soado como excesso de exigência. Enquanto isso, En’en refletia sobre a questão; Yao, aparentemente decidida a deixar tudo nas mãos dela, observava alguns lápis para sobrancelha feitos de conchas espiraladas.
— Nesse caso, talvez isto sirva. — A proprietária foi até os fundos da loja e voltou com um recipiente de cerâmica. Tinha aproximadamente metade do tamanho do que estava exposto. — Nosso pó de arroz é feito exclusivamente com ingredientes vegetais. Na verdade, você poderia até comê-lo, se quisesse. Um tamanho como este seria mais adequado à quantidade que pretende usar? Ou, se preferir trazer seu próprio recipiente, terei prazer em enchê-lo para você. E, claro, oferecemos um desconto para quem traz seu próprio recipiente.
Essa mulher realmente sabe vender, pensou Maomao. Ela estava tentando conquistar clientes recorrentes atendendo diretamente às necessidades delas.
— A senhora recomendaria especificamente este pó? — perguntou Maomao.
— Certamente. Eu mesma o uso. Adere maravilhosamente bem à pele. É muito fácil de aplicar.
Uma olhada na pele da mulher mostrava que era, de fato, um produto excelente. Mesmo assim, alguma coisa ainda incomodava Maomao.

[Kessel: Que ilustração linda! A Touko mandou muito nessa…]
Yao voltou para perto delas e disse:
— Por que simplesmente não ficamos com o pó de farinha de arroz, En'en?
— Não é uma má ideia — respondeu En'en. — Eu poderia tentar fazer um pouco por conta própria, mas acho que nunca conseguiria deixá-lo tão fino. — Aparentemente, ela havia considerado fabricar seu próprio pó para garantir que fosse seguro, mas não havia substituto para um especialista. E Maomao presumiu que a proprietária não seria generosa a ponto de revelar os segredos da fabricação de seus produtos.
— Nesse caso, vamos levar...
Maomao foi interrompida por uma jovem que surgiu dos fundos da loja.
— Mãe! — disse ela.
— Estou atendendo uma cliente — respondeu a proprietária. Uma expressão de desagrado cruzou seu rosto. Ainda assim, a filha fez uma rápida e educada reverência para Maomao e as outras antes de começar a cochichar em seu ouvido. O que quer que estivesse acontecendo parecia urgente. À medida que a filha falava, a expressão da mulher mudava. Por fim, ela disse a Maomao: — Peço mil desculpas. Voltarei em um instante. Com licença. — Então deixou a filha cuidando da loja e seguiu para os fundos.
Algum problema? Maomao refletiu. Ela estava curiosa, mas não era da sua conta meter o nariz no que estava acontecendo. A filha da proprietária concluiu a venda e fez as contas. En'en pegou o troco e percebeu manchas brancas nas moedas.
— Ah, perdoe-me — disse a jovem, pegando de volta as moedas esbranquiçadas. Maomao notou que as pontas dos dedos dela estavam brancas, e o troco novo que tirou para entregar logo ficou manchado também. Até mesmo o embrulho da compra acabou marcado de branco. — Ah, não! Sinto muitíssimo!
— Está tudo bem — disse Yao.
— Estava verificando a mercadoria? — perguntou Maomao, lançando um olhar para os dedos da jovem. Três dedos da mão direita estavam esbranquiçados, como se ela tivesse pegado pequenas porções de pó repetidamente para verificar a textura.
— Estou impressionada por você ter percebido — disse ela.
— Deixe-me adivinhar: você descobriu algo estranho no pó e achou que valia a pena avisar imediatamente.
A jovem não respondeu, mas sua expressão deixava claro que Maomao havia acertado.
— Havia alguma coisa no pó que não deveria estar lá? — insistiu En'en. Elas haviam escolhido o melhor produto que conseguiram encontrar, mas se houvesse impurezas nele, de que adiantaria? — O que houve? — perguntou ela, se inclinando para mais perto da jovem.
— En'en — disse Yao, segurando-a.
A jovem estava à beira das lágrimas.
— Eu... Eu sinto muito. Conseguimos um novo fornecedor recentemente. Ele insiste que trouxe exatamente o que encomendamos, mas a textura não parece certa. Quando perguntei se tinha certeza de que não havia acrescentado mais nada, ele se irritou e disse que eu estava tentando escapar do acordo. Fiquei com medo, então vim avisar minha mãe...
Um comerciante desonesto? Ou um simples mal-entendido? Maomao se perguntou. O fornecedor certamente parecia suspeito, mas ela só tinha ouvido um lado da história. A proprietária ainda não tinha voltado. O que quer que estivessem discutindo nos fundos estava demorando bastante.
— Minha mãe não quer vender um produto se não souber exatamente o que há nele. O pó entregue hoje usa a mesma fórmula que sempre usamos, então deveríamos conseguir perceber qualquer problema pelo toque. Mas o homem que o trouxe diz que não temos prova nenhuma das acusações e se recusa a ir embora.
Humm. Maomao cruzou os braços. En'en estava claramente muito preocupada com a possibilidade de haver algo misturado ao pó branco, e Yao, abençoe sua sinceridade, parecia pronta para dar uma bronca em alguém. Maomao suspeitava que a textura exata da farinha de arroz poderia mudar dependendo de como e quando fosse usada, mas parecia haver questões sem resposta ali. Bem, agora não dá para simplesmente ir embora.
— Se me dão licença — disse ela, abrindo a porta dos fundos. Ela encontrou a proprietária e o fornecedor presos em uma disputa silenciosa de olhares. Entre eles havia um grande pote.
— Eu já disse! Segui exatamente a fórmula que você me deu! Diga logo o que acha que fiz de errado! — O comerciante, um homem que ainda não chegava à meia-idade, gritava tão alto que a saliva voava de sua boca, aberta o suficiente para que Maomao percebesse a ausência de vários dentes da frente.
A proprietária não recuou.
— Ah, eu sei muito bem o que você fez de errado. Tem alguma coisa nisso aí. Você acrescentou algo. Não tem a textura que deveria ter.
— Você não para de falar da textura, mas isso não prova nada! A textura da farinha de arroz muda com a umidade, e você sabe disso!
Eles estavam falando sem realmente responder um ao outro. Nada seria resolvido naquele ritmo.
— Com licença. Parece que esta discussão não está chegando a lugar nenhum — disse Maomao.
— Ah! Receio que a senhorita realmente não devesse estar aqui atrás — disse a proprietária ao notar a presença de Maomao, lançando-lhe um olhar de reprovação. Seu tom continuava educado, mas seus olhos estavam severos.
— Sinto muito, minha jovem, mas como pode ver, estamos no meio de uma negociação comercial. Talvez pudesse esperar do lado de fora até terminarmos — acrescentou o comerciante, igualmente educado, mas inflexível.
Maomao ignorou os dois e espiou dentro do pote. Ele estava cheio até a borda de pó branco. Havia uma colher dentro, então ela pegou um pouco da mercadoria.
— O que pensa que está fazendo?! — exclamou o comerciante.
Maomao mergulhou um dedo no pó.
— É farinha de arroz, sem dúvida. É este o mesmo produto que minhas companheiras e eu estávamos prestes a comprar?
— Não exatamente — respondeu a proprietária. — O preço da farinha de arroz disparou recentemente, entende? Pedimos a outro fornecedor que produzisse algo usando a mesma fórmula...
Ela parecia relutante em concluir qualquer frase.
Um aumento no preço da farinha de arroz? Era justamente a época em que o arroz novo costumava estar disponível em abundância. Será que a colheita tinha sido pior do que o normal?
Pela textura, ela podia dizer que aquilo era realmente pó de arroz. Era macio e tinha quase a mesma cor do produto que elas estavam prestes a comprar. Ainda assim, ela também concordava que parecia um pouco diferente sob os dedos em comparação ao pó que havia examinado antes.
— A senhorita consegue perceber, não consegue? Diga a ela que meu produto não foi adulterado! Essa mula teimosa só está tentando me forçar a baixar o preço!
— Mula teimosa? Eu me orgulho de oferecer aos meus clientes apenas os produtos mais seguros! Cada detalhe importa quando algo vai ser aplicado na pele de uma pessoa.
Maomao conseguia entender os dois lados. O comerciante tinha razão ao dizer que a consistência da farinha de arroz podia mudar com o clima, e o tempo não estava nada bom naquele dia. Talvez simplesmente houvesse mais umidade do que o normal.
— Receio não poder comprar isto se não soubermos com certeza qual de vocês está dizendo a verdade — interveio En'en. Ela era inflexível quando se tratava de produtos que Yao usaria.
— Então que tal fazermos um pequeno teste? — sugeriu Maomao.
— Um teste? — perguntaram os outros em uníssono.
— Vocês nos disseram que esta farinha de arroz é feita inteiramente de ingredientes vegetais, todos seguros para consumo humano. Nesse caso...
Ela pretendia experimentar.
— Você vai comer isso? O pó? — perguntou o comerciante.
— Vai causar dor de estômago se comer puro. Talvez possamos dissolvê-lo em água e fazer um pão achatado de baobing — sugeriu a proprietária.
— E-Espere! Você acha mesmo que vai conseguir perceber alguma coisa? — disse Yao.
— Tenho muita confiança na minha língua — respondeu Maomao. Ela não tinha passado todo aquele tempo provando comida à toa. Então se voltou para a proprietária e para o comerciante. — Só para garantir: não tem trigo-sarraceno nisso, certo?
— Milho, sim, mas nenhum tipo de trigo — respondeu o comerciante.
Sem problemas então. O milho explicava o leve tom amarelado do pó.
— Vou precisar de uma tigela, água, uma panela e fogo.
— Ah... Nossa casa fica logo atrás da loja. Pode usar o fogão de lá — disse a filha da proprietária. Ela provavelmente estava preocupada com a possibilidade de uma explosão caso acendessem fogo em um ambiente cheio de pó branco.
— Muito bem. E, por fim, vocês têm algumas verduras e um pouco de frango?
— Concentre-se. Por favor — disse En'en dando um leve tapa na parte de trás da cabeça de Maomao. Ela só queria deixar o pão mais saboroso possível. Maomao pegou o pote e seguiu para a residência.
O pão achatado ficou saboroso (embora não tanto quanto ficaria com algumas verduras e carne).
— Em um mundo ideal, acho que um pouco mais de milho teria sido bom. E algumas cebolinhas-brancas e carne de cordeiro para completar.
— Maomao, a gente deveria estar falando sobre o pó — En'en havia cortado o pão em pedaços e o examinava visualmente. Ela parecia estar pensando que ele poderia render um bom jantar. — Se a Maomao diz que está tudo bem, jovem senhora, então acho que o pó branco em si não deve ser um problema — disse ela.
— Ah... Acho que todos estão ficando bastante impacientes — comentou Yao, preocupada.
— Está vendo? Foi exatamente o que eu disse. Você continua insistindo que acrescentei alguma coisa, mas segui sua fórmula à risca. Não há nada de errado com meu produto!
O comerciante bateu sobre a mesa um pergaminho de madeira contendo a lista de ingredientes.
A proprietária e sua filha pareciam querer responder, mas não tinham nada a dizer. Ainda não estavam preparadas para admitir que estavam erradas.
— Gostaria de experimentar? Não tem um gosto ruim — disse Maomao.
— Mas... — começou a proprietária.
— Mas a textura parecia diferente para você, não era? — Maomao pegou a mão da mulher. Os dedos estavam cobertos de pó branco; havia até resíduos sobre o esmalte vermelho de suas unhas. Ela já estava intrigada com aquelas unhas. — E se você pensar por outro lado?
— O que você quer dizer?
Maomao passou a ponta de um dedo sobre uma das unhas da mulher, deixando uma faixa branca.
— E se fosse o seu fornecedor anterior quem estivesse adulterando o produto esse tempo todo?
A mulher ficou quase tão pálida quanto o próprio pó.
Quando uma pessoa entrava em contato com certos venenos, como arsênico ou chumbo, isso frequentemente aparecia nas unhas.
— Você mesma disse que algumas lojas continuam vendendo o pó clareador proibido. Poderia muito bem haver comerciantes que continuaram fornecendo ele sem avisar ninguém. Suponha, por exemplo, que eles tivessem um pó branco de qualidade duvidosa e acrescentassem alguma coisa para estabilizá-lo.
Os sintomas do veneno seriam reduzidos pela quantidade dos outros ingredientes na mistura. Mas alguém que usasse o pó todos os dias, como a proprietária, acabaria apresentando sinais.
— A senhora teve perda de apetite? Má digestão? Tremores nos dedos? — perguntou Maomao. Ela se perguntou como seria o verdadeiro tom da pele daquela mulher sob toda aquela maquiagem.
A expressão da proprietária já era resposta suficiente.
— Então isso significa que... — En'en olhou para o pote de pó que haviam comprado.
Maomao o pegou e abriu a tampa.
— Que tal fazermos outro pão achatado? Com este pó?
Ela estava muito curiosa para ver o resultado.
[Noelle: Maomao doida para provar veneno kkkkk]
Já estava escuro quando deixaram a loja. As nuvens pesadas finalmente se abriram e o chão estava encharcado.
— Droga! Vamos ficar todas molhadas! — disse Yao.
— Eu imaginei que isso pudesse acontecer — respondeu En'en, tirando algumas sombrinhas que Maomao nem sabia que ela tinha.
— Você trouxe sombrinhas? — perguntou ela.
En'en apontou para a placa da loja que acabavam de sair.
— Parecia que ia chover, então pedi à filha da proprietária que comprasse algumas para nós. Não acho que seja pedir demais depois de todo o transtorno que tivemos, não é?
— Quando foi que você... Quero dizer... pedir demais?
Era verdade que a loja havia vendido um produto prejudicial, intencionalmente ou não. Quando dissolveram aquele pó em água e fizeram outro pão com ele, os resultados foram inegavelmente diferentes dos da primeira vez.
— Acho que você já pediu bastante coisa — disse Yao. En'en carregava parte do novo pó seguro, e a proprietária ainda tinha incluído um perfume que supostamente fazia bem para a pele. O óleo aromático era seguro para consumo, mas não aderia muito bem à pele, então podia ser misturado ao pó para formar uma maquiagem líquida.
— De jeito nenhum — respondeu En'en. — Eu não saberia o que fazer se minha senhora adoecesse.
— Acho que você deveria estar dizendo isso para a Maomao. Diga para ela parar de colocar coisas horríveis na boca. — Yao olhava para Maomao como se ainda não conseguisse acreditar no que havia acontecido. Maomao tinha feito todo o possível para comer o pão achatado feito com o pó venenoso, mas Yao havia imobilizado seus braços para impedi-la.
— Eu teria cuspido imediatamente. Teria ficado tudo bem. Eu só queria saber qual era o gosto.
— Eu não entendo o que você vê nessas coisas — suspirou Yao.
— Vamos terminar as compras antes que a chuva realmente comece a cair, senhora. Já perdemos bastante tempo — disse En'en. Ela abriu uma sombrinha e conduziu Yao para baixo dela. Depois estendeu a outra para Maomao. Naturalmente, tinha sido En'en quem pediu apenas duas sombrinhas. Afinal, duas pessoas podiam caber sob a mesma sombrinha... caso se apertassem um pouco.
[Kessel: hehehehe. Esperta…]
— Se ainda houver alguém vendendo ingredientes a esta hora, tenho certeza de que estarão perto da torre do sino — disse En'en. — Acho que o mercado ainda deve estar funcionando por lá.
A torre do sino ficava no centro da capital e marcava as horas. Era uma área muito movimentada, por isso as lojas dali permaneciam abertas até tarde.
— Devemos ouvir o sino do entardecer a qualquer mome… — Maomao foi interrompida por um clarão ofuscante acompanhado pelo estrondo do sino.
— Ai! O-O que foi isso?! — exclamou Yao, olhando em volta, atônita. No mesmo instante, um ruído ensurdecedor veio logo após o toque do sino. Yao quase saltou da própria pele e se agarrou a En'en. Sua boca abria e fechava, mas nenhum som saía. En'en envolveu Yao num abraço protetor, e nem um pouco descontente.
— Trovão — disse Maomao. — E foi um bem forte.
— Está tudo bem, senhora? — perguntou En'en.
— E-Estou! Estou bem! — respondeu Yao, embora seu rosto estivesse pálido demais.
— Um trovão tão forte significa que logo vai cair um temporal. Vamos terminar as compras depressa? — sugeriu En'en.
— S-Sim, vamos. — Yao tentava parecer destemida, mas não parava de lançar olhares discretos para o céu. En'en observava aquilo com carinho e permaneceu ao seu lado. Sem dúvida estava preocupada com Yao, mas também se divertia com aquela demonstração de medo. Ela tinha um lado meio distorcido. Mas Maomao já sabia disso.
Parece que não vou conseguir vender isso hoje, pensou Maomao, olhando para os livros de Go embrulhados no pano. Então ela apressou o passo atrás das outras duas.
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