Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 7

Epílogo

As cigarras tinham se calado, substituídas pelos grilos. Talvez estejam fazendo sumô de grilos pela cidade, pensou Maomao. Era um entretenimento simples em que os insetos eram colocados para lutar entre si. Assim como nas rinhas de galo, apostas eram comuns. Mas naquele momento, Maomao estava em um quarto de uma casa nos arredores da capital, um pouco afastada da agitação do centro da cidade. Ela observava Yao, deitada em uma cama. Aquela era a casa dela.

— Eu realmente gostaria de voltar ao trabalho o quanto antes — disse Yao, olhando pela janela. Ela usava roupas de dormir. Já fazia mais de duas semanas desde o envenenamento. Durante um tempo, ela entrou e saiu da consciência, mas agora parecia ter se recuperado.

— Tenho certeza de que isso deixaria En’en muito feliz — respondeu Maomao.

En’en estava trabalhando naquele momento, não mais para Jinshi; ela havia retornado ao consultório médico. Mas Maomao suspeitava que ela ainda não conseguia se concentrar muito bem. Oficialmente, tinha sido dispensada do serviço de Jinshi por negligenciar suas funções. Passou todo o tempo ao lado de Yao, mas Maomao entendeu que Yao finalmente a expulsou dali.

— Eu realmente achei que conseguiria viver sem ela — disse Yao, mais para si mesma do que para Maomao.

— Acho que ninguém poderia ter evitado o que aconteceu — respondeu Maomao.

— Nem mesmo você, Maomao?

Ela ficou em silêncio diante da pergunta. Ela tinha o hábito de colocar na boca qualquer objeto venenoso que parecesse interessante e, sim, já tinha experimentado Amanita virosa antes, embora tivesse vomitado antes que o fungo fosse absorvido pelo sistema digestivo. (Aliás, ela fez o mesmo depois de provar o mingau de cogumelos nos aposentos da sacerdotisa, enfiando devidamente o dedo na garganta antes de digerir o que comeu. Ainda assim, devia ter restado um pouco, porque teve uma leve crise de vômito mais tarde.)

A velha surtou comigo naquela vez. A madame tinha sido impiedosa, usando toda sua experiência em ajudar cortesãs com abortos. Maomao achou que colocaria o próprio estômago para fora. Então, sim, ela conhecia muito bem o sabor e as propriedades culinárias dos cogumelos. Talvez até tivesse percebido o fungo venenoso, se ele não estivesse picado tão fininho.

— Acho que eu realmente ainda não sei o que estou fazendo — disse Yao, afastando a franja do rosto. Ela perdeu muito peso por causa do veneno, mas seu peito continuava bem volumoso.

Maomao lhe entregou um pouco do chá medicinal que o velho tinha preparado. Agora que Yao estava fora de perigo, era tratada em sua própria casa, mas Maomao observava aquela residência com certa surpresa. Era uma casa lindíssima, sem dúvida, mas parecia solitária de alguma forma. Até os criados que vieram recebê-la pareciam poucos demais para uma mansão daquele tamanho.

— Sinto muito por não poder oferecer uma hospitalidade melhor — disse Yao.

Provavelmente era aí que Maomao deveria dizer algo como “Imagina, de jeito nenhum”, mas ela nunca foi boa em formalidades sociais.

— Esta costumava ser nossa segunda residência — continuou Yao. — Mas meu tio tomou a casa principal de nós.

— Entendo — respondeu Maomao. Então era por isso que ela morava em um lugar tão afastado. Maomao já sabia que Yao vinha de uma boa família, mas agora achava que finalmente entendia por que a jovem era tão ambiciosa, tão determinada a se tornar assistente médica.

— Tentei dar um empurrão em En’en, mas ela voltou. Acho que ela nunca conseguirá ir longe na vida servindo a mim.

O pai de Yao estava morto e, embora ela tivesse uma herança, o tio era o sucessor do chefe da família. Em Li, esperava-se que mulheres obedecessem aos homens. Agora que ele comandava a casa, o futuro de Yao estava em suas mãos. Se ele arranjasse um casamento para ela, ela seria obrigada a aceitar.

Isso explica por que ela está tão desesperada para aprender uma profissão. Era uma forma da jovem obstinada resistir ao destino.

— Uma pena En’en ter desperdiçado a oportunidade. Pelo que ouvi, o Príncipe da Lua gostava bastante dela.

— Sim, parece que sim.

Maomao achava que entendia ao menos um pouco do que Jinshi apreciava em En’en. Ele podia ser uma pessoa estranha em vários sentidos (embora Maomao não fosse a mais indicada para falar disso), e parecia se sentir mais confortável com pessoas que mantinham exatamente a distância necessária, sem bajulação nem envolvimento excessivo. Maomao estava um pouco preocupada com o que Jinshi poderia decidir fazer dali em diante, mas achava que estavam seguras por enquanto.

— Eu tinha tanta certeza de que En’en faria um excelente trabalho em qualquer lugar — disse Yao.

— Pode-se dizer que o verdadeiro valor dela só aparece quando está com você, Yao — respondeu Maomao. Na verdade, às vezes aparecia até demais. Podia ser assustador. Especialmente quando o assunto era o peito de Yao, não dava para negar que En’en forneceu todos os nutrientes necessários em cada etapa.

Eu definitivamente preciso de uma lista do que ela anda dando para Yao comer, pensou Maomao. Ela começou a flexionar os dedos inconscientemente.

— Sim... Foi exatamente por isso que tentei lhe dar uma chance de se afastar. Mas agora vejo que é inútil. Não só por minha causa, se En’en realmente precisa tanto assim de mim, quem sou eu para rejeitá-la?

Maomao suspeitava que esses momentos sentimentais eram uma das coisas que atraíam En’en para Yao. Ela gostaria bastante de descobrir como En’en reagiria se Yao algum dia se casasse.

— Inútil — repetiu Yao, com carinho. Então ela olhou para Maomao. — E acho que você esteve fazendo algumas coisas das quais não nos contou.

— O que exatamente quer dizer com isso? — perguntou Maomao. Ela realmente se sentia culpada tentando fingir ignorância. Era verdade que Yao tinha sobrevivido ao envenenamento, mas Maomao permitiu deliberadamente que a criminosa responsável continuasse viva. Enquanto isso, publicamente, acreditavam que Yao havia fracassado como provadora de veneno e sido indiretamente responsável pela morte de uma pessoa extremamente importante, uma mancha em sua reputação com a qual teria de conviver.

E ela não ganha nada com isso.

— Estão me tratando bem demais — disse Yao. — Eu falhei, estraguei tudo, e mesmo assim estão sendo gentis comigo, permitindo que eu continue trabalhando. Não sou tão infantil a ponto de achar que o mundo é tão bondoso assim.

Maomao prendeu a respiração.

— Não, você não precisa dizer nada. Finja que estou falando sozinha. Pode apenas tomar seu chá e olhar para o nada. Ela continuou, as palavras fluindo facilmente. — Eu realmente acredito que as pessoas ao meu redor são bondosas o bastante para não simplesmente se livrarem de mim, mas isso também mostra que elas não me consideram do mesmo nível. Sei que talvez não seja prudente dizer isso em voz alta, e talvez o simples fato de eu estar dizendo prove que ainda tenho muito a amadurecer, mas preciso tirar isso do peito. Sim... Mesmo que eu esteja apenas falando comigo mesma. 

Em outras palavras, ela entendia, ainda que vagamente, que o caso não terminou da forma como o público acreditava. Sem dúvida Yao não era a única desconfiada, mas fingir que nada aconteceu era a atitude mais inteligente, então todos mantinham a boca fechada.

— Mas se En’en descobrisse, não faço ideia do que ela poderia fazer. Eu consigo aceitar, mas ela talvez não me escute. Então espero apenas que tenha cuidado para que ela jamais descubra a verdade. — En’en realmente poderia questionar o que aconteceu com a sacerdotisa. Se algum dia descobrisse quem foi a verdadeira responsável pelo envenenamento, e que ela ainda estava viva, talvez resolvesse se vingar no lugar de Yao. — Eu odiaria que En’en fizesse algo impulsivo, algo que pudesse impedi-la de encontrar um lugar melhor no mundo. Só isso.

Viu? Sentimental.

As pessoas acima delas decidiram que o caso estava encerrado, então, na mente de Maomao, aquilo tinha acabado. Ela não queria remexer na situação.

— Receio que minha audição não seja muito boa, então não ouvi a maior parte do que você estava dizendo. Certo?

— Nossa, deve ser difícil ter uma audição tão ruim assim — respondeu Yao, em um tom levemente provocador. Ela informou a Maomao que retornaria ao trabalho em poucos dias.

Maomao deixou a mansão. Como estava de folga, não havia carruagem esperando por ela. O caminho até sua casa era um pouco longo, mas ela conseguiria chegar. Crianças corriam pelas ruas carregando pequenas gaiolas com insetos dentro. A atmosfera de festival tinha diminuído, substituída por uma preguiça confortável. Para os moradores da cidade, a morte da sacerdotisa estrangeira não passava de uma preocupação passageira. Os últimos resquícios da energia do festival logo seriam engolidos novamente pelo ritmo cotidiano da vida.

Maomao inspirou o ar. Estava ficando frio. Então seguiu caminho para casa.


Kessel: Que volume maravilhoso! Um dos meus preferidos até agora, quanto suspense, quantas reviravoltas, quanta evolução da Maomao e dos personagens ao seu redor. Muito contente de conhecer a En’en a Lady Yao, são personagens magníficas. Elas se mostraram excelentes companheiras da Maomao e espero que a amizade delas floresça tanto quanto a amizade da Maomao com a Xiaolan e a Loulan/Shisui no passado. Tivemos também momentos interessantes de JinMao, uma promessa de casamento… as preocupações da nossa gatinha favorita ditas em voz alta e agora ciente delas, teremos o Jinshi planejando como remover essas barreiras no futuro. Apotecários(as), que fascinante. O oitavo volume vai ser incrível! Obrigado por estarem conosco nessa jornada, e espero que tenham aproveitado o início da jornada oficial da Maomao na medicina. E também o livro de culinária, que saiu no meio disso tudo! Se ainda não leram as histórias extras, leiam! Vale a pena! Cuidado com spoilers caso não queiram, mas existem algumas histórias que aconteceram no passado e portanto, podem ser lidas.

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