Volume 7
Capítulo 22: A Futura Sacerdotisa
Os ossos bateram uns nos outros ao serem colocados dentro do jarro de cerâmica. Cabiam apenas alguns fragmentos, mal o suficiente para encher as duas palmas das mãos.
Os cabelos brancos como um adorno de seda estavam presos para trás por uma faixa azul trançada.
A garota sem nome cujos ossos agora estavam dentro do jarro certamente jamais sonhou que seria venerada em um país distante. Nunca imaginaria multidões acompanhando a partida de seus restos mortais, nem conseguiria conceber as canções de paz e descanso entoadas para seu repouso enquanto seus ossos seguiam viagem.
Ao deixar o local, Maomao tocou a faixa preta que usava, símbolo de luto, mas nada além disso.
Depois de tudo o que aconteceu, a sacerdotisa morreu conforme o planejado. Não apenas Maomao, mas até mesmo seu pai esteve presente para examinar o corpo. Se fosse qualquer outro médico, Maomao pretendia fazer a sacerdotisa tomar a droga que fazia uma pessoa parecer realmente morta por um breve período.
Mas o seu velho jamais seria enganado. Ela se sentia mal por ter ameaçado a sacerdotisa, mas também sabia que seu pai era extremamente sensível quando o assunto era salvar vidas. Ela o transformou em algo parecido com um cúmplice.
Quanto à verdadeira sacerdotisa…
— Este lugar lhe parece aceitável, sacerdotisa? — perguntou Jinshi.
Ele não sabia ao certo como chamá-la agora que ela não ocupava mais o cargo, mas decidiu continuar usando seu antigo título. Como já não possuía sua posição sagrada, homens como Jinshi agora podiam se aproximar dela.
Eles estavam em um quarto cercado por várias camadas de cortinas, preparado especialmente para protegê-la da luz do sol.
— Sim, é bastante tranquilo — respondeu ela.
— Fico feliz em ouvir isso. Terei prazer em trocar qualquer mobília, caso não atenda às suas necessidades — disse uma bela pessoa vestida com roupas masculinas atrás de Jinshi: Ah-Duo.
A vila dela estava rapidamente se tornando um refúgio para pessoas como a sacerdotisa, incapazes de aparecer em público. O Imperador ainda visitava Ah-Duo de vez em quando, pois, embora ela já não fosse uma concubina, era muito mais perspicaz e ponderada do que os burocratas atrapalhados comuns. Por outro lado, talvez Sua Majestade apenas quisesse uma amiga com quem pudesse dividir uma bebida.
Havia todos os motivos para manter a sacerdotisa em um lugar assim. Ela não desejava abandonar seu cargo enquanto ainda estivesse dentro das fronteiras de Shaoh. Em vez disso, viajou ao exterior para morrer e deixar seu corpo desaparecer. Pedir asilo político estava fora de questão para ela; sua autoridade como sacerdotisa despencaria. Talvez tivesse buscado a morte por acreditar que não havia mais nada que pudesse fazer em sua posição.
Mas isso não é verdade.
Será que ela percebia o quão valiosa poderia ser continuando no topo de sua hierarquia, mesmo ali, em um país estrangeiro? Mesmo depois de ter saído oficialmente de cena? Tudo o que sabia, todas as informações que reuniu ao longo de décadas, eram recursos preciosíssimos. Talvez sentisse que estava traindo a terra onde viveu por tantos anos, mas não estava em posição de dizer isso naquele momento.
— Honrará os termos do nosso acordo? — perguntou Jinshi, educado, mas firme.
— Claro. Afinal, vocês não têm duas reféns contra mim? — respondeu a sacerdotisa. Ela falava da Dama Branca e de Aylin, ambas presas como criminosas. Considerando o que fizeram, seria perfeitamente normal que fossem decapitadas a qualquer momento. — Ainda assim, peço o apoio de vocês a Shaoh.
Uma exigência ousada.
— Se o que compartilhar conosco fizer valer a pena — respondeu Jinshi com seu sorriso mais radiante. Talvez aquilo não funcionasse com a sacerdotisa, alguém que parecia transcender gênero, mas mesmo assim o sorriso parecia ofuscante até naquele quarto escuro.
Na política, não existiam certo e errado, apenas resultados bons ou ruins. Situações como aquela estavam longe de ser incomuns.
Maomao começou a seguir Jinshi para fora do quarto, mas se virou quando a sacerdotisa disse: — Ah, poderia me conceder um momento? — Ela segurava algo parecido com um pergaminho. — Tome isto. — Ela não entregou o objeto a Jinshi, mas a Maomao, que o abriu curiosa. Era um simples rolo formado por várias folhas de pergaminho de couro, cada uma coberta por desenhos rudimentares.
— Rabiscos de criança? — perguntou Maomao antes que pudesse se impedir.
— Sim — respondeu a sacerdotisa. Maomao tentou lembrar se havia alguma criança por perto, e arregalou os olhos ao recordar. Havia. Uma. A garota muda que estava com a assistente naquele dia. Jazgul ou algo assim. Maomao se lembrou do quanto ela e suas amigas tinham se esforçado para encontrar o responsável pela criança. Mas não a vi em lugar nenhum na vila...
Maomao observou os desenhos de Jazgul, tentando entender qual era seu significado. — Hã? — Uma das imagens, desenhada com tintas, mostrava duas pessoas usando roupas brancas. Jovens mulheres, pensou Maomao. Uma delas tinha bandagens enroladas no braço. — Isso é... eu? — perguntou.
— Sim, você.
Se Jazgul tinha desenhado ela e Yao, Maomao achava que era obrigada a aceitar o presente. Ainda assim, aquilo era estranho, quando encontraram Jazgul, En’en estava com elas. E nenhuma delas usava os uniformes de assistentes médicas. Enquanto tentava entender aquele mistério, Maomao percebeu alguns números no verso do pergaminho. Provavelmente uma data, mas escrita em algarismos que ela não reconhecia.
— Então... o que é isso? — perguntou ela.
— Jazgul desenhou isso antes de deixarmos Shaoh.
— Antes de partirem? — Mas aquilo não fazia sentido. Teria sido muito antes dela conhecer Maomao e as outras. A sacerdotisa estava fazendo algum tipo de piada?
Pela primeira vez, a sacerdotisa parecia estar se divertindo.
— Eu não disse que, quando eu partisse, haveria outra sacerdotisa? Naquele dia, o dia em que ela se perdeu, Jazgul estava estranhamente insistente. Fez questão de sair. Para encontrar você, tenho certeza.
— E-Eu duvido muito disso.
Maomao só acreditava em coisas para as quais existiam provas concretas. A sacerdotisa devia estar brincando; ela tinha certeza disso. Ela enrolou novamente o primeiro pergaminho. A segunda folha retratava uma figura brilhante que parecia a sacerdotisa, junto de uma figura esguia e outro desenho rabiscado de Maomao. Exatamente as pessoas presentes naquele quarto naquele momento.
Maomao não disse nada, apenas encarou o pergaminho.
— Há mais um. Observe-o com atenção quando tiver tempo — aconselhou a sacerdotisa.
Maomao permaneceu parada, quase atordoada; não sabia o que dizer.
A sacerdotisa continuou: — Quero que saiba que eu também possuí isso, uma vez. As sacerdotisas de Shaoh carecem de algo, mas, em troca, possuem outra coisa. Eu não tenho cor na pele, e Jazgul não tem voz. Embora eu tema que minhas habilidades tenham desaparecido no momento em que descobri a verdade sobre quem eu era. — A sacerdotisa claramente aprendia rápido, pois já falava o idioma local com muito mais fluidez durante sua breve estadia.
Maomao ainda estava imóvel, perplexa, quando Jinshi voltou ao quarto.
— Por que está demorando? Vamos — disse ele.
— C-Certo... Claro — respondeu Maomao, seguindo-o. Jinshi lançou um olhar curioso para ela, mas continuou andando. Ele provavelmente não ouviu o que a sacerdotisa tinha dito.
A sacerdotisa... Quem é ela, afinal?, Maomao se perguntou. Deve haver alguma explicação lógica, mas, se existia, Maomao não sabia qual era. Ela continuou pensando nisso enquanto subia na carruagem. Talvez os desenhos fossem uma coincidência; talvez a sacerdotisa estivesse apenas forçando interpretações para encaixá-los na situação.
Sentada na carruagem, Maomao abriu a última folha de pergaminho, mas ela era tão desconcertante quanto as outras.
— O que isso deveria ser? — perguntou Jinshi.
— Sei lá — respondeu ela.
O “desenho” consistia apenas em uma linha atravessando a página, enquanto o espaço acima dela estava completamente riscado de preto.
[Kessel: Vou comentar que não sei o que comentar. Que intrigante! A Maomao é a nova sacerdotisa?! A nova oráculo?! Ou nada disso?!]
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